“Atlas Lusitano” esgrime perguntas, mais do que oferece respostas. É esse o papel da Arte. Até aqui nada de novo. O que Frederico Ferreira aka FRED pretende nesta exposição individual no Centro Cultural Camões, no Luxemburgo, é suscitar questões. Como esta: “Entre passado e porvir, entre o aço e o rosto, estas obras perguntam: Que Europa estamos a construir — e que lugar nela cabe ao corpo português?”
A Europa nasceu no Mediterrâneo e é uma invenção grega. Como todos os mitos, a verdade perde-se no caos da História. Para uns, a Europa é filha de Agenor, rei de Tiro. Na “Ilíada”, Homero apresenta-a como filha de Fénix. Zeus avistou-a a colher flores junto ao mar. Poderíamos prosseguir na senda do mito e recordar essa ave púrpura das Arábias que é a fénix, que todos os 500 anos voava para o Egito para se imolar e renascer dos escombros e das cinzas.
Escolhemos olhar para este “Atlas Lusitano” enquanto reflexão sobre o “lugar ambíguo de Portugal num continente que se redesenha diante dos nossos olhos – uma Europa feita de fronteiras móveis, de pertenças negociadas, de narrativas em disputa”, como realça o curador da exposição, D. André de Quiroga. “Apresentar esta exposição no Luxemburgo, onde reside uma das maiores comunidades portuguesas da diáspora, significa devolver-lhes um espelho — não literal, mas poético e identitário — onde a sua presença se amplifica e ganha densidade histórica”.
Esta exposição é constituída por cinco grupos escultóricos que representam diferentes abordagens plásticas em torno de um tema central, entre elas formas que aludem a máscaras ou elmos medievais em mutação, inspirados nos azulejos tradicionais portugueses. “Aqui, o gesto artístico converte-se em cartografia afetiva: uma geografia construída de
memórias armadas, em que cada escultura é tanto um marco como uma pergunta”, sublinha o curador.
Uma couraça cultural para atravessar o presente
Se para os otimistas, a Europa é o promontório das renascenças, para os menos dados a tal estado de confiança, a Europa é um continente que rima com violência. E é precisamente através de uma linguagem escultórica que “amalgama o imaginário bélico e a delicadeza da cultura material portuguesa — a cortiça moldada, o azulejo fragmentado, a cerâmica ancestral, a verticalidade da arquitetura gótica, a espiritualidade quase monástica”, que se constrói um corpo de obras que “não pretendem representar o mundo de forma mimética, mas antes instaurar interrogações”, lê-se na folha de sala.
As criações de Frederico Ferreira aka FRED são, no fundo, dispositivos simbólicos que “desestabilizam o olhar e convidam à meditação crítica: objetos que se situam na fronteira entre artefacto e alegoria, entre relíquia e provocação.” Mas também numa cartografia afetiva, i.e., numa geografia “construída de memórias armadas, em que cada escultura é
tanto um marco como uma pergunta.”
A exposição individual “Atlas Lusitano“, de Frederico Ferreira, comissariada por D. André de Quiroga, pode ser vista até 25 de setembro, no Centro Cultural Camões, no Luxemburgo.
O apagão de 28 de abril de 2025 colocou a segurança de abastecimento elétrico no centro do debate público. Após a divulgação dos relatórios técnicos finais de investigação, importa analisar as suas causas com rigor e retirar as conclusões corretas.
O sistema elétrico exige um equilíbrio constante e em tempo real entre geração e consumo. Qualquer desvio afeta a frequência nominal da rede – na Europa, os 50 Hz – podendo desencadear atuações automáticas dos sistemas de proteção e, em situações extremas, provocar o colapso em cascata.
Foi o que aconteceu a 28 de abril. O painel de peritos da ENTSO-E concluiu que o apagão resultou de uma combinação de fatores: oscilações na rede, lacunas no controlo de tensão e de potência reativa, e uma rápida sequência de desligamentos de geradores em Espanha. Além disso, os conversores de eletrónica de potência dos geradores espanhóis não reagiram adequadamente às variações de tensão – uma falha de requisitos técnicos que o operador de rede espanhol deveria ter acautelado. Importa sublinhar: o relatório não atribui a causa do apagão às renováveis enquanto tecnologia. Identifica antes falhas de operação e de comportamento de equipamentos em condições específicas de rede.
Por outro lado, o apagão deu munições a quem tenta associar as renováveis à instabilidade elétrica. Convém clarificar: as renováveis não são intermitentes. São variáveis no tempo. A diferença é fundamental. “Intermitente” descreve algo que funciona em modo “tudo ou nada”, que liga e desliga de forma abrupta – como um pisca-pisca. “Variável” descreve algo cuja produção oscila de forma gradual e previsível, acompanhando os ciclos do vento e do sol. A geração solar e eólica enquadra-se na segunda categoria: a sua curva de produção é antecipável com crescente precisão e incorporada no planeamento diário da rede.
Quem é genuinamente intermitente? A geração nuclear. Uma central nuclear opera em modo de carga base: está ligada ou está desligada. Não modela a sua produção em função da procura. Uma paragem não planeada retira instantaneamente do sistema blocos superiores a 1.000 MW – uma perturbação de enorme magnitude para uma rede da dimensão da portuguesa. Aliás, durante o próprio apagão de 28 de abril, as centrais nucleares espanholas foram as primeiras a ser desligadas por razões de segurança e não serviram para o black start. Esse papel coube a uma central de ciclo combinado a gás (Tapada do Outeiro) e a uma hidroelétrica (Castelo de Bode) do lado português.
No entanto, a integração de fontes renováveis variáveis exige gestão mais sofisticada – não a substituição por tecnologias do século XX. O portfólio de geração combina fontes complementares: a hidroeletricidade armazenada nas albufeiras (altamente despachável), a eólica e solar (variáveis mas previsíveis, com custo marginal nulo), o armazenamento em baterias (resposta quase instantânea) e o gás natural em ciclo combinado (flexível, essencial na transição).
A gestão da rede opera em vários níveis: planeamento de longo prazo, para garantir que o portfólio cobre os cenários de variação renovável; gestão diária, ajustando produção e consumo e ativando reservas; mercado de serviços auxiliares, onde a flexibilidade tem valor económico crescente; e manutenção preditiva, apoiada em ferramentas digitais de apoio à decisão. A estas acrescem a flexibilidade do lado da procura – consumidores que adaptam o seu consumo à disponibilidade de geração -, a geração distribuída e as micro-redes. O Grupo de Aconselhamento Técnico criado em Portugal após o apagão sublinhou ainda a urgência de implementar conversores com inércia sintética (grid-forming), que emulam o comportamento estabilizador das massas girantes dos geradores convencionais. Estas tecnologias existem e são implementáveis.
Perante o debate sobre Energia Nuclear em Portugal, importa ser direto: a geração nuclear não resolve os desafios de integração de renováveis – agrava-os. Os custos de construção dispararam (Flamanville e Hinkley Point C são exemplos de derrapagens que tornaram o nuclear a fonte mais cara do mercado europeu). Portugal não tem o know-how técnico nem a cadeia de fornecimento necessária. Os resíduos de alta atividade continuam sem solução definitiva. E a sua intermitência real – paragens abruptas de grande capacidade – seria uma ameaça séria à estabilidade do Sistema Elétrico Nacional.
O apagão foi um aviso sobre a necessidade de adaptar operação e regulação à crescente penetração renovável. Não foi um argumento contra as renováveis. A Agência Internacional de Energia é clara: a segurança elétrica depende não apenas da geração, mas da qualidade da operação da rede e do comportamento de todos os ativos conectados.
Para descarbonizar a economia portuguesa – eletrificando transportes, aquecimento e processos industriais – não há alternativa à expansão das renováveis. São as mais baratas, as mais rápidas de instalar e as mais abundantes no território nacional. O desafio está em construir, em paralelo, as infraestruturas, os mercados e as ferramentas de operação que permitam gerir essa variabilidade com robustez e segurança.
Há uma velha piada entre historiadores do Médio Oriente que diz que a região moderna foi desenhada por homens que nunca lá viveram, sobre mapas que nunca compreenderam e com réguas que nunca deveriam ter utilizado. Como quase todas as boas piadas, contém uma parte significativa de verdade.
Quando o Império Otomano colapsou após a Primeira Guerra Mundial, as potências europeias dividiram a região segundo interesses estratégicos, linhas ferroviárias, recursos energéticos e equilíbrios imperiais. O resultado foi um conjunto de fronteiras artificiais que separaram tribos, dividiram comunidades religiosas e obrigaram grupos rivais a coexistir dentro dos mesmos Estados. Síria, Iraque, Jordânia e Líbano são, em larga medida, produtos dessa engenharia geopolítica do século XX.
É importante recordar este facto porque muitos dos conflitos atuais não acontecem entre nações antigas com fronteiras milenares. Acontecem dentro de uma arquitetura política relativamente recente, construída sobre equilíbrios frágeis e frequentemente contestados.
Israel nasceu precisamente nesse contexto. Desde a sua fundação, em 1948, enfrentou guerras, invasões, terrorismo, atentados suicidas, ataques de foguetes e uma contestação permanente da sua própria existência. Nenhuma análise séria pode ignorar esta realidade. Mas reconhecer a legitimidade das preocupações de segurança de Israel não significa deixar de fazer uma pergunta cada vez mais inevitável: afinal, o que quer Israel?
A questão tornou-se particularmente relevante esta semana. Depois dos ataques iranianos e dos apelos explícitos de Donald Trump para evitar uma escalada, Israel voltou a atacar alvos iranianos. Não é a primeira vez que Telavive ignora pedidos de contenção por parte de aliados. O que torna este episódio interessante é que revela algo mais profundo do que uma simples divergência táctica.
