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As The World Turns

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Another week, and more of the same.  In the middle east there are cease-fires announced while the bombing and killing continues, and DT announcing that he’s told Israel to cease attacking Lebanon, whilst Israel attacks Lebanon.  It’s like a bad soap, (not that there are any good ones), the story keeps getting spun the same way, and we go about our business, knowing full well that we’re just being played. 

The problem is that the atrocities committed are all boiled down to no more than another news story, whose narrative we can’t control or even truly understand.  We are nothing more than spectators; helpless and shell-shocked to a point of ineptitude.  We are now just game pieces on a board and the elites are having a great time rolling the dice.  DT runs freely on the backs of every leader, and in turn, the rest of us.  The press struggles to tell the truth, as oligarch-run media outlets spin the tales in favour of the perpetrators.  Seasoned journalists in the US are being turfed for trying to tell the facts as they really are, while others stay quiet as their country’s leader insults them for asking pertinent and obvious questions that he doesn’t want to answer.

There’s already a trail of journalists and other TV personalities that have been let go, following a public rant by fearless leader.  And those who support him, (besides the Israeli lobbyists), seem to be either in a delusional state, or in sheer panic of losing whatever they might have that they hold dear.  The blatant lying to support their leader’s buffoonery is beyond any scope.  Pam Bondi, Kash Patel, Peter Hegseth, and many others have put their neck in the noose for this guy.  They must be as deranged as he is.  Even if initially, they didn’t see how this would pan out, from what I can see, they’re in way too deep to back out now, although that would be the only way they could attempt to make things right.  It would be the cleanest way to break this troglodyte.  Don’t make him a martir, and don’t give him any excuses.  If he dies, there’s backlash, if he loses, he won’t accept it, but if his own staffers turn on him, then he will be cornered, like a cockroach.  No excuses, even for the dummies that love him, seeing as they believe everything that spews out of his mouth.  Many are convinced that he’s sent by a higher power!  Of course they do.  Many don’t care what he says, even if they know he’s lying.  That is the level of ignorance that has been created in the United States; your’re free, but also unsupported in any way.  You’re free to be an idiot, and your ignorance is as respected as someone else’s intelligence.  Hell, DT has already stated that he doesn’t like intelligent people, (no s**t).  But he has weapons and credit, so the intelligent and rational world is forced to use diplomacy, stretching it to its ripping point.

  At least there have been a few small victories that have torn down some of his egotistical and racist wonts; feel good victories for us, but they barely scratch the surface.  The truth is that he continues to do whatever he pleases, while Israel hides under his skirt.  Both are destroying whatever we have achieved globally, in terms of any semblance of order and peace, all for the gain of individual profits and power.  In the meantime, there’s the world cup of soccer, the circus that will serve to distract while ‘Rome burns’.  We’ll all be happily cheering for our teams while others can’t.  They’ll be busy with more important things.  Imagine what the good ol’ boys will be able to get away with while we’re lining up to trade our savings for a ticket.

Fiquem bem!

Raul Freitas/MS

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O magnífico Dr. A.

– E eu tenho por esta lei muito carinho…

Assim rezou o palestrante. Para o magnífico Dr. A., esse decreto com que coabitava todos os dias, como se fosse cão, gato ou filho, era muito lá de casa. Poucas vezes ouvimos alguém confessar estes afectos subterrâneos. São verberadas pelo catecismo e pelos amigos mais moralistas as paixões que têm por alvos mudos objectos: dinheiro, móveis, roupas, até empregos. E, neste país, para o bem e para o mal, gostamos mais de contornar legislação do que de sublinhá-la. Ali estava o magnífico Dr. A. para contrariar o carácter nacional.

Esmagado sob o peso da própria gravidade, entrara na sala, secundado por um adjunto e uma secretária. O adjunto sentou-se e ficou responsável por passar os slides da apresentação. Era o “melhor técnico” com que o Dr. já tinha trabalhado.  A secretária, o seu “braço direito”, era alguém em quem o Dr. confiava cegamente. Competentíssima, proba, foi passando atrás das cadeiras para ir registando tudo. De bico selado, não ousou fazer o mínimo ruído a tirar fotografias. Mesmo tendo aquele aspecto protuberante e nervoso, A. quase murmurava. Quando lhe pediram que falasse mais alto, denunciou logo a má acústica do sítio. Se pudessem, franziriam o sobrolho os arcos das abóbadas brancas.

Abriu as hostilidades cuspindo o seu currículo extenso. Conhecia este, conhecia aquele, tinha muito a dever a fulano que chegara a director, era uma voz indómita à mesa dos ministros. Para queimar tempo, pediu à audiência que se apresentasse. À medida que das vozes trémulas iam escapando o nome e a formação, o magnífico Dr. A. ia arrolando vítimas para a sua peça. Que não se encolhesse o antigo inspector das Finanças: toda a gente desconfiava desses coca-bichinhos! Também ele conhecia e apreciava uma inspectora. Partilhavam, aliás, o leito matrimonial. E a rapariga que tinha acabado de entrar no primeiro emprego que tivesse paciência, levantasse a mão quando não percebesse alguma coisa. Dali a três ou quatro anos, já dominaria aquilo de trás para a frente. Se conseguisse entender alguma coisa, entretanto. Que se resignasse o tipo que tinha abandonado a instituição em que o Dr. pontificava. Tinha cometido um erro, deslizado numa traição. Acima de tudo, era preciso ter muita humildade. Dobrar o pescoço, fazer recuar o nariz até despontar o focinho. Muita humildade, apontaram?

Depois veio o vídeo, feito por inteligência artificial, que explicava a história da instituição a que o Dr. pertencia. Tivemos de engolir o chorrilho de banalidades, o dinamismo das palavras repetidas, o discurso redondinho. As colunas não funcionavam? Que se levantassem os ouvintes e se acocorassem à volta do ecrã para ouvir a voz soprada do Além. Lá fomos, vergados, beber da sapiência do cérebro etéreo.  

A comunicação prosseguiu sem sobressaltos. O Dr. salientou quanto se tinha sacrificado, ao longo de tantos e tantos anos, em prol do bem público. Confessou ter recusado rendosos cargos para servir a comunidade. Tinham-lhe agitado franjas de ouro e de prata junto às pupilas. E ele resistira.  O cidadão comum saberia o significado desta abnegação? Podia-se lá esperar solidariedade do povo! Mas a ingratidão não o amargava, as dificuldades não o demoviam. O seu magnífico nariz pairava acima de qualquer monturo.

Se alguém começava a falar com o colega do lado, interrompia o discurso.

– Não querem partilhar com os restantes? Pode interessar a outros colegas.

Qualquer murmuração se poderia transformar em insolência. Havia que prevenir. Por mais que tentasse passar o testemunho àquelas cabeças ocas, mil acidentes perturbavam o seu caminho. Um infeliz tentou lentamente desembrulhar um rebuçado. Uma apoplexia espreitou atrás de uma das orelhas do Dr. 

– Só tu é que não reparaste que está toda a gente a olhar para ti!

Como se nada fosse, o dedo do adjunto continuou a premir o botão da seta.  A secretária dançava ao compasso dos cliques, na nossa sombra.

A. voltou à lição, sentado contra uma das mesas, de costas para o lado que menos lhe interessava. Desfiava frases feitas, lia o que os seus subordinados tinham despejado na apresentação. Lançava, contra o tipo traidor, perguntas sobre decretos e programas. Vinham à baila as dificuldades enfrentadas pelo Estado e saltava para a garupa do inspector. Lembrava-se, a espaços, que tinha sido investido da nobre missão de pregar aos peixinhos e aludia à doce inexperiência da juventude, que a rapariga tão bem encarnava.  

O discurso foi-se enrolando e desfazendo. Gradualmente, foi sobrando pouco para ler e dizer. Quando, enfim, deu por terminada a sessão, a vozearia instalou-se. Era como se tivessem tirado a rolha da garrafa de espumante. Pressentindo que a tensão se dissipava, as línguas voltaram ao ataque.

Mas eis que, sem aviso, o dedo inquisidor de um ouvinte se ergueu acima do emaranhado de timbres. Havia uma pergunta para o Dr.!

– Força!

