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Análise: Líderes do Irã apostam em riscos evitados por seus antecessores

Os ataques do Irã contra Israel nesta semana foram algumas de suas iniciativas mais ousadas até agora para redefinir os limites de um confronto que, durante décadas, foi travado principalmente por meio de grupos aliados, operações encobertas e retaliações cuidadosamente calculadas.

Ao atingir Israel em resposta a ataques no Líbano, Teerã pareceu sinalizar que suas linhas vermelhas já não se limitam às próprias fronteiras — e que seus líderes estão dispostos a assumir riscos maiores.

Desde o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, firmado em 8 de abril, Teerã tem acusado repetidamente Israel e os EUA de enfraquecerem a trégua por meio de ações militares.

Os Estados Unidos realizaram ataques contra alvos iranianos mesmo enquanto negociações indiretas continuavam. Israel, por sua vez, lançou quase 3.500 ataques no Líbano, segundo o primeiro-ministro do país, incluindo ações na capital, Beirute, apesar das restrições impostas pelo acordo de cessar-fogo.

O Irã respondeu com uma série de ataques retaliatórios cuidadosamente calculados contra alvos dos Estados Unidos e de países do Golfo, ao mesmo tempo em que alertou que, caso a diplomacia fracassasse, estaria preparado para retomar a guerra e ampliá-la para além do Golfo Pérsico, potencialmente ameaçando rotas marítimas que se estendem do Oceano Índico ao Mar Vermelho e ao Mediterrâneo.

Entre a noite de terça-feira (9) e a madrugada de quarta-feira (10), ocorreram novos confrontos entre os Estados Unidos e o Irã após a derrubada de um helicóptero do Exército americano no início da semana, evidenciando a persistente instabilidade na região.

Ataques iranianos a Israel sinalizam mudança mais ampla

Os ataques desta semana contra Israel, no entanto, pareceram representar um passo além.

Teerã sinalizou que ações militares israelenses contra seus aliados regionais também podem provocar uma resposta direta do Irã.

O objetivo seria romper o impasse diplomático nas negociações para alcançar um acordo de paz provisório e apoiar o grupo Hezbollah.

“Revertemos a lógica do cessar-fogo que existia no papel, mas que vinha sendo repetidamente violada na prática, em campo”, afirmou na segunda-feira (8) Mohammad Bagher Ghalibaf, principal negociador iraniano nas conversações. “Enquanto não houver uma disposição genuína para construir confiança, a resposta do Irã continuará a mesma.”

O Irã tem insistido que não permitirá que Israel e os Estados Unidos continuem realizando ataques enquanto afirmam permanecer comprometidos com um cessar-fogo que, segundo Teerã, vem sendo repetidamente desrespeitado. “Sob nenhuma circunstância” o país aceitaria tal situação, declarou na segunda-feira o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baghaei.

O movimento sugere uma mudança mais ampla em Teerã, onde uma nova geração de líderes está abandonando cada vez mais a postura cautelosa e reativa que por muito tempo definiu a estratégia da República Islâmica diante de seus adversários.

Em vez de depender principalmente da dissuasão e da paciência estratégica, esses dirigentes parecem mais dispostos a assumir riscos e a utilizar o poder militar, econômico e a influência regional do Irã para moldar os acontecimentos no Oriente Médio.

É também essa mesma liderança iraniana que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, descreveu como “mais racional” e “bastante razoável”.

“Os iranianos colocaram tanto os israelenses quanto os Estados Unidos contra a parede agora”, afirmou Aaron David Miller à jornalista Jessica Dean, da CNN. “Eles estão dispostos a correr riscos. Acreditam que estão vencendo. Não acham que o cessar-fogo esteja servindo aos seus interesses.”

Em 2020, o primeiro governo de Donald Trump rompeu um tabu de longa data ao ordenar o assassinato de Qasem Soleimani, a mais alta autoridade iraniana morta pelos Estados Unidos até então.

A resposta de Teerã, sob a liderança do então líder supremo Ali Khamenei, refletiu sua preferência por uma retaliação calculada em vez de uma escalada descontrolada: o Irã lançou um ataque com mísseis contra uma base aérea americana no Iraque após transmitir avisos prévios que deram às forças dos EUA tempo para buscar abrigo.

Em junho de 2025, quando os Estados Unidos se juntaram a Israel em ataques contra o Irã, Teerã voltou a optar por uma resposta proporcional, sinalizando que, apesar da retórica agressiva, ainda considerava necessário administrar cuidadosamente o risco de uma escalada do conflito.

Os ataques desta semana contra Israel sugerem que esse cálculo pode estar mudando. “Esta é a primeira vez em décadas que uma potência regional possui os meios, a capacidade e a disposição para empregar poder militar direto contra manobras militares israelenses ou atos de agressão contra um terceiro ator”, afirmou Trita Parsi, do Quincy Institute.

Após o ataque, o Irã alertou que estava preparado para “elevar o nível de tensão” a fim de desafiar o que descreveu como pressupostos israelenses e americanos sobre os limites de sua resposta.