Pela primeira vez em muitos anos, parece existir uma diferença de objetivos entre Washington e Jerusalém. Os Estados Unidos procuram estabilidade. Israel procura segurança. À primeira vista parecem sinónimos. Na prática podem significar coisas completamente diferentes.
Para Washington, um acordo com Teerão, por imperfeito que seja, continua a ser preferível a uma guerra regional permanente. Para Israel, pelo contrário, qualquer acordo que permita ao regime iraniano sobreviver, reorganizar-se e recuperar capacidades estratégicas pode ser visto como uma ameaça futura. É aqui que começa a divergência. A estratégia americana continua assente na gestão do conflito. A estratégia israelita parece cada vez mais orientada para a transformação do equilíbrio regional.
Nos últimos anos, Israel combateu ou confrontou diretamente cinco frentes distintas. O Hamas em Gaza. O Hezbollah no Líbano. Os Houthis no Iémen. As milícias pró-iranianas no Iraque e na Síria. E, naturalmente, a própria República Islâmica do Irão. Nenhum outro país democrático enfrenta simultaneamente uma rede tão vasta de atores hostis armados e financiados por um mesmo centro de poder regional. Ignorar este facto seria intelectualmente desonesto.
Mas também seria desonesto ignorar outra realidade. Em vários setores da atual coligação governamental israelita existe uma visão estratégica que vai muito além da simples autodefesa.
Figuras como Itamar Ben-Gvir e Bezalel Smotrich defendem uma leitura profundamente maximalista do futuro de Israel. Não falam apenas de segurança. Falam de soberania. Não falam apenas de dissuasão. Falam de expansão da presença israelita sobre territórios disputados.
Nos Estados Unidos, algumas vozes próximas da atual administração têm reforçado esse discurso. O atual embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, provocou controvérsia ao afirmar que seria aceitável que Israel controlasse uma área muito mais vasta da região, evocando referências bíblicas que se estendem do Nilo ao Eufrates. Mais do que uma declaração diplomática, foi uma janela para um pensamento político que existe há muito tempo, mas que raramente era expresso de forma tão explícita.
Naturalmente, não existe qualquer plano oficial israelita para conquistar metade do Médio Oriente. A ideia de um “Grande Israel” pertence mais ao domínio ideológico do que ao planeamento militar real. Mas as ideias importam porque influenciam decisões, moldam prioridades, ajudam a explicar comportamentos e revelam que a discussão dentro de Israel já não é apenas sobre como sobreviver, mas também sobre qual deve ser o papel regional do Estado israelita nas próximas décadas.
A questão torna-se ainda mais complexa quando olhamos para o outro lado. O regime iraniano não é uma democracia liberal incompreendida. Durante décadas financiou organizações armadas em vários países da região, patrocinou grupos que atacaram civis israelitas e construiu uma arquitetura de influência baseada em milícias, proxies e guerra indireta.
Para muitos israelitas, o problema não é apenas o programa nuclear iraniano. É a própria natureza do regime. É por isso que, mesmo quando Washington fala em negociações, muitos em Israel continuam a pensar em termos de contenção permanente ou mesmo de enfraquecimento estrutural do poder iraniano.
O problema é que existe uma diferença fundamental entre enfraquecer uma ameaça e viver num estado de guerra contínua. A história ensina que nenhuma potência consegue permanecer indefinidamente mobilizada sem custos políticos, económicos e morais. É precisamente aqui que surge a grande interrogação estratégica.
Israel quer regressar ao statu quo anterior a 7 de Outubro? Quer apenas destruir as capacidades militares dos seus adversários? Ou pretende criar uma nova ordem regional em que os seus inimigos deixem de ter capacidade para desafiar a sua superioridade?
As respostas a estas perguntas determinarão o futuro do Médio Oriente muito mais do que qualquer ataque aéreo desta semana. Porque a verdadeira questão já não é militar. É política.
O povo israelita merece viver em segurança. Merece viver sem sirenes, sem foguetes e sem ameaças existenciais. Mas o povo israelita não se confunde com Benjamin Netanyahu. Nem a democracia israelita se resume à sua atual coligação governamental.
Da mesma forma que criticar Netanyahu não significa ser anti-Israel, apoiar o direito de Israel à defesa não implica concordar com todas as decisões do seu governo. Essa distinção tornou-se cada vez mais importante, sobretudo agora que a pergunta central da política regional deixou de ser o que o Irão quer.
A pergunta central passou a ser outra: depois de Gaza, do Líbano, do Iémen, da Síria, do Iraque e agora do Irão, afinal, o que quer Israel?
A guerra envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão tem exposto uma questão mais profunda e de maior relevância para o futuro da ordem internacional: os limites da autonomia estratégica europeia num mundo cada vez mais multipolar.
Durante anos, líderes europeus defenderam a necessidade de uma política externa mais independente, capaz de refletir os interesses específicos do continente sem depender automaticamente das prioridades de Washington. No entanto, momentos de crise costumam separar ambições de capacidades. E poucos episódios ilustram melhor essa realidade do que a trajetória do acordo nuclear iraniano.
Quando os Estados Unidos decidiram abandonar unilateralmente o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), em 2018, a França, a Alemanha e o Reino Unido manifestaram oposição à decisão. A União Europeia procurou preservar o acordo, criou mecanismos alternativos de pagamento e reafirmou o seu compromisso com uma solução diplomática. Apesar disso, os resultados foram limitados. A maioria das empresas europeias retirou-se do mercado iraniano, não por convicção política, mas por receio de perder acesso ao sistema financeiro internacional dominado pelo dólar e à economia norte-americana. A experiência revelou uma realidade desconfortável.
A Europa possuía vontade política, mas não dispunha dos instrumentos necessários para sustentá-la diante da pressão extraterritorial dos Estados Unidos. A autonomia estratégica europeia encontrou os seus limites precisamente onde o poder económico, financeiro e geopolítico norte-americano continua sendo determinante.
É nesse contexto que a postura chinesa merece atenção, não porque represente um modelo a ser copiado, mas porque evidencia uma abordagem diferente da diplomacia contemporânea. Pequim manteve relações funcionais simultaneamente com Irão, Israel, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Estados Unidos. Naturalmente, essa postura não decorre de altruísmo. A China busca proteger interesses nacionais concretos relacionados à segurança energética, à estabilidade regional e à preservação de suas rotas comerciais.
Ainda assim, a estratégia chinesa demonstra a importância de preservar canais de interlocução com atores rivais, reduzindo a dependência de alinhamentos rígidos e ampliando as margens de manobra diplomática. Seria, contudo, um erro considerar essa prática uma exclusividade chinesa. Índia, Turquia, Brasil e diversas outras potências médias têm adotado estratégias semelhantes, procurando equilibrar suas relações com diferentes polos de poder sem aderir integralmente a nenhum deles. A verdadeira lição não é chinesa. É multipolar.
A questão central para a Europa, portanto, não é escolher entre Washington e Pequim. Trata-se de desenvolver capacidades que tornem sua autonomia estratégica operacional e não apenas retórica. Isso inclui mecanismos financeiros menos vulneráveis a sanções extraterritoriais, maior coordenação em matéria de defesa, instrumentos próprios de mediação diplomática e capacidade de sustentar compromissos internacionais independentemente das mudanças políticas ocorridas em outras capitais.
A crise iraniana demonstrou que a Europa continua sendo uma potência económica, tecnológica e regulatória de primeira grandeza. Demonstrou também que recursos, por si só, não se traduzem automaticamente em influência estratégica. A autonomia não depende apenas da capacidade de formular posições independentes. Depende, sobretudo, da capacidade de implementá-las. Num mundo cada vez mais marcado pela dispersão do poder, essa talvez seja a principal lição da crise.
A influência internacional será cada vez mais medida pela capacidade de transformar preferências políticas em ações efetivas. E é precisamente nesse terreno que a Europa continua a enfrentar o seu maior desafio.
Num contexto de maior concorrência, complexidade e pressão sobre os tempos de decisão, a qualidade da análise continua a ser essencial, mas já não basta por si só. Hoje, é igualmente determinante analisar com rapidez, rigor e capacidade de escala. Esta realidade é particularmente evidente nos processos de due diligence de portefólios de crédito, nos quais a qualidade dos dados depende da leitura de grandes volumes de informação, da identificação de riscos relevantes e da capacidade de transformar documentação dispersa em conhecimento acionável.
Durante muitos anos, a due diligence foi encarada como um processo necessariamente longo, manual e intensivo em recursos. Em operações complexas, envolvendo milhares de documentos, contratos, garantias, avaliações, processos judiciais ou informação financeira, a análise exigia um esforço significativo de coordenação, revisão e validação, com impacto direto nos prazos de execução. Embora assente em equipas altamente especializadas, este modelo colocava desafios claros: maior exposição ao erro humano, dificuldade em responder a picos de oportunidade, custos operacionais elevados e perda de agilidade num mercado em que o momento de execução pode determinar a diferença entre capturar ou perder valor.
É neste contexto que a adoção de soluções inteligentes de apoio à due diligence assume uma importância estratégica. Não se trata apenas de automatizar tarefas administrativas ou de substituir a intervenção humana. Trata-se de libertar as equipas para aquilo que realmente acrescenta valor: interpretar informação crítica, avaliar riscos, formular cenários, apoiar decisões de investimento e garantir que cada oportunidade é analisada com profundidade, consistência e rapidez.
A utilização de ferramentas capazes de ler, classificar, extrair e estruturar informação documental permite uma mudança profunda na forma como estes processos são conduzidos. A due diligence deixa de depender exclusivamente da capacidade manual de percorrer milhares de páginas e passa a beneficiar de uma camada adicional de inteligência operacional, capaz de acelerar a análise inicial, reduzir redundâncias, sinalizar inconsistências e criar bases de informação mais robustas para a tomada de decisão.