A palma aberta estalou contra a mesa. O silêncio desceu como um milhafre sobre a presa inquieta. Todos os olhos se arregalaram. As bocas contorceram-se em esgares aflitos. O homem dera mesmo uma pancada no tampo? Bastara um gesto, um gesto apenas, para que o tempo suspendesse o curso e engatasse a marcha-atrás. Subitamente, cada um dos ouvintes regressou aos terrores da infância, à solidão da secretária em frente do quadro preto. A. aproximou-se do perguntador, não dando muita importância ao espanto da audiência. A secretária e o adjunto entreolharam-se. Só eles saberiam quantos acessos de tirania lhe sacudiam o corpo todos os dias.

Finda a função, esperou que todos saíssem. Acompanhado pelos dois súbditos, abandonou a sala. Deve ter sorrido, satisfeito. O seu propósito tinha sido cumprido. Mais um passo fora dado para diminuir a ignorância universal.

Sul Informação
Caricatura de Odilon Barrot de Honoré Daumier (1851)

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Fundação Nova Era Jean Pina: Um elo solidário entre a diáspora e o interior de Portugal

O empresário e benemérito luso-francês João Pina (à direita) durante a receção nos Paços do Concelho da Guarda pelo presidente da Câmara. @DR

Ao longo das últimas décadas, a diáspora portuguesa tem afirmado, de forma consistente, um notável espírito de solidariedade, um dos mais elevados valores que enobrecem a condição humana e conferem verdadeiro sentido à vida em comunidade. Este desígnio manifesta-se tanto no apoio aos compatriotas radicados no estrangeiro como na permanente ligação solidária a Portugal, numa demonstração inequívoca de coesão, pertença e responsabilidade coletiva.

Entre os múltiplos exemplos que ilustram esta vocação solidária, destaca-se, de forma particularmente expressiva, a ação desenvolvida pela Fundação Nova Era Jean Pina. Constituída em 2019 pelo empresário português João Pina, radicado na região de Paris, esta instituição tem vindo a afirmar-se como um dos mais relevantes agentes de intervenção social no seio da comunidade luso-francesa, a mais numerosa comunidade portuguesa na Europa.

Natural de Trinta, no concelho da Guarda, João Pina emigrou para França na década de 1980, então com apenas 19 anos, acompanhando o percurso de milhares de portugueses que procuravam melhores condições de vida na pátria gaulesa. Apesar das dificuldades inerentes ao processo migratório, construiu um percurso empresarial sólido e bem-sucedido na área da construção civil. Atualmente, enquanto administrador do Grupo Pina Jean, sediado nos arredores de Paris, lidera um conjunto diversificado de empresas com atividade nos setores da construção, limpeza e reciclagem de resíduos.

Todavia, o seu percurso não se esgota no sucesso empresarial. Reconhecido em França como Jean Pina, tem desenvolvido, de forma contínua e empenhada, uma intervenção solidária de grande alcance, colocando os seus recursos e capacidade organizativa ao serviço dos mais vulneráveis. É precisamente nesta dimensão que se destaca o papel estruturante da Fundação Nova Era Jean Pina, cuja missão assenta no lema “Solidariedade em Movimento”.

Sob a liderança direta do seu presidente — distinguido pelo Governo português, no final do passado mês de abril, com a Medalha de Mérito das Comunidades Portuguesas, no grau de ouro — a instituição tem promovido uma relevante cooperação entre França e Portugal, através da conceção, financiamento e concretização de projetos dirigidos a públicos particularmente fragilizados, como idosos, crianças institucionalizadas e pessoas em situação de desemprego.

Particularmente significativa tem sido a ação da fundação em territórios nacionais de baixa densidade, marcados pelo despovoamento e pelo envelhecimento populacional, aos quais o empresário e benemérito luso-francês tem dedicado especial atenção. Foi precisamente nesse contexto que, durante o passado mês de maio, João Pina deslocou-se aos distritos de Viseu e Guarda para uma série de encontros institucionais e ações sociais marcadas pelo desígnio da solidariedade, da proximidade e do reconhecimento das comunidades locais.

Um dos momentos mais marcantes ocorreu na Santa Casa da Misericórdia de Sernancelhe, no distrito de Viseu, onde João Pina participou numa reunião com o provedor Romeu Santos, os idosos da instituição e a equipa técnica do programa “Vamos Realizar Sonhos de Idosos”. Durante a cerimónia, o responsável da fundação recebeu um diploma de agradecimento pelas mãos do provedor, em reconhecimento pelo trabalho solidário desenvolvido e pelo apoio prestado a diversas causas sociais.

As ações de proximidade prosseguiram em Figueira de Castelo Rodrigo, onde o empresário benemérito assinou um protocolo de cooperação entre a Fundação Nova Era Jean Pina e a Associação Figueira S.O.S., lançando as bases de uma parceria destinada a reforçar projetos de apoio social e a desenvolver novas iniciativas dirigidas às populações mais vulneráveis desta vila raiana do distrito da Guarda.

A visita estendeu-se igualmente ao Município da Guarda, onde João Pina foi recebido pelo presidente da autarquia, Sérgio Costa, que destacou publicamente o trabalho desenvolvido pelo empresário em prol dos mais carenciados da região, sublinhando a importância das iniciativas solidárias e do apoio social promovido pelo filho da terra ao longo dos últimos anos.

Ainda na cidade mais alta do país, o presidente da Fundação Nova Era Jean Pina, a convite da psicóloga Sandra Ladeira, e no âmbito do projeto BrilhanteMente, visitou a Escola Secundária Afonso de Albuquerque, marcando presença numa apresentação científica realizada por duas jovens estudantes, num momento de aprendizagem, partilha e aproximação às novas gerações e às suas preocupações.

Num tempo frequentemente marcado pelo individualismo e pela indiferença, o percurso de João Pina e da Fundação Nova Era Jean Pina constitui um exemplo inspirador da força transformadora da solidariedade. A diáspora portuguesa continua, assim, a revelar-se não apenas um elo de ligação entre Portugal e o mundo, mas também uma extraordinária reserva de humanismo, generosidade e compromisso social. Ao levar esperança, apoio e dignidade às populações mais vulneráveis do interior do país, a Fundação Nova Era Jean Pina demonstra como a emigração portuguesa permanece profundamente ligada às suas raízes e aos territórios de onde partiu, contribuindo de forma concreta para a coesão social e para a valorização do interior de Portugal.

Daniel Bastos/MS

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A política precisa de menos escândalos e mais respeito pelos portugueses!

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Meus caros leitores, na política, como na vida, a ambição não é um defeito. O problema surge quando a ambição se transforma numa corrida desenfreada pelo poder, onde vale tudo para alcançar um cargo ou uma posição de destaque. Quando se prometem soluções para todos os problemas, sem explicar como serão concretizadas, corre-se o risco de criar expectativas irrealistas e de aumentar a desconfiança dos cidadãos.

Vivemos tempos difíceis. A economia mundial enfrenta desafios, o custo de vida continua elevado e as incertezas acumulam-se. É precisamente nestes momentos que os portugueses precisam de ser tratados com seriedade e honestidade, e não com promessas que parecem demasiado boas para serem verdade.

E mais uma vez, vindas do mesmo lado, em Portugal voltaram a surgir notícias que não dignificam a política. Investigações, detenções e suspeitas envolvendo figuras ligadas ao poder político levantam novamente questões sobre a transparência e a responsabilidade de quem exerce cargos públicos. Cabe agora à justiça fazer o seu trabalho, com independência e sem pressões.

O que os cidadãos exigem não é perfeição. Exigem apenas que quem os governa coloque o interesse público acima das ambições pessoais ou partidárias. E essa é uma lição que todos os partidos deveriam ter presente. 

Portugal voltou a acordar com notícias de buscas, detenções, suspeitas de corrupção e investigações que envolvem autarquias e estruturas ligadas ao poder político. Desta vez, os holofotes apontam para várias entidades locais e para figuras ligadas ao Partido Socialista, numa situação que está a provocar preocupação e desgaste na confiança dos cidadãos.

Importa dizer, desde já, que num Estado de Direito todos são inocentes até prova em contrário. A justiça deve funcionar com independência, sem interferências políticas e sem julgamentos na praça pública. Mas também é verdade que quando os casos se acumulam, os portugueses começam a questionar se os seus representantes estão verdadeiramente ao serviço do país ou dos seus próprios interesses.

