A ‘aldeia dos hobbits’ do Alto Minho só tem um habitante mas ainda se vai festejar o Santo António
Santo António, no alto de Val de Poldros, em Riba de Mouro (Monção), prepara-se para a festa. Este ano, o dia grande é já no sábado, dia 13, o mesmo em que se festeja por toda a Lisboa.
Cá em cima, na ‘aldeia dos hobbits’, como é popularmente conhecida, o santo não perde poder de intercessão, mas mais do que casamenteiro ou namoradeiro, é advogado das coisas e causas perdidas. Desde o gado no monte às mais comezinhas – um baraço do carro de vacas ou uma enxada, perdida desde a sementeira –, vale tudo para apelar ao santo.
Agora, é momento de reflexão e de louvar. A um dia do início das celebrações, junto à capela, os homens da empresa de montagem de arcos e iluminação começam a levantar as estruturas. Na capela, João Alves, de 72 anos, mesário há quatro, natural de Riba de Mouro, garante que o templo está preparado para as celebrações que vão encher o espaço vernacular no sábado e domingo.
Este ano, os mesários – João Alves, João Alípio, José António e Cedric Pinto – providenciaram para que fosse comprada uma imagem de Nossa Senhora da Orada (padroeira dos Bombeiros e celebrada em Melgaço) de dimensões mais razoáveis para colocar no andor, “de 60 centímetros de altura”, avança João Alves.

Durante muito tempo, fazia-se o clamor a Nossa Senhora da Orada. Foi colocada uma réplica na capela de Santo António (muito parecida com a de Melgaço, diga-se em reconhecimento do artista) há muitos anos, mas a imagem venerada exigia um esforço hercúleo aos homens que a levavam no andor, a cada dia de festa. A partir deste ano, a imagem que sai é a nova, mais leve e mais pequena, e as ‘joias’ deste altar da montanha permanecem no templo.
Limpo e de relva cortada, o espaço em torno da capela, emoldurado de um dos lados por uma fileira de quartéis onde os romeiros pernoitavam, assemelha-se a São João d’Arga pela rusticidade da moldura. Contudo, os conhecedores do património religioso alto-minhoto poderão ir buscar-lhe outras tantas referências a templos que se refugiam no alto da serra e criam aí um certo habitat de devoção e particular comunhão com a natureza envolvente.
Um dos devotos é Fernando Fernandes, natural de Fundegos (Riba de Mouro). Junto a uma cardenha emprestada por um amigo, reforçava com lenha uma fogueira improvisada num grelhador, onde um pote de ferro fervia a todo o vapor. Dentro, chouriça, um naco de carne de vaca, outro de porco, os chispes… O resto que é devido a um cozido, é deitado depois de cozidas as carnes.


A esposa, Lurdes, natural de Vila Real, de um olho no pote e outro no ‘smartphone’ – onde a falta de cobertura de rede não deixava aceder ao Facebook para mandar fotos nem pesquisar a página d’O MINHO para “pôr like” e ficar atenta ao momento em que este texto sair -, assistia também às tarefas de Fernando, mais experiente na vida da branda e que, entre dois goles de rosé de Favaios, providenciava o necessário para manter o pote na fervura.

Num momento ia à lenha, no seguinte ia à fonte buscar água para reforçar o cozido, que o pote, cercado de chamas, fazia ferver até lhe saltar o testo. “É assim que os potes devem ferver, assim é que eu gosto de ver”, diz Fernando.

“Sabe-me melhor uma sardinha aqui do que um bife na vila de Monção”, assume ainda o tornado brandeiro por uns dias. De sexta à noite até domingo, a branda de Val de Poldros, às portas do Parque Nacional da Peneda-Gerês, será a sua casa.

Mais acima, outro Fernando olha para a sua cozinha com mais tranquilidade. O histórico habitante da serra – o último residente de Val de Poldros, como tantas vezes foi referenciado em reportagens pelos media -, viu-se obrigado a descer à aldeia por motivos de saúde: uma perna a precisar de prótese na anca, à espera de cirurgia. Viveu uma temporada com a mãe, em Riba de Mouro.
“Nunca me atrapalhou estar sozinho aqui”, confessa Fernando Gonçalves a O MINHO, mas admite ser um desafio cada vez maior manter a porta aberta todos os dias.
“Estamos abertos durante a semana, mas o melhor é fazer marcação”, avisa. “Não tenho gente para trabalhar. É o meu grande problema, como o de muita gente.”

Nos feriados e fins de semana, conta com mais duas ou três pessoas, a quem vai delegando a cozinha e o serviço de mesa. Continua a ser o garante da qualidade das carnes e do serviço que o tornaram referência na montanha: o costeletão, as carnes grelhadas, o cabrito (por encomenda), o bacalhau “e a simplicidade do serviço” continuam a valer a visita.
Espera um aumento de movimento nos dias 12, 13 e 14 de junho, se a meteorologia ajudar, e uns bons dias de romaria, mas recorda com saudosismo as ‘peregrinações’ de outros tempos. “Juntava muita gente; era uma festa muito famosa. Agora, como em todas as romarias, há muito menos gente. A população diminuiu”, observa.
Para os que não levarem merendeiro, o restaurante Val de Poldros é porto seguro para quem “quer uma comida diferente, uma comida daqui” – e os vinhos a preços de bom senso.

O preço do prato não será o mesmo de outrora, mas Fernando diz que foi o governo e as taxas a fazer toda a gente entrar em maior esforço.
“O bacalhau subiu, mas não é por causa da guerra, acho que os da guerra não estão a matar o bacalhau, esse vai por outro lado, passa por outro ‘estreito’. O problema são as taxas que temos de pagar”, atira.
Desanimado pelo problema de saúde que não o deixa mexer e fazer mais pela montanha, critica alguma imobilidade das entidades na preservação da branda e das suas características originais, para dar lugar a uma branda “imaginada por arquitetos”.

“Não há muito tempo fizeram um plano de pormenor, mas nesses planos escreve-se muito, põem-se muitas letras e diz-se pouco. Temos caminhos antigos aqui, que eram da branda, que se estão a eliminar para fazer outros, porque isto é tudo movido por interesses. Tem-se feito alguma coisa e já se limpam os caminhos, mas pouco mais. Tivemos um ex-presidente da Junta que ainda fez algo por isto, que se interessou, mas eu tive mais reconhecimento de Melgaço do que de Monção, porque Monção é vila e arredores”, considerou.
O gerente do restaurante que mantém a última das luzes acesas na branda a cada dia – em algumas das cardenhas ainda é preciso levar painel solar, como fez Fernando Fernandes, para utilizar à noite – diz não ter receio que alguns visados fiquem “chocados” e olha, a partir do seu miradouro sobre a serra, para as incongruências de projetos e até de inusitados percalços que acontecem em zona remota.
Um cruzeiro de pedra, logo abaixo do seu estabelecimento, está partido em três ou mais peças. Um choque de carro ou trator? Fernando Gonçalves admite que há ali algo mais que infelicidade na manobra: “Está assim há uma semana. Já no passado o partiram, uma semana antes [da festa de Santo António]; não sei se há alguém a quem isso interessa ou incomoda. O melhor será meter ali umas grades a protegê-lo”, atira ainda.

A sua luta é agora a preservação dos caminhos antigos da branda e para que os ‘ex-líbris’ do imobiliário daquela branda não vão mudando conforme o traço dos novos desenhadores.
Para já, a luz da branda continua acesa a receber quem precise de algo para beber num dia de passeio pela serra; mas, face à falta de pessoal e o desânimo de Fernando – que admite estar a lutar contra moinhos de vento -, quanto tempo durará?
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