Esta transformação é especialmente relevante no crédito imobiliário, onde a documentação é extensa, heterogénea e muitas vezes complexa. A diversidade de formatos, idiomas, tipologias contratuais e enquadramentos legais torna a análise particularmente exigente. Quanto maior o volume de informação, maior a necessidade de garantir que os dados extraídos são consistentes, comparáveis e auditáveis. Nestes processos, eficiência não significa simplificação excessiva. Significa capacidade de chegar mais depressa a uma visão clara, completa e fiável. Neste sentido, estas soluções devem ser vistas como um instrumento de reforço da qualidade e do controlo. A velocidade é uma das vantagens mais visíveis, mas o verdadeiro impacto está na capacidade de aumentar a consistência da análise, reduzir o risco operacional e responder a mais oportunidades sem comprometer o rigor.
Importa também sublinhar que a tecnologia não elimina a dimensão humana da due diligence. Pelo contrário, torna-a mais relevante. Ao automatizar tarefas repetitivas e de menor valor acrescentado, permite que os profissionais se concentrem nos pontos críticos da análise. A intervenção humana continua a ser indispensável, mas passa a estar mais bem informada, mais focada e mais eficiente.
Num mercado em que os portefólios são cada vez mais complexos e as oportunidades surgem em janelas temporais cada vez mais curtas, a capacidade de escalar processos de análise será um fator diferenciador. As organizações que conseguirem combinar conhecimento sectorial, experiência operacional e soluções inteligentes estarão mais bem preparadas para responder com agilidade, criar valor e, em última instância, transmitir maior confiança aos nossos clientes.
A relevância da due diligence nas operações de crédito é indiscutível. O que muda é a capacidade de realizar o underwriting de portefólios com mais dados e maior rapidez. A integração de inteligência artificial permite transformar documentação dispersa em conhecimento acionável, reforçando a consistência da análise e a qualidade de decisão.
Em Portugal, existe uma elevada intolerância ao erro, o que poderia constituir uma importante qualidade. Poderia fazer com que fôssemos especialmente cuidadosos no planeamento, para garantir que tudo estará preparado para o previsível e até o imprevisível; que em toda a parte tudo funcionasse na perfeição; que fôssemos conscienciosos, com uma pontualidade irrepreensível, etc., etc.
Em vez disso, aquela característica constitui um grande defeito, com consequências sobretudo negativas: um medo de cometer erros que conduz a evitar tomar decisões, gerando demoras e paralisias nos mais variados sectores; estigmatiza o insucesso empresarial, criando obstáculos ao empreendedorismo e ao desenvolvimento económico; dificuldade extrema em reconhecer erros, que conduz à sua perpetuação, porque uma correcção seria assumir que tinha havido erros no passado; padrão institucional generalizado de encobrir erros, negando-os perante as mais fortes evidências, etc., etc.
Temos assim uma relação paradoxal: é a nossa elevada intolerância ao erro que os multiplica e promove a paralisia.
Imaginemos a aplicação deste padrão a um movimento voluntário de aumento da transparência por parte do governo ou de uma instituição (pública ou privada). Num primeiro momento, o aumento da transparência não é especialmente aplaudido, mas qualquer erro que venha a ser divulgado em consequência desta nova abertura, será duramente castigado. Ou seja, qual é o incentivo para aumentar a transparência? Nenhum.
Vivemos agora no imediatismo das redes sociais, que se alimentam do “isco de raiva”, de que já aqui falei, que consiste em dar preferência a um relato escandalizado de um facto (assumindo que é verdadeiro), do que a uma descrição moderada e matizada deste. É-se tentado a afirmar que a principal diferença face aos linchamentos populares do século XVI (como o massacre de Lisboa de 1506) é que as vítimas são agora imoladas num fogo virtual, embora pareça que a raiva assassina pouco difere.
Este mundo de excesso de indignação só pode agravar a nossa antiga intolerância ao erro. Quando precisávamos de corrigir este problema, parece que o estamos a aprofundar.
Reconheço que esta questão é difícil de tratar e, por isso, não tenho grande propostas de solução, para além de uma sugestão, que poderá ser pouco atrativa e ter baixa adesão. Dado que precisamos cada vez mais de moderados no actual mundo de excesso de excitação, sugiro ao leitor que, sempre que sinta o impulso de se indignar, pense duas vezes: “será que estou a cair numa armadilha, só para atrair mais gostos e mais partilhas?”
Chamo para a linha da frente todas as pessoas alegres da vossa empresa!
Todos nós, enquanto líderes de equipas, temos frases que repetimos vezes e vezes sem conta. De entre muitas das minhas favoritas, há uma frase que resume muito daquilo que eu penso do mundo e dos seus líderes. A frase versa mais ou menos assim: “Só pessoas alegres é que mudam o mundo!”.
À primeira vista, pode parecer uma frase feita e até sem grande conteúdo ou base científica, mas a verdade é que “sermos” alegres dá muito trabalho. Mais ainda, a alegria intencional permite a quem está à nossa volta beneficiar de um ambiente transformador dentro da organização. Gostava de realçar três aspetos fundamentais da alegria que está na base das pessoas que mudam o mundo à sua volta.
Em primeiro lugar gostava de salientar uma faceta da alegria que me parece natural, mas porventura menos explicita ou óbvia – ela só existe para ser dada e, por isso, quem é alegre, dá-se! Dizemos que uma pessoa é alegre porque partilha essa alegria com ‘os outros’, connosco! E na realidade nem há dilema. Não é possível ser alegre e guardar para si mesmo essa alegria. Como escreve o poeta e Cardeal Tolentino “A alegria não nos pertence”. Serei sempre apologista de algo que possuímos, mas que serve, sobretudo, para os outros, para quem está a nossa volta, e para quem mais dela necessita.
A alegria é também contagiante. As pessoas profundamente alegres não sabem viver ser contagiar os outros dessa alegria. A alegria é como uma fonte que não se esgota! Por mais que se dê, nunca acaba. Tenho observado que nas empresas mais exigentes, mais ágeis ou inovadoras, há sempre colaboradores que, sendo a cola entre várias equipas da empresa, são também aqueles que se comprometem verdadeiramente com a alegria deles e de todos.
Por último, parece-me que a alegria é sobretudo um ingrediente fundamental para quem quer mudar o mundo. Falo de mudar o mundo como um processo de transformação que envolve pessoas e práticas. É a partir da alegria que estes líderes congregam à sua volta aqueles que mais livremente querem também a transformação. É também enraizado na alegria que estes líderes, mesmo nos momentos de dificuldade e de resistência organizacional, conseguem recentrar a atenção das equipas no essencial do caminho. Para mim, é sempre surpreendente o efeito que a leveza o bom humor que são trazidos pela alegria conseguem.
Ao fechar este texto, deixo um apelo: tragam de volta a alegria para a conversa organizacional e valorizem as pessoas que nas vossas equipas são alegres. Encontrem-nas, parem-nas no corredor e celebrem com elas este dom que é a alegria!
O sorriso mais enigmático em exposição no Louvre já pode ser visto sem ter de percorrer todo o museu. A Mona Lisa mudou de aposentos. A Sala do Estado foi preterida pela Galerie Médicis, mas apenas temporariamente. Uma transformação mais ampla vai, muito em breve, começar a ganhar forma. A Selldorf Architects, sediada em Nova Iorque, irá colaborar com a Studios Architecture Paris para liderar uma ambiciosa renovação e expansão, anunciou em maio o Ministério da Cultura francês. O ateliê foi escolhido entre um grupo de cinco finalistas selecionados em outubro, após a triagem de mais de 100 candidatos.
O objetivo é muito claro. Conduzir o Louvre a um “novo Renascimento” para responder às necessidades de segurança e infraestruturas, e controlo de multidões do museu de arte mais visitado do mundo. No centro da intervenção está o redesenho da praça da “Grande Colunata”, construída entre 1667 e 1674 sob Luís XIV, com base num projeto de Claude Perrault, que recebeu a encomenda depois de o rei ter recusado a proposta anterior do arquiteto italiano Bernini. A obra a cargo da Selldorf Architects prevê duas novas entradas subterrâneas, espaço expositivo ampliado, áreas de refeições e lojas do museu. O_custo estimado? 800 milhões de euros. O tráfego pedonal do Louvre – que recebe anualmente cerca de 9 milhões de visitantes – também será repensado. Novos caminhos e áreas verdes vão ligar o museu ao resto de Paris, para que este colosso possa acolher até mais três milhões de visitantes por ano.
Mais. Os dois ateliês vencedores têm, também, a missão de reinventar o design expositivo da pintura mais famosa do Louvre, a Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Detalhe de enorme importância na gestão dos fluxos de visitantes, na medida em que só ela, e o seu enigmático sorriso, atrai, em média, cerca de 20.000 visitantes por dia. Segundo o jornal “Le Monde”, La Gioconda – nome pelo qual a obra também é conhecida – terá um espaço dedicado com cerca de 3.000 m2, que estará concluído, estima-se, até 2031.
O principal objetivo é, obviamente, salvaguardar as condições de segurança da obra-prima de Da Vinci e, paralelamente, permitir que o público tenha acesso à mesma de forma autónoma. Ou seja, sem ter, necessariamente, de visitar o resto do museu. Os responsáveis do Louvre esperam que esta solução reduza ainda mais a lotação e que a obra “respire”, pois terá apenas por ‘companhia’ informações sobre a vida e obra de Leonardo e sobre tudo o que se sabe acerca do icónico retrato de La Gioconda.
