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Morrer às comissões

A compra do Novobanco pelo grupo francês BPCE é um acontecimento estrutural no sistema financeiro português. Não é apenas mais uma transação; é a entrada em força de um dos grandes grupos europeus num mercado que até aqui vivia entre os sonhos de consolidação doméstica e a dúvida existencial sobre o futuro de um dos seus principais bancos.

O BPCE é um peso‑pesado. Em ativos globais, joga numa divisão em que os bancos portugueses nem sequer vão ao sorteio: dezenas de vezes maior dimensão, diversificação internacional, acesso a mercados de capitais que permitem captar financiamento a custos que um banco médio português dificilmente consegue. Essa escala não é um número bonito em relatórios, é uma vantagem competitiva real: dá capacidade para financiar grandes projetos, apoiar internacionalização e acomodar ciclos económicos adversos sem entrar logo em modo de sobrevivência.

Para as empresas nacionais isto pode dar uma ajuda. Um banco integrado num grupo como o BPCE pode oferecer mais produtos de banca de investimento, soluções de financiamento estruturado, apoio à emissão de dívida e acesso a redes internacionais. Potencialmente, é a porta de entrada das PME mais ambiciosas num circuito de financiamento que não para em Lisboa. Ao mesmo tempo, esta é uma entrada em grande, não um ensaio tímido.

O Novobanco é o quarto maior banco português, não um nicho, e passa a ser tratado como segundo mercado doméstico do grupo. Isso significa alocar capital, talento e tecnologia com outra ambição, tal como se viu quando a JP Morgan reforçou a presença na Alemanha, uma novidade a ter em conta e um sério aviso aos europeus: traz ferramentas globais para um mercado onde a estrutura de custos já é mais baixa, mas as margens ainda são interessantes. Portugal, com uma rede bancária a emagrecer, torna‑se um alvo óbvio para um gigante com apetite.

Este movimento contrasta com o que os bancos nacionais estão a fazer: fechar balcões, reduzir equipas, cortar caixas Multibanco, e a levar os clientes para aplicações e canais digitais. A revolução que passa por resolver tudo através do digital, com o mínimo de fricção e o mínimo de contacto pessoal – já começou. A questão é saber quem tem músculo tecnológico e escala de dados para ganhar esse jogo? Um grupo como o BPCE entra com plataformas, modelos de risco sofisticados, experiência em mercados mais competitivos e capacidade de investimento que pode acelerar essa transição em Portugal, em vez de apenas a gerir em modo defensivo.

Claro que há um trauma que paira no ar: a herança do BES, as injeções públicas, os anos de incerteza e profunda desconfiança. Mas é precisamente por isso que esta entrada francesa é relevante. Não estamos perante mais um fundo oportunista à espera de vender caro daqui a cinco anos. O que chega é um banco europeu de referência, com balanço, escala e estratégia, que não vem experimentar Portugal – vem instalar‑se; na verdade já está no Porto, com uma operação de respeito. Num sistema bancário que parece fechar-se sobre si próprio, ter um novo protagonista com esta dimensão é talvez o primeiro verdadeiro sinal da grande mudança que aí vem.

A banca americana de retalho já começou a molhar o pé, o Revolut já cá está. Compete à banca nacional deixar finalmente de limpar as feridas e avançar com alguma ousadia. Em abril, a diferença entre os depósitos das empresas e os créditos empresariais já era de três mil milhões. Uma perfeita anormalidade. Viver de comissões é, talvez, morrer lentamente às prestações.

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Revolução acelerada

Se a revolução industrial tem um pai, é James Watt, o escocês que desenvolveu a máquina a vapor moderna, ao criar o condensador. Permitiu que se tornasse verdadeiramente eficiente e economicamente viável para muito mais do que a mineração de carvão. Foi patenteada em 1769, mas levou um século até que o seu uso se generalizasse. A revolução seguinte, com a introdução da eletricidade, levou metade do tempo.