“Se os israelenses e os americanos imaginam que, por meio de uma ‘tensão controlada’, podem tornar o Irã e o chamado Eixo da Resistência (rede de aliados e grupos apoiados por Teerã) previsíveis diante de seus crimes, ou limitar o tipo de resposta iraniana, estão cometendo um erro tolo”, afirmou uma fonte militar não identificada, citada pela agência de notícias Tasnim News Agency, considerada próxima à IRGC (Guarda Revolucionária do Irã).

Teerã busca criar uma “nova equação” com o objetivo de impedir que Israel atue não apenas contra o próprio Irã, mas também contra sua rede de aliados e grupos parceiros na região, afirmou Danny Citrinowicz à jornalista Becky Anderson.

“Os acontecimentos das últimas 24 horas demonstraram mais uma vez que a atual liderança iraniana acredita cada vez mais que aquilo que não pode ser alcançado por meio da diplomacia pode, em última instância, ser obtido pelo uso da força”, escreveu ele na rede social X.

Explorando fissuras na relação entre EUA e Israel

O Irã também parece estar testando a aliança entre Estados Unidos e Israel e explorando as crescentes divergências entre os dois países sobre o desfecho do conflito.

Nas últimas semanas, o presidente americano Donald Trump se distanciou publicamente em diversas ocasiões do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, insistindo que um acordo diplomático com Teerã está ao alcance e afirmando que Israel “não terá outra escolha” a não ser aceitá-lo.

Essa estratégia pode estar produzindo resultados.

Depois que o Irã atacou Israel na segunda-feira, o presidente americano Donald Trump agiu rapidamente para evitar uma nova escalada, conversando duas vezes com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu em poucas horas, numa tentativa de convencê-lo a não retaliar.

Esmaeil Baghaei, porta-voz da diplomacia iraniana, afirmou que Washington “tem responsabilidade” pelas ações de Israel e advertiu que elas “inevitavelmente” afetariam o processo diplomático.

Enquanto isso, uma autoridade militar israelense ressaltou que as forças dos Estados Unidos não participaram dos ataques contra o Irã, embora tenham ajudado a interceptar os mísseis iranianos lançados em direção a Israel.

O Irã pode ter conseguido forçar Washington a escolher entre apoiar a liberdade de ação militar de Israel ou preservar o caminho diplomático com Teerã.

A pressão exercida por Trump sobre Netanyahu “acrescentou mais uma ficha à mesa” para o Irã, afirmou Aaron David Miller, referindo-se ao novo poder de barganha conquistado por Teerã. “Isso levará à criação de uma nova norma.”

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Autoridade do Irã diz que Trump concordou em liberar recursos congelados

Enquanto Estados Unidos e Irã dão sinais de que estão próximos de um acordo, uma importante autoridade iraniana afirmou que Washington concordou em liberar parte dos ativos congelados do país, apesar de o governo Trump ter negado anteriormente qualquer entendimento nesse sentido.

“Trump concordou com a liberação de parte dos ativos congelados do Irã, mas não está disposto a anunciar isso publicamente”, disse Mohsen Rezaei, assessor militar do líder supremo, o aiatolá Mojtaba Khamenei, segundo a agência semioficial iraniana Tasnim, neste sábado (13).

Após diferentes relatos da imprensa sobre o que estaria incluído na proposta de acordo, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, criticou na sexta-feira (12) o que classificou como “informações falsas sobre um possível acordo”, afirmando que benefícios econômicos só serão concedidos ao Irã se o país “cumprir suas obrigações”.

“Os iranianos não estão recebendo dinheiro, e nenhum recurso está sendo liberado simplesmente por assinar um acordo ou participar de uma reunião”, escreveu Vance na rede social X.

I’m seeing a lot of fake information about a potential deal to reopen the Strait and end Iran’s nuclear weapons program. First, the Iranians are not receiving any cash, and no funds are being released for simply signing a deal or attending a meeting. The deal is structured to…

— JD Vance (@JDVance) June 12, 2026


“Este acordo tem o potencial de refazer a região e levar a uma paz duradoura”, afirmou Vance na publicação.

Contexto

Segundo relatos da imprensa, o Irã exigiu a liberação de US$ 12 bilhões em recursos congelados assim que um acordo provisório for assinado com os Estados Unidos, além de outros US$ 12 bilhões em uma etapa posterior.

Mas autoridades americanas temem que o desbloqueio de recursos neste momento elimine uma importante ferramenta de pressão sobre o regime iraniano.

Trump tem exigido que qualquer acordo pareça substancialmente mais robusto do que o pacto nuclear firmado em 2015 e evite qualquer medida que possa ser interpretada como a entrega de “paletes de dinheiro” ao Irã.

Em uma rara entrevista à CNN neste mês, Rezaei afirmou que “se ele (Trump) quiser chegar a um acordo com o Irã, esses US$ 24 bilhões são um teste de confiança que o Irã quer estabelecer com Trump — é um teste que os Estados Unidos precisam superar, e então o caminho estará aberto (…) Esse dinheiro é nosso, não dos Estados Unidos.”

Pesquisa: 6 em cada 10 americanos veem guerra com o Irã como erro

 

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