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EUA e Brasil definem juros à sombra de incertezas de paz no Oriente Médio

17 June 2026 at 08:05

Os bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos anunciam nesta quarta-feira (17) suas decisões de política monetária em um momento de inflação desancorada e incertezas geopolíticas.

O cenário de indefinição ganhou nova camada nesta semana, após os governos dos EUA e do Irã afirmarem um acordo prévio para encerrar o conflito no Oriente Médio e reabrir o Estreito de Ormuz, canal fundamental para o abastecimento de petróleo no mundo.

Apesar de a novidade sinalizar alívio aos investidores globais, a falta de informações concretas sobre os termos e a viabilidade da prática ainda mantém uma dose de cautela no ar, e a novidade não deve impactar nos resultados previstos para as decisões desta Superquarta.

A expectativa majoritária do mercado é de que o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC (Banco Central) reduza a taxa Selic em 0,25 ponto, para 14,25% ao ano.

Já para o Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto) do Fed (Federal Reserve), as apostas estão no congelamento da taxa entre 3,5% e 3,75%. Caso se confirme, será a quarta reunião seguida de taxas inalteradas.

Ao CNN Money, especialistas apontam que, mais importante do que as decisões, serão os comunicados das autoridades monetárias e os sinais sobre os próximos passos da política de juros.

Em ambos os países, a inflação segue acima do desejado e as incertezas geopolíticas e fiscais têm dificultado o processo de redução dos juros.

No Brasil, por exemplo, a principal questão é se o corte esperado marcará o fim do atual ciclo de afrouxamento monetário.

A avaliação de grandes instituições financeiras é de que o espaço para novas reduções está cada vez mais restrito.

Em relatório, a XP Investimentos avaliou que “o fluxo de dados e notícias econômicas desde a última reunião do Copom indica deterioração adicional no cenário de inflação” e disse que o Comitê deve adotar uma postura mais cautelosa.

Segundo a instituição, a combinação entre atividade econômica mais forte, estímulos fiscais, desvalorização cambial e expectativas de inflação mais elevadas aumentou os riscos para convergência da inflação à meta.

“Acreditamos que os dados e notícias econômicas recentes sugerem cautela adicional na condução da política monetária e podem convencer os membros do Copom a pausar o ciclo de flexibilização em breve”, destacou o relatório da XP.

A instituição projeta que a estimativa de inflação do Banco Central para o fim de 2027 suba de 3,5% para 3,6%, permanecendo acima da meta contínua de 3%.

Por sua vez, o Goldman Sachs também prevê um corte de 0,25 ponto, mas vê chances relevantes de manutenção da Selic. Para o banco, o cenário continua desafiador diante da inflação.

“Embora a taxa de juros real preliminar ainda esteja bastante elevada, a margem de manobra para cortes nas taxas é muito limitada”, afirmou o relatório, que atribui probabilidade de 40% à manutenção da Selic nesta superquarta.

Em entrevista ao CNN Money, Luiz Otávio Leal, economista-chefe da G5 Partners, afirmou que o cenário externo ficou mais favorável a uma redução da taxa básica de juros após o alívio das tensões no Oriente Médio.

“Até a semana passada, o mercado estava muito nervoso e tinha tirado na curva de juros qualquer chance de corte nessa reunião. Com o advento desse acordo, o cenário se desanuviou, a pressão na curva de juros melhorou e aparentemente parece que o ambiente ficou mais propício para um corte de 0,25%”, avaliou.

Apesar disso, Leal ressaltou que a inflação corrente está acima do teto da meta e as expectativas de longo prazo desancoradas. Segundo o economista, programas de estímulo ao crédito e medidas voltadas ao aumento da demanda reduzem o espaço para cortes.

Fed segura juros

Já nos Estados Unidos o consenso é de que haja uma manutenção de juros por parte do Fed, que ainda enfrenta dificuldades para levar a inflação de volta à meta de 2%.

“Existe um amplo consenso de que o Fomc não deverá alterar as taxas de juros amanhã. Na verdade, a expectativa é que, se o cenário macroeconômico não for alterado de forma relevante, não deveremos ter mudanças nos Fed Funds (taxa efetiva dos fundos federais) por um bom tempo”, afirmou Danilo Igliori, economista-chefe da Nomad.

Em março, a maioria dos dirigentes do Fed projetava dois cortes de juros ao longo deste ano. Agora, investidores buscam entender se esse cenário permanece válido diante incertezas relacionadas a um acordo de paz no Oriente Médio, que podem mudar as perspectivas dos preços de energia.

“Dadas as incertezas atuais, será fundamental entender o que as autoridades estão pensando sobre a dinâmica futura da inflação e o balanço de riscos”, concluiu Igliori.

Em relação aos Estados Unidos, Leal destacou que a reunião do Federal Reserve desta semana terá duas características particularmente relevantes.

