Quando falamos na necessidade de reforma das instituições internacionais não podemos nos esquecer que mesmo em áreas tão aparentemente triviais quanto o esporte, o Ocidente dá as cartas.
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A Copa do Mundo de 2026, sediada simultaneamente nos EUA, México e Canadá, mal começou e já está envolta em inúmeras polêmicas – todas elas provocadas pelos EUA.
A principal polêmica envolve o Irã. O país está em guerra com os EUA – guerra esta iniciada pelos EUA e Israel. E apesar de um frágil cessar-fogo, as escaramuças com mísseis e drones tornaram-se praticamente diárias na última semana. Os EUA não se saíram tão bem nesta guerra como esperavam, porém, e, talvez por isso, vemos o país engajado em atos bastante mesquinhos de revanche, aproveitando-se do fato de ser sede da Copa do Mundo, numa série de comportamentos evidentemente motivados pelo ressentimento.
Já há mais de um mês, Donald Trump declarou que não garantia a segurança da seleção iraniana no território dos EUA, o que levou o país a tentar negociar uma modificação nos locais em que seriam realizados os seus jogos. Não tendo sido isso possível – e a FIFA não deu nenhuma ajuda ao Irã nesse tema – resolveu-se que o Irã treinaria e se hospedaria no México, e que em seus jogos nos EUA a seleção viajaria para a cidade em questão, jogaria e imediatamente voltaria para o México, o que obviamente prejudicará o desempenho dos atletas, especialmente o seu repouso entre os jogos.
Para piorar, os EUA além de concederem vistos faltando apenas alguns dias para a Copa, negaram a dar visto para vários membros da equipe técnica e da federação de futebol do Irã. A atitude é, evidentemente, discriminatória, já que nenhuma outra seleção teve que passar pelo mesmo tipo de situação.
Ademais, não duvidamos da possibilidade de que, com a conivência dos EUA, protestos provocatórios sejam organizados tanto por organizações e pessoas ligadas ao lóbi sionista, quanto por elementos ligados à comunidade de expatriados iranianos, muitos dos quais possuem vínculos com o regime iraniano anterior à Revolução Islâmica de 1979.
Não são apenas os iranianos que estão sofrendo abusos nessa Copa do Mundo. Um dos principais árbitros africanos, o somali Omar Abdulkadir Artan, teve sua entrada negada nos EUA, apesar dele estar com visto, passaporte diplomático e documentação da FIFA. O atacante iraquiano Aymen Hussein foi interrogado por 7 horas após a chegada em Chicago, enquanto o fotógrafo oficial da equipe foi interrogado por 10 horas e deportado. Jogadores do Uzbequistão, Bélgica e Senegal também passaram por revistas extremamente detalhadas em sua chegada nos EUA.
Lançando foco sobre essa questão da participação do Irã na Copa do Mundo 2026 e sobre a postura dos EUA e o papel da FIFA, como é possível que os EUA possam não só participar de uma Copa do Mundo, mas sediá-la, enquanto conduzem uma guerra, iniciada por eles, contra outro país participante da Copa (e que, diferentemente dos EUA, conquistaram a participação por mérito)? Ainda mais levando em consideração que os EUA abriram a guerra massacrando crianças numa escola em Minab. Por muito menos, a Rússia foi banida de todos os eventos da FIFA e da UEFA, sendo proibida de participar na Copa do Mundo de 2022 e, novamente, até mesmo de tentar se classificar para a Copa do Mundo de 2026. A decisão seguiu uma “recomendação” do COI, que também baniu a Rússia das Olimpíadas – uma piada, considerando que a Rússia desde praticamente sempre tem sido uma das principais competidoras nas Olimpíadas.
Ainda sobre as Olimpíadas, é interessante que, na verdade, a campanha contra a Rússia começou antes de 2022, com insistentes acusações de uso de substâncias proibidas, ao mesmo tempo em que se ignorava casos óbvios de doping de atletas dos EUA. O COI, porém, não baniu Israel, mesmo enquanto o país fazia limpeza étnica na Palestina, num processo que, inclusive, eliminou alguns atletas olímpicos palestinos.
A FIFA e o COI, claramente, não são as instituições neutras que talvez já tenham sido um dia.
Especificamente em relação à FIFA, a sua captura gradual começou entre o final dos anos 90 e o início do novo milênio, iniciando pela dominação do rol de patrocinadores por parte de empresas sediadas nos EUA, como a Coca-Cola, a Budweiser e a Mastercard, as quais passaram a financiar a FIFA com dezenas de milhões de dólares ao ano.
Em 2010, os EUA achavam que todo o aporte financeiro dado à FIFA levaria o país a conquistar a disputa para sediar uma nova Copa do Mundo (o país já o havia feito em 1994…). A vitória do Catar levou a acusações duvidosas de suborno, bem como a uma tomada de decisão, dentro dos EUA, sobre uma campanha de pressão e captura da FIFA.
Como em muitos outros casos nos últimos 15 anos, a arma utilizada pelos EUA foi o lawfare. Alegando extraterritorialidade pelos motivos mais espúrios possíveis, o Departamento de Justiça dos EUA lançou uma investigação por corrupção a ponto de ordenar buscas e prisões nas instalações da FIFA na Suíça. De forma coordenada, talvez para evitar sanções, grandes patrocinadores se distanciaram da FIFA e, ao fim de tudo, Joseph Blatter foi forçado a renunciar.
Logo em seguida entra Gianni Infantino. Os patrocinadores de costume retornam e a FIFA ganha ainda novos patrocinadores ligados aos EUA, como o Bank of America. Rapidamente os EUA ganham uma vez mais a disputa para sediar uma Copa do Mundo. Trump, por sua vez, ganha um “Prêmio da Paz da FIFA”, mesmo tendo apenas alguns meses antes bombardeado o Irã.
E agora, naturalmente, Gianni Infantino fecha os olhos para todas as arbitrariedades do governo dos EUA durante a Copa.
Quando falamos na necessidade de reforma das instituições internacionais não podemos nos esquecer que mesmo em áreas tão aparentemente triviais quanto o esporte, o Ocidente dá as cartas.