Nos últimos anos, temos assistido a um desgaste contínuo da imagem da política. Não por culpa da maioria dos autarcas, deputados ou governantes, muitos dos quais trabalham honestamente, (alguns que calados eram poetas, criticam quem trabalha), mas porque basta uma minoria para lançar suspeitas sobre todos os restantes. O Partido Socialista atravessa atualmente um período particularmente difícil. Depois de anos no poder, enfrenta problemas internos, divisões, perda de influência e sucessivos casos que têm alimentado a desconfiança popular. Em vez de apresentar uma reflexão profunda sobre os erros cometidos, muitas vezes parece mais preocupado em atacar quem governa do que em reconstruir a sua própria credibilidade.

Por outro lado, o atual Governo tem procurado avançar com algumas reformas que há muito eram reclamadas pelos portugueses. Nem tudo estará perfeito, como é evidente, mas há sinais de tentativa de modernização do Estado e de uma maior descentralização de competências, algo que muitos defendem há anos. É legítimo criticar o Governo quando erra, mas também é justo reconhecer quando existem medidas que vão ao encontro das necessidades do país.

Mas se há algo que deve preocupar todos os partidos, sem exceção, é o crescente afastamento dos cidadãos da vida política. Um exemplo recente foram as eleições diretas no PSD. A reduzida participação dos militantes deveria servir de alerta para todos. Quando até aqueles que pertencem aos partidos demonstram desinteresse em participar nos processos internos, algo não está bem. Como militante e observador da vida política, considero preocupante essa falta de mobilização. Os partidos são pilares fundamentais da democracia e precisam de militantes ativos, motivados e envolvidos. Sem participação não existe renovação, sem renovação não existe confiança, e sem confiança a democracia enfraquece.

Os portugueses estão cansados de guerras partidárias permanentes. Estão cansados de escândalos, suspeitas e ataques pessoais. O que querem é transparência, competência e resultados. Querem políticos que resolvam problemas e não políticos que criem problemas.

A justiça deve continuar o seu trabalho, doa a quem doer. Os partidos devem fazer a sua reflexão interna. E os cidadãos devem continuar atentos e exigentes. Porque a democracia não se fortalece com silêncio nem com fanatismos. Fortalece-se com responsabilidade, participação e verdade.

O país precisa de menos ruído político e de pessoas aflitas pelo poder, que parece que obrigam o cidadão a ser o que eles querem. O que o país precisa é de mais respeito pelos portugueses.

Bom fim de semana.

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Toronto’s Island Airport expansion… good idea or bad?

Foto: Creative Commons

Toronto’s downtown airport, officially known as Billy Bishop Toronto City Airport, has long been the subject of debate. Located on the Toronto Islands just minutes from the city’s financial district, the airport provides convenient regional air service while occupying a unique and sensitive location on Toronto’s waterfront.

Over the past decade, proposals to expand the airport have generated intense discussion among residents, businesses, politicians, urban planners, and environmental groups. Supporters argue that expansion would strengthen Toronto’s economy, improve transportation options, and create jobs. Opponents contend that a larger airport would fundamentally alter the charter of the waterfront, increase noise and pollution, and prioritize commercial interests over community needs.

The central question remains: would expanding the island airport serve the people of Toronto, or would it primarily serve the interest of the aviation industry and airport operations?

Billy Bishop Airport operates under a tripartite agreement involving the federal government, the City of Toronto, and the Toronto Port Authority. The agreement governs airport operations, including restrictions on runway length and aircraft types. Historically. The airport was intended to remain a relatively small urban airport. Expansion proposals have included runway extensions, accommodation of larger aircraft, and increased passenger capacity. Such changes would transform the airport from a regional facility into a more significant transportation hub. Because the airport sits adjacent to densely populated neighborhoods and valuable public waterfront land, and expansion carries consequences far beyond aviation.

The strongest argument against major expansion is that Toronto already possesses a larger international airport in Pearson. Critics ask why valuable downtown waterfront land should be used to duplicate infrastructure that already exists elsewhere in the region. The strongest argument in favour is convenience. A larger downtown airport could provide faster access for millions of travellers and support economic growth in Canada’s largest city. The question therefore becomes one of priorities…. should Toronto’s waterfront be primarily a transportation corridor, or should it remain focused on recreation, housing, public space, and environmental stewardship?

Doug Ford has pulled off a significant political victory in Ontario politics in my humble opinion with the premiere being able to convince the mayor of Toronto Olivia Chow and the Prime Minister of Canada to go along with the expropriation and move on the Island airport that no other government has ever pulled off. Doug Ford has done what no other single politicians has ever been able to maneuverer this deal with all levels of government being on side. Whether the stars all lined up at the same time, or did Doug Ford make this happen?

Expanding Billy Bishop Toronto City Airport offers clear economic and transportation benefits. Increased connectivity, job creation, and business access could strengthen Toronto’s position as a major North American city. However, those benefits must be weighed against substantial costs, including noise, environmental impacts, pressure on surrounding neighborhoods, and potential loss of waterfront opportunities.

Whether the tripartite agreement serves the public interest depends largely on one’s view of what Toronto’s waterfront should become. If economic growth and transportation efficiency are the primary goals, expansion appears attractive. If preserving public waterfront space, neighborhood quality of life, and environmental sustainability are the priorities, significant expansion becomes much harder to justify.

The debate is not simply about an airport. It is a broader discussion about the future identity of Toronto itself and how the city chooses to balance growth, mobility, and quality of life.

Ford appears to have won the political battle to get Billy Bishop expansion moving, but the broader fight over whether the project is a good idea-and how much of it ultimately gets built-is still being contested.

Love it or loathe it, Toronto Island Airport has mastered one thing better than most airports; keeping an entire city talking before passengers even leave the ground. 

Whether it was a “win” for Doug Ford depends on your viewpoint.

Vincent Nigro/MS

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A BANDEIRA DA INCLUSÃO

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“Sou um órfão do mar que navega de uma identidade para outra.” – Michael Gouveia, O Herdeiro

Até 1978, celebrava-se o nosso 10 de Junho com a designação de “Dia de Camões e da Raça Portuguesa”, na lógica de um simbolismo nacionalista que retratava o espírito imperial do Estado Novo. Só depois da Revolução dos Cravos, o Dia de Portugal passou a chamar-se “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. Esta alteração teve a ver com a consciência de que Portugal, desfeito o império, não era apenas um país confinado à sua parte continental e insular, mas abrangia também todas as comunidades de emigrantes espalhadas pelo mundo, tendo-se passado, assim, a valorizar a nossa diáspora. Contas feitas, direi que estamos a dois anos de completar 50 anos de reconhecimento do papel de todos os portugueses que, em determinada altura das suas vidas, procuraram fora o que não encontraram cá dentro. E foram muitos!

É, por isso, cada vez mais incompreensível que a maioria dos que estão ausentes, condene os movimentos migratórios que, nos últimos anos, têm chegado a Portugal. Pior ainda, é concluirmos que toda essa má vontade está expressamente ligada ao facto de terem uma cor de pele e hábitos culturais diferentes dos nossos, como se isso, por si só, fosse um crime. Quando se deram as grandes vagas migratórias dos portugueses, não existiam redes sociais, pelo que o retrato que deles foi feito ficou circunscrito a artigos de opinião e fotografias que agora fazem parte de arquivos históricos que ninguém consulta, salvo um diminuto grupo de estudiosos da matéria. Nos tempos que correm, tudo está exposto e ganha uma amplitude nunca antes experimentada. Já para não falar dos inúmeros vídeos falsos e das frases curtas de grande impacto, que determinados grupos se encarregam de manipular, tornando-se na “vox populi, vox dei” como se de verdades se tratasse.

O fenómeno é novo? Não, apenas no que aos meios de divulgação diz respeito. Basta-nos recuar uns séculos e fazermos uma visita ao nosso poeta, cronista e músico Garcia de Resende, que viveu entre 1470 e 1536. Num dos seus poemas, depois de se indignar por ver “(…) muito espalhar/ Portugueses no viver;/ Brasil, ilhas povoar/ e às Índias ir morar,/ natureza lhe esquecer.”, remata com o seguinte: “Vemos no reino meter/ tantos cativos crescer/ (…)/ que se assim for serão mais/ eles que nós a meu ver. Ou seja, já Garcia de Resende aflorava a Teoria da Substituição (Grand Remplacement), apesar de esta só ter surgido em 2011, imbuída de uma retórica de incitamento ao ódio e à violência.

