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Renováveis: variáveis, não intermitentes

9 June 2026 at 08:15

O apagão de 28 de abril de 2025 colocou a segurança de abastecimento elétrico no centro do debate público. Após a divulgação dos relatórios técnicos finais de investigação, importa analisar as suas causas com rigor e retirar as conclusões corretas.

O sistema elétrico exige um equilíbrio constante e em tempo real entre geração e consumo. Qualquer desvio afeta a frequência nominal da rede – na Europa, os 50 Hz – podendo desencadear atuações automáticas dos sistemas de proteção e, em situações extremas, provocar o colapso em cascata.

Foi o que aconteceu a 28 de abril. O painel de peritos da ENTSO-E concluiu que o apagão resultou de uma combinação de fatores: oscilações na rede, lacunas no controlo de tensão e de potência reativa, e uma rápida sequência de desligamentos de geradores em Espanha. Além disso, os conversores de eletrónica de potência dos geradores espanhóis não reagiram adequadamente às variações de tensão – uma falha de requisitos técnicos que o operador de rede espanhol deveria ter acautelado. Importa sublinhar: o relatório não atribui a causa do apagão às renováveis enquanto tecnologia. Identifica antes falhas de operação e de comportamento de equipamentos em condições específicas de rede.

Por outro lado, o apagão deu munições a quem tenta associar as renováveis à instabilidade elétrica. Convém clarificar: as renováveis não são intermitentes. São variáveis no tempo. A diferença é fundamental. “Intermitente” descreve algo que funciona em modo “tudo ou nada”, que liga e desliga de forma abrupta – como um pisca-pisca. “Variável” descreve algo cuja produção oscila de forma gradual e previsível, acompanhando os ciclos do vento e do sol. A geração solar e eólica enquadra-se na segunda categoria: a sua curva de produção é antecipável com crescente precisão e incorporada no planeamento diário da rede.

Quem é genuinamente intermitente? A geração nuclear. Uma central nuclear opera em modo de carga base: está ligada ou está desligada. Não modela a sua produção em função da procura. Uma paragem não planeada retira instantaneamente do sistema blocos superiores a 1.000 MW – uma perturbação de enorme magnitude para uma rede da dimensão da portuguesa. Aliás, durante o próprio apagão de 28 de abril, as centrais nucleares espanholas foram as primeiras a ser desligadas por razões de segurança e não serviram para o black start. Esse papel coube a uma central de ciclo combinado a gás (Tapada do Outeiro) e a uma hidroelétrica (Castelo de Bode) do lado português.

No entanto, a integração de fontes renováveis variáveis exige gestão mais sofisticada – não a substituição por tecnologias do século XX. O portfólio de geração combina fontes complementares: a hidroeletricidade armazenada nas albufeiras (altamente despachável), a eólica e solar (variáveis mas previsíveis, com custo marginal nulo), o armazenamento em baterias (resposta quase instantânea) e o gás natural em ciclo combinado (flexível, essencial na transição).

A gestão da rede opera em vários níveis: planeamento de longo prazo, para garantir que o portfólio cobre os cenários de variação renovável; gestão diária, ajustando produção e consumo e ativando reservas; mercado de serviços auxiliares, onde a flexibilidade tem valor económico crescente; e manutenção preditiva, apoiada em ferramentas digitais de apoio à decisão. A estas acrescem a flexibilidade do lado da procura – consumidores que adaptam o seu consumo à disponibilidade de geração -, a geração distribuída e as micro-redes. O Grupo de Aconselhamento Técnico criado em Portugal após o apagão sublinhou ainda a urgência de implementar conversores com inércia sintética (grid-forming), que emulam o comportamento estabilizador das massas girantes dos geradores convencionais. Estas tecnologias existem e são implementáveis.

Perante o debate sobre Energia Nuclear em Portugal, importa ser direto: a geração nuclear não resolve os desafios de integração de renováveis – agrava-os. Os custos de construção dispararam (Flamanville e Hinkley Point C são exemplos de derrapagens que tornaram o nuclear a fonte mais cara do mercado europeu). Portugal não tem o know-how técnico nem a cadeia de fornecimento necessária. Os resíduos de alta atividade continuam sem solução definitiva. E a sua intermitência real – paragens abruptas de grande capacidade – seria uma ameaça séria à estabilidade do Sistema Elétrico Nacional.

