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FAO vê risco de choque nos fertilizantes e na produção agrícola

10 June 2026 at 12:51

O diretor-geral da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), Qu Dongyu, afirmou que a crise no Estreito de Ormuz representa um risco para a segurança alimentar global, especialmente devido aos possíveis impactos sobre o fornecimento de fertilizantes e insumos agrícolas.

Segundo Qu, o estreito é uma rota estratégica para o comércio internacional. Aproximadamente 35% das exportações globais de petróleo bruto, 20% das exportações de GNL (gás natural liquefeito), entre 20% e 30% das exportações mundiais de fertilizantes e cerca de 50% das exportações globais de enxofre passam pela região.

“O fechamento do Estreito de Ormuz não é uma questão regional, é um risco global para a segurança alimentar”, afirmou durante Sessão do Conselho da entidade.

De acordo com o diretor-geral, o principal impacto da crise não seria uma escassez imediata de alimentos, mas um choque relacionado aos fertilizantes e à produção agrícola. Com a crise alcançando a marca de 100 dias, agricultores da Ásia, África e América Latina já enfrentam aumento dos custos de produção e decisões mais complexas sobre o uso de fertilizantes e o planejamento das safras.

Diante desse cenário, a FAO apresentou um conjunto de recomendações de curto, médio e longo prazo. Entre as medidas imediatas estão a manutenção da abertura do comércio internacional, a não adoção de restrições às exportações de insumos agrícolas, a proteção de corredores humanitários para alimentos e a busca por rotas logísticas alternativas.

A organização também informou que está ampliando iniciativas voltadas ao uso mais eficiente de fertilizantes, incluindo mapeamento de solos, agricultura de precisão e sistemas de cultivo consorciados para reduzir a dependência de fertilizantes nitrogenados. Além disso, trabalha na criação de fundos para o desenvolvimento de alternativas como amônia verde e biofertilizantes.

Qu também alertou para possíveis riscos climáticos associados ao fenômeno El Niño ainda neste ano, que podem afetar a produção agrícola em países já submetidos a crises alimentares.

Recursos para emergências

Durante o discurso, o diretor-geral apresentou uma atualização sobre o Apelo Global de Emergência e Resiliência, lançado pela FAO em dezembro de 2025 com o objetivo de alcançar 100 milhões de pessoas até 2026.

Até o final de maio deste ano, a iniciativa havia recebido US$ 206 milhões dos US$ 2,5 bilhões considerados necessários, o equivalente a cerca de 8% da meta financeira.

“Embora os recursos recebidos estejam fazendo a diferença, eles também nos lembram da dimensão do desafio que temos pela frente”, declarou.

A FAO destacou ações realizadas em áreas afetadas por conflitos e insegurança alimentar. No Sudão, a organização e seus parceiros vacinaram mais de 6,2 milhões de animais em 17 estados, beneficiando aproximadamente 1,9 milhão de pessoas. Em Gaza, o fornecimento emergencial de ração para mais de 2.200 criadores permitiu a manutenção dos rebanhos e a continuidade da produção de alimentos, segundo a entidade.

Apesar do déficit de recursos do apelo global, a FAO informou ter mobilizado US$ 564 milhões em contribuições voluntárias até o final de maio, valor cerca de 4% superior ao registrado no mesmo período do ano anterior.

Cooperação internacional

Qu também ressaltou o apoio recebido de instituições financeiras internacionais e de fundos voltados ao clima e ao meio ambiente. Segundo ele, a parceria entre a FAO e o Fundo Global para o Meio Ambiente atingiu, em dezembro de 2025, a marca de US$ 2 bilhões em financiamentos.

O diretor-geral destacou ainda a adesão de mais de 77 países ao Programa de Parceria Global para Doenças Animais Transfronteiriças, iniciativa voltada à prevenção e ao controle de enfermidades que afetam a produção agropecuária.

Na América Latina e no Caribe, as prioridades incluem a preservação dos avanços recentes na redução da fome, além do enfrentamento dos altos custos de dietas saudáveis e da pobreza rural. 

Ao encerrar o discurso, Qu reforçou a necessidade de fortalecer a capacidade de antecipação e resposta a crises em um cenário marcado por conflitos, eventos climáticos e desafios econômicos globais.

Mercado de fertilizantes atrasa ritmo, e demanda final ainda é incerta

9 June 2026 at 19:26

A comercialização de fertilizantes no Brasil acumula atraso de cerca de 7 milhões de toneladas em relação ao mesmo período do ano passado, segundo estimativas apresentadas pela Mosaic. O movimento ocorre em um contexto de forte alta dos custos de matérias-primas, especialmente do enxofre, e de incertezas geopolíticas que afetam a cadeia global de suprimentos.

Ao mesmo tempo, a companhia decidiu interromper operações em unidades no Brasil e nos Estados Unidos diante do desequilíbrio econômico entre os custos de produção e os preços praticados no mercado de fertilizantes.

Nesta época do ano passado, cerca de 32 milhões de toneladas de fertilizantes já haviam sido entregues, enquanto neste ano o volume está em aproximadamente 25 milhões de toneladas, disse Eduardo Monteiro, country manager da Mosaic, em evento promovido pelo Brazil Journal e The Agribiz nesta terça-feira (9).

“A pergunta que vem é: o mercado vai reduzir 7 milhões? Não sabemos”, disse. Segundo ele, parte dos produtores adiou as decisões de compra após perder o momento considerado mais favorável para aquisição dos insumos.

Monteiro destacou que ainda há espaço para recuperação da demanda nos próximos meses, já que, em algumas regiões do país, as compras para a safra de verão podem ocorrer até julho, agosto e, em determinados casos, até setembro.

Além do atraso nas negociações, a oferta também apresenta sinais de restrição. Dados citados pelo executivo apontam queda de aproximadamente 10% nas importações de fertilizantes fosfatados e de 12% nas de nitrogenados. O executivo ressaltou, porém, que a situação do fósforo é mais crítica.

O cenário é agravado pela escalada dos custos de produção. Um dos principais fatores é a valorização do enxofre, insumo essencial para a fabricação de fertilizantes fosfatados. Segundo Monteiro, o produto era negociado em torno de US$ 500 por tonelada antes do início do conflito no Oriente Médio e, atualmente, alcança cerca de US$ 1.250 por tonelada.

As tensões geopolíticas também têm ampliado as dificuldades logísticas e de abastecimento. Monteiro citou os impactos dos conflitos no Oriente Médio e entre Rússia e Ucrânia, além da recente decisão da Rússia de restringir o trânsito de enxofre proveniente do Cazaquistão.

“Imagine o que é você estar 11 semanas com os fluxos logísticos interrompidos e os preços subindo, com a matéria-prima cada