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Kiev luta para trazer de volta crianças ucranianas enviadas para a Itália

Quando a diretora de um abrigo infantil ucraniano, Liubov Rudyka, levou as crianças sob seus cuidados para Nápoles, após a invasão russa, acreditou que estava levando os menores para um lugar seguro. Nunca imaginou que a Itália pudesse não querer devolvê-los. No entanto, quatro anos depois, o retorno dessas crianças se transformou em uma batalha judicial.

Autoridades ucranianas informaram à CNN que várias das crianças evacuadas para a Itália com Rudyka estão entre dezenas de menores ucranianos cujo retorno ao país foi impedido pelos tribunais italianos.

A disputa ganhou força em abril, quando Kiev anunciou que uma das crianças ucranianas, um adolescente de 15 anos chamado Sasha, havia sido legalmente adotado por uma família italiana, apesar de ter uma mãe que deseja seu retorno à Ucrânia.

Kiev argumenta que as evacuações foram planejadas como uma medida temporária e que, embora a guerra continue, a situação se estabilizou em algumas regiões do país, onde existem locais seguros para o retorno das crianças.

A principal preocupação do governo ucraniano é que, quanto mais tempo essas crianças permanecerem no exterior, menores serão as chances de que retornem no futuro, uma perspectiva preocupante para um país que já enfrenta uma grave crise demográfica.

O representante de direitos humanos da Ucrânia, Dmytro Lubinets, disse à CNN que a Itália está se recusando a cooperar com Kiev sobre o caso e está impedindo as autoridades ucranianas de verificar o bem-estar das crianças.

“Continuamos enviando solicitações oficiais e os representantes italianos nos dizem que o judiciário é completamente independente e que não podem influenciar essa decisão. Mas eu exijo que eles intervenham”, afirmou ele à CNN, chegando a comparar a situação aos casos de milhares de crianças ucranianas que teriam sido deportadas ilegalmente para a Rússia. O Kremlin nega isso e afirma que evacuou crianças ucranianas para sua própria segurança.

“A atitude (da Itália) é, na verdade, não diferente da posição da Rússia… eles levaram nossas crianças e estão nos negando acesso a elas”, disse ele.

A CNN entrou em contato diversas vezes com o governo italiano, com o representante italiano para crianças e adolescentes, com a Comissão para Adoção Internacional e com o tribunal que decidiu pela adoção para pedir comentários. Todos se recusaram a se manifestar, citando leis de privacidade envolvendo menores de idade.

O abrigo infantil administrado por Rudyka ficava em Sumy, uma cidade no norte da Ucrânia que ficou quase completamente cercada por tropas russas nos primeiros dias da invasão em larga escala, no início de 2022.

Segundo Rudyka, uma instituição de caridade que anteriormente organizava férias para as crianças a contatou com uma oferta para evacuá-las para a Itália. Ela fez a viagem para a cidade de Nápoles, no sul da Itália, no verão de 2022, acompanhada das 25 crianças sob seus cuidados.

“Pensei que seria como um acampamento de verão: as crianças passariam um tempo na Itália e depois voltariam”, disse Rudyka à CNN. “Mas então, após cerca de três semanas, talvez um mês, as crianças começaram a ser designadas a tutores legais italianos”, acrescentou.

Crianças do orfanato de Sumy fotografadas durante o envio para a Itália • Liubov Rudyka

Embora Rudyka fosse a guardião legal das crianças segundo a lei ucraniana, as autoridades italianas não a reconheceram como tal. Em vez disso, conforme confirmou a reportagem da CNN, elas trataram as crianças como menores desacompanhados, concederam-lhes status de refugiado e designaram novos tutores.

Essa abordagem tem base na lei italiana. Roma reforçou as proteções legais para crianças refugiadas durante a crise migratória europeia há uma década. Entre outras medidas, foi introduzida uma proibição de devolver ou remover qualquer criança desacompanhada da Itália, salvo ordem judicial em circunstâncias excepcionais.

Isso significou que a Ucrânia foi essencialmente excluída de tomar qualquer decisão sobre o destino das crianças evacuadas.

Rosa Emanuela Lo Faro, advogada italiana que representa alguns dos menores, disse à CNN que, em alguns casos, as crianças ficaram completamente isoladas de suas vidas na Ucrânia. “Havia uma proibição de comunicação com (seus) tutores na Ucrânia, amigos ucranianos, todo o povo ucraniano. A criança só podia se comunicar com seus tutores italianos, e só isso”, afirmou.