A primeira é que se trata de uma reunião de fim de trimestre, ocasião em que os membros do Fed divulgam suas projeções para PIB, inflação, desemprego e trajetória de juros.

Em março, a expectativa majoritária era de dois cortes de juros ao longo do ano, mas o novo cenário coloca em dúvida se haverá cortes ou até mesmo aumentos.

A segunda característica é que esta será a primeira reunião sob o comando de Kevin Walsh, e também a sua primeira entrevista coletiva após uma decisão.

“A gente vai ter que ver nessa entrevista pós-reunião qual será a postura do Kevin Walsh”, disse Leal, ressaltando que Walsh demonstrou, em sua sabatina, ideias distintas tanto sobre a comunicação do Fed quanto sobre os parâmetros de inflação adotados pela instituição.

O resultado esperado para os Estados Unidos, segundo o economista, é a manutenção dos juros no nível atual.

Quadro eleitoral e piora do câmbio puxam taxas de juros para cima

17 June 2026 at 00:25

Os juros futuros fecharam o dia em alta, num movimento de correção após os últimos dias de alívio nos prêmios de risco, puxada por fatores domésticos.

No exterior, a terça-feira (16) foi de queda firme do petróleo e nos rendimentos dos Treasuries, mas as taxas locais não acompanharam.

Trouxeram desconforto aos agentes pesquisas eleitorais negativas para o senador Flávio Bolsonaro (PL-SP), além da piora do câmbio.

No fechamento, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 tinha taxa de 14,255%, estável ante o ajuste de segunda, enquanto o DI para janeiro de 2028 projetava taxa de 14,420%, ante 14,355% no ajuste também de segunda.

A taxa do DI para janeiro de 2029 estava em 14,405% (de 14,329%) e a do DI para janeiro de 2031 passava de 14,251% para 14,285%.

Ao longo da primeira etapa, o recuo do petróleo, o varejo fraco e o IGP-10 perto do piso das estimativas mantinham as taxas em queda.

A trajetória ascendente começou a tomar corpo no fim da manhã, por volta das 11h, após a divulgação da pesquisa CNT/MDA, segundo a qual o presidente Lula ampliou a vantagem ante o pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro, considerado o principal nome da direita.

Num eventual segundo turno, Lula, com 49,3% das intenções de voto, venceria Flávio, que aparece com 36,8%. No levantamento de abril, esses porcentuais era de 45% e 40%.

“A pesquisa CNT indicou o presidente Lula abrindo ainda mais vantagem em relação a Flávio Bolsonaro. A continuidade do governo Lula implica deterioração das contas públicas”, explicou Gean Lima, gestor de portfólio da Connex Capital.

“O dólar também subiu próximo a R$ 5,10 piorando o quadro para inflação”, completou.

A pesquisa CNT/MDA se somou a dois outros levantamentos divulgados mais cedo que também indicaram cenário difícil para Flávio.

A pesquisa Futura/Apex trouxe Lula com 48,1%, e o pré-candidato do PL com 42,9% em eventual segundo turno. Já a RealTime Big Data apontou o senador com 47% e Lula com 44%, em quadro tecnicamente empatado.

O estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren, Luis Felipe Vital, considera o movimento das taxas desta terça como um ajuste, que teve como argumento o quadro eleitoral.

“A pesquisa (CNT/MDA) não mostra uma mudança grande em relação a outras que a gente vinha vendo. Está mais para continuidade daquele movimento que é, talvez, um cenário de eleição de Lula se fortalecendo versus um cenário de Flávio Bolsonaro”, afirma.

Vital lembra que a questão fiscal, que está embutida na leitura das pesquisa, vinha sendo destaque nas últimas semanas, com a votação das “pautas-bomba” no Congresso e mais medidas do governo, mas o ambiente externo estava muito pesado e se sobressaía.

Agora, com a perspectiva de fim de guerra e abertura do Estreito de Ormuz, deve haver uma redução na pressão inflacionária que pode ajudar no alívio da política monetária.

O petróleo caiu mais de 5%, com o tipo Brent fechando abaixo dos US$ 80 pela primeira vez desde março. “O BC vai ter um mercado menos pressionado para decidir”, afirma, sobre o Copom de amanhã.

A aposta de corte de 25 pontos-base na Selic nesta quarta-feira (17) segue predominante com as opções digitais na B3 mostrando 84% de probabilidade, contra 16% de chance de manutenção em 14,5%.

Os indicadores da manhã, de certo modo, dão conforto. As vendas no comércio recuaram 1,5% em abril na margem, pelo conceito restrito, perto do piso das estimativas (-1,6%).

No ampliado, o recuo de 0,7% foi maior do que apontava o piso (-0,6%). Ao mesmo tempo, o IGP-10 de junho caiu 0,30%, perto do piso das expectativas (-0,35%).

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