Um estudo de uma equipa de investigadores do Algarve Biomedical Center Research Institute (ABC- Ri) sobre o ratinho espinhoso africano lança novas pistas sobre a investigação do cancro, revelou a Universidade do Algarve (UAlg).
Os resultados do estudo, realizado em parceria com o Instituto de Investigação Biomédica Sols-Morreale (IIBM-CSIC-UAM), «abrem novas perspetivas de investigação sobre os mecanismos biológicos que podem contribuir para a prevenção do cancro e para avanços na medicina regenerativa», lê-se, em comunicado.
O ratinho espinhoso africano (Acomys) alvo do estudo publicado na revista Scientific Reports é uma espécie conhecida «pela sua elevada capacidade de regeneração tecidular e resistência ao desenvolvimento de tumores».
Ao contrário da maioria dos mamíferos, que cicatrizam quando sofrem uma lesão, este roedor consegue regenerar pele, músculo e até recuperar ligações funcionais na medula espinhal.
«Esta capacidade tornou-o um modelo de grande interesse para o estudo da regeneração dos tecidos», explica a academia.
Durante décadas, o cancro foi descrito como “uma ferida que nunca cicatriza”, porque tanto a reparação dos tecidos como o desenvolvimento tumoral envolvem uma intensa multiplicação de células.
Esta semelhança levou os investigadores a considerar que «os organismos com maior capacidade de regeneração poderiam também ter uma maior propensão para desenvolver cancro».
No entanto, os resultados deste estudo apontam noutra direção: os investigadores compararam a resposta do ratinho espinhoso com a de ratinhos de laboratório convencionais (Mus musculus), após ambos serem submetidos a um modelo experimental de indução de tumores na pele.
«Enquanto os ratinhos convencionais desenvolveram vários tumores, os ratinhos espinhosos não desenvolveram nenhum», concluíram.
Para perceber as razões desta diferença, a equipa analisou, ao longo de 28 dias, a atividade dos genes das duas espécies.
Os resultados mostram que o ratinho espinhoso «desencadeia uma resposta biológica diferente» quando exposto a fatores que podem provocar cancro.
Em concreto, este animal «ativa mais rapidamente genes que ajudam a impedir o desenvolvimento do processo cancerígeno e apresenta também uma resposta imunitária mais eficaz, envolvendo células capazes de eliminar células potencialmente cancerígenas».
Além disso, quando o dano é controlado, «a atividade destes genes regressa rapidamente aos níveis normais».
Outro aspeto importante observado foi o aumento da morte celular programada nas zonas lesionadas. Este mecanismo permite eliminar células com alterações genéticas antes que estas se transformem em células cancerígenas.
«Estes resultados indicam que a capacidade regenerativa e a resistência ao cancro não são incompatíveis, podendo antes estar relacionadas», explica Wolfgang Link, investigador do CSIC e autor correspondente do estudo.
«O ratinho espinhoso desenvolveu mecanismos altamente eficazes para controlar a proliferação celular, ativando tanto o sistema imunitário como vias supressoras de tumores», esclarece.
Este trabalho posiciona os mecanismos de regeneração tecidular «como uma possível chave para a prevenção do cancro».
Compreender como o ratinho espinhoso consegue controlar a multiplicação celular «poderá ajudar a identificar novos alvos terapêuticos e contribuir para o desenvolvimento de estratégias inovadoras para a prevenção e tratamento do cancro humano, bem como para avanços na medicina regenerativa.
A equipa responsável pelo estudo e pela publicação do artigo é composta por Marta Vitorino, Gonçalo G. Pinheiro, Inês Grenho, Inês M. Araújo, Bibiana Ferreira, Wolfgang Link e Gustavo Tiscornia, investigadores da Universidade do Algarve.
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