Laurence des Cars, historiadora de arte e curadora, foi a primeira mulher a dirigir o Louvre, de setembro de 2021 até à sua demissão, em fevereiro de 2026. Em declarações à imprensa francesa e internacional, recordou, ainda no cargo, que “números excecionais de visitantes não são uma maldição, são motivo de orgulho.” Mas contrapôs: “É também um desafio reinventarmo-nos e mantermo-nos fiéis à nossa missão de serviço público.” O novo diretor, Christophe Leribault reiterou que se trata “de um projeto crucial e necessário para o Louvre. Não podemos continuar a receber 9 milhões de visitantes através da Pirâmide [a entrada atual]. Assim como é imprescindível rever a infraestrutura, refazer os telhados e as instalações técnicas dentro do perímetro do Pátio Circular”, afirmou Leribault ao “Le Monde”.
O presidente francês, Emmanuel Macron, que revelou ao mundo, em janeiro de 2025, a colossal empreitada a que chamou “Novo Renascimento do Louvre”, rejeitou críticas aos valores em jogo argumentando que se trata de um assunto de importância nacional e de orgulho cultural. Entre o roubo de joias da coroa francesa, avaliadas em 88 milhões de euros, infiltrações que danificaram entre 300 e 400 obras de arte, greves de funcionários e episódios que envolvem outros problemas estruturais do edifício, a palavra de ordem é para avançar. A bem da nação, frisou Macron.
Top 5 dos museus mais visitados do mundo (Fonte: Art Newspaper):
É mesmo assim. O que pode parecer um encontro improvável aconteceu. Duas empresas familiares de áreas distintas uniram o saber-fazer que lhes deu reputação e reconhecimento e criaram uma edição limitada de 40 exemplares. Falamos de quê? De pranchas de surf Longchamp x Shapers Club. A estreia da Maison francesa no surf não é um desvio no seu percurso, que sempre primou por cruzar design e saber-fazer. Desta vez, o mote da nova coleção “Catch the Parisian Wave” é, também, um encontro com outra maison familiar francesa, reputada no universo do surf contemporâneo. Resultado? Uma peça que reflete uma visão comum: o saber-fazer quer-se vivo e transmitido com elevados padrões de qualidade.
Como objeto é, sem dúvida, uma filha pródiga do design colecionável. Mas esta prancha não é um mero exercício estético. A ‘chancela’ do Shapers Club, ateliê sediado em Marennes, perto de La Rochelle, garante ao projeto não só uma base técnica sólida, como legitimidade dentro da prática. Os irmãos Renaud e Thomas Cardinal, eles próprios iniciados no surf pelo pai, um dos pioneiros deste desporto no Golfo da Biscaia, são a alma da empresa que não deixa em mãos alheias a escolha dos materiais.
Uma edição ultralimitada
O revestimento em madeira lembra os longboards californianos e serve de ‘capa’ a uma estrutura em espuma, fibra de vidro e resina, pensada para assegurar desempenho e fluidez na água. Quanto ao grafismo, retro é a palavra certa: tonalidades suavemente esbatidas contrastam com quilhas de cores mais intensas. No fundo, despertar o desejo não é uma estratégia nova. O universo do luxo tem aí a sua expressão por excelência. Mas a criação de um objeto que cruza design e performance permite à marca explorar novas categorias sem diluir a sua identidade principal.
A prancha Longchamp x Shapers Club, ou melhor, os 40 exemplares numerados, tem dois objetivos muito claros. Por um lado, valorizar o saber-fazer e a sua transmissão, assim como enaltecer a cultura de ateliê. Por outro, aproximar o luxo da experiência. Mais do que possuir, viver o objeto é o mais importante. Como sublinha a Longchamp, a prancha é um convite “a sair da cidade, a seguir o ímpeto, a deslizar na onda.” E um convite a fazê-lo à boleia de uma peça que é um diálogo entre duas maisons que partilham a mesma obsessão pelo detalhe e pela autenticidade. Sem medo de surfar a crista da onda.
O caminho por vezes é o não-caminho. Ou não seguir o caminho e transcender a ideia de ordem, desenhando uma nova rota, seja ela ordenada ou não. Na mente vulcânica de José Teixeira, Presidente do Conselho de Administração do DST Group, em Braga, não há caminho, rota, o que lhe queiram chamar, sem arte, cultura, educação. Soa pomposo? Só aos mais distraídos, aos que não conhecem a força motriz de tudo o que este homem põe em prática. “Há uma necessidade diária de procurar o belo, como o bem e a verdade. É assim desde Homero. A arquitetura e a arte, como as disciplinas das humanidades e da filosofia, têm papeis instrumentais, nos serviços e produtos que as empresas produzem.”
Palavra de engenheiro. Palavra de quem ama a arte e o que ela nos dá. Sem idealismos, mas ciente de que “a arte não é para escavar, é para olhar mais – é para sentir mais”, realça José Teixeira. E para colocarmos ao serviço do bem. “Sempre”, diz ele. Porque a arte faz de nós pessoas melhores. Porque nos solta a criatividade. Porque, com ela, “chegamos a lugares jamais vistos. A lugares impossíveis.”
Subitamente, já estamos a falar no universo DST: mais de 3500 trabalhadores em mais de meia centena de empresas, a operar em diversas áreas de negócio, e uma faturação na ordem dos 700 milhões de euros, números de 2025. E na vontade inabalável de trazer os seus trabalhadores para o conhecimento e para “as virtudes das artes”. Não se pense que José Teixeira vive desfasado do mundo, da realidade que o cerca. Nada disso. Tem perfeita noção da dureza do trabalho na construção. Viveu-o. Sentiu-o nas mãos, no corpo, no cansaço. Por isso se revolta perante a banalização do mal e da ignorância, e espalha livros e obras de arte por todos os espaços de trabalho do grupo que lidera. Porque pode fazê-lo? Sim. Mas, acima de tudo, porque fazê-lo é um “dever social” que ele leva muito a sério. Porquê? “Porque o trabalho da educação cultural é um trabalho sem fim à vista, é um processo. E não é um papel apenas dos estados e das cidades. É um papel da economia”, sublinha, sorrindo.
Vontade de transformar
As práticas de Recursos Humanos do DST Group têm sido reconhecidas entre as melhores no país, ao cruzar benefícios aos trabalhadores com atividades culturais que promovem o pensamento crítico. Desde palestras de filósofos, como o francês Gilles Lipovetsky, a conversas em torno dos filósofos clássicos e não só, às sessões de Leitura Furiosa, às quintas-feiras. Tudo atividades realizadas durante o horário de trabalho, a somar aos livros e bilhetes para espetáculos no Theatro Circo de Braga. Mecenas da Companhia de Teatro de Braga e da Feira do Livro da cidade, o grupo é também responsável pela atribuição do Grande Prémio de Literatura DST – que distinguiu, nos últimos cinco anos, autores como Luísa Costa Gomes, Manuel Alegre, Mário Cláudio, Daniel Jonas e Lídia Jorge – e do Prémio Internacional de Fotografia “Emergentes DST”.
A avaliação dos trabalhadores também se mede em cultura. Aliás, para José Teixeira existe um grande interesse económico em que os seus trabalhadores sejam cultos. Por uma razão muito simples. “Trabalhadores cultos geram mais valor naquilo que fazem”. No lastro desta razão surge outra. Uma empresa que não valorize a aprendizagem não contribui para a sociedade em que está inserida. Diz-nos que acredita na confiança e na comunhão. “Vou todos os dias ao espaço de meditação que temos no campus. Vou lá fazer apenas uma coisa: ‘tens de ser uma boa pessoa’. É o meu lado ecuménico”, explica. “Sou católico, mas não tenho de impor a ninguém o que quer que seja.”
Agora, o seu novo ‘templo’ é o Muzeu – Pensamento e Arte Contemporânea dst. Sim, mas é um ‘templo’ aberto a todos. “Sabe uma coisa que só verbalizei muito recentemente?”, questiona José Teixeira no seu transbordante entusiasmo. “A maior parte destas obras estavam em minha casa. Foi uma alegria brutal trazer todas para aqui! Até me arrepia. Dar é receber e sabe tão bem!”, exclama.
O ‘efeito Bilbau’
José Teixeira fala em Bilbau e no exemplo do ‘antes e depois do Guggenheim’. Não se comparam museus, compara-se o efeito catalisador que aquele equipamento cultural imprimiu na cidade. “Nós desejamos ter e ser um efeito Bilbau”, salienta, referindo-se ao fator transformador que aquele museu trouxe à cidade do País Basco. Perto do Porto e de Guimarães, o Muzeu pretende afirmar-se no panorama cultural nacional e internacional. O objetivo é claro. “A partir da cultura podemos transformar o mundo num lugar mais belo”, diz Teixeira. E isso é um propósito deste museu. Não é arrogância, sublinha, quando fala em “efeito DST”, numa referência ao campus do grupo, que acolhe edifícios de três Pritzkers: Álvaro Siza Vieira, Souto de Moura e Norman Foster. “Tem de haver beleza em tudo, até no chão da fábrica.” O ‘desvio’ pelo campus passa ainda pela Escola Industrial e pela Escola de Pensamento DST. Que agora terá uma extensão no auditório do Muzeu, onde haverá conversas com curadoria de José Pacheco Pereira. E concertos, performances, dança… O programa é anunciado todos os meses no site e redes sociais do Muzeu, o primeiro, na cidade, dedicado à arte contemporânea. Um investimento de 40 milhões de euros, com projeto do arquiteto José Carvalho Araújo, que abriu portas no dia 25 de abril.
No primeiro mês, a exposição inaugural, “Sejamos realistas, exijamos o impossível” – que pode ser vista até outubro de 2027 –, recebeu mais de 16 mil visitantes. Não sabemos se esta tração tem como gatilho a entrada livre à quinta-feira. Para todos os visitantes, sem exceção. Mas sabemos que superou as expectativas iniciais e que há público que regressa.