Lo Faro trabalhou com as autoridades ucranianas e conseguiu que algumas decisões de tutela fossem revertidas pela Suprema Corte de Cassação italiana, mas disse à CNN que a situação continua muito complicada.

Ela disse que, em alguns casos, famílias de acolhimento que desejavam adotar as crianças pressionaram as autoridades.

“(Elas argumentam) que elas estão melhor aqui, que estão bem aqui e que, se voltarem para a Ucrânia, (teriam) guerra em vez disso”, disse ela. “Por favor, deixem as crianças aqui até o fim da guerra”

Quando um grande grupo de órfãos ucranianos chegou a Rota d’Imagna, um pequeno município na região da Lombardia, no norte da Itália, em 2022, o professor local Diego Mosca ajudou a colocá-los em escolas e começou a organizar atividades de fim de semana e férias para eles. Ele contou com a ajuda de sua prima, Michela Noris.

“Meu marido e eu não temos filhos, mas queríamos dar um pouco de alívio a essas crianças, para que elas pudessem ter bons momentos fora das instituições. Então dissemos: ‘ok, podemos tentar acolher’”, disse ela à CNN.

Noris disse que começaram com um menino de 11 anos, mas depois acolheram a irmã dele e outras crianças. “No fim, acolhemos algo como 10, 12 crianças e tivemos que criar um sistema de rodízio”, contou ela à CNN.

O programa funcionou bem — até o verão de 2024, quando a equipe ucraniana que havia vindo com as crianças anunciou que retornaria ao país.

Noris e as outras famílias envolvidas no acolhimento ficaram horrorizadas. Ela iniciou uma petição pedindo que o melhor interesse das crianças fosse considerado, o documento reuniu mais de 18.000 assinaturas. “Não queremos as crianças aqui na Itália para sempre. Nós só dissemos: ‘Olhem, sabemos que a situação na Ucrânia é terrível. A guerra ainda está em andamento. Por favor, deixem as crianças aqui até o fim da guerra e depois as levem de volta’.”

Disputa internacional

Sasha tinha apenas 10 anos quando um tribunal na Ucrânia decidiu que ele e suas duas irmãs seriam retirados dos cuidados dos pais devido a uma situação familiar difícil, segundo documentos judiciais. Os três irmãos viviam no abrigo infantil em Sumy quando a guerra começou e estavam entre as 25 crianças que viajaram para a Itália com Rudyka.

Os pais de Sasha não perderam os direitos parentais quando o tribunal retirou as crianças de sua guarda, segundo a decisão.

A CNN não está divulgando o sobrenome da família para proteger sua privacidade. Rudyka disse que a expectativa era que as crianças retornassem aos pais quando a situação em casa melhorasse, mas a invasão impediu que isso acontecesse.

Em 2023, à medida que ficou claro que a guerra não terminaria rapidamente, as autoridades ucranianas decidiram trazer as crianças de volta ao país, encontrando lares mais seguros para elas no oeste da Ucrânia. Rudyka encontrou um local para as crianças em Ternopil, no oeste do país.

O consulado ucraniano em Nápoles começou a apresentar pedidos de retorno às cortes italianas. Mas, como Rudyka logo descobriu, os processos judiciais eram conduzidos separadamente para cada criança, com resultados às vezes muito diferentes.

“Por isso acabou acontecendo que algumas crianças voltaram, enquanto outras permaneceram. Até hoje, ainda temos cinco crianças na Itália”, disse Rudyka à CNN.

As duas irmãs de Sasha puderam retornar à Ucrânia, mas, no caso dele, os tribunais decidiram contra seu retorno e, em abril, aprovaram sua adoção pela família italiana que o acolhia desde 2022.

Ainda com apenas 15 anos, o menino agora está no centro de uma disputa internacional.

Um porta-voz da agência da ACNUR, o braço da ONU para refugiados disse à CNN que a posição oficial da organização é que, dada a guerra, os retornos à Ucrânia devem ocorrer apenas de forma voluntária e somente se forem considerados pelo país anfitrião como estando no melhor interesse da criança.

Lo Faro afirmou que os tribunais juvenis italianos, com apoio de psicólogos infantis, devem levar em consideração a opinião das crianças ao tomar decisões. No entanto, ela observou que isso é especialmente complexo no caso de crianças ucranianas que chegaram à Itália muito jovens e lembram pouco de sua vida na Ucrânia.

