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Morrer às comissões

12 June 2026 at 00:14

A compra do Novobanco pelo grupo francês BPCE é um acontecimento estrutural no sistema financeiro português. Não é apenas mais uma transação; é a entrada em força de um dos grandes grupos europeus num mercado que até aqui vivia entre os sonhos de consolidação doméstica e a dúvida existencial sobre o futuro de um dos seus principais bancos.

O BPCE é um peso‑pesado. Em ativos globais, joga numa divisão em que os bancos portugueses nem sequer vão ao sorteio: dezenas de vezes maior dimensão, diversificação internacional, acesso a mercados de capitais que permitem captar financiamento a custos que um banco médio português dificilmente consegue. Essa escala não é um número bonito em relatórios, é uma vantagem competitiva real: dá capacidade para financiar grandes projetos, apoiar internacionalização e acomodar ciclos económicos adversos sem entrar logo em modo de sobrevivência.

Para as empresas nacionais isto pode dar uma ajuda. Um banco integrado num grupo como o BPCE pode oferecer mais produtos de banca de investimento, soluções de financiamento estruturado, apoio à emissão de dívida e acesso a redes internacionais. Potencialmente, é a porta de entrada das PME mais ambiciosas num circuito de financiamento que não para em Lisboa. Ao mesmo tempo, esta é uma entrada em grande, não um ensaio tímido.

O Novobanco é o quarto maior banco português, não um nicho, e passa a ser tratado como segundo mercado doméstico do grupo. Isso significa alocar capital, talento e tecnologia com outra ambição, tal como se viu quando a JP Morgan reforçou a presença na Alemanha, uma novidade a ter em conta e um sério aviso aos europeus: traz ferramentas globais para um mercado onde a estrutura de custos já é mais baixa, mas as margens ainda são interessantes. Portugal, com uma rede bancária a emagrecer, torna‑se um alvo óbvio para um gigante com apetite.

Este movimento contrasta com o que os bancos nacionais estão a fazer: fechar balcões, reduzir equipas, cortar caixas Multibanco, e a levar os clientes para aplicações e canais digitais. A revolução que passa por resolver tudo através do digital, com o mínimo de fricção e o mínimo de contacto pessoal – já começou. A questão é saber quem tem músculo tecnológico e escala de dados para ganhar esse jogo? Um grupo como o BPCE entra com plataformas, modelos de risco sofisticados, experiência em mercados mais competitivos e capacidade de investimento que pode acelerar essa transição em Portugal, em vez de apenas a gerir em modo defensivo.

Claro que há um trauma que paira no ar: a herança do BES, as injeções públicas, os anos de incerteza e profunda desconfiança. Mas é precisamente por isso que esta entrada francesa é relevante. Não estamos perante mais um fundo oportunista à espera de vender caro daqui a cinco anos. O que chega é um banco europeu de referência, com balanço, escala e estratégia, que não vem experimentar Portugal – vem instalar‑se; na verdade já está no Porto, com uma operação de respeito. Num sistema bancário que parece fechar-se sobre si próprio, ter um novo protagonista com esta dimensão é talvez o primeiro verdadeiro sinal da grande mudança que aí vem.

A banca americana de retalho já começou a molhar o pé, o Revolut já cá está. Compete à banca nacional deixar finalmente de limpar as feridas e avançar com alguma ousadia. Em abril, a diferença entre os depósitos das empresas e os créditos empresariais já era de três mil milhões. Uma perfeita anormalidade. Viver de comissões é, talvez, morrer lentamente às prestações.

Sistemas bancários: de uma realidade fragmentada a uma visão global

11 June 2026 at 00:06

Ter experiência de trabalho em diferentes áreas de um banco ao longo dos anos dá-nos algo que dificilmente se aprende numa universidade: a perceção de que o sistema, visto de fora, parece um todo, mas olhando para dentro, é profundamente fragmentado. Foi essa experiência acumulada em diversas equipas e departamentos que me permitiu observar, com alguma clareza, um dos desafios mais persistentes do setor: a dificuldade em gerir a complexidade crescente dos sistemas bancários.

Contas, transferências, créditos ou cartões: ainda que operações tão distintas possam ser concretizadas por um único sistema bancário, raramente estes sistemas constituem conjuntos coesos de aplicações. São antes mosaicos sedimentados ao longo de décadas, onde cada camada representa uma época tecnológica diferente, refletindo decisões históricas que se traduzem agora em artefactos e redundâncias, e que exigem conhecimentos muito específicos da realidade de cada organização.

É neste seguimento e contexto que cada equipa tende a conhecer apenas uma parte do fluxo ou um conjunto de aplicações, criando visões inevitavelmente fragmentadas dos possíveis impactos de iniciativas que se querem transversais. Consequentemente, é esta perspetiva limitada que pode condicionar a escolha da melhor abordagem num projeto ou num processo de transformação tecnológica, aumentando a imprevisibilidade temporal e funcional.

Com a realidade bancária sob pressão constante para criar novos produtos, implementar mecanismos de controlo e cumprir regulamentações em simultâneo, torna-se evidente que a complexidade do sistema dificilmente será eliminada, mesmo após sucessivas vagas de transformação tecnológica. A complexidade tem, portanto, de ser compreendida e gerida proativamente (e não contornada).

Para isso, é possível construir gradualmente uma visão de sistema, combinando métodos tradicionais com práticas mais recentes e inovadoras, quer seja através da gestão do conhecimento, como do uso da arquitetura como ferramenta de compreensão ou da criação de equipas polivalentes.

Um ponto de partida incontornável é conhecer e compreender a história do sistema. Não apenas o seu funcionamento atual, mas a forma como evoluiu e que decisões fundamentais moldaram a sua construção. Esta visão mais integrada facilita a antecipação de impactos e a gestão da complexidade futura. Contrariamente, a ausência deste contexto histórico é, frequentemente, o que leva a subestimar consequências e a repetir erros antigos.

Igualmente relevante é desenvolver uma visão end-to-end do sistema, quer seja através de fluxos funcionais entre produtos e respetivos ciclos de vida, como de comunidades transversais que promovam a partilha entre equipas. Esta abordagem reduz interpretações locais e cria um entendimento mais consistente das interações associadas a determinadas operações. A visão transversal deve ser técnica, mas acima de tudo funcional, aproximando linguagens entre equipas que operam no mesmo fluxo de negócio mas que, muitas vezes, nem sequer partilham os mesmos termos.

Aplicando várias e distintas estratégias em conjunto, a visão deixa de ser local e passa a ser transversal. É essa mudança que permite transformar a complexidade inevitável em complexidade gerível, um fator determinante para que a inovação possa, de facto, simplificar processos e suportar a capacidade de crescimento de uma organização.

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