Com cada nova tecnologia, os tempos aceleram, os ciclos encurtam. Notamos o mesmo padrão nas comunicações. O telefone fixo levou três quartos de século a instalar-se. O telemóvel levou 25 anos, um terço do tempo. A internet encurtou o ciclo ainda mais, chegando a mil milhões de utilizadores numa década. Agora, a inteligência artificial, uma revolução que promete ser mais profunda, ao nível do que foram a máquina a vapor ou a eletricidade, cumpriu o mesmo, só falando do acesso a agentes públicos, em três anos. Uma velocidade vertiginosa.

Também as fases de cada vaga tecnológica se estreitam pela aceleração. A economista britânico-venezuelana Carlota Perez identifica seis, da introdução à saturação. No caso da IA, já passámos o ponto de viragem e encontramo-nos na fase de difusão, que precede a maturidade. Existe a infraestrutura, já temos e continuam a ser criadas novas soluções, todos os dias, a seguir virá a transformação económica. Quem constrói a infraestrutura, introduz a tecnologia, é o primeiro beneficiário. A seguir, quem desenvolve as aplicações. Mas, depois, ganha quem souber o que fazer com estas ferramentas e daí retirar valor. É aqui que estamos a entrar, rapidamente, porque a velocidade a que tudo acontece é estonteante. Não é construir, mas usar. Saber isto faz toda a diferença.

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O touro bravo, um aliado da biodiversidade e da agricultura regenerativa

Nos últimos anos, o debate em torno da Tauromaquia tem sido frequentemente reduzido ao que acontece dentro de uma praça de toiros. No entanto, quem pretenda compreender verdadeiramente a importância do touro bravo para Portugal deve olhar muito para além da arena.

A verdadeira questão não é apenas cultural. É também ambiental, económica, social e territorial. O futuro do touro bravo está intimamente ligado ao futuro do montado português, um dos ecossistemas mais ricos, mais sustentáveis e mais valiosos da Europa.

Portugal possui cerca de um milhão de hectares de montado, um sistema agro-silvo-pastoril único no mundo, moldado ao longo de séculos pela interacção harmoniosa entre a actividade humana e a natureza. Reconhecido internacionalmente como um sistema agrícola de Alto Valor Natural, o montado alberga uma biodiversidade extraordinária, contribui para o combate às alterações climáticas, protege os solos da erosão e ajuda a fixar populações em territórios rurais cada vez mais ameaçados pelo abandono. É neste contexto que o touro bravo desempenha um papel absolutamente singular.

Em Portugal, a criação do touro bravo está associada a cerca de 100 mil hectares de montado e pastagens extensivas, integrando uma fileira económica que gera milhares de postos de trabalho directos e indirectos. Para além da sua dimensão cultural, representa um instrumento efectivo de gestão territorial, combate ao abandono rural e preservação da biodiversidade. Num contexto em que a União Europeia procura reforçar a sustentabilidade da pecuária através da futura Estratégia Europeia para a Pecuária e dos mecanismos de remuneração dos serviços dos ecossistemas, o modelo produtivo associado ao touro bravo surge como um exemplo particularmente relevante de compatibilização entre actividade económica, conservação da natureza e coesão territorial.

Os estudos mais recentes sobre agricultura regenerativa, serviços dos ecossistemas e paisagens agro-silvo-pastoris mediterrânicas apontam precisamente o montado e a dehesa como modelos de referência para o futuro da pecuária europeia. Não por acaso, várias contribuições científicas apresentadas no âmbito da preparação da futura Estratégia Europeia para a Pecuária defendem explicitamente o reconhecimento e valorização destes sistemas, incluindo as explorações de touro bravo, pelo seu contributo para a biodiversidade, para o armazenamento de carbono, para a prevenção dos incêndios rurais e para a sustentabilidade económica das regiões de baixa densidade populacional.

Em paralelo, a crescente valorização dos serviços dos ecossistemas no âmbito das políticas europeias, incluindo os mecanismos de Pagamentos por Serviços dos Ecossistemas e os objectivos da Missão Solos da União Europeia, reforça a importância estratégica destas explorações enquanto produtoras de bens públicos ambientais que beneficiam toda a sociedade.