Passados quase quinhentos anos sobre a morte do nosso cronista e depois de séculos de tantas misturas étnicas, nada mudou na nossa matriz cultural, mantendo-nos fiéis à tão discutida lusitanidade que se receava poder ser beliscada.

A pergunta que se deve colocar é, então, a seguinte: “Por que motivo, estamos agora a levantar a questão do risco de descaraterização iminente de um povo que, desde sempre, foi o resultado de vários encontros (leia-se como um eufemismo) de povos com que se foi cruzando, viajando de identidade em identidade? Porquê agora?” A resposta é óbvia: para satisfazer desígnios ocultos que fazem crescer e aumentar o ódio contra o outro, como se o conceito de alteridade tivesse sido descoberto no século XXI.

Para que o Dia de Portugal seja celebrado na sua plenitude, é imperativo que aprendamos a juntar às nossas Comunidades todas as outras que connosco se estão a misturar. Para que se sintam incluídas, para que possam fazer parte de um todo que se chama Portugal, esteja ele onde estiver nas suas tão díspares coordenadas geográficas. Sentir-nos-emos, orgulhosos quando, em cada 10 de junho, içarmos a bandeira de Portugal, cantando bem alto:

 – Contra a exclusão, marchar, marchar!

Aida Batista/MS

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Amparar os nossos idosos nas comunidades portuguesas

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Quem está fora de Portugal sabe que emigrar é um ato de coragem. No entanto, envelhecer longe do nosso país, sem a devida proteção do Estado que se ajudou a construir além-fronteiras, é uma injustiça profunda. Como alguém que vive a realidade da diáspora e conhece de perto o pulsar das nossas comunidades no exterior, recuso-me a aceitar o silêncio e a inércia perante o sofrimento dos portugueses espalhados pelo mundo. A denúncia que o Grupo Parlamentar do Partido Socialista fez na Assembleia da República não é apenas uma interpelação política; é um grito de socorro que exige uma resposta imediata e sem tibiezas do Governo português.

Existem graves e insustentáveis atrasos no pagamento do Apoio Social para Idosos Carenciados a inúmeros cidadãos portugueses residentes na Venezuela e no Brasil. Falamos de pessoas idosas, muitas vezes doentes e isoladas, que têm neste apoio de sobrevivência a sua única e exclusiva tábua de salvação para garantir o básico: alimentação, medicamentos e habitação. Para agravar o cenário, na Venezuela, os atrasos no pagamento das pensões de reforma pela Segurança Social portuguesa já superam um ano. Isto não é apenas burocracia; é uma situação de desespero absoluto que atenta contra a dignidade humana.

O Apoio Social para Idosos Carenciados foi pensado como um instrumento mínimo de proteção social do Estado português junto das comunidades emigrantes mais fragilizadas. O valor atribuído é, por si só, reduzido, variando entre os 30 euros e o valor da pensão mínima do regime contributivo, sendo pago trimestralmente. Retardar estas verbas, cujas transferências deveriam ter sido efetuadas em março, significa empurrar centenas de idosos para a miséria extrema. A desculpa da falta de verbas ou de bloqueios nos mecanismos bancários e na emissão de cheques na Venezuela não pode servir de escudo para a incompetência operacional. Se existem constrangimentos bancários crónicos na Venezuela, o Estado tem o dever de encontrar e implementar soluções alternativas urgentes.

Não podemos tolerar que os nossos postos consulares fiquem de mãos atadas por falta de articulação central. A nossa diáspora não é um peso; é parte integrante da identidade e do património de Portugal. É inaceitável que cidadãos que dedicaram as suas vidas ao trabalho e mantiveram viva a ligação ao país fiquem meses sem receber as prestações sociais e as pensões a que têm pleno direito, privados de informação clara e de respostas eficazes.

Por isso, exigem-se esclarecimentos claros ao Governo: quantos idosos estão afetados por estes bloqueios? Quando será regularizado, integralmente, o pagamento do Apoio Social para Idosos Carenciados e das pensões em atraso? E que mecanismos estruturais serão criados para garantir que estes atrasos vergonhosos nunca mais se repitam? A solidariedade nacional não devia terminar dentro  das fronteiras geográficas do retângulo continental. Proteger os portugueses no estrangeiro, especialmente os mais vulneráveis, é um imperativo moral e constitucional do qual Portugal nunca deve abdicar. Ignorar esta realidade é falhar com a nossa própria história. O Governo deve agir de imediato, retificando estes erros operacionais e logísticos, assegurando que o apoio financeiro chegue a quem dele depende para sobreviver. Cuidar dos nossos idosos na diáspora não é uma escolha política ou uma benesse partidária, mas sim um ato elementar de justiça, respeito e humanidade para com aqueles que, mesmo distantes, sempre honraram Portugal .

Vitor M. Silva/MS

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Doença Hepática Esteatótica: o “fígado gordo” que não deve ser ignorado

Assinalado a 11 de junho, o Global Fatty Liver Day pretende sensibilizar a população para uma condição silenciosa, mas cada vez mais frequente: a doença hepática esteatótica.

A designação “Doença Hepática Esteatótica” engloba diferentes formas de doença hepática associadas à gordura acumulada no fígado. Entre elas, a doença hepática esteatótica associada a disfunção metabólica (MASLD), previamente conhecida como fígado gordo não alcoólico, que reflete melhor a forte ligação entre esta condição e alterações metabólicas como obesidade, diabetes tipo 2, síndroma metabólica e hipertensão arterial.

A MASLD é a doença hepática crónica mais comum no mundo. Estima-se que cerca de um em cada quatro adultos no mundo tenha algum grau de fígado gordo (esteatose), sendo que muitos desconhecem totalmente o problema. Em Portugal, tal como noutros países europeus, o aumento do sedentarismo, da obesidade, da diabetes e dos hábitos alimentares desequilibrados tem contribuído para o crescimento do número de casos.

Os fatores de risco mais comuns para MASLD incluem excesso de peso, obesidade abdominal, diabetes tipo 2, resistência à insulina, colesterol e triglicéridos elevados, hipertensão arterial e sedentarismo. A predisposição genética e alguns hábitos alimentares, como uma dieta rica em açúcares, gorduras saturadas e alimentos ultraprocessados também contribuem para o desenvolvimento da doença.

Apesar de na maioria das vezes não provocar sintomas nas fases iniciais, esta doença pode evoluir para situações graves, como inflamação hepática, fibrose, cirrose e até cancro do fígado. O diagnóstico precoce, através de exames de imagem e análises específicas, bem como o acompanhamento médico, são fundamentais, sobretudo na presença de fatores de risco, permitindo intervir antes que os danos hepáticos se tornem irreversíveis.

A adoção de um estilo de vida saudável continua a ser a estratégia mais eficaz para travar a progressão da doença e, em muitos casos, reverter os danos iniciais. A perda de peso, a prática regular de exercício físico e uma alimentação equilibrada têm demonstrado benefícios significativos.

O Global Fatty Liver Day surge, assim, como uma oportunidade para reforçar a literacia em saúde e alertar para a importância do diagnóstico precoce. Apesar de frequentemente negligenciada, a Doença Hepática Esteatótica é hoje um importante problema de saúde pública, com impacto crescente a nível mundial.

* Gastrenterologista na ULS Santa Maria e Hospital Lusíadas Lisboa, vice-presidente da assembleia-geral da Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF)
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O 25 de Abril também é ecológico

No passado mês de Abril, considerado o mês da liberdade em Portugal, o conceito de democracia tem um significado ainda mais importante. Um país que viveu em ditadura sabe o que é não poder decidir e viver com medo e na sombra de um líder autoritário que dita as normas e as formas de vida. Mas não só em Abril se deve falar de democracia.

Mas porque é que uma organização não-governamental de conservação marinha está a falar de democracia?

Porque, a 25 de abril de 1974, Portugal ganhou a sua liberdade, e com isso, a abertura do espaço ao diálogo e associativismo, valores cruciais para o trabalho de uma organização não governamental que procura promover mudanças positivas.