Uma coleção orgânica
Numa coleção com cerca de 1500 obras de 240 artistas, 68 dos quais estrangeiros, como detalha Helena Mendes Pereira, diretora e curadora do museu, a seleção feita para este primeiro momento – uma centena – foi, antes de mais, eclética, refletindo também o gosto do colecionador, que “só compra o que sente”. É o caso das 18 pinturas de Pedro Cabrita Reis, “um namoro progressivo” de José Teixeira depois de ter vista a obra no ateliê do artista. Álvaro Lapa, Julião Sarmento, Fernanda Fragateiro, Helena Almeida, Lourdes Castro, Miguel Palma, Paula Rego e Rui Chafes são apenas alguns dos artistas portugueses aqui presentes. Artistas internacionais, como Alex Katz, Candida Höfer, Jeff Koons, Julian Opie ou Nan Goldin, entre outros, recebem o público antes de se aceder à sala dedicada ao artista alemão Anselm Kiefer, uma das paixões de José Teixeira. A coleção, garante, continuará a crescer de forma orgânica e transparente. “Vou ter 2,5 milhões de orçamento anual para o museu, entre custos fixos e acervo. Destes, 700, 800 mil euros são para comprar obras.” É um compromisso, assume. E um gesto político
Em mais um regresso da Noite da Literatura Europeia a Lisboa, a 6 de junho, autores de 14 países trarão consigo vivências, memórias e ecos de geografias distintas. Em comum, o continente, a Europa, e a diversidade da literatura europeia. Áustria, Bélgica, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Itália, Luxemburgo, Polónia, Portugal, Reino Unido e Roménia são os países que marcam presença, através de leituras encenadas por atores e criadores nacionais que dão voz e vida a esta viagem literária.
Alguns autores vão marcar presença na Noite da Literatura Europeia em Lisboa, nomeadamente Layla Martínez (Espanha), Maria Grazia Calandrone (Itália), Ian de Toffoli (Luxemburgo), Adam Fyda e Marek Ospalski (Polónia), João Luís Barreto Guimarães (Portugal), Kerry Barrett (Reino Unido) e Radu Vancu (Roménia).
Apesar de as viagens não se fazerem por ordem alfabética, ainda menos as literárias, aqui seguimos essa lógica. Primeira paragem, Áustria, que nos traz A Capital, de Robert Menasse, Prémio do Livro Alemão, onde a Europa se revela nos bastidores de Bruxelas, entre ironia política e destinos cruzados. A leitura é de Maria Ana Filipe e terá lugar no espaço atmosfera m.
A Bélgica apresenta Eu Que Não Conheci os Homens, de Jacqueline Harpman, distinguida com o Prémio Orlanda, uma parábola sobre a humanidade depois do desaparecimento do mundo que a sustentava, com leitura de Maria d’Oliveira, na Biblioteca Arquitecto Cosmelli Sant’Anna.
Espanha revela o fenómeno editorial que é Caruncho, de Layla Martínez, um retrato sombrio da memória familiar e da violência histórica inscrita no espaço rural espanhol, pela voz de Catarina Marques Lima, no Instituto Cervantes – Sala de Exposições.
Da Estónia chega Não espere nada, de Indrek Koff, autor premiado com o Prémio J. H. Erkko, numa reflexão íntima sobre infância, memória e apagamento histórico, com leitura de Jorge Mourato, na Sociedade Nacional de Belas Artes – Galeria de Arte Moderna.
A Finlândia traz na bagagem a premiada autora Iida Turpeinen e a sua A Existência da Vida. Ciência e narrativa cruizam-se na descoberta e na perda do mundo natural. A leitura é de Amélia Caldas, também na Sociedade Nacional de Belas Artes, agora na Galeria Pintor Fernando de Azevedo.
França regressa à Noite da Literatura Europeia com A tua promessa, de Camille Laurens, vencedora do Prémio Femina, um romance onde o amor se revela território de sedução, poder e ilusão, com leitura de Emmanuelle Jonvel, na Sala Rank do Cinema São Jorge.
A Grécia brinda-nos com O Gene da Dúvida, de Nikos Panayotopoulos, autor premiado em Salónica pelo seu trabalho no cinema, num texto onde a criação artística é posta em crise pela ciência e pela suspeita, com leitura de Henrique Gomes, no Foyer do Cinema São Jorge.
Da Hungria chega O Tango de Satanás, de László Krasznahorkai, Prémio Nobel da Literatura 2025 e Prémio Man Booker Internacional, uma obra visionária sobre o colapso e a desagregação de uma comunidade rural, com leitura de Virág Dér-Boldog, no Instituto da Vinha e do Vinho – Sala dos Embaixadores.
Itália apresenta a obra Escrito com sangue na água, de Maria Grazia Calandrone, finalista do Prémio Strega, onde uma história biográfica de amor e tragédia se transforma em literatura de memória e identidade. A leitura acontece na Eleventy Milano, Lisboa, pela voz de Rita Brütt.
O Luxemburgo propõe Léa ou a teoria dos sistemas complexos, do dramaturgo e académico De Toffoli, num cruzamento entre ativismo climático e estruturas económicas contemporâneas, com leitura de Carolina David, no pátio da Universidade Autónoma de Lisboa.
A Polónia apresenta Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski, uma reinterpretação contemporânea da exploração lunar entre ficção científica e reflexão filosófica, com leitura de Cláudio Henriques, no Museu Medeiros e Almeida – Sala do Lago.
Mediterrâneo, de João Luís Barreto Guimarães, Prémio Pessoa 2022, é a obra que Portugal destaca este ano. Um livro de poesia onde viagem, cultura e memória se transformam em mapa interior, com leitura de Manuel Wiborg, na Sala de Exposições do Instituto Camões.
Do Reino Unido chega A Livraria dos Segredos, de Kerry Barrett, num romance que convoca o tema da espionagem e dos livros na Lisboa da Segunda Guerra Mundial. Uma leitura a duas vozes, de Ulisses Ceia e Mariana Pinheiro, que terá lugar no Instituto da Vinha e do Vinho – Sala da Presidência.
Da Roménia apresenta-se Kaddish, de Radu Vancu, poeta e ensaísta premiado internacionalmente, numa obra que convoca a poesia como forma de memória e resistência perante o horror histórico, com leitura de Nuno Pinheiro, no Instituto Cervantes —Biblioteca Gonzalo Torrente Ballester.
Como já é habitual, esta iniciativa mantém uma forte ligação ao mercado editorial português, com várias obras já publicadas ou prestes a chegar às livrarias:
– Áustria, A Capital, de Robert Menasse, Ed. Dom Quixote, 2019;
– Bélgica, Eu Que não Conheci os Homens, de Jacqueline Harpman – Ed. Livros do Brasil, 2025;
– Espanha, Caruncho, de Layla Martínez, Ed. Antígona, 2024;
– Finlândia, A Existência da vida, de Iida Turpeinen Ed. Livros do Brasil, 2025;
– França, A tua promessa, de Camille Laurens, Ed. Particular – Grupo Infinito Particular, Fev. 2026;
– Grécia, O Gene da Dúvida, de Nikos Panayotopoulos Ed. e-primatur, 2026;
– Hungria, O Tango de Satanás, de László Krasznahorkai, Ed. Cavalo de Ferro / Penguin Random House, 2026;
– Itália, Escrito com sangue na água, de Maria Grazia Calandrone, Ed. Alfaguara / Penguin Random House, Maio 2026; – Polónia, Lunáticos, de Adam Fyda (argumento e desenho) e Marek Ospalski (argumento), Ed. A Seita, Lançamento na Feira do Livro em junho de 2026
– Reino Unido, A Livraria dos Segredos, de Kerry Barrett, Penguin Random House, 2026.
A Noite da Literatura Europeia 2026 é uma iniciativa da EUNIC Portugal, rede que reúne institutos culturais e embaixadas de países da União Europeia, organizada em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, a EGEAC/Lisboa Cultura, a Rede de Bibliotecas de Lisboa (BLX), a Representação da Comissão Europeia em Portugal, a Europa Criativa, a Associação Avenida, a Junta de Freguesia de Santo António, o Plano Nacional de Leitura, a Majestil, o El Corte Inglés e a APPEL.
A valorização recente do renminbi (RMB) está longe de ser um simples detalhe cambial. Desde 2025, a moeda chinesa tem reforçado a sua tendência de alta. Poderá uma moeda fortemente controlada por um governo, neste caso o chinês, tornar-se, num futuro próximo, uma das principais unidades de conta de uma eventual nova reorganização financeira mundial? Pelo menos geograficamente, no sudeste asiático, o RMB vai conquistando o seu espaço, ainda que de forma lenta, mas consistente. Desde janeiro de 2025, o RMB passou de 7,30 yuan por dólar para 6,76 yuan, uma valorização de 8% face à moeda americana. Contra o euro, e ao longo dos últimos 12 meses, passou de 8,45 yuan por euro para 7,85 yuan, uma apreciação de 7,7%.
Apesar das tensões geopolíticas, das tarifas e dos esforços de diversificação das cadeias de abastecimento pelo Ocidente, a ‘máquina exportadora’ chinesa continua extremamente competitiva. Quando empresas de todo o mundo compram produtos chineses, acabam por aumentar a procura de yuans, um suporte ‘natural’ para a moeda. A China lidera de longe as exportações mundiais de bens há vários anos. Em 2025, as suas exportações ultrapassaram os 3,5 biliões de dólares, muito acima dos restantes principais países exportadores, vendendo desde eletrónica, painéis solares, baterias, veículos elétricos, químicos, aos têxteis e bens manufaturados.
A diferença entre a China e os restantes países aumentou após 2020, alicerçada na enorme capacidade industrial, nas cadeias de abastecimento integradas, nos baixos custos de produção, no investimento acentuado em infraestruturas e na crescente especialização em tecnologia e indústria pesada. A China importou 2,6 biliões de dólares em bens durante 2025, o segundo maior importador mundial, atrás apenas dos EUA. Comprou sobretudo chips, petróleo, gás natural, ferro, cobre e produtos agrícolas (soja). Exporta muito mais do que importa, mantendo um considerável excedente comercial, o qual se reflete na força do renminbi. É precisamente esse confronto entre “fábrica do mundo”, a China, e “consumidor do mundo”, os EUA, que está no centro da atual disputa monetária entre o dólar e o renminbi.