O apagão foi um aviso sobre a necessidade de adaptar operação e regulação à crescente penetração renovável. Não foi um argumento contra as renováveis. A Agência Internacional de Energia é clara: a segurança elétrica depende não apenas da geração, mas da qualidade da operação da rede e do comportamento de todos os ativos conectados.

Para descarbonizar a economia portuguesa – eletrificando transportes, aquecimento e processos industriais – não há alternativa à expansão das renováveis. São as mais baratas, as mais rápidas de instalar e as mais abundantes no território nacional. O desafio está em construir, em paralelo, as infraestruturas, os mercados e as ferramentas de operação que permitam gerir essa variabilidade com robustez e segurança.

É esse o caminho. Não o pisca-pisca.

O Irão e os limites da autonomia estratégica europeia

9 June 2026 at 00:06

A guerra envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão tem exposto uma questão mais profunda e de maior relevância para o futuro da ordem internacional: os limites da autonomia estratégica europeia num mundo cada vez mais multipolar.

Durante anos, líderes europeus defenderam a necessidade de uma política externa mais independente, capaz de refletir os interesses específicos do continente sem depender automaticamente das prioridades de Washington. No entanto, momentos de crise costumam separar ambições de capacidades. E poucos episódios ilustram melhor essa realidade do que a trajetória do acordo nuclear iraniano.

Quando os Estados Unidos decidiram abandonar unilateralmente o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), em 2018, a França, a Alemanha e o Reino Unido manifestaram oposição à decisão. A União Europeia procurou preservar o acordo, criou mecanismos alternativos de pagamento e reafirmou o seu compromisso com uma solução diplomática. Apesar disso, os resultados foram limitados. A maioria das empresas europeias retirou-se do mercado iraniano, não por convicção política, mas por receio de perder acesso ao sistema financeiro internacional dominado pelo dólar e à economia norte-americana. A experiência revelou uma realidade desconfortável.

A Europa possuía vontade política, mas não dispunha dos instrumentos necessários para sustentá-la diante da pressão extraterritorial dos Estados Unidos. A autonomia estratégica europeia encontrou os seus limites precisamente onde o poder económico, financeiro e geopolítico norte-americano continua sendo determinante.

É nesse contexto que a postura chinesa merece atenção, não porque represente um modelo a ser copiado, mas porque evidencia uma abordagem diferente da diplomacia contemporânea. Pequim manteve relações funcionais simultaneamente com Irão, Israel, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Estados Unidos.  Naturalmente, essa postura não decorre de altruísmo. A China busca proteger interesses nacionais concretos relacionados à segurança energética, à estabilidade regional e à preservação de suas rotas comerciais.

Ainda assim, a estratégia chinesa demonstra a importância de preservar canais de interlocução com atores rivais, reduzindo a dependência de alinhamentos rígidos e ampliando as margens de manobra diplomática. Seria, contudo, um erro considerar essa prática uma exclusividade chinesa. Índia, Turquia, Brasil e diversas outras potências médias têm adotado estratégias semelhantes, procurando equilibrar suas relações com diferentes polos de poder sem aderir integralmente a nenhum deles. A verdadeira lição não é chinesa. É multipolar.

A questão central para a Europa, portanto, não é escolher entre Washington e Pequim. Trata-se de desenvolver capacidades que tornem sua autonomia estratégica operacional e não apenas retórica. Isso inclui mecanismos financeiros menos vulneráveis a sanções extraterritoriais, maior coordenação em matéria de defesa, instrumentos próprios de mediação diplomática e capacidade de sustentar compromissos internacionais independentemente das mudanças políticas ocorridas em outras capitais.

A crise iraniana demonstrou que a Europa continua sendo uma potência económica, tecnológica e regulatória de primeira grandeza. Demonstrou também que recursos, por si só, não se traduzem automaticamente em influência estratégica. A autonomia não depende apenas da capacidade de formular posições independentes. Depende, sobretudo, da capacidade de implementá-las. Num mundo cada vez mais marcado pela dispersão do poder, essa talvez seja a principal lição da crise.

A influência internacional será cada vez mais medida pela capacidade de transformar preferências políticas em ações efetivas. E é precisamente nesse terreno que a Europa continua a enfrentar o seu maior desafio.

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