A democracia implica liberdade, justiça, soberania popular e respeito pelos direitos fundamentais, o que inclui um oceano (e ambiente) limpo e saudável. Porque, sim, um meio ambiente limpo é um direito humano e, como tal, deve ser protegido. A democracia não é apenas um valor político, mas também ecológico e moral. 

A democracia foi ganha em Portugal depois de anos de luta. Mas a liberdade trouxe consigo responsabilidade. Uma responsabilidade civil que permite a expressão, tanto individual como coletiva, mas também o direito à exigência de melhores condições de vida, incluindo na qualidade ambiental e acesso a um ambiente saudável. Isto tem permitido, e até promovido, o surgimento de movimentos sociais, culturais e ambientais que visam proteger esses valores. O clamor de vozes que talvez nunca tenham sido ouvidas antes. As vozes da natureza, do mar, das comunidades piscatórias, das mulheres dentro dessas comunidades, entre tantas outras que, quiçá na escuridão de uma ditadura, nunca teriam ganho o valor que hoje acrescentam.

Geralmente, pensamos no processo de tomada de decisão, a nível governamental ou municipal, como algo distante e por vezes opaco. Mas, na verdade, o que lá se concretiza começa pelo que nós, o povo, fazemos, exigimos e votamos.

A responsabilidade inerente à democracia exige que o povo se mantenha informado e tome decisões conscientes. Em quem alguém vota não deveria ser uma decisão aleatória, muito menos assente na popularidade ou numa mera “preferência superficial”. O mérito e o alinhamento dos valores entre quem vota e quem se candidata deve ser o centro da questão. A participação em fóruns e instâncias de aprendizagem, sensibilização e partilha de informação é fundamental para votar de forma consciente e informada.

Contudo, a democracia também pode ser fragilizada por dentro. Movimentos políticos que colocam o crescimento económico acima da proteção ambiental têm ganho popularidade em vários países, incluindo na Europa, escolhidos precisamente através das urnas. Paradoxalmente, parte dessa ascensão alimenta-se de um ecossistema de informação digital fragmentado, onde algoritmos amplificam o sensacionalismo em detrimento do rigor – e onde a desinformação circula mais depressa do que os factos.

Ainda mais preocupante é a falta de interesse político em questões ambientais, devido ao crescente interesse em narrativas populistas e com base no ódio, que criam uma falsa necessidade de investimento em armas e defesa militar. Entretanto, o que realmente nos dá vida, um ambiente e oceano saudáveis, carece de recursos e apoio financeiro para a sua proteção.

A tripla crise ambiental das alterações climáticas, da poluição e da perda acelerada da biodiversidade tem de ser enfrentada de todos os ângulos possíveis. De cima para baixo e de baixo para cima. Na nossa vizinhança, bairro, município, localidade, no Algarve, no Alentejo, na Grande Lisboa e no país inteiro.

Participar, pronunciar-se e exigir transparência, com a liberdade que Abril conquistou, permite-nos influenciar prioridades políticas e contestar decisões que colocam interesses económicos acima do bem comum. A crise climática expõe que nem todas as vozes têm o mesmo peso – e é precisamente aí que a democracia tem de ser mais do que um valor declarado: tem de ser praticada. Sem ela, a participação é silenciada. Sem participação, a ação climática perde legitimidade, eficácia e alma.

Reforçar a democracia é uma condição indispensável para proteger o ambiente e o oceano e, com eles, o futuro.

NOTA: Este é o quinto artigo da “Coluna de Água”, um projeto da Sciaena – Associação de Ciências Marinhas e Cooperação e que publicará, durante um ano, 12 artigos, relacionados com justiça ambiental, direitos humanos, igualdade de género, participação democrática e literacia do oceano.

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Mucosite: um efeito secundário frequente no tratamento do cancro que exige atenção e prevenção

Os tratamentos utilizados no combate ao cancro, como a quimioterapia, a imunoterapia e a radioterapia, sobretudo quando aplicados na região da cabeça e pescoço, podem provocar vários efeitos secundários. Um dos mais frequentes e debilitantes é a mucosite, uma inflamação da mucosa da boca e da garganta que pode afetar os lábios, as gengivas e outras estruturas da cavidade oral.

A mucosite é considerada um dos efeitos secundários com maior impacto na qualidade de vida das pessoas em tratamento oncológico.

Nem todos os medicamentos utilizados no tratamento do cancro provocam mucosite, mas trata-se de um sintoma relativamente comum, que exige vigilância, prevenção e intervenção precoce.

Geralmente, o doente apresenta irritação da mucosa e úlceras semelhantes a aftas, que podem causar dor intensa ao mastigar, engolir ou mesmo ao beber líquidos.

A dor e o desconforto dificultam a alimentação e a fala, afetando não só o bem-estar físico, como o emocional do doente.

Apesar de existirem tratamentos para a mucosite, a prevenção continua a ser uma das estratégias mais eficazes. Manter uma boa higiene oral é fundamental, com escovagem dos dentes após as refeições e antes de dormir, utilizando uma escova de cerdas macias e uma pasta de dentes adequada para dentes sensíveis.

O uso de elixires sem álcool para bochechar após as refeições ajuda a manter a boca limpa, enquanto a hidratação dos lábios e da mucosa oral é essencial. Evitar o tabaco é igualmente recomendado, pois o fumo agrava a irritação da mucosa e atrasa a cicatrização.

Quando a mucosite já está presente, a alimentação deve ser adaptada para reduzir o desconforto e garantir uma nutrição adequada. Alimentos cremosos e fáceis de mastigar e engolir, como sopas, purés, batidos, fruta cozida, gelatinas, arroz e massa bem cozidos, bem como carne e peixe desfiados ou triturados, são opções a considerar.

Sul Informação

Os alimentos devem ser ingeridos à temperatura ambiente, evitando temperaturas muito quentes ou muito frias, e as refeições devem ser fracionadas ao longo do dia, com pequenas quantidades ingeridas várias vezes. A ingestão de água, entre 1,5 e 2 litros por dia, é fundamental, podendo ser consumida em pequenos goles durante as refeições para facilitar a deglutição. Em alguns casos, e se o tratamento permitir, a aplicação de frio na mucosa, como gelo ou gelados, pode aliviar a dor.

Por outro lado, devem ser evitados alimentos secos ou ásperos, como torradas, tostas, frutos secos e bolachas, bem como alimentos salgados, ácidos, cítricos ou muito condimentados. Bebidas alcoólicas, gaseificadas e com cafeína, como café e chá preto, também podem agravar a irritação da mucosa e devem ser reduzidas ou evitadas.

Nos últimos anos, o uso de produtos naturais na prevenção e no tratamento da mucosite tem sido alvo de investigação científica. O mel tem demonstrado resultados promissores, com evidência de redução da dor e da gravidade das lesões. Outros produtos naturais, como camomila, própolis, cúrcuma e aloe vera, apresentam algumas evidências de eficácia, mas ainda necessitam de mais estudos antes de serem integrados de forma sistemática na prática clínica.

É fundamental que os doentes informem a sua equipa de saúde ao primeiro sinal de mucosite oral. Para além das medidas de higiene, alimentação e cuidados gerais, pode ser necessária medicação específica para aliviar os sintomas e prevenir complicações.

A deteção precoce e o acompanhamento adequado permitem reduzir o impacto da mucosite, melhorar a qualidade de vida e garantir a continuidade dos tratamentos oncológicos com maior segurança e conforto.