Esta realidade assume particular relevância num momento em que a União Europeia prepara a sua nova Estratégia para a Pecuária e reforça os instrumentos de remuneração dos chamados serviços dos ecossistemas. A própria Comissão Europeia tem vindo a reconhecer que os sistemas pecuários extensivos e agro-silvo-pastoris desempenham um papel fundamental na conservação dos solos, no sequestro de carbono, na prevenção da desertificação, na preservação da biodiversidade e na coesão das comunidades rurais. O montado português constitui um exemplo paradigmático dessa visão europeia, sendo simultaneamente sistema produtivo, património natural e reservatório de biodiversidade.

Ao contrário da esmagadora maioria das produções pecuárias modernas, o touro bravo vive entre quatro e cinco anos em regime extensivo, percorrendo grandes áreas de pastagem natural e montado. Cresce em liberdade, com reduzida intervenção humana, integrado num ecossistema complexo e equilibrado.

Aquilo que hoje Bruxelas designa por agricultura regenerativa é, em muitos aspectos, aquilo que os criadores de touro bravo praticam há gerações. A agricultura regenerativa procura restaurar solos, promover a biodiversidade, aumentar a capacidade de retenção de água, sequestrar carbono e reforçar a resiliência dos ecossistemas. São precisamente estes princípios que encontramos nas herdades de bravo espalhadas por Portugal. Por isso, não será exagerado afirmar que as ganadarias de touros bravos constituem um dos mais antigos e bem-sucedidos exemplos de agricultura regenerativa da Península Ibérica.

Num tempo em que tanto se fala de sustentabilidade, importa reconhecer que a criação do touro bravo representa um modelo produtivo profundamente alinhado com muitos dos objectivos ambientais definidos pela União Europeia.

Os benefícios ecológicos são evidentes. As áreas ocupadas pelas ganadarias de bravo funcionam como importantes refúgios para inúmeras espécies de fauna e flora. Em muitas destas propriedades encontram-se algumas das espécies mais emblemáticas da conservação da natureza na Península Ibérica, como o lince-ibérico, a águia-imperial-ibérica, a águia-de-Bonelli, a cegonha-preta, o abutre-preto ou a lontra-europeia. Não é por acaso. A manutenção destes habitats depende da existência de actividades económicas compatíveis com a conservação da natureza. O touro bravo é uma dessas actividades. Sem a gestão proporcionada pelas ganadarias, muitos destes territórios correriam o risco de abandono, degradação ou conversão para utilizações menos favoráveis à biodiversidade.

O montado presta ainda serviços ambientais de enorme valor para toda a sociedade. As suas árvores armazenam carbono atmosférico, contribuindo para mitigar os efeitos das alterações climáticas. Os seus solos funcionam como importantes reservatórios de matéria orgânica. A vegetação permanente reduz a erosão, protege os recursos hídricos e ajuda a prevenir incêndios rurais através do pastoreio extensivo. São benefícios que aproveitam a todos os portugueses, embora raramente sejam reconhecidos ou remunerados pelo mercado.

É por isso que a União Europeia discute cada vez mais mecanismos de pagamento pelos serviços dos ecossistemas. Quem protege biodiversidade, captura carbono, preserva paisagens e contribui para a saúde ambiental do território presta um serviço público que merece reconhecimento. As ganadarias de bravo enquadram-se plenamente nesta lógica.

Existe ainda uma outra dimensão frequentemente ignorada. O bem-estar animal. O debate público tende a concentrar-se exclusivamente nos momentos da vida do touro em praça. Porém, qualquer avaliação séria e cientificamente fundamentada do bem-estar animal deve considerar a totalidade do ciclo de vida do animal. O touro bravo vive durante vários anos em liberdade, em grandes extensões de terreno, com reduzida intervenção humana e em condições naturais que dificilmente encontram paralelo noutras produções pecuárias contemporâneas. Acresce que toda a actividade taurina se encontra rigorosamente enquadrada por legislação nacional e europeia, sendo sujeita a fiscalização veterinária permanente, desde a criação e transporte dos animais até à sua participação em espectáculos taurinos. Isto não significa que todos tenham de ser aficionados. Significa apenas que o debate deve assentar numa análise completa, informada e honesta da realidade.