A tendência de queda do dólar desde o início de 2025, impulsionada pela expectativa de aceleração do ciclo de descida das taxas de juro nos EUA, reduziu a atratividade relativa dos ativos denominados em dólares. Todavia, nos últimos meses, apesar de as taxas de juro na China manterem uma tendência de baixa e nos EUA de alta, com os juros americanos a aumentarem devido aos receios inflacionistas e às tensões no Médio Oriente, o renminbi continua a valorizar, evidenciando uma força estrutural que vai muito além do simples diferencial de taxas de juro.
Também a reentrada de investidores internacionais em ativos chineses, após vários anos difíceis para o mercado imobiliário e para as bolsas chinesas, reforça a valorização do RMB. Embora continue a existir cautela, os fluxos de capital voltaram a melhorar, impulsionando a procura de yuans. Existe igualmente uma estratégia chinesa de longo prazo e Pequim continua empenhada em aumentar o papel internacional do RMB. O uso da moeda chinesa em acordos comerciais bilaterais tem crescido, sobretudo com países da Ásia, Médio Oriente, África e América Latina. Paralelamente, a expansão do yuan digital e dos sistemas alternativos de pagamentos internacionais procura reduzir a dependência do sistema financeiro dominado pelo dólar.
Contudo, o PBoC não quer uma valorização acentuada da moeda que reduziria a competitividade das exportações chinesas, um dos pilares do crescimento económico do país. O cenário mais plausível continua a ser uma apreciação gradual e gerida pelas autoridades chinesas. À semelhança das moedas da Alemanha e do Japão no pós-Segunda Guerra, a combinação de excedentes comerciais, internacionalização gradual do RMB e enfraquecimento estrutural do dólar poderá prolongar a tendência de valorização da moeda, relembrando o Paradoxo de Kaldor.
A reprivatização parcial da TAP acaba de entrar na reta final. O momento geopolítico conturbado poderia ter feito borregar as negociações, mas o ministro Pinto Luz mostrou mão firme. Quando tudo ardia no Médio Oriente e a inefável Comissão Europeia sugeria que os aviões ficassem em terra para a UE poupar combustível – num absurdo ataque de pânico –, o ministro manteve a rota e nem pestanejou quando a IAG, o candidato com maior liquidez, desistiu com o argumento de que só estaria interessado em ficar com a maioria do capital e não apenas com uma posição minoritária. Esteve bem o ministro: está naquele lugar para fazer e concretizar, não para arranjar justificações inconsequentes. TAP, novo aeroporto, travessias do Tejo, ferrovia e TGV, o bouquet de projetos que Pinto Luz lidera tem o perfume das oportunidades que enfeitiçam o dinheiro global. O crescimento da economia também acontece assim: antes de os projetos ganharem forma começam logo a produzir dinâmica e alguma riqueza – e dão protagonismo ao país.
Também é justo sublinhar que o momento da verdade está ainda para vir, será apenas no final de julho, quando a Lufthansa e a Air France/KLM entrarem na fase final das negociações. E, então, quem merece ganhar? Num negócio desta dimensão seria limitado olhar apenas para o encaixe financeiro, onde provavelmente as diferenças serão pouco significativas. É vital perceber: 1) como serão integradas as operações da TAP com o novo acionista e 2) como pode a companhia portuguesa ganhar escala e músculo em vez de ser diluída e depois deglutida uns anos mais à frente? Ora bem, de toda a informação que é pública, há uma que salta logo à vista. A Lufthansa é 100% privada desde 2022. Já a Air France/KLM pertence ao pantagruélico estado francês (27,98%) e holandês (9,13%), o que significa que a companhia tem, na verdade, controlo público – é estatal. O problema é, portanto, evidente: reprivatizar deve significar passar para operadores privados, caso contrário mais vale ficar nas mãos do Estado português.
Simplificando, um acionista público traz com ele um condimento perigoso: a sua primeira responsabilidade é com os seus cidadãos, não com os outros acionistas, não com os trabalhadores ou até clientes. Em última análise, o Estado responde perante quem vota nele – no caso, franceses e holandeses. Isto significa que os incentivos de gestão da Air France/KLM estão à partida enviesados. Se, um dia, a corda partir, ela partirá sempre para o lado da TAP. Vale a pena pensar e discutir o assunto.
Um antigo banqueiro contou-me que quando começou a trabalhar, concluído o curso, casou, e a prioridade imediata foi ter casa. Ter um espaço próprio representava liberdade e autonomia. O esforço inicial foi valente para um casal em início de carreira. O custo comia boa parte dos recursos, mas era uma aposta consciente, feita a prazo. “Apostávamos em nós, que íamos ganhar mais dinheiro, progredir”, disse-me. Além disso, investir em habitação é a forma mais generalizada de poupança em Portugal, como sabemos.
Este antigo banqueiro também me disse que hoje isto seria impossível de fazer.
A taxa de esforço máxima que o Banco de Portugal recomenda no crédito à habitação foi reduzida em cinco pontos percentuais, para 45%. Por causa da preocupação com o aumento do endividamento das famílias e do crescimento dos créditos considerados de maior risco. Os preços elevados da habitação, que não param de subir, e a maior utilização da garantia pública para os jovens comprarem casa assustam o regulador, que chamou a atenção da banca. O fim último é proteger o consumidor e, claro, preservar a estabilidade do sistema.
Por alguma razão, o regulador considera-se numa melhor posição para avaliar o risco do que quem pede crédito e do que quem o concede. Conhece o que as famílias, na sua vida concreta, estão dispostas a arriscar, e que condições o banco, na sua situação específica, está disponível para aceitar. Não é o único agente que procura substituir-se ao mercado. O Estado faz o mesmo em inúmeras situações.
Insiste-se em substituir a responsabilidade individual pela tutela administrativa, cada vez mais. Esperemos é que a liberdade de escolha não comece a ser vista como um problema a necessitar de correção.
Em 1997, a Kodak empregava cerca de 140 mil pessoas e dominava uma indústria global construída sobre película fotográfica. Em 2026, a NVIDIA vale centenas de vezes mais do que a Kodak alguma vez valeu, tendo menos de metade dos empregados da Kodak, e produz algo que, há apenas duas décadas, dificilmente seria considerado um ativo económico: inteligência computacional.
Esta comparação não é apenas tecnológica. É económica. Durante mais de um século, as organizações mais valiosas do mundo construíram riqueza através de ativos físicos, infraestruturas e economias de escala. Hoje, os mercados financeiros enviam uma mensagem diferente: as empresas mais valorizadas são aquelas que dominam dados, plataformas, algoritmos, capacidade computacional e inteligência artificial.
No início do século XX, Frederick Winslow Taylor defendia que a produtividade decorria da decomposição científica do trabalho. Medir, dividir tarefas, eliminar desperdícios e otimizar processos. Um século depois, muitas organizações continuam a seguir a mesma lógica, ainda que recorrendo a tecnologia sofisticada. A chamada transformação digital foi, em muitos casos, uma versão tecnológica do taylorismo: automatizar tarefas, acelerar fluxos e monitorizar desempenho em tempo real.
Melhorou-se a eficiência. Reduziram-se custos. Acelerou-se a execução. Mas raramente se questionou o essencial: o modelo de negócio continua a fazer sentido num mundo em que a tecnologia, os dados e a inteligência se tornaram os principais motores da criação de valor?
A diferença entre modernizar e transformar é profunda. Modernizar é tornar o que já existe mais rápido ou mais barato. Transformar é questionar se aquilo que existe continua a ser relevante. Muitas empresas digitalizaram processos, implementaram aplicações e modernizaram sistemas, mas mantiveram intacta a lógica industrial que as definiu durante décadas. Continuam organizadas por silos, continuam a decidir por hierarquia e continuam a medir desempenho com indicadores concebidos para outra realidade económica.
Entretanto, o contexto competitivo mudou. O valor passou do produto para a experiência, da escala física para a escala cognitiva. Os dados tornaram-se matéria-prima estratégica. Os algoritmos influenciam preços, riscos e investimentos. As plataformas criaram ecossistemas que aprendem continuamente com cada interação.
O capital está a migrar
Os mercados financeiros perceberam esta mudança antes da maioria das organizações. A valorização extraordinária de empresas como Microsoft, NVIDIA, Alphabet, Meta ou Amazon demonstra que os investidores acreditam que o próximo ciclo de crescimento económico será impulsionado pela inteligência artificial. A expectativa em torno de empresas como a Anthropic ou da própria SpaceX mostra igualmente que a inteligência deixou de ser apenas um recurso de apoio à gestão. Tornou-se um ativo económico em si mesmo.
O sinal é claro: o capital está a migrar das organizações que utilizam tecnologia para aquelas que conseguem transformar tecnologia em vantagem competitiva estrutural.
Neste contexto, surge uma dificuldade frequentemente ignorada: a liderança. A transformação radical exige líderes com literacia digital suficiente para compreender tendências tecnológicas e antecipar impactos disruptivos no negócio. No entanto, muitos executivos construíram carreiras num mundo onde a tecnologia era suporte operacional, não um elemento central da estratégia.
Sem essa literacia, o risco é duplo: subestimar a velocidade da mudança ou investir em tecnologia sem transformar verdadeiramente o negócio. Em ambos os casos, o resultado tende a ser o mesmo: perda gradual de competitividade.
Insistir em acrescentar tecnologia a modelos antigos é equivalente a instalar motores mais potentes num navio desenhado para outra rota. Pode navegar mais depressa, mas continua rumo ao mesmo destino. A verdadeira mudança exige redesenhar o próprio mapa. Exige questionar a proposta de valor, a relação com o cliente, a forma como a organização aprende e a maneira como cria valor.