“É óbvio que elas dizem o que a família italiana quer, porque esqueceram o que faziam na Ucrânia, até a língua e os costumes, e acabaram adotando todos os hábitos italianos, claro”, disse ela.

Não está claro o que Sasha quer, a CNN não conseguiu entrar em contato com ele. Segundo Lo Faro, ele consentiu com a adoção. No entanto, sua família disse que ele lhes contou que queria voltar para a Ucrânia, enquanto Rudyka afirmou à CNN que, quando perguntou o que ele queria, ele disse que não sabia.

Mosca, o professor que coordenou o programa em Rota d’Imagna, disse que muitas das crianças sob seus cuidados parecem divididas, vivendo “com metade do coração de um lado e metade do coração do outro”.

O pai de Sasha, um soldado ucraniano que luta na guerra, está oficialmente desaparecido em combate desde 2025. Sua mãe, Natalia, disse à CNN que quer que Sasha volte a viver na Ucrânia; as autoridades ucranianas a apoiam. Ela acredita que ele foi impedido de se comunicar com sua família na Ucrânia.

“Eu lhe enviei meus melhores votos (de aniversário), mas não o deixam falar com ninguém: nem comigo, nem com suas irmãs, nem com ninguém”, disse ela à CNN.

A CNN pediu detalhes ao tribunal de menores de Lecce, que analisou o caso. O tribunal se recusou a comentar, citando razões legais.

Lo Faro disse que agora está tentando bloquear a adoção de Sasha, com uma audiência marcada para o final deste mês.

Irmãos tentam se reunir

Segundo as autoridades ucranianas, mais de 4.800 crianças foram retiradas de escolas e lares institucionais da Ucrânia para vários países europeus em 2022. Algumas eram órfãs, enquanto outras, como Sasha e suas irmãs, haviam sido colocadas sob cuidados do Estado.

Lubinets, o representante de direitos humanos da Ucrânia, disse à CNN que atualmente há mais de 300 crianças cujo retorno à Ucrânia está sendo impedido por autoridades locais, a maioria delas na Itália, Alemanha e Áustria.

Volodymyr Ivanyuta, que foi nomeado pelo governo ucraniano para representar algumas das crianças ucranianas na Itália, disse que, com o tempo, tem visto os tribunais italianos decidirem cada vez mais contra o retorno das crianças à Ucrânia, independentemente da situação de cada uma.

“Temos crianças vivendo com uma família que faz (de tudo) para impedir seu retorno”, disse ele. “Depois, há crianças sob nossos cuidados que estão em abrigos infantis, sem pessoas específicas interessadas nelas, e ainda assim essas crianças também não têm permissão para retornar (pelos tribunais italianos).”

Os irmãos mais novos de Ivan estão entre essas crianças.

Ivan, hoje com 20 anos, e seus quatro irmãos foram colocados sob cuidados do Estado em 2017 porque sua mãe tinha dificuldades para cuidar deles.

Quando a guerra em larga escala começou, os três irmãos mais novos foram evacuados para um abrigo infantil em Modica, na Sicília, onde dois, que ainda são menores de idade, permanecem; o terceiro agora vive sozinho na Itália, disse Ivan.

“As condições de vida deles são mais ou menos normais; eles estão sendo alimentados, mas, no geral, não gostam muito de lá”, disse Ivan, que atualmente está na Alemanha e tenta reunir os irmãos novamente, referindo-se aos irmãos no abrigo infantil. “Perguntei a eles se queriam voltar para a Ucrânia. Eles disseram que sim.”

Ivan afirmou que, embora possa se comunicar com os irmãos mais novos, seus pedidos de visita foram negados pelos responsáveis. “É uma situação terrível… ainda não entendo os motivos”, disse ele.

A direção da instituição se recusou a comentar o caso à CNN, citando questões de privacidade.

Ivan não pretende desistir — e tem mantido contato com várias organizações sem fins lucrativos que o ajudam a definir os próximos passos. “Os italianos estão decidindo o destino da minha família, dos meus irmãos, e nem sequer me deixam vê-los”, disse ele.

Noris disse que ainda sente falta das crianças que deixaram sua cidade no norte da Itália, preocupando-se frequentemente com a segurança delas. “Levamos dois deles para o litoral por três dias e eles ficaram muito animados”, disse ela. “Eles não precisavam de nada especial, não precisavam de festas, não precisavam de dinheiro, eles só precisavam — e ainda precisam — de atenção, da atenção de pessoas que cuidem deles. Isso era a única coisa de que precisavam.”

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