Importa igualmente recordar que a criação do touro bravo sustenta uma vasta rede de actividades económicas no mundo rural. Criadores, trabalhadores agrícolas, veterinários, transportadores, fornecedores de serviços, turismo rural, hotelaria, restauração e comércio local integram uma cadeia de valor que gera riqueza, cria emprego e contribui para a fixação de população em regiões onde as oportunidades económicas são frequentemente escassas. Num país confrontado com o despovoamento do interior, a desertificação e o abandono agrícola, estas actividades não podem ser ignoradas.

A discussão sobre os gostos continuará certamente a existir. Faz parte da pluralidade de uma sociedade democrática. Mas há uma realidade que não pode ser esquecida. Sem a actividade associada ao touro bravo, muitas explorações agro-silvo-pastoris perderiam uma parte importante da sua viabilidade económica, aumentando o risco de abandono, alteração do uso do solo e degradação de habitats de elevado valor ecológico. Quando se fala do touro bravo, fala-se de muito mais do que um espectáculo. Fala-se de biodiversidade. Fala-se de agricultura regenerativa. Fala-se de captura de carbono. Fala-se de coesão territorial. Fala-se de emprego rural. Fala-se da preservação de um património natural e cultural que atravessou séculos e chegou até nós.

É por isso que a preservação das ganadarias de bravo não deve ser encarada apenas como uma questão cultural ou sectorial, mas também como uma questão de política agrícola, ambiental e territorial, plenamente alinhada com os objectivos europeus de sustentabilidade, resiliência climática, valorização dos serviços dos ecossistemas e desenvolvimento equilibrado das zonas rurais.

Convém ainda não ignorar uma realidade elementar. O touro bravo não é uma espécie selvagem. Existe porque existe uma actividade económica, cultural e social que justifica a sua criação. Sem Tauromaquia, desapareceriam gradualmente as ganadarias de bravo, reduzindo-se drasticamente a viabilidade económica de cerca de 100 mil hectares de montado directamente associados à sua criação. O resultado não seria uma maior protecção do animal. Seria, paradoxalmente, o desaparecimento da própria população de touros bravos e a perda de um dos sistemas agro-silvo-pastoris mais ricos da Europa.

Defender o touro bravo não é apenas defender uma tradição. É defender a natureza. É defender o território. É defender Portugal.

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Mais Trumpalhadas

2026 é ano de midterms nos EUA, eleições onde estão em causa, no tocante ao Congresso, os 435 lugares da Câmara dos Representantes e 35 (em 50) no Senado. Nas 20 midterms pós-1946 o partido do Presidente perdeu lugares em 18 – Trump perdeu 41 no seu anterior mandato; atualmente a maioria dos republicanos na House é de apenas seis deputados.

As midterms são um barómetro ao Presidente, cuja taxa de rejeição é hoje cerca de 60%. Somando isto à recente subida dos juros dos títulos do Tesouro a 10 anos, de 3,95% para 4,44%, são más notícias para o POTUS pois sinalizam uma provável subida da inflação e um aumento do custo da dívida quando os juros já são o segundo item do orçamento americano.

Como responde Trump a isto? Manipulando as eleições – isto é, fazendo aquilo que acusa falsamente os outros de lhe terem feito. A panóplia de truques é vasta: primeiro ameaçou enviar o ICE (polícia de fronteiras) às assembleias de voto, para intimidar os imigrantes, sendo que será inconstitucional ter lá pessoas armadas.

De seguida temos o Save America Act, que obriga os votantes a estarem documentados; pretensamente visa impedir o voto dos imigrantes ilegais, mas na verdade é mais uma manobra de intimidação – o Brennan Center determinou em 2017 que para uma dúzia de estados tal representaria 0,0001%, o que significa, projetado aos eleitores de 2024, 150 votos.

Terceiro, Pam Bondi e companhia exigiram o acesso à informação dos estados sobre os votantes; aos estados que recusaram (mais de vinte) foram instaurados processos e os dez que tinham acedido tiveram que assinar MOUs (outra moda de Trump) confidenciais que tratavam da análise da informação tendo em vista ordenar a remoção das listas dos votantes classificados como “presumptive noncitizens” – o que constituiria uma violação do National Voter Registration Act.

Quarto, quer proibir o voto por correspondência, que considera lhe ser prejudicial.

