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Autoridade Nuclear investiga possível vazamento no Ipen

12 June 2026 at 12:43

A ANSN (Autoridade Nacional de Segurança Nuclear) investiga uma possível contaminação e vazamento de material radioativo que teria ocorrido no dia 29 de maio no Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares), localizado na Cidade Universitária da USP (Universidade de São Paulo), na capital paulista.

A ANSN, que afirma ter tomado conhecimento dos fatos por meio de uma denúncia anônima, informou que foram solicitadas informações ao Ipen para verificação dos fatos relatados e que a investigação está ocorrendo, mas ainda não há outras informações a serem divulgadas. A USP, responsável pelo campi da Cidade Universitária, o Ipen e a CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) não responderam às tentativas de contato do Estadão.

Em nota, a ANSN esclarece ainda que a radiofarmácia do Ipen tem autorização de operação vigente e informa que expediu notificação para o instituto, com prazo até a próxima quinta-feira, 18 de junho, com dois conjuntos de solicitações: o primeiro conjunto diz respeito à manutenção das condições de licenciamento da instalação, como previsto na regulamentação; e o segundo conjunto tem pedidos de esclarecimentos em relação à denúncia recebida pela autoridade sobre o possível vazamento.

“A notificação garante à instalação o exercício do contraditório e da ampla defesa, sendo que eventuais medidas adicionais dependerão da análise técnica das informações e documentos apresentados pelo Ipen”, diz o comunicado da ANSN.

O Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal no Estado de São Paulo (Sindsef-SP) e a Associação dos Servidores do Ipen (Assipen) informaram terem encaminhado pedidos de informações sobre o caso e sobre quais foram as providências tomadas às direções do Ipen e da CNEN após o início dos relatos da contaminação.

Em nota divulgada em seu site oficial, o Sindsef-SP relatou que, segundo informações preliminares, a situação teria exigido procedimentos emergenciais de descontaminação radiológica, retenção de roupas utilizadas pelos trabalhadores envolvidos, inclusive terceirizados, e atuação da equipe de Proteção Radiológica para controle da situação.

De acordo com o sindicato, parte dos procedimentos de descontaminação teria ocorrido em locais não destinados especificamente para esse tipo de atendimento, o que levanta preocupações se a infraestrutura disponível é adequada e sobre o cumprimento dos protocolos de segurança exigidos para atividades com materiais radioativos.

No texto, o Sindsef-SP atribui o incidente a cortes no orçamento, redução no quadro de pessoal e deficiências na gestão, e alerta que os servidores que trabalham direta e permanentemente com materiais ou substâncias radioativas estão com exames médicos específicos atrasados em mais de um ano. O órgão também cobra apuração e divulgação das informações sobre o que teria ocorrido em 29 de maio.

Renováveis: variáveis, não intermitentes

9 June 2026 at 08:15

O apagão de 28 de abril de 2025 colocou a segurança de abastecimento elétrico no centro do debate público. Após a divulgação dos relatórios técnicos finais de investigação, importa analisar as suas causas com rigor e retirar as conclusões corretas.

O sistema elétrico exige um equilíbrio constante e em tempo real entre geração e consumo. Qualquer desvio afeta a frequência nominal da rede – na Europa, os 50 Hz – podendo desencadear atuações automáticas dos sistemas de proteção e, em situações extremas, provocar o colapso em cascata.

Foi o que aconteceu a 28 de abril. O painel de peritos da ENTSO-E concluiu que o apagão resultou de uma combinação de fatores: oscilações na rede, lacunas no controlo de tensão e de potência reativa, e uma rápida sequência de desligamentos de geradores em Espanha. Além disso, os conversores de eletrónica de potência dos geradores espanhóis não reagiram adequadamente às variações de tensão – uma falha de requisitos técnicos que o operador de rede espanhol deveria ter acautelado. Importa sublinhar: o relatório não atribui a causa do apagão às renováveis enquanto tecnologia. Identifica antes falhas de operação e de comportamento de equipamentos em condições específicas de rede.