Sul Informação
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O tabaco não afeta apenas pessoas: o risco invisível para cães e gatos

Artigo de opinião de Joaquim Henriques, médico-veterinário diretor do serviço de referência em oncologia do AniCura Atlântico Hospital Veterinário Os efeitos do tabaco vão muito além de quem fuma. Durante anos, a discussão sobre tabagismo passivo ajudou-nos a perceber que as pessoas à volta de um fumador também estão expostas aos mesmos riscos. O que […]
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Um plano de igualdade e respeito mútuo

O dia da Mãe aproxima-se. Todas as Mães são, efetivamente, Mulheres.
Quando abordamos temas como a violência contra as mulheres e violência
doméstica, falamos daquilo que, não nos fazendo melhores que os homens,
nos torna diferentes, especiais, esta força que a natureza permitiu, entre
tantas outras coisas tão belas, gerar vida.
Mas, porque ainda subsistem violências direcionadas à mulher,
precisamente porque é mulher, entendida tantas vezes como mais fraca,
habitante em patamar inferior ao homem, e que, pasmemos pois, a este
deve ser submissa, e reduzir-se à sua insignificância histórica, foram
criados instrumentos legais, neste caso, internacionais, que visam, entre um
mundo que aqui não cabe, por razões óbvias, implementar a regra dos “três
P”, ou seja, Prevenir, Proteger, e Acusar (prossecution na língua inglesa).
Centrada nos direitos das vítimas, e na cooperação entre as instituições e
organizações, e nas autoridades competentes, é na sua génese que
encontramos a proteção imediata das vítimas, prevendo a possibilidade das
conhecidas decisões de emergência, aquelas que pretendem evitar o
“chegamos tarde demais, está morta”.
Falamos da Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o
Combate à violência contra as mulheres e a violência doméstica
(Convenção de Instambul), que, acertadamente aponta o reconhecimento da
igualdade entre mulheres e homens como fundamento para o estudo e
tratamento deste tipo de violência, que trata como uma verdadeira violação
de direitos humanos, quando mulheres são discriminadas, produzindo-se
sofrimento físico, sexual, psicológico, económico, e até privação da
liberdade.
Chega mesmo a apontar a erradicação de preconceitos, costumes, tradições,
e de todas as práticas assentes na ideia de inferioridade das mulheres ou nos
papeis estereotipadas destas e dos homens.
Esta Convenção acaba por mostrar uma vertente educativa, sugerindo
alterações profundas na nossa cultura, costumes, tradições ou religião,
sempre que estes sirvam para justificar a prática de atos de violência contra
mulheres.

Nela é desenhado um plano de igualdade e respeito mútuo, com vista ao
término da violência de género.
Chama à atenção ao Estado Português para a necessidade urgente da
formação de profissionais que recebem as vítimas num primeiro momento,
sendo necessária uma centralização de informação, para que a vítima possa
confiar no agente de autoridade, se sinta protegida, acompanhada e
orientada, sobretudo quando a vítima é uma criança.
As autoridades policiais gerem todo este flagelo, recebendo as vítimas,
realizando relatórios que avaliam o risco em que estas se encontram,
encaminhando-as para os serviços sociais competentes, quando há vagas.
Esta Convenção foi assinada por Portugal em 2011, e em 2024 surgiu a
Diretiva 2024/1385 do Parlamento Europeu, que alerta Portugal para o
cumprimento destas recomendações respeitantes à violência contra as
mulheres.
Também o relatório do GREVIO (Grupo de Peritos no Combate à
Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica) de 2025 tem vindo
a alertar o Estado Português para a falta de cumprimento de grande parte
destas “recomendações” do Conselho da Europa.
No passado dia 29 e 30 teve lugar o III Congresso internacional sobre
violência doméstica e Convenção de Istambul, no qual especialistas das
mais diversas áreas do saber debateram este tema.
Façamos todos a nossa parte, fiquemos vigilantes neste cumprimento, não
sejamos alienantes sociais.

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O vício de virar costas

Há gestos que dispensam discurso. Virar costas é um deles — curto, seco, quase elegante na forma, mas brutal no conteúdo. É o equivalente corporal de dizer “não me interessa”, “não respondo”,” não assumo”, “não existes”. E, quando se repete, deixa de ser reação para passar a ser identidade.
Na vida comum, ainda se tolera: há dias em que ninguém tem paciência para o mundo. Mas na política, onde cada gesto é escrutinado, virar costas não é cansaço — é escolha. E, mais do que isso, é mensagem.
Quando, na Assembleia da República, um deputado decide deliberada e literalmente dar as costas, não está apenas a rejeitar quem fala. Está a rejeitar o próprio jogo democrático. Porque a democracia vive do incómodo, do confronto, do contraditório. Quem foge disso não está apenas a evitar uma conversa — está a desrespeitar e a expor a sua incapacidade de a sustentar.
No caso de Pedro Delgado Alves, o problema já não é o gesto. É a recorrência da supremacia arrogante. É o padrão quase coreografado de quem, perante o que não agrada, opta sempre pela mesma saída: virar costas, sair de cena, apagar o momento como se ele nunca tivesse existido. Recordemo-nos do fatídico episódio do atropelamento da cantoneira, por distração e negligência, e não por falha mecânica como foi relatado. O Ministério Público e o tribunal consideraram que o mesmo se deveu a desatenção, não se comprovando avaria. Pedro Delgado Alves foi condenado por crime de ofensa à integridade por negligência, porque dias depois o carro foi enviado para abate, supostamente por se encontrar bastante danificado, mas segundo a juiza, esta decisão inviabilizou a verificação técnica da viatura e impediu que se apurasse a eventual falha no carro. Uma clara tentativa de apagar evidências, de virar as costas à verdade dos factos e de se esquivar às responsabilidades.
É aqui que entramos no território onde a política se cruza com o caráter.
Porque há uma diferença entre errar e fugir. Entre explicar e desaparecer. Entre assumir e virar costas.
Quando a memória pública evoca episódios passados — alguns incómodos, outros controversos — não o faz apenas pelos factos em si, mas pelo fio que os une: a perceção de uma constante evasão. A imagem que se desenha é a de alguém que, perante o embate, não resiste — contorna. Não responde — esquiva-se. Não enfrenta — vira costas.
E isso não é estilo. É sintoma e esteriotipia. .
Sintoma de uma política que prefere a encenação à substância. Onde o gesto substitui o argumento e a fuga se disfarça de dignidade. Mas não há dignidade nenhuma em virar costas ao debate e às responsabilidades. Há apenas silêncio — e o silêncio, em política e na vida comum, raramente é inocente.
No fundo, virar costas é confortável. Evita o risco, protege o ego, poupa trabalho. Mas tem um preço: revela, sem margem para dúvidas, a medida e a pequenez ética de quem o faz.
E essa medida, quando repetida vezes suficientes, deixa de ser circunstancial.
Passa a ser caráter, ou falta dele.

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A Pressa de Ser Outro

Há temas que pedem delicadeza. E há momentos em que a delicadeza, se levada ao extremo, se transforma em silêncio cúmplice. A mudança de género tornou-se um desses territórios onde a prudência parece, muitas vezes, proibida, como se questionar fosse sinónimo automático de hostilidade.

Vivemos sob a exaltação da autodeterminação. “Sê quem és”, passou de princípio humanista a imperativo imediato. Mas quando esse “ser” implica intervenções médicas profundas, irreversíveis e com impacto vitalício, a questão deixa de ser apenas identitária: torna-se também clínica, psicológica e ética. E aqui, a pressa não é um detalhe — é o problema.

O que se observa, em muitos contextos, é uma validação quase instantânea de decisões que exigiriam tempo, maturidade e acompanhamento rigoroso. Em especial entre jovens, onde a identidade ainda está em construção, a ideia de que qualquer desconforto com o próprio corpo pode, ou deve, ser resolvido através de uma transição, levanta sérias reservas. Nem todo o sofrimento é sinal de disforia. Nem toda a dúvida é uma certeza à espera de ser confirmada.

Mas o espaço para esta nuance tem vindo a encolher. O debate tornou-se binário: ou se apoia sem reservas, ou se é colocado no campo da rejeição. Esta simplificação é perigosa. Porque apaga uma realidade incómoda — a de pessoas que se arrependem, que revisitam decisões tomadas cedo demais, que enfrentam consequências físicas e psicológicas que não lhes foram plenamente explicadas.

O arrependimento não é apenas uma nota de rodapé. É um sinal de alerta. E, no entanto, tende a ser desvalorizado, quase invisível, porque contraria a narrativa dominante. As consequências a médio e longo prazo : dependência de terapias hormonais, infertilidade, cirurgias complexas, são frequentemente tratadas como detalhes técnicos, quando na verdade redefinem vidas inteiras.

Importa também perguntar: o que está por detrás deste aumento de pedidos de transição? Será sempre uma questão identitária clara, ou haverá, em alguns casos, fatores mais difusos, como fragilidade emocional, necessidade de pertença, influência de ambientes digitais altamente polarizados? Quando uma resposta complexa se transforma numa solução rápida, é legítimo desconfiar da própria simplicidade da resposta.

