Vorcaro diz ter repassado R$ 155 milhões a Alcolumbre e detalha negócios do Master com o PT na Bahia
A proposta de colaboração premiada apresentada pela defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, inclui informações sobre repasses ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e relatos sobre os negócios da instituição com governos do PT na Bahia, com menção ao ministro da Casa Civil e ex-governador Rui Costa.
Segundo reportagem publicada pela revista Veja nesta quinta-feira (11), Vorcaro teria repassado US$ 30 milhões ao senador, cerca de R$ 155 milhões na cotação atual.
O montante teria sido depositado em conta secreta no exterior e, posteriormente, transferido a Alcolumbre como contrapartida pelo apoio do parlamentar a uma demanda de interesse do Banco Master. A operação, ainda segundo a proposta, teria sido intermediada por Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro.
Na noite desta quinta, o senador se manifestou sobre o caso, por meio de nota. Alcolumbre diz que as informações "são absolutamente falsas, não procedem" e que serão "enfrentadas com a máxima firmeza".
"O senador Davi Alcolumbre jamais recebeu valores, no Brasil ou no exterior. Diante da gravidade das acusações e dos danos causados à sua honra e à sua trajetória pública, serão adotadas todas as medidas judiciais cabíveis, nas esferas cível e criminal, para que os responsáveis pelas acusações respondam por suas afirmações e apresentem as provas que dizem possuir", diz trecho da nota.
As informações constam da segunda proposta de colaboração apresentada pela defesa do ex-banqueiro, rejeitada pela Polícia Federal nesta semana. Na avaliação da PF, a nova oferta continuou sem trazer fatos inéditos ou elementos considerados relevantes para o avanço das investigações.
A primeira tentativa de colaboração já havia sido descartada cerca de três semanas atrás, por ser considerada superficial e restrita a casos já sob investigação.
Segundo a defesa de Vorcaro, a recusa teria origem em um movimento de bastidores para inviabilizar o acordo. Os advogados fizeram chegar ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso no STF, que PF e PGR não estariam interessadas em apurar denúncias graves – entre elas o suposto pagamento a Alcolumbre no exterior –, e que a motivação para rejeitá-las seria política. Mendonça costuma afirmar que não interfere nas investigações.
Em conversas reservadas, no entanto, teria dito estar atento a eventuais pressões e reforçado que o trabalho de delegados e procuradores deve ser conduzido com "independência, imparcialidade e de forma não seletiva".
Preso há cerca de três meses, Vorcaro é apontado pelas autoridades como o responsável por uma das maiores fraudes bancárias da história recente do país, com prejuízo estimado em mais de R$ 50 bilhões – incluindo um rombo de cerca de R$ 41 bilhões ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Negócios na Bahia
Outro capítulo da proposta trata dos negócios do Banco Master com governos do PT na Bahia. O relato cita o ministro da Casa Civil e ex-governador Rui Costa.
Não há referência a pagamento de propina nesse trecho, mas há a promessa de que o banqueiro detalharia como manteve em funcionamento um sistema de empréstimo consignado vinculado à folha de pagamento dos servidores estaduais, ligado ao programa CredCesta.
Segundo o relato, a história começou em 2007, durante o governo de Jaques Wagner, com o programa então chamado Cesta do Povo, criado para permitir que servidores estaduais comprassem em supermercados públicos com desconto direto na folha.
Com a entrada de Vorcaro na operação, o CredCesta se transformou em uma das principais frentes de crédito consignado da Bahia, sobretudo na modalidade de Reserva de Cartão Consignado.
Em 2022, já na gestão de Rui Costa, sucessor de Wagner, um decreto estadual restringiu a portabilidade dessas dívidas para outros bancos, medida que ampliou a presença da instituição no setor.
Na prática, segundo a proposta, o governo petista baiano teria adotado uma manobra que o tornou um dos principais parceiros de Vorcaro. O ex-banqueiro ainda não detalhou a que custo se deu essa relação. O governo nega favorecimento e afirma que os contatos foram protocolares.
Citações ao Judiciário
A proposta também menciona vínculos financeiros de Vorcaro com integrantes do Judiciário. Segundo o relato, o banqueiro teria pago R$ 15 milhões a um membro do Judiciário em operação fora do padrão, conduzida por seu cunhado, Fabiano Zettel, preso e acusado de operar as principais transações ilegais do Master.
Vorcaro ainda se dispôs a detalhar a atuação de outra autoridade que, segundo ele, teria agido secretamente para evitar a liquidação do Banco Master pelo Banco Central no ano passado.
No Supremo Tribunal Federal, dois ministros aparecem nas apurações por vínculos financeiros. Uma empresa ligada à família de Dias Toffoli vendeu cotas de um resort de luxo no interior do Paraná a um fundo ligado ao Master – Toffoli foi afastado do caso após a descoberta de que havia sido sócio de empresa com negócios no grupo.
Em relação a Alexandre de Moraes, há um contrato de R$ 129 milhões firmado entre o banco e o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci. O gabinete de Moraes afirma que ele jamais viajou em aeronave de Vorcaro e que as operações foram declaradas.
Outros nomes citados
Um áudio apreendido apontaria o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tratando do financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A simples exposição da conversa teria abalado sua pré-campanha: pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta-feira (10) apontou que a revelação interrompeu a ascensão do senador e impulsionou seu principal adversário.
O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que mantinha contrato de R$ 10 milhões com o Master, é apontado como intermediário de uma reunião de Vorcaro com o presidente Lula, no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024 — encontro do qual também teriam participado Gabriel Galípolo, então futuro presidente do Banco Central, e o ministro Rui Costa.
A proposta cita ainda supostos repasses ao presidente nacional do União Brasil, Antonio Rueda, que nega irregularidades e afirma não ter relação pessoal com o banqueiro. Aparecem também menções ao senador
Ciro Nogueira (PP-PI) e à venda de R$ 400 milhões em títulos do Master ao fundo de pensão dos servidores do Amapá – órgão à época comandado por um ex-tesoureiro de campanha de Alcolumbre.
Negócios semelhantes tangenciam os ex-governadores Cláudio Castro (RJ) e Ibaneis Rocha (DF).
As acusações dependem de comprovação e de homologação judicial. Os citados negam as irregularidades.


© TON MOLINA/FOTOARENA/ESTADÃO CONTEÚDO