Quinto, cereja no topo do bolo, tornou-se o campeão no Gerrymandering (redefinição dos limites dos círculos eleitorais; vem de Gerry, o governador do Massachusetts que para ganhar deputados desenhou um círculo eleitoral de Boston com o feitio de uma salamandra). Só no Texas está a tentar ganhar cinco.

Finalmente, para atuar em roda livre, a voting section do Departamento (ministério) da justiça, responsável por garantir o direito a votar, foi reduzido a dois juristas.

Isto não é tudo. Se parece mau, relembre-se que Trump consegue sempre surpreender-nos.

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Magnifica Humanitas: inteligência e bom senso

A encíclica Magnifica Humanitas constitui um notável exercício de inteligência e de bom senso num contexto de profunda irracionalidade global. Oferece uma leitura integrada da crise contemporânea – simultaneamente geopolítica, geoeconómica e civilizacional – recentrando o debate na primazia do ser humano sobre as lógicas de poder, superioridade ou domínio tecnológico.

Sem cair no proselitismo, o texto formula uma crítica incisiva às dinâmicas dominantes: a naturalização da competição entre potências, a instrumentalização da economia e a crescente militarização das relações internacionais. Ao fazê-lo, desmonta a ideia de inevitabilidade que frequentemente acompanha as leituras da ordem mundial, alertando para um défice crescente de inteligência e de bom senso nas decisões coletivas.

É neste quadro que surge a sua tese mais incisiva: no mundo atual, a guerra deixou de poder ser considerada justa. A capacidade destrutiva dos meios disponíveis, amplificada pela tecnologia e pela inteligência artificial, transforma qualquer conflito numa falência da política e da razão.

As guerras em curso – na Europa e no Médio Oriente – constituem, no seu conjunto, uma expressão paradigmática dessa falha. Deixaram de exprimir qualquer racionalidade estratégica compreensível, mas antes a incapacidade de conter a escalada e de privilegiar soluções políticas. São sinais de desordem e manifestações de ausência de inteligência prática e de bom senso que se tornam particularmente perigosas no contexto de fragmentação global e confronto acrescido que estamos a atravessar.

A mensagem é clara e traduz uma visão exigente: a persistência da lógica de confronto conduz a situações cada vez mais críticas. Por isso, a encíclica afirma a prioridade da cooperação, da negociação e do multilateralismo, propondo uma reconstrução ativa da confiança no sistema internacional.

Na Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV emerge como um dos dirigentes mais lúcidos do espaço europeu contemporâneo. E é interessante notar que a sua postura converge de forma notável com a de Mario Draghi sobre a crise económica e política da União Europeia. Ambos recusam as narrativas imobilistas e insistem na necessidade de encarar a realidade tal como ela é – e não como desejaríamos que fosse. Quer na análise das fragilidades estruturais da Europa, quer na perceção da nova centralidade da geoeconomia e da tecnologia, encontramos em ambos uma mesma atitude intelectual de rigor analítico, ausência de ilusões e sentido de responsabilidade histórica.

A encíclica remete-nos para a estupidez inteligente de Robert Musil – essa forma moderna de irracionalidade que se disfarça sob a aparência da racionalidade técnica — e lembra-nos, ainda, a reflexão posterior de Carlo Cipolla, de que a verdadeira estupidez reside na capacidade de causar simultaneamente dano aos outros e a si próprio. Muitas dinâmicas atuais – da escalada geopolítica à fragmentação económica – parecem materializar esta combinação paradoxal: sistemas altamente complexos, orientados por racionalidades parciais, mas que convergem para irracionalidades integradas e globais altamente destrutivas.

Em síntese, Magnifica Humanitas afirma que, na fase atual da crise geoeconómica e geopolítica, a escassez decisiva não é de recursos, mas de inteligência e de bom senso. E, neste contexto, afirmar que a guerra só pode ser injusta não é apenas um imperativo ético – é uma expressão de inteligência e de lucidez estratégica, condição hoje indispensável à própria sobrevivência civilizacional.

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Contas públicas que não estão certas

As contas públicas portuguesas entraram numa nova fase com o atual Governo. Temos vindo a chamar a atenção para o desvio significativo dos limites de crescimento da despesa líquida primária acordados entre o Governo e a Comissão Europeia.