À medida que a Inteligência Artificial amadurece, esta necessidade torna-se ainda mais evidente. Quando os sistemas conseguem analisar volumes massivos de dados, antecipar padrões e apoiar decisões em tempo real, a arquitetura do negócio altera-se. Os processos deixam de ser lineares, os produtos transformam-se em serviços contínuos e as cadeias de valor tornam-se redes dinâmicas.
Mas o maior obstáculo raramente é tecnológico. É cultural. As organizações foram treinadas para proteger o legado, otimizar a eficiência e minimizar o risco. A transformação exige precisamente o contrário: desaprender, experimentar e aceitar a reinvenção permanente. Significa rever métricas, desafiar modelos estabelecidos e criar mecanismos de governação que permitam inovar sem perder controlo.
A questão central deixa de ser “que tecnologia devemos adotar?” e passa a ser “que tipo de organização precisamos de ser num mundo onde a inteligência é ubíqua?”.
O verdadeiro salto
As empresas que compreenderam esta lógica não se limitaram a melhorar a eficiência. Redefiniram mercados. Transformaram produtos em plataformas. Converteram transações em relações. Integraram tecnologia e estratégia desde a origem.
A alternativa é confortável, mas perigosa. É continuar a otimizar margens e acreditar que transformação digital é sinónimo de modernidade. A história económica mostra o contrário. Kodak era eficiente. Blockbuster era eficiente. Nokia era eficiente. Nenhuma desapareceu por falta de gestão. Tornaram-se irrelevantes porque continuaram a otimizar um modelo que o mercado já havia abandonado.
Se a sua organização fosse criada hoje, com acesso à cloud, dados em tempo real, inteligência artificial multimodal e mercados globais interligados, seria desenhada da mesma forma que foi há vinte ou trinta anos? Teria a mesma estrutura, os mesmos processos e o mesmo modelo de receita?
Se a resposta for negativa, então a transformação ainda não aconteceu. O que existiu foi uma adaptação incremental.
O verdadeiro salto exige alinhar estratégia, tecnologia, dados, cultura e governação numa lógica integrada. Exige reconhecer que o negócio e a tecnologia deixaram de ser dimensões separadas. Tornaram-se uma única realidade.
No fim, a questão não é tecnológica. Nunca foi. A questão é estratégica. É decidir se a organização pretende continuar a utilizar tecnologia para melhorar o passado ou se está preparada para redesenhar o futuro.
Porque a história económica mostra uma realidade simples: as empresas raramente falham por falta de eficiência. Falham quando se tornam extraordinariamente eficientes a fazer algo que já deixou de ser relevante.
Essa integração entre negócio e tecnologia tem um nome: Bizgital (Business + Digital Transformation). E o maior risco para qualquer empresa já não é a falta de tecnologia. É continuar a aperfeiçoar um modelo de negócio que pertence ao passado. Porque o mercado não recompensa quem melhora o passado. Recompensa quem constrói o próximo futuro.
Há uns meses escrevi sobre o lítio enquanto oportunidade e desafio para Portugal. Volto agora ao tema porque o debate evoluiu. Mais do que discutir se devemos ou não explorar este recurso, importa discutir em que condições o fazemos e quem beneficia do valor gerado.
Esta questão ganha ainda maior relevância no atual contexto geopolítico, em que a Europa procura acelerar a transição energética e reduzir dependências externas. A procura de lítio para baterias poderá aumentar mais de dez vezes até 2030, levando a União Europeia a reforçar a extração, o processamento e a reciclagem de matérias-primas críticas. Portugal, que possui algumas das maiores reservas de lítio da Europa, encontra-se inevitavelmente no centro deste debate.
Durante décadas, a Europa externalizou parte dos impactos ambientais associados à produção industrial. Hoje, num contexto de crescente instabilidade geopolítica, procura reforçar a sua autonomia estratégica e reduzir dependências externas. Reconhecer esta necessidade não significa aceitar qualquer projeto mineiro. A exploração de recursos naturais implica impactos ambientais e custos de oportunidade que devem ser cuidadosamente ponderados. A questão central é saber se os benefícios da exploração justificam o valor dos usos alternativos do território.
Mas existe uma segunda questão, igualmente importante: quem fica com o valor gerado? A riqueza associada ao lítio raramente resulta apenas da extração. Grande parte do valor é criada nas etapas seguintes da cadeia produtiva, através do processamento, da produção industrial, da inovação e do emprego qualificado. Se Portugal se limitar a exportar matéria-prima, corre o risco de suportar os impactos territoriais enquanto outros capturam a maior parte do valor acrescentado. Por isso, o debate não deve limitar-se à abertura ou não de minas. Deve também incluir a distribuição dos benefícios, a discussão de quem investe no país, que empregos são criados e que retorno recebem as regiões e populações afetadas.
A transição energética exige escolhas difíceis. Ignorar os impactos ambientais da mineração seria um erro. Mas ignorar a necessidade de recursos minerais para sustentar essa mesma transição seria igualmente ilusório. O verdadeiro desafio é garantir que, se Portugal assume os custos territoriais e ambientais da extração, também captura uma parte significativa do valor criado.
Os acontecimentos recentes em torno de Covas do Barroso tornaram mais visível um debate que se repetirá noutros territórios. A questão não é apenas se devemos ou não explorar lítio, mas em que condições o fazemos, quem suporta os custos e quem beneficia do valor gerado.
Durante demasiado tempo, a Europa assistiu à corrida tecnológica global como espectadora. Vimos gigantes norte-americanos e asiáticos dominar os semicondutores, a cloud e a inteligência artificial, enquanto o continente que inventou a imprensa, a rádio e tantas outras revoluções tecnológicas ficava dependente de terceiros para as tecnologias mais básicas do século XXI. O pacote de soberania tecnológica apresentado esta semana pela Comissão Europeia é, finalmente, uma resposta à altura do desafio.
A escolha não é entre progresso ou protecionismo, é entre uma Europa que controla o seu destino digital e uma Europa que o delega a outros. E essa escolha tem consequências muito concretas: para os hospitais que dependem de software estrangeiro, para as redes energéticas que assentam em infraestruturas que não controlamos, para as empresas que competem num mercado global com ferramentas que não são nossas.
O novo Cloud and AI Development Act propõe triplicar a capacidade europeia de centros de dados nos próximos sete anos. É uma meta ambiciosa, e tem de ser. O atraso acumulado não se recupera com passos tímidos. A criação de um quadro de soberania em cloud com critérios claros – localização de infraestrutura, controlo da cadeia de fornecimento, cibersegurança – dá às administrações públicas e às empresas europeias um referencial para tomarem decisões com mais autonomia e segurança.
O Chips Act 2.0 completa este quadro. Não basta ter centros de dados se os processadores que os alimentam vêm exclusivamente de fora. A aceleração do licenciamento, a criação de um selo de excelência para regiões europeias de semicondutores e o apoio a projetos estratégicos são medidas que reconhecem, de uma vez por todas, que a autonomia tecnológica começa na produção de hardware.
Há também uma aposta que me parece particularmente estratégica: o código aberto. A Europa gasta anualmente mais de 264 mil milhões de euros em produtos digitais fechados vindos de fora da União. Este é dinheiro europeu a financiar dependências europeias. Uma estratégia séria para o open source não é apenas uma questão de poupança, é uma questão de soberania. Expandir soluções abertas na cloud, na IA e na cibersegurança, e promover a sua adoção nas administrações públicas, é construir uma infraestrutura digital que nos pertence.
Tenho dito, em vários fóruns, que a Europa tem de abordar a questão da escala. Das 15 maiores empresas tecnológicas do mundo, apenas 4 têm sede na Europa. Esta realidade não muda com regulação isolada. Muda com investimento, com mercado único digital efectivo, com condições para que as empresas europeias cresçam e cheguem à escala de que precisam para competir. O pacote desta semana aponta nessa direção.
Naturalmente, as propostas legislativas ainda terão de ser negociadas com o Parlamento Europeu e o Conselho. Esse processo será, como sempre, complexo. Mas o mandato político está dado. A transição digital é uma realidade de hoje, e a inovação tecnológica ganhou uma velocidade que temos de acompanhar. Ficar para trás, desta vez, não é uma opção.
A soberania tecnológica não é um fim em si mesmo. É o que nos permite proteger os nossos cidadãos, defender os nossos valores e garantir que o digital serve as pessoas e não o contrário. É por isso que este pacote importa. E é por isso que trabalharei, no Parlamento Europeu, para que estas propostas se transformem em legislação eficaz e ambiciosa.
A reforma tributária brasileira não inspira otimismo. O contencioso tende a multiplicar-se, a prometida simplificação dificilmente se concretizará e, em vez de segurança, o cenário aponta para mais incerteza jurídica. Ainda assim, a reforma precisa ser compreendida, e compreendê-la exige, antes de mais, a curiosidade de perguntar: por que é que a Reforma Tributária se materializou desta forma?
Depois de mais de meio século de discussão de discussão legislativa, foi desenhada como um IVA dual, com um Imposto Seletivo fortemente concentrado na tributação do consumo, convivendo com o antigo modelo numa transição que se estende até 2078. A razão de tantas concessões está na origem.
O Brasil tem uma das constituições mais rígidas do mundo e um pacto federativo levado ao extremo: 26 estados, um Distrito Federal e mais de cinco mil municípios, cada um com autonomia política, económica e tributária própria. O problema é, por isso, estrutural. É, no rigor da palavra, uma deficiência genética do sistema, está no ADN, não na superfície. E nenhuma reforma a faz desaparecer por magia.
O papel do poder judicial nesta fase é revelador, e foi, de resto, um dos temas mais debatidos no XIV Fórum Jurídico de Lisboa deste ano.