Paralelamente, assistimos a um relevo crescente do ativismo LGBT… no espaço público. Muito do que foi conquistado nesse percurso é inegavelmente positivo em termos de direitos e dignidade, mas há uma diferença entre visibilidade e omnipresença. Quando determinadas causas se tornam quase imunes à crítica, o debate democrático empobrece.

É neste enquadramento, que decisões políticas como a recusa de hastear bandeiras ideológicas em edifícios públicos ganham significado. Não se trata, necessariamente, de rejeitar direitos ou identidades, mas de afirmar um princípio: o Estado não deve alinhar simbolicamente com uma causa específica, por mais legítima que seja, sob pena de perder a sua neutralidade. O espaço público não deve ser apropriado por nenhuma agenda, deve permanecer comum.

No fundo, a questão central não é a identidade de género em si, mas a forma como a sociedade a está a tratar: com urgência, com simplificação, com leviandade e, por vezes, com uma certa intolerância ao questionamento. E talvez o verdadeiro risco não esteja na liberdade de mudar — mas na ausência de espaço para pensar antes de o fazer.

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O Lado Invisível do SNS: Quando uma Cama Vazia Decide Quem Vive e Quem Espera

Um problema ético

RUI LEAL
Aluno do Mestrado Executivo em Administração Hospitalar
Faculdade de Economia da Universidade do Porto

Nos hospitais portugueses, a escassez de camas deixou de ser uma exceção. Tornou-se estrutural. E, como em qualquer sistema sob pressão constante, essa escassez não se limita a criar ineficiências — cria desigualdades.

Nas especialidades cirúrgicas, o problema é particularmente evidente. A capacidade de internamento passou a ser o verdadeiro fator limitativo da atividade. Quando alegadamente, não faltam equipas, nem blocos operatórios, nem competência clínica, falta, muitas vezes, uma cama.

O resultado é conhecido — e cada vez mais frequente: cirurgias canceladas à última hora. Não por decisão médica, mas por incapacidade organizacional. O doente está preparado, a equipa está pronta, os recursos estão mobilizados. E, ainda assim, a cirurgia não acontece.

Para quem espera, o impacto é real: mais ansiedade, mais tempo, mais risco. Para o hospital, é um desperdício evidente de recursos altamente diferenciados. Mas há uma dimensão mais profunda que raramente entra no debate público. Estamos, na prática, perante um problema de justiça distributiva.

Num sistema público como o Serviço Nacional de Saúde, a escassez não pode ser evitada — mas a forma como é gerida pode, e deve, ser questionada. Quando o acesso aos cuidados deixa de depender exclusivamente da necessidade clínica e passa a ser condicionado por limitações operacionais, a equidade fica comprometida. E isso não é um detalhe técnico. É uma escolha implícita sobre quem é tratado — e quem espera.

A duração do internamento pós-operatório é um dos principais determinantes desta pressão. Bastam alguns casos acima do esperado para desestabilizar todo o sistema. Há, porém, um fator frequentemente subestimado neste contexto: os casos sociais. Quando a alta clínica existe, mas a saída do hospital não ocorre por ausência de resposta social adequada, o internamento deixa de refletir apenas necessidade assistencial e passa a incorporar uma incerteza estrutural. Nos modelos preditivos de gestão de camas, estes casos funcionam como uma fonte relevante de entropia operacional — aumentam a variabilidade, reduzem a precisão das previsões e fragilizam o planeamento cirúrgico. Ignorá-los não é apenas uma limitação técnica; é aceitar modelos incompletos e, consequentemente, decisões potencialmente menos equitativas. A sua incorporação explícita nos modelos, através de variáveis sociais e de contexto, é essencial para aumentar a validade preditiva e evitar decisões sistematicamente enviesadas.

Ainda assim, muitos hospitais continuam a planear a sua atividade com base sobretudo na experiência, e não em análise estruturada de dados. É aqui que a mudança se impõe.

Hoje, existe informação suficiente para prever padrões de internamento, antecipar riscos e ajustar o planeamento cirúrgico. Ignorar essa capacidade analítica já não é uma limitação — é uma decisão. Mas antecipar não chega.

Sem mecanismos robustos de auditoria interna, o sistema permanece opaco. Não se compreende, com rigor, onde estão os desvios, por que razão se prolongam internamentos ou onde se perdem oportunidades de otimização. E sem essa compreensão, não há verdadeira melhoria.

A auditoria interna não deve ser vista como um instrumento de controlo burocrático, mas como uma ferramenta de gestão crítica. Permite tornar visível o que hoje é difuso, responsabilizar processos e alinhar a utilização dos recursos com os princípios que o sistema afirma defender. Eficiência e equidade não são objetivos concorrentes. São, neste contexto, inseparáveis.

Num sistema permanentemente pressionado, melhorar a utilização das camas não é apenas uma questão de gestão. É uma condição para garantir que o acesso aos cuidados não depende do acaso organizacional. E é aqui que recai uma das maiores responsabilidades dos administradores hospitalares. Gerir capacidade não é apenas otimizar fluxos. É tomar decisões que têm impacto direto sobre vidas concretas. Decidir quem espera. Decidir quem entra. Decidir quando.

Por isso, reduzir a gestão de camas a um problema operacional é um erro. Trata-se, na verdade, de um problema ético, organizacional e político. Porque, no limite, cada cama disponível representa mais do que um recurso. Representa uma escolha. E gerir escolhas, em contexto de escassez, é — inevitavelmente — gerir justiça. ■

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Concentrar para Salvar : A Nova Geografia da Neonatologia

Há decisões que, à primeira vista, parecem duras, insensíveis e quase incompreensíveis. O encerramento de algumas unidades de neonatologia é uma delas. Num país onde cada nascimento carrega esperança, futuro e continuidade, falar em fechar portas onde a vida começa pode soar a contrassenso. Mas nem sempre mais significa melhor — e é precisamente aqui que a reflexão se impõe.
A neonatologia é uma das áreas mais exigentes da medicina. Não basta existir um espaço físico com incubadoras: é necessário um ecossistema altamente especializado, com equipas treinadas, tecnologia de ponta e capacidade de resposta imediata a situações críticas. Um recém-nascido prematuro ou em risco não pode esperar por recursos que não existem nem depender de estruturas subdimensionadas. Nestes casos, a diferença entre a vida e a morte mede-se em minutos — e em qualidade de cuidados.
Manter muitas unidades abertas, mas sem condições adequadas, pode criar uma falsa sensação de segurança. A dispersão de recursos humanos — médicos neonatologistas, enfermeiros especializados — fragiliza o sistema. Equipas reduzidas, horários sobrecarregados e falta de experiência acumulada diminuem a capacidade de resposta. Pelo contrário, a concentração em unidades de excelência permite equipas mais robustas, com maior prática clínica, melhor articulação e acesso a equipamentos modernos.
Em Portugal, algumas reestruturações recentes ilustram esta lógica. O reforço de unidades em hospitais como o Hospital de Santa Maria ou o Hospital de São João demonstra a aposta em centros altamente diferenciados, capazes de responder aos casos mais complexos. Ao mesmo tempo, o encerramento ou suspensão de unidades com menor capacidade tem sido alvo de debate público, mas também de uma tentativa de reorganização mais racional dos cuidados.
Não se trata apenas de uma questão clínica — há também uma dimensão económica inevitável. Os recursos do sistema de saúde são finitos. Investir em múltiplas unidades subequipadas pode significar desperdiçar verbas que poderiam garantir excelência em menos locais. A gestão eficiente implica escolhas difíceis: concentrar investimento onde ele produz melhores resultados, evitando redundâncias e estruturas que não conseguem cumprir plenamente a sua missão, ou que não justificam permanecerem em funcionamento pelo número reduzido de serviços específicos que prestam.
Naturalmente, esta reorganização deve ser acompanhada de uma rede eficaz de transporte neonatal e de apoio às famílias, para que a distância não se transforme em obstáculo. A centralização só faz sentido se for acompanhada de acessibilidade e humanização.
No fundo, a questão não é quantas unidades existem, mas que qualidade oferecem. Porque quando falamos de recém-nascidos — especialmente os mais frágeis — não há margem para compromissos. As parturientes e os bebés não precisam de proximidade ilusória; precisam de segurança real, de competência e de excelência.
E isso, por vezes, exige coragem para fechar portas, para garantir que outras, mais preparadas, permaneçam abertas e altamente funcionais.

