Normal view

Limitações logísticas do agro brasileiro custam US$ 14 bi, diz USDA

18 June 2026 at 11:08

O crescimento da produção agrícola brasileira na próxima década dependerá menos da abertura de novas áreas e mais da capacidade do país de expandir sua infraestrutura logística. A avaliação consta de relatório divulgado nesta semana pelo adido do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) em Brasília, que identifica gargalos em armazenagem, transporte e escoamento como os principais fatores capazes de limitar a expansão do agronegócio brasileiro até 2034.

O documento destaca que a agricultura brasileira avançou para novas fronteiras produtivas no Centro-Oeste e no Norte do país em ritmo superior ao da expansão de rodovias, ferrovias, portos, hidrovias e estruturas de armazenagem. Como resultado, ineficiências logísticas já representam aproximadamente 30% dos custos de produção agrícola no país. Mais de 60% da malha rodoviária apresenta algum tipo de deficiência operacional.

Segundo o USDA, o impacto econômico dessas limitações alcançou cerca de US$ 14 bilhões em 2025, refletido em custos adicionais de frete, congestionamentos portuários, restrições de armazenagem e prêmios logísticos cobrados ao longo da cadeia.

Produção cresce mais rápido que a infraestrutura

A preocupação surge em um momento de forte expansão da agricultura brasileira. Em 2025, o país exportou US$ 169 bilhões em produtos agropecuários, com a China respondendo por 33% desse total, equivalente a US$ 55,2 bilhões. União Europeia e Estados Unidos vieram na sequência, com participações de 15% e 7%, respectivamente.

As exportações do complexo soja cresceram de 19 milhões de toneladas em 1997 para 133 milhões de toneladas em 2025. No mesmo período, as exportações de milho e derivados avançaram de 379 mil toneladas para 41 milhões de toneladas.

O relatório aponta, porém, que a infraestrutura não acompanhou essa expansão. A capacidade de armazenagem de grãos cobre apenas entre 60% e 70% da produção nacional. Nos Estados Unidos, a capacidade equivale a cerca de 150% da produção anual.

O déficit nacional de armazenagem alcança  134 milhões de toneladas, segundo o USDA, com dados de 2024.

O órgão americano cita dados da Cogo Consultoria que calcula que seriam necessários cerca de R$ 140 bilhões em investimentos para eliminar essa diferença.

A situação é particularmente crítica no Centro-Oeste. A região projeta déficit de armazenagem de 87 milhões de toneladas em 2026. No Matopiba — fronteira agrícola formada por áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — o déficit se aproxima de 60%. Em Rondônia, pode chegar a 70%.

Dependência das rodovias pressiona custos

No que diz respeito ao transporte, o relatório do órgão americano observa que uma frota de cerca de 130 mil caminhões seria suficiente para transportar a safra brasileira durante a maior parte do ano. Nos períodos de pico, porém, limitações de armazenagem e congestionamentos em portos, ferrovias e hidrovias elevam a necessidade para mais de 200 mil veículos.

Mais de 95% dos armazéns brasileiros dependem prioritariamente do transporte rodoviário para recebimento e expedição de cargas.

O documento cita dados da EsalqLog e da CNA que indicam menos de 20% da capacidade de armazenagem do país dentro das propriedades rurais.

Licenciamento e burocracia atrasam projetos

Apesar do interesse privado, o USDA aponta dificuldades para transformar investimentos anunciados em infraestrutura operacional. “O processo de autorização de novos terminais envolve licenciamento ambiental, cessão de áreas, aprovações navais, licenças estaduais e autorizações municipais. Entre 2013 e 2019, 70 autorizações para terminais foram concedidas. Dessas, 21 não entraram em operação dentro do prazo legal de cinco anos,” diz o texto.

Os principais obstáculos identificados foram questões ambientais, responsáveis por 27% dos casos, seguidas por dificuldades financeiras e entraves jurídicos, cada um com 14%.

O relatório também menciona atrasos em licenciamentos ambientais, ineficiências administrativas e gargalos regulatórios como fatores que continuam limitando a expansão dos terminais privados.

Ferrovias avançam, mas participação ainda é limitada

O USDA considera a expansão ferroviária um dos principais instrumentos para redução dos custos logísticos brasileiros. Segundo o órgão, o transporte ferroviário de longa distância reduz os custos de frete entre 15% e 25% em comparação com o transporte rodoviário.

A rede ferroviária concedida soma atualmente 30.808 quilômetros. Embora o minério de ferro responda por 72% da carga transportada, soja e farelo já representam 8%, enquanto o milho responde por 6%.

Entre os projetos considerados estratégicos pelo USDA estão a Ferrovia de Mato Grosso, a Nova Ferroeste, a Ferrovia Norte-Sul e a Ferrogrão. Esta última, em fase de estudos, prevê uma ligação de 933 quilômetros entre Sinop (MT) e Miritituba (PA), criando uma alternativa à BR-163 para acesso aos portos do Arco Norte.

Hidrovias enfrentam restrições climáticas

O documento dedica atenção especial às hidrovias amazônicas, consideradas fundamentais para a competitividade das exportações brasileiras. Entre 2010 e 2023, a participação do transporte hidroviário na movimentação de produtos agrícolas passou de 8% para 13%.