Por força das novas regras de governação económica europeia, o indicador mais relevante de aferição das contas públicas de cada um dos Estados Membros é o do crescimento da despesa líquida primária, a que se associa o rácio de dívida pública em relação ao PIB e só muito subsidiariamente o saldo orçamental (excedente ou défice).

Quanto ao saldo orçamental – que o Governo tanto celebra – para aferir e avaliar o exercício da atividade do Ministério das Finanças neste domínio, de dar maior enfoque à despesa – que depende efetivamente do exercício da atividade governativa – do que em relação à receita (cuja variação depende mais indiretamente da ação do Governo, com exceção das medidas discricionárias que o Governo toma de baixa de receita).

Aquilo que observamos da execução orçamental do Governo é um enorme desvio, entre o previsto e o executado, do ritmo de crescimento da despesa pública. Com exceção do investimento público (cuja execução é a menor dos últimos anos face ao projetado pelo Governo), a despesa segue a crescer a um ritmo que parece descontrolado. O desvio das despesas com pessoal, por exemplo, assumiu um desvio de quase 600 milhões de euros em 2025, face ao que o Governo tinha projetado.

O que assistimos, neste Governo, é a uma política orçamental expansionista e pró-cíclica – tema que o Conselho de Finanças Públicas tem vindo a chamar a atenção, sem que se tome em devida atenção o que tal significa. Ora, o que isto significa é que a orientação da política orçamental está em sentido inverso ao da sua utilidade: a de estabilização e amortecimento dos ciclos económicos. A utilização da política orçamental em sentido expansionista e pró cíclico tem o efeito de diminuir o efeito multiplicador do PIB das medidas expansionistas e reduz a margem para a sua mobilização, quando necessário.

Acresce que este Governo tem utilizado a política orçamental – na vertente de política fiscal -de forma errada. O exemplo das medidas fiscais da habitação– como sublinham todas as organizações nacionais e internacionais independentes – tiveram o efeito contrário ao pretendido: num mercado com restrições de oferta, como é atualmente o da habitação – a descida de impostos tem apenas como efeito a apropriação desse valor no preço. Daí que a isenção do IMT nas aquisições de habitação por jovens tenha resultado na transferência do valor do imposto para o valor do preço, não tendo os jovens beneficiado em nada com a medida de política e tendo o Estado abdicado de receita sem qualquer benefício de política pública.

Aqui chegados, penso que uma avaliação serena da ação do Governo nas finanças públicas nos deve a todos merecer atenção e preocupação. Os efeitos começam a ser visíveis na falta de resposta ao aumento de custo de vida. O Governo foi esgotando a margem orçamental e tem agora dificuldade em assumir novas medidas, quando precisa. O incumprimento das metas de crescimento da despesa líquida primárias é o novo problema com que estamos confrontados em termos de finanças públicas. Por muito que o Governo tente esconder.

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A Europa já perdeu

Esta sexta-feira começa a negociar em bolsa uma das empresas mais valiosas no mundo, a SpaceX. Com a forte procura que a operação está a ter, é possível que a empresa comece a negociar em bolsa valendo o equivalente a todo o mercado de ações alemão! Mas, como sabemos, não é a única empresa relacionada com Inteligência Artificial (IA) que pretende estar cotada.

A Open AI, dona do Chat GPT, ou a Anthropic, dona do Claude, também pretendem valorizações próximas ou superiores a um trilião de dólares. Para colocar em contexto, a empresa mais valiosa da Europa é a ASML, que vale “apenas” 600 mil milhões de euros.

A disparidade do investimento entre EUA e Europa é de tal ordem que a Europa não tem qualquer hipótese de influenciar o futuro nesta área. Os investimentos anunciados pela Comissão Europeia somam 200 mil milhões de euros, para financiar startups, investigação, centros de computação para treinar modeles, entre outros.

São muitas as perguntas. Como competir com o projeto Stargate nos EUA que, só por si, vale 500 mil milhões de dólares, tendo já angariado para cima de 100 mil milhões? Como competir entre anúncios e concretizações?