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Política Migratória: Do Facilitismo à Correção

Durante oito anos, construiu-se em Portugal uma narrativa confortável: a de que abrir portas sem critério era sinónimo de humanidade, progresso e modernidade. Soava bem. Ficava bem nas conferências, nos discursos e nas redes sociais. Mas, como tantas vezes acontece, a realidade,essa entidade teimosa, acabou por pedir contas.

A chamada “manifestação de interesse” transformou-se, na prática, num iman e num convite implícito à entrada sem planeamento. Um sistema que, sob o pretexto de regularizar, passou a incentivar fluxos desordenados, criando uma espécie de fila invisível onde tudo era permitido… desde que se esperasse o suficiente. O resultado? Serviços públicos pressionados, respostas lentas, e um Estado a correr atrás do prejuízo que ele próprio ajudou a criar.

Entretanto, nas ruas, começou a emergir um desconforto que durante demasiado tempo foi varrido para debaixo do tapete e ocultado pela Comunicação Social. Não, não se trata de generalizações fáceis ou de demonizar quem chega, há de tudo, e isso seria intelectualmente desonesto. Mas também não se pode ignorar o aumento de episódios de criminalidade associados a contextos de exclusão, ausência de integração eficaz e falta de controlo. Fingir que não existe é tão irresponsável quanto explorá-lo de forma populista.

E depois há a questão da subsídio-dependência, esse elefante na sala que poucos quiseram nomear e admitir. Um sistema que, em vez de integrar rapidamente no mercado de trabalho, foi permitindo que muitos ficassem presos a apoios sociais, não por escolha individual apenas, mas por um modelo que falhou em criar pontes reais para a autonomia. A boa intenção, quando mal executada, transforma-se numa armadilha, quer para quem chega, e perigosamente para quem já cá está.

Durante anos, qualquer tentativa de questionar este modelo era imediatamente catalogada: ou se estava “do lado certo” ou se era rotulado com todos os epítetos possíveis. O debate foi pobre, emocional e, muitas vezes, intelectualmente preguiçoso e desonesto. E assim se prolongou um problema que exigia, desde o início, seriedade, equilíbrio, bom senso e, sobretudo, responsabilidade.

Mas a política, apesar de tudo, ainda tem momentos de correção. A recente alteração à lei, aprovada por uma maioria qualificada de dois terços na Assembleia da República, não é apenas um detalhe legislativo — é um sinal. Um sinal de que, finalmente, se reconheceu que a gestão da imigração não pode ser feita ao sabor de slogans ou boas intenções, mas sim com regras claras, capacidade de integração e respeito por quem chega… e, especialmente por quem já cá vive.

Por isso, no meio de tanta hesitação passada, resta reconhecer o momento presente: uma vénia à lucidez tardia e um aplauso, firme e sem ironia, à coragem de, finalmente, pôr ordem onde durante demasiado tempo reinou a ilusão.
Se hoje há dois terços a corrigir o rumo, é porque durante demasiado tempo houve um governo incapaz de reconhecer que o tinha perdido.

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A coreografia do medo e a engenharia da obediência

Durante anos, venderam-nos certeza com a arrogância de quem não admite réplica. O governo de António Costa não governou apenas uma crise sanitária, encenou uma narrativa onde o Estado nunca duvida, nunca hesita, nunca erra. E quem ousasse levantar a sobrancelha era imediatamente promovido a herege cívico.
A Direção Geral de Saúde transformou-se num púlpito. Não de ciência, mas de autoridade. E há uma diferença abissal entre as duas. A ciência questiona, ajusta, corrige-se. A autoridade impõe. E foi isso que se viu: um discurso fechado, impermeável, blindado contra qualquer interrogação que não viesse com selo de aprovação oficial.
O país foi conduzido, não informado. Empurrado, coagido, não convencido. Entre campanhas emocionalmente carregadas e medidas sucessivas, instalou-se um ambiente onde a liberdade era formal, mas a escolha já vinha pré-formatada. Não foi uma ordem direta. Foi mais eficaz do que isso: foi uma pressão difusa, constante, socialmente validada. Uma pedagogia do medo, uma engenharia da obediência.
E agora? Agora surgem notícias incómodas, perguntas tardias, investigações que deveriam ter começado quando ainda havia tempo para respostas claras. Durante meses, anos até, garantiu-se ao país que não havia nada a questionar. Nada. Zero. A dúvida era tratada como desinformação antes sequer de ser analisada. Os questionistas foram perseguidos, ameaçados, cancelados e alvos de perseguição discriminatória, sem apelo nem agravo, só porque duvidaram da solução milagrosa, que surgiu, inacreditavelmente em tempo record, quando se sabe que um processo de desenvolvimento e aprovação de uma vacina, para estar formalmente disponível para a população, em segurança, demora na totalidade, dez a quinze anos, ou até mais, depois de passar formalmente por todas as fases.
Hoje, já não é possível sustentar essa pose autoritária, sem fissuras.
Hoje em dia apercebemo-nos de que, o mais grave não é apenas o que pode ou não vir a confirmar-se. O mais grave é o ambiente que foi criado: um espaço público onde a crítica foi desencorajada, onde o debate foi empobrecido e onde a prudência — essa mesma prudência que a ciência exige — foi substituída por uma certeza quase dogmática.
Governar em crise não dá carta branca para moldar a realidade à conveniência política nacional ou europeia. E muito menos para transformar cidadãos em figurantes de uma narrativa oficial, ditatorial e punitiva, que não admite contraditório.
A fatura não é apenas sanitária. É institucional. É moral. É democrática.
Porque quando um governo decide que a verdade pode ser simplificada até à obediência, arrisca-se a algo muito mais perigoso do que a contestação: arrisca-se a perder, de forma duradoura, a confiança de quem governa.
E essa, ao contrário de qualquer campanha, não se recupera com slogans.

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Governar ou representar?

Hoje assinala-se o Dia Mundial do Teatro. Em teoria, é um dia para celebrar a arte, os
atores, os textos que nos fazem pensar e sentir. O teatro, quando é sério, não é só
entretenimento, é um espelho desconfortável daquilo que somos. Expõe, provoca,
obriga a encarar verdades que muitas vezes preferíamos evitar.
Talvez por isso seja impossível não fazer um paralelismo com aquilo em que se
transformou a nossa vida política.
Há qualquer coisa de profundamente teatral — no pior sentido da palavra — na forma
como hoje se faz política. Não no sentido nobre da representação, mas na encenação
vazia. Nos discursos cuidadosamente ensaiados. Nas indignações seletivas. Nas
conferências de imprensa onde já se sabe, à partida, o que vai ser dito e como vai ser
dito.
Tudo parece coreografado. Nada parece espontâneo.
Os políticos falam, mas raramente dizem. Prometem, mas quase nunca se
comprometem. E, acima de tudo, representam proximidade, representam convicção,
representam firmeza. É uma sucessão de papéis, ajustados ao momento, ao público e
às sondagens.
O problema é que isto já não engana muita gente.
Ao contrário do teatro a sério, onde há talento, trabalho e respeito por quem está a
ver, esta versão política da representação vive de clichés e de frases feitas. É uma peça
repetida vezes sem conta, com pequenas variações, mas sempre com o mesmo fundo:
pouco conteúdo e muita aparência.
E depois há o público — nós. Durante muito tempo, aceitámos este papel de
espectadores. Uns aplaudem, outros assobiam, mas no fundo continuamos sentados, à
espera que a peça melhore.
O mais grave é que, enquanto se representa, o essencial vai ficando por fazer. Os
problemas acumulam-se, as decisões adiam-se, e a realidade — essa, que não se deixa
encenar — acaba sempre por impor-se.
Talvez este Dia Mundial do Teatro sirva, pelo menos, para isto: para nos lembrar que
há uma diferença enorme entre representar bem e fingir mal.
A política não precisa de mais atores. Precisa de menos teatro.

(Aqui tem uma gravação com o texto lido pela autora)

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