Os rios Madeira, Amazonas e Tapajós se consolidaram como corredores logísticos relevantes para o escoamento da produção do Centro-Oeste. No entanto, períodos de seca, restrições de calado e dificuldades de navegação vêm gerando custos adicionais.

O USDA cita a cobrança de sobretaxas de estiagem por empresas de navegação e menciona limitações estruturais na hidrovia Barra Norte, responsável por grande parte das cargas que saem de Barcarena, no Pará.

Em fevereiro deste ano, caminhões chegaram a enfrentar filas de até 40 quilômetros nos terminais fluviais de Miritituba, em razão de limitações de acesso e gargalos operacionais.

Agro vê perda de influência do Ministério em pautas estratégicas

17 June 2026 at 19:36

A poucos dias do anúncio do Plano Safra 2026/27, cresce nos bastidores do agronegócio a avaliação de que o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) tem dificuldade para avançar justamente nas pautas consideradas mais urgentes para o setor.

O descontentamento não se restringe a produtores rurais e entidades representativas. Parlamentares, integrantes do governo e servidores da própria pasta relatam frustração com a falta de respostas para temas que hoje dominam a agenda do campo.

Entre eles, a renegociação das dívidas rurais de produtores afetados por sucessivas quebras de safra e os recentes cortes no orçamento do PSR (Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural) — medida que inclusive levou deputados a articularem a convocação de ministros para prestar esclarecimentos.

Nos bastidores, a principal crítica não é necessariamente dirigida ao ministro André de Paula, mas ao grupo responsável por cercá-lo.

A avaliação de diferentes interlocutores ouvidos pela reportagem é que auxiliares do ministro passaram a exercer um papel excessivamente centralizador, criando filtros para o acesso ao chefe da pasta.

Nesse contexto, o entorno estaria mais concentrado em blindar sua imagem e controlar a comunicação política do que em construir soluções para os problemas enfrentados pelo agro.

No entanto, as críticas não se restringem aos assessores. Representantes do setor afirmam que características atribuídas atualmente à gestão do Mapa já eram observadas durante a passagem de André de Paula pelo Ministério da Pesca e Aquicultura, cadeira que ocupou nos últimos três anos.

Há quem avalie que o ministro tem priorizado agendas institucionais e compromissos protocolares, enquanto temas que exigem enfrentamento junto ao Palácio do Planalto e à equipe econômica avançam em ritmo lento.

Outro lado

Essa percepção, porém, não é unânime. Interlocutores reconhecem que André de Paula assumiu o comando do Mapa há pouco mais de dois meses, em uma estrutura que já contava com equipes formadas e agendas em andamento.

Para aliados e integrantes do governo, o curto período no cargo ainda limita uma avaliação definitiva, e parte das críticas decorre apenas da complexidade atual dos temas enfrentados pelo agronegócio.

No entanto, o principal reflexo dessa centralização é a perda de espaço do Mapa nos debates estratégicos junto ao Palácio do Planalto e à equipe econômica, justamente quando o setor mais demanda articulação.

Como sinal dessa dificuldade de interlocução, fontes relatam que o ministério buscou uma audiência presencial entre o ministro André de Paula e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tratar de temas prioritários, incluindo a agenda internacional. O encontro, no entanto, não ocorreu antes do petista ir em missão oficial à Europa.

A alternativa passou a ser uma conversa por telefone, que, até a publicação desta matéria, não havia sido formalmente registrada.

Muita agenda e pouca solução

Diante do sumiço do protagonismo do ministro nas principais negociações em curso, a percepção de isolamento é reforçada pela comparação entre as demandas urgentes e a agenda pública divulgada pela pasta.

Desde que assumiu o comando da Agricultura, André de Paula se comprometeu em abrir as portas para representantes do setor, dialogar e ouvir — o que de fato vem acontecendo.

O ministério também tem destacado ações como aberturas comerciais — que já passaram de 600 —, o reconhecimento de todo o território brasileiro pela China e Rússia como área livre de febre aftosa sem vacinação, reuniões institucionais, encontros internacionais e discussões sobre cooperação multilateral.

Embora o setor reconheça a importância dessas iniciativas, interlocutores afirmam que elas são tímidas e não respondem aos problemas imediatos.

“A sensação é que há muita agenda e pouca solução”, resumiu uma fonte ligada ao setor sob condição de anonimato.

Diante da dificuldade de avançar em pautas complexas e estruturais — que envolvem desde as discussões com a União Europeia até a questão dos antimicrobianos —, parlamentares afirmam que passaram a levar ao ministério demandas mais pontuais e de menor desgaste político, como a revisão ou suspensão de normas específicas, como a “Portaria do Morango”, que foi publicada em fevereiro e suspensa na semana passada por 60 dias após forte reação do setor e de parlamentares.

Crise e desânimo nos bastidores técnicos

A insatisfação ecoa dentro da própria pasta. Segundo fontes com conhecimento das discussões internas, cresce a percepção de que decisões importantes travam por falta de coordenação e de definição clara de prioridades.

O cenário tem gerado desânimo entre as equipes técnicas, e já há servidores avaliando seus próximos passos e a permanência dentro da estrutura do ministério.

O resultado é um cenário de crescente desgaste. Produtores, parlamentares e representantes do setor afirmam que a cobrança sobre o ministério deve aumentar drasticamente nas próximas semanas, especialmente com a proximidade do anúncio do Plano Safra e a urgência por soluções para o endividamento rural.

❌