A Europa continua a autorregular-se esquecendo-se da competição a nível mundial, do mundo mais fragmentado entre China e EUA e do potencial de perda para as empresas europeias que terão de pagar a estas empresas para a utilização de modelos de IA avançados, sob pena de desaparecerem da cena global.

Não fomos capazes de criar concorrentes da Amazon, Microsoft, Google, muito porque os europeus não foram ensinados, nem incentivados, a investir no mercado de capitais. É aqui que os EUA continuam a ter a sua força – um mercado financeiro único e integrado, com entrada de capital todos os meses através dos planos de investimento dos trabalhadores, que financiam o crescimento e ambição das empresas, sem medo, e, como vemos pela subida dos mercados, muito bem recompensados.

A Europa deveria deter 10% a 20% das ações em empresas americanas que já estão na dianteira, garantindo assim algum poder de decisão. Ao mesmo tempo, deve focar-se na retenção do talento europeu que migra para zonas com maior atratividade fiscal e condições de vida.

A verdade é que, enquanto estivermos focados na regulação europeia, em interpretações nacionais, fiscalidade complexa e distinta de país para país, e na própria incompreensão por parte dos políticos europeus do funcionamento do mercado, muitas vezes comparado com jogo e casino, nada irá mudar. A verdade é que já perdemos. A Europa já perdeu.

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Fala português?

Uma amiga contou-me que visitou a Igreja da Graça, em Lisboa, e descobriu que todos os painéis informativos estão em inglês, não existindo um único em português. Achou a situação de tal forma absurda que apresentou uma reclamação.

Há uma profunda ironia no facto de um espaço como a igreja apenas dialogar com estrangeiros, transformada numa porta de entrada turística que não valoriza sequer os portugueses que a visitam. Esta situação é apenas uma parte do problema. A zona histórica de Lisboa já há muito que se rendeu à língua inglesa. É raro andar pelas ruas de Lisboa sem que alguém me pergunte primeiro: fala português?

Quem cresceu em Lisboa, testemunha a transformação de uma cidade bairrista e repleta de tradições numa montra turística, com lojas de luxo de impossível alcance para a maioria dos portugueses, em que o termo “autenticidade” virou um produto de marketing.

O detalhe de colocar a língua portuguesa em segundo plano demonstra bem como já se normalizou a perda de um território em que, para podermos sobreviver nele, temos de lhe tirar o máximo proveito enquanto postal turístico.

Mas, ao mesmo tempo que absolvemos os portugueses que são vítimas destes fenómenos, não podemos ignorar que muitos contribuem ativamente para esse estado das coisas: desde o senhorio que incentiva Airbnb, aos comerciantes subservientes aos turistas, até ao próprio município que não para de aprovar mais hotéis.

A verdade é que esta não é uma horda de bárbaros que invadiu Lisboa, mas uma escolha coletiva com custos distribuídos de forma desigual. Como portugueses, estamos cada vez mais ausentes da nossa própria cidade, alguns porque são forçados a isso, outros porque escolhem contribuir para esvaziar a cultura lisboeta e portuguesa. E esta é uma contradição ativa que escolhemos não resolver.

Não ignoro que é difícil termos esta discussão nos dias de hoje, quando a extrema-direita sequestrou inúmeros argumentos e usa slogans como “Portugal para os portugueses”, e brada que a culpa é dos imigrantes mais vulneráveis. Mas tudo o que vivemos neste momento na cidade mostra que o verdadeiro problema está no modelo económico profundamente irresponsável, e os estrangeiros e turistas são instrumentalizados por ele tanto quanto os portugueses.

Já estamos há demasiado tempo a permitir que narrativas erradas dominem este tema, com consequências culturais reais. Precisamos reclamar a cidade e o tipo de cidade em que queremos viver, sem soar defensivos.

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A reforma antes das reformas

Há uma semana, neste mesmo espaço, escrevi sobre o nó português: a demografia que se contrai, a tecnologia que rompe, o Estado que se mantém quando devia transformar-se, e a soberania que se dissolve enquanto insistimos em não olhar. Faltou dizer que há uma reforma que vem antes de todas as que ali nomeei. É a do ensino. E é discutida com a mesma pequenez de sempre: manuais, plataformas, calendários de exames, a aritmética do costume. Discutimos a mobília enquanto a casa muda de função.

