O Estreito de Schrödinger está aberto e fechado ao mesmo tempo (e funciona)




A expectativa de um acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irã cresceu. Em entrevista ao CNN 360°, o professor de Relações Internacionais da ESPM Gunther Rudzit avaliou o cenário geopolítico atual e afirmou que os Estados Unidos saem do conflito muito mais fracos do que estavam antes de sua eclosão.
Donald Trump teria repostado uma publicação do chanceler iraniano indicando que um memorando de entendimento entre os dois países nunca esteve tão próximo. Para Rudzit, no entanto, a incerteza ainda é grande.
“Com Donald Trump tudo é possível“, disse o professor, ressaltando que as postagens de Trump em sua rede social Truth Social têm como objetivo manter sua base engajada, especialmente porque a guerra é vista negativamente pela própria base Maga.
Rudzit apontou dois pontos que considera fundamentais para que qualquer acordo seja considerado legítimo. O primeiro é que a Agência Internacional de Energia Atômica tenha acesso irrestrito ao programa nuclear iraniano — o chamado protocolo adicional, que permitiria a inspetores o acesso a qualquer instalação, a qualquer tempo.
“Se ele não conseguir no mínimo que a agência volte a ter esse acesso irrestrito… as críticas vão ser muito grandes”, afirmou o professor, lembrando que um acordo menos rigoroso seria considerado inferior ao que havia sido firmado anteriormente e do qual os Estados Unidos se retiraram.
O segundo ponto destacado por Rudzit é a liberação da passagem pelo Estreito de Ormuz a qualquer navio. Segundo o professor, o Irã tentará ao máximo preservar o controle sobre esse estreito, que representa um instrumento econômico estratégico.
“É um instrumento econômico que todo presidente americano evitou dar para o Irã e que o Trump entregou”, declarou. Negociadores do Catar estiveram em Teerã justamente durante uma nova escalada de ataques, o que, segundo Rudzit, indica que o diálogo continua, ainda que seja difícil saber o quanto a porta permanece aberta.
Ao analisar a projeção de poder dos Estados Unidos após o conflito, Rudzit foi categórico: “Hoje os Estados Unidos saíram muito mais fracos do que estavam antes dessa guerra.”
O professor destacou que o enfraquecimento é, sobretudo, de prestígio — já que os EUA não conseguiram derrotar um inimigo consideravelmente inferior em termos militares e econômicos.
Ele traçou um paralelo com a Rússia, que também saiu com prestígio reduzido após não conseguir derrotar a Ucrânia. Aliados no Golfo Pérsico, segundo Rudzit, passaram a desconfiar da aliança com Washington ao perceberem que a estrutura militar americana não é capaz de protegê-los diante da nova lógica de guerra com drones.
O professor também mencionou a capa da revista Economist, que retratou Xi Jinping com um sorriso no segundo plano, ao lado de uma frase atribuída a Napoleão: “nunca interrompa seu inimigo quando estiver fazendo algo errado.”
Para Rudzit, o conflito serviu de lição para americanos, chineses e outros países sobre o quanto uma nação mais fraca pode enfrentar uma potência maior — lição que, segundo ele, a China aplica tanto em relação a uma possível confrontação com os EUA quanto a uma eventual invasão a Taiwan.
Questionado sobre os desdobramentos no Oriente Médio, Rudzit fez questão de distinguir o conflito como sendo entre Israel e o Hezbollah — e não entre Israel e o Líbano, uma vez que o governo libanês já teria assinado acordos com Israel.
O professor avaliou que Teerã busca manter os dois teatros de operações interligados para preservar o Hezbollah como instrumento de pressão sobre Israel.
Rudzit também apontou que teria sido forte a influência de Benjamin Netanyahu sobre Donald Trump para que este acreditasse que, eliminando a liderança iraniana, o regime cairia e o Oriente Médio seria transformado.
“Muito pelo contrário, ele está entrando para a história como um presidente que praticamente perdeu o Oriente Médio”, afirmou. O professor concluiu que a situação permanece muito fluida e que é difícil prever para onde os acontecimentos vão caminhar.



A encíclica Magnifica Humanitas constitui um notável exercício de inteligência e de bom senso num contexto de profunda irracionalidade global. Oferece uma leitura integrada da crise contemporânea – simultaneamente geopolítica, geoeconómica e civilizacional – recentrando o debate na primazia do ser humano sobre as lógicas de poder, superioridade ou domínio tecnológico.
Sem cair no proselitismo, o texto formula uma crítica incisiva às dinâmicas dominantes: a naturalização da competição entre potências, a instrumentalização da economia e a crescente militarização das relações internacionais. Ao fazê-lo, desmonta a ideia de inevitabilidade que frequentemente acompanha as leituras da ordem mundial, alertando para um défice crescente de inteligência e de bom senso nas decisões coletivas.
É neste quadro que surge a sua tese mais incisiva: no mundo atual, a guerra deixou de poder ser considerada justa. A capacidade destrutiva dos meios disponíveis, amplificada pela tecnologia e pela inteligência artificial, transforma qualquer conflito numa falência da política e da razão.
As guerras em curso – na Europa e no Médio Oriente – constituem, no seu conjunto, uma expressão paradigmática dessa falha. Deixaram de exprimir qualquer racionalidade estratégica compreensível, mas antes a incapacidade de conter a escalada e de privilegiar soluções políticas. São sinais de desordem e manifestações de ausência de inteligência prática e de bom senso que se tornam particularmente perigosas no contexto de fragmentação global e confronto acrescido que estamos a atravessar.
A mensagem é clara e traduz uma visão exigente: a persistência da lógica de confronto conduz a situações cada vez mais críticas. Por isso, a encíclica afirma a prioridade da cooperação, da negociação e do multilateralismo, propondo uma reconstrução ativa da confiança no sistema internacional.
Na Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV emerge como um dos dirigentes mais lúcidos do espaço europeu contemporâneo. E é interessante notar que a sua postura converge de forma notável com a de Mario Draghi sobre a crise económica e política da União Europeia. Ambos recusam as narrativas imobilistas e insistem na necessidade de encarar a realidade tal como ela é – e não como desejaríamos que fosse. Quer na análise das fragilidades estruturais da Europa, quer na perceção da nova centralidade da geoeconomia e da tecnologia, encontramos em ambos uma mesma atitude intelectual de rigor analítico, ausência de ilusões e sentido de responsabilidade histórica.
A encíclica remete-nos para a estupidez inteligente de Robert Musil – essa forma moderna de irracionalidade que se disfarça sob a aparência da racionalidade técnica — e lembra-nos, ainda, a reflexão posterior de Carlo Cipolla, de que a verdadeira estupidez reside na capacidade de causar simultaneamente dano aos outros e a si próprio. Muitas dinâmicas atuais – da escalada geopolítica à fragmentação económica – parecem materializar esta combinação paradoxal: sistemas altamente complexos, orientados por racionalidades parciais, mas que convergem para irracionalidades integradas e globais altamente destrutivas.
Em síntese, Magnifica Humanitas afirma que, na fase atual da crise geoeconómica e geopolítica, a escassez decisiva não é de recursos, mas de inteligência e de bom senso. E, neste contexto, afirmar que a guerra só pode ser injusta não é apenas um imperativo ético – é uma expressão de inteligência e de lucidez estratégica, condição hoje indispensável à própria sobrevivência civilizacional.
