Presidente de Cuba vê risco de conflito armado com os EUA
O presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, disse que vê três possíveis cenários que o governo dos EUA está planejando para o futuro imediato do país: agitação social, diálogo coercitivo para assumir o controle da economia cubana ou conflito armado.
Ele fez essa declaração na última quinta-feira (4), em entrevista ao eldiario.es, cuja transcrição também foi publicada na segunda-feira (8) pelo governo cubano.
Díaz-Canel falou sobre a pressão que os Estados Unidos vêm exercendo sobre a ilha há meses, pressão essa que se intensificou nas últimas semanas com mais sanções, a acusação contra Raúl Castro e o risco de um possível ataque.
“Nunca ameaçamos ninguém. No entanto, a agressão contra Cuba está cada vez mais presente na retórica dos porta-vozes do governo dos EUA. Essa retórica está se intensificando cada vez mais”, disse o presidente em um extenso relatório publicado na quinta-feira.
A CNN enviou um pedido de comentário ao Departamento de Estado dos EUA sobre essas declarações do presidente cubano e aguarda uma resposta.
Tanto Donald Trump quanto membros de sua administração afirmaram em diversas ocasiões que a mudança de regime é necessária em Cuba, e o presidente americano chegou a não descartar a possibilidade de “assumir o controle” do país.
Na semana passada, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, referiu-se a Havana como “uma base de operações avançada para guerra irregular global” contra os interesses dos EUA.
Nesse contexto, segundo Díaz-Canel, o governo dos EUA está seguindo três cenários: primeiro, um de “estrangulamento econômico”, cujo objetivo é “provocar agitação social, e que essa agitação social lhes dê a oportunidade, sob o pretexto de ajuda humanitária, de intervir no país”.
A escassez de petróleo afetou Cuba desde que o país perdeu os carregamentos da Venezuela, seu principal fornecedor, e os EUA também ameaçaram impor tarifas adicionais a países que fornecem petróleo a Cuba direta ou indiretamente.
Isso aprofundou e acelerou a crise no país, que se deteriora ainda mais sob a pressão dos EUA. Os impactos são evidentes na falta de eletricidade, gasolina, serviços médicos e até mesmo serviços públicos essenciais.
O segundo cenário, diz Díaz-Canel, é continuar um diálogo “coercitivo” com Cuba, “de pressão máxima, para assumir o controle da economia cubana, para ocupar economicamente o país, e que isso lhes daria a oportunidade de provocar uma mudança no sistema político”.
Essa mudança no sistema político, afirma ele, “é a grande aspiração” dos Estados Unidos.
Para o presidente cubano, o terceiro cenário é o de uma agressão militar, e ele afirma que, nesse caso, a ilha está se preparando para oferecer resistência.
“Temos o direito de nos defender, de nos prepararmos para nos defender, para que não haja surpresas e para que não haja derrota”, afirmou.
Nesse momento, Díaz-Canel citou o exemplo dos 32 agentes cubanos que morreram em 3 de janeiro durante o ataque dos EUA em Caracas, no qual o presidente Nicolás Maduro foi detido e capturado. Eram agentes cubanos que desempenhavam funções de defesa e proteção na Venezuela e que “heroicamente deram suas vidas defendendo seus princípios”.
“Se 32 cubanos foram capazes de confrontar de surpresa uma força de elite dos EUA, que os superava em número e tecnologia, o que não fariam milhões de cubanos dispostos a defender a Revolução, a defender a soberania, a defender a independência e a manter a autodeterminação que temos neste país?”, comentou o presidente cubano na entrevista.
Um exemplo claro da argumentação de Díaz-Canel ocorreu em março, quando o governo cubano presenteou o cantor e compositor cubano Silvio Rodríguez com um fuzil AKM e uma réplica da mesma arma por sua “disposição patriótica” em defender o país. “Assim como ele, milhões de cubanos não abandonarão seu país”, declarou a Presidência cubana na ocasião, em referência à homenagem.
Díaz-Canel vê uma ligação direta entre o que está acontecendo em Cuba e o que já ocorreu na Venezuela com as ações dos Estados Unidos, e afirma que se trata de uma guerra “ideológica, cultural e midiática”.
Como reiterou nos últimos meses, Díaz-Canel afirmou que estão dispostos a manter um diálogo com o governo Trump para fortalecer os laços comerciais e culturais, mas que essa disposição tem um limite: deve ser um diálogo “sem pressão” e sem condições para a mudança do sistema político.
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