A escola que temos foi pensada para um mundo em que saber era ter acesso. Fazia sentido quando a informação era escassa e cara. Esse mundo acabou. A inteligência artificial torna o acesso à informação instantâneo e quase gratuito, e continuar a premiar quem decora é treinar pessoas para uma corrida que já perderam à partida.

Isto não é uma abstracção pedagógica, é economia real, e é já. O mercado de trabalho está a ser reconfigurado agora, não daqui a dez anos. Profissões inteiras mudam ou desaparecem, e impõe-se uma lógica simples: tudo o que a máquina faz bem e barato perde valor, e tudo o que só o humano faz ganha-o. Preparar os mais novos não é ensiná-los a perseguir a última “skill” da moda, que estará obsoleta antes de eles se formarem, é formar as faculdades que sobrevivem a qualquer reconfiguração. A inteligência artificial não é a ameaça, é a alavanca. Mas a alavanca precisa de quem a saiba mover, e não de quem se deixe substituir por ela.

A resposta começa por uma estrutura antiga, o Trivium: gramática, lógica e retórica. Usar a língua com precisão, raciocinar sem se enganar, exprimir-se com clareza. Mas não basta reorganizar horários. É preciso reinventar as próprias disciplinas de base. A filosofia e a história, para situar o homem no tempo e no pensamento. A matemática, a física e a química, para raciocinar sobre o real e não apenas opinar sobre ele. O desporto, porque o corpo e a disciplina também formam a pessoa. A música e a arte, porque a sensibilidade e a forma não são um luxo, são parte do que nos distingue da máquina. Nenhuma destas matérias é ornamento de currículo. São a arquitectura do pensamento.

E há uma incidência que tem de começar cedo, e que hoje tratamos como acessório: a cidadania, a educação cívica e a defesa nacional. A escola não forma apenas trabalhadores, forma cidadãos. O sentido do bem comum, o conhecimento das instituições, a ideia de que um país se defende e não se herda por inércia, é isto que molda o tipo de gente que queremos ser. Uma democracia que não ensina os seus a compreendê-la e a protegê-la está a preparar a própria erosão.

No fundo, é uma questão civilizacional. Já Aristóteles, na Política, advertia que há uma educação que se deve dar aos jovens não por ser útil ou necessária, mas por ser nobre e própria de um homem livre. Não é por acaso que lhes chamamos artes liberais: são as artes de quem é senhor de si. Andamos a formar especialistas competentes e dependentes, peças afinadas para uma função que a máquina aprende depressa a executar melhor. Falta o ser humano completo, o que pensa para além da sua especialidade, se adapta e se governa. O Trivium e as artes liberais são a espinha dessa tradição, que vem da Grécia e de Roma e fez do Ocidente o que ele é. Abandoná-la para correr atrás da máquina não é modernizar, é esquecer quem somos.

Há ainda o número. Se as crianças serão cada vez menos, cada uma vale mais, e nenhuma se pode desperdiçar. Mas o mesmo raciocínio estende-se ao outro extremo da vida. Se vivemos e trabalhamos mais anos, a educação deixa de ser uma idade e passa a ser uma condição permanente. Já temos universidades seniores e reconversão profissional, mas de forma tímida e tardia. Teremos de reconverter muito mais gente do que o sistema hoje imagina. A escola, dos seis aos setenta anos.

Dirão que tudo isto é um regresso ao passado. É exactamente o contrário. O clássico tornou-se estratégico precisamente porque forma autonomia. Um país que não ensina a julgar entrega o discernimento a quem programa a máquina, e uma nação que delega o seu juízo deixa de ser soberana muito antes de o saber. A isto chamo soberania intelectual, e talvez seja a condição de todas as outras de que falei há uma semana.

Não precisamos de uma escola que ensine a competir com a máquina em memória e em velocidade. Essa corrida está perdida e não valia a pena ganhá-la. Precisamos de uma escola, dos primeiros anos aos últimos, que ensine a pensar melhor do que a máquina pensa por nós. O resto é mobília.

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