Por outro lado, o apagão deu munições a quem tenta associar as renováveis à instabilidade elétrica. Convém clarificar: as renováveis não são intermitentes. São variáveis no tempo. A diferença é fundamental. “Intermitente” descreve algo que funciona em modo “tudo ou nada”, que liga e desliga de forma abrupta – como um pisca-pisca. “Variável” descreve algo cuja produção oscila de forma gradual e previsível, acompanhando os ciclos do vento e do sol. A geração solar e eólica enquadra-se na segunda categoria: a sua curva de produção é antecipável com crescente precisão e incorporada no planeamento diário da rede.

Quem é genuinamente intermitente? A geração nuclear. Uma central nuclear opera em modo de carga base: está ligada ou está desligada. Não modela a sua produção em função da procura. Uma paragem não planeada retira instantaneamente do sistema blocos superiores a 1.000 MW – uma perturbação de enorme magnitude para uma rede da dimensão da portuguesa. Aliás, durante o próprio apagão de 28 de abril, as centrais nucleares espanholas foram as primeiras a ser desligadas por razões de segurança e não serviram para o black start. Esse papel coube a uma central de ciclo combinado a gás (Tapada do Outeiro) e a uma hidroelétrica (Castelo de Bode) do lado português.

No entanto, a integração de fontes renováveis variáveis exige gestão mais sofisticada – não a substituição por tecnologias do século XX. O portfólio de geração combina fontes complementares: a hidroeletricidade armazenada nas albufeiras (altamente despachável), a eólica e solar (variáveis mas previsíveis, com custo marginal nulo), o armazenamento em baterias (resposta quase instantânea) e o gás natural em ciclo combinado (flexível, essencial na transição).

A gestão da rede opera em vários níveis: planeamento de longo prazo, para garantir que o portfólio cobre os cenários de variação renovável; gestão diária, ajustando produção e consumo e ativando reservas; mercado de serviços auxiliares, onde a flexibilidade tem valor económico crescente; e manutenção preditiva, apoiada em ferramentas digitais de apoio à decisão. A estas acrescem a flexibilidade do lado da procura – consumidores que adaptam o seu consumo à disponibilidade de geração -, a geração distribuída e as micro-redes. O Grupo de Aconselhamento Técnico criado em Portugal após o apagão sublinhou ainda a urgência de implementar conversores com inércia sintética (grid-forming), que emulam o comportamento estabilizador das massas girantes dos geradores convencionais. Estas tecnologias existem e são implementáveis.

Perante o debate sobre Energia Nuclear em Portugal, importa ser direto: a geração nuclear não resolve os desafios de integração de renováveis – agrava-os. Os custos de construção dispararam (Flamanville e Hinkley Point C são exemplos de derrapagens que tornaram o nuclear a fonte mais cara do mercado europeu). Portugal não tem o know-how técnico nem a cadeia de fornecimento necessária. Os resíduos de alta atividade continuam sem solução definitiva. E a sua intermitência real – paragens abruptas de grande capacidade – seria uma ameaça séria à estabilidade do Sistema Elétrico Nacional.

O apagão foi um aviso sobre a necessidade de adaptar operação e regulação à crescente penetração renovável. Não foi um argumento contra as renováveis. A Agência Internacional de Energia é clara: a segurança elétrica depende não apenas da geração, mas da qualidade da operação da rede e do comportamento de todos os ativos conectados.

Para descarbonizar a economia portuguesa – eletrificando transportes, aquecimento e processos industriais – não há alternativa à expansão das renováveis. São as mais baratas, as mais rápidas de instalar e as mais abundantes no território nacional. O desafio está em construir, em paralelo, as infraestruturas, os mercados e as ferramentas de operação que permitam gerir essa variabilidade com robustez e segurança.

É esse o caminho. Não o pisca-pisca.

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