Eurasia: Cenário externo, com guerra e inflação, pode ser um risco à Lula
O cenário internacional, marcado por tensões no Oriente Médio, pela desvalorização do real e pelo fenômeno climático El Niño, pode representar um risco significativo à trajetória de recuperação da aprovação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A avaliação é de Christopher Garman, diretor-executivo do Eurasia Group, ao WW.
Para Garman, fatores externos que fogem ao controle de qualquer governo podem se traduzir em pressão inflacionária no Brasil, afetando diretamente o custo de vida da população e, consequentemente, a percepção sobre o governo.
Guerra no Oriente Médio e impacto econômico
Garman destacou que as tensões entre Estados Unidos e Irã colocam em dúvida o que pode acontecer no Estreito de Ormuz, com potenciais consequências para a economia mundial e para vulnerabilidades do agronegócio brasileiro.
“Um risco que ele não controla, mas existe”, afirmou o especialista ao se referir à possibilidade de um choque inflacionário global nos próximos meses.
“Podemos ter o Estreito de Ormuz fechado por pelo menos mais um mês nas nossas contas, chegando a quase dois meses, e podemos ter uma retomada de hostilidades”, disse.
Esse cenário, na avaliação dele, pode gerar um choque inflacionário global de maior magnitude.
Câmbio, El Niño e pressão sobre os preços
O especialista também chamou atenção para a desvalorização do real, que passou de cerca de R$ 4,90 para R$ 5,20 por dólar.
Garman atribuiu esse movimento à maior atividade inflacionária nos Estados Unidos, que reduz a expectativa de corte de juros pelo Federal Reserve, combinada ao conflito no Oriente Médio.
“Então é um câmbio mais desvalorizado com um conflito no Oriente Médio se deteriorando”, apontou.
A esses fatores, Garman ainda acrescentou a possibilidade de o El Niño afetar o Brasil.
“Você pega todos esses fatores e eu diria que um risco para a campanha do presidente Lula é que o custo de vida fique mais elevado e o preço de alimento suba”, afirmou.
Por isso, segundo ele, é difícil cravar que a recuperação da aprovação de Lula continuará.
Pessimismo e desencanto político
Além dos riscos externos, Garman destacou um dado que chama sua atenção nas pesquisas recentes: um profundo grau de pessimismo da população.
De acordo com ele, pesquisa da Genial/Quaest revelou que 40% da população prefere um candidato que não seja nem Lula nem Bolsonaro, refletindo uma percepção de que o país está na direção errada.
No entanto, o especialista pondera que esse desencanto ainda não se traduz em intenção de voto para outros candidatos, simplesmente porque eles não são conhecidos pelo eleitorado.
“Só vamos descobrir mesmo na campanha, quando esses candidatos podem se apresentar”, disse Garman.
Para ele, a possibilidade de um terceiro candidato chegar ao segundo turno está sendo subestimada, dado o nível de desencanto observado.