O Superior Tribunal de Justiça criou um grupo de trabalho, coordenado pela ministra Regina Helena Costa, para estudar os impactos da reforma. A conclusão foi clara: os novos tributos têm potencial para, pelo menos, triplicar o contencioso sobre o consumo. As discussões serão as mesmas, apenas com roupagem diferente.
E já começou. Numa das primeiras decisões sobre o IBS, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal acolheu pedido liminar em mandado de segurança coletivo a favor de um grupo de empresas. Resultado: quem litigou cedo passa a ter um cenário mais favorável do que quem não o fez. A insegurança jurídica nasce, assim, com a própria reforma.
Tudo isto se incorpora ao velho “manicómio tributário”: a cada minuto distribuem-se centenas de processos e editam-se novas normas, e acumulam-se centenas de milhares de textos regulamentares desde 1988. O país parece anestesiado perante números que deveriam espantar.
Não há solução simples, porque o problema é de origem. Mas os meios alternativos de resolução de conflitos, com destaque para a arbitragem tributária, podem funcionar como um braço do poder judicial nesta transição, resolvendo litígios de forma rápida, eficaz e especializada. Em Portugal, o modelo já está consolidado através do CAAD. Que sirva de exemplo. Talvez seja por aí que se devolva alguma esperança, e alguma segurança, ao sistema tributário brasileiro.
Será uma desilusão se o Euro Digital for apenas um MBWay europeu. Projetos como o Euro Digital, a União Bancária ou a União das Poupanças e Investimentos têm sido alvo de intensa propaganda institucional, mas a sua materialização tem esbarrado sistematicamente na aversão ao risco dos políticos e na proteção de nichos por parte de bancos, bolsas e supervisores. Contudo, este é o momento para que a União Europeia concorra com os restantes blocos monetários.
Do ponto de vista estratégico, o Euro Digital conferiria autonomia adicional face às redes Visa, Mastercard ou SWIFT, que a Europa não controla verdadeiramente. Ter uma plataforma alternativa de pagamentos gerida por autoridades europeias seria um ativo estratégico e um passo importante para o reforço da soberania tecnológica. Mas para ser um sucesso a nível global, o Euro Digital terá de ser mais do que um meio de troca; terá de ser um produto diferenciador, algo que permita fazer mais do que simplesmente pagar e receber.
A tokenização parece ser uma tendência irreversível e a Europa tem uma boa oportunidade para dinamizar os cerca de 11 biliões de euros em poupanças que estão “paradas” em depósitos bancários, num contexto de excesso de liquidez da banca que continua a ser um bloqueador da liquidez. Através de mecanismos tokenizados e smart contracts, o Euro Digital poderia permitir que os aforradores investissem diretamente em projetos da economia real, recebendo retornos e remunerações sem intermediários e praticamente em tempo real, sempre sem colocar em causa as liberdades individuais. Esta capacidade de canalizar capital para o financiamento corporativo de forma direta e eficiente transformaria o investimento no seio da União das Poupanças.
A tecnologia não substitui a geopolítica. No espaço do euro, divide-se a mesma moeda, mas sem um mecanismo europeu de garantia de depósitos, a União Bancária é um edifício sem telhado. E para desafiar a hegemonia do dólar, não basta uma plataforma digital eficiente; exige-se um mercado de dívida fungível e profundo. O euro só será uma verdadeira alternativa quando houver um ativo de reserva seguro à escala da UE pelo que, sem um mercado de Eurobonds que sirva de lastro, o Euro Digital será apenas uma moeda regional útil, nunca um rival global. O garante desse último recurso teria de ser a União como um todo, e não cada Estado individualmente.
Em resumo, o Euro Digital terá potencial para ser o motor de competitividade e crescimento, mas apenas se a coragem política acompanhar a aparente ambição tecnológica.
As placas tectónicas já se moveram. E, no entanto, persistimos em discutir modelos extintos como se o futuro aguardasse a nossa conveniência. A exigência de reforma deixou de ser matéria de governo para se tornar questão de sobrevivência colectiva, dos sindicatos presos a um paradigma moribundo às empresas que adiam a transformação inevitável. Não está em jogo o conforto de um modelo, mas a soberania, a capacidade de uma nação decidir o seu rumo. E essa capacidade dissolve-se enquanto insistimos em não ver.
O ponto de partida é a demografia, e nela se acumula a falha de décadas. O declínio anunciava-se há trinta anos com a previsibilidade de uma equação. O índice sintético de fecundidade fixou-se em 1,40 filhos por mulher, muito aquém do limiar de substituição de 2,1; o saldo natural foi negativo em mais de trinta e três mil pessoas só em 2024; a idade mediana subiu para 47,3 anos; a população em idade activa poderá recuar de 6,8 para 4,2 milhões até ao final do século. Nada disto surpreende: a ciência fundamentava uma política de Estado que nunca existiu. O Estado soube e preferiu não agir, por falta de vontade, por divergência ideológica, por subordinar sempre o longo prazo ao calendário eleitoral. Pior: as medidas tomadas produziram efeitos inversos aos pretendidos. E uma tendência conhecida, ignorada durante três décadas, torna a fronteira entre negligência e deliberação difícil de traçar.
O envelhecimento, porém, não é só um encargo: é um activo que o país desperdiça. A geração entre os cinquenta e os setenta anos, com saúde e qualificação sem paralelo recente, continua a ser afastada do mercado por reflexos de outra era. O futuro cinzento não é uma sentença, mas uma oportunidade que obriga a tratar a experiência como recurso, não como excedente.
A par desse reaproveitamento, a tecnologia impõe a segunda ruptura. A inteligência artificial, a automatização e a robotização não dispensam as políticas de natalidade e qualificação, mas são a única alavanca com escala para compensar uma força de trabalho que se contrai. O modelo erguido sobre mão-de-obra barata não tem diante de si décadas. Tem anos. Uma economia sofisticada, de elevado valor acrescentado, deixou de ser aspiração para se tornar condição de sobrevivência.
É neste enquadramento que se revela o verdadeiro erro. Não falhou a imigração, falhou a ausência de uma política migratória orientada para a transformação da economia. Em sete anos, a população estrangeira com residência legal passou de 420 mil para mais de 1,5 milhões, de 4% para 15% do total, em larga medida concentrada em sectores de baixa qualificação, sem que se abrissem canais para a imigração qualificada de que o país carecia. E há um efeito perverso e pouco discutido: ao alimentar com trabalho barato os sectores de baixo valor, essa opção aliviou a escassez imediata e reduziu o incentivo para ascender na cadeia de valor. Mitigou as dores do crescimento e adiou o próprio crescimento. Quando a política se abstém de pensar, é a sociedade que paga. E paga duas vezes.
E é aqui que o debate sobre a reforma do Estado revela a sua pequenez. Fala-se de reforma como quem fala de manutenção: digitalizar balcões, fundir organismos, suprimir lugares. São reformazinhas instrumentais perante uma mudança de paradigma que exige repensar o Estado na sua dimensão, nas suas funções e no modo como serve um país com menos gente, mais velha e de base contributiva decrescente. Soma-se um factor sociológico que raramente entra nas contas: não perdemos apenas os jovens que deixam de nascer, perdemos os que temos. A mão-de-obra qualificada é hoje disputada à escala global, e Portugal forma talento que os mercados mais ricos absorvem. Reformar o Estado não é apará-lo nas margens, é reconcebê-lo para um mundo em que o capital humano é escasso, móvel e caro. Quem reduz isto a um exercício de eficiência administrativa não compreendeu o problema.
Todas estas pressões convergem no ponto mais sensível da soberania: a defesa. Uma nação sem jovens bastantes para guarnecer as suas estruturas de segurança não tem alternativa à modernização tecnológica nem à reforma que antecipa o futuro em vez de o sofrer. A premência tem nome e tem data. A guerra na Ucrânia e os conflitos no Médio Oriente não ilustraram tendências: confirmaram rupturas. As Forças Armadas, a doutrina e o paradigma de há dez anos deixaram de ser viáveis na guerra moderna. Portugal conta hoje na ordem dos 25 mil efectivos, menos quase seis mil do que há uma década, e cumpre finalmente os 2% do PIB em defesa. Mas o atraso pode, paradoxalmente, jogar a nosso favor: o desinvestimento profundo deixou as Forças Armadas livres do peso morto de sistemas de comando e controlo obsoletos que, noutros países, travam a modernização. Quem pouco tem para substituir salta directamente para o estado da arte, como Portugal saltou para o Multibanco e a Via Verde sem gerações intermédias. A mesma lógica vale para os sistemas autónomos, os drones e a inteligência artificial. A escassez, bem administrada, converte-se em vantagem.
Resta dizer onde se exerce esta soberania. Não no isolamento, mas num quadro europeu que a limita e amplia. Portugal já não governa sozinho a política migratória, as regras orçamentais ou a arquitectura da defesa, partilhadas entre Bruxelas e a NATO. Não é perda de soberania: é a forma que ela passou a assumir. A soberania inteligente de um país da nossa dimensão não está em simular autonomia plena, mas em concentrar capacidade própria onde ela conta: o Atlântico; a língua; a charneira entre a Europa e o mundo lusófono. O resto exerce-se em coligação. Quem se obstina numa soberania formal e total, sem escala que a sustente, não é soberano. É apenas impotente com boa aparência.
Nada disto é fatalidade. Tudo isto é escolha. O nó português não se desata com paliativos demográficos nem com adiamentos tácticos: desata-se com rupturas em três frentes que conhecemos há muito e há outro tanto adiámos. Uma demografia que valorize quem fica. Uma economia reindustrializada pela tecnologia. Uma defesa à altura da guerra que já chegou. São escolhas politicamente onerosas e estrategicamente inevitáveis. A distância entre uma nação soberana e uma nação administrada por terceiros mede-se pela coragem de as fazer a tempo. E o nosso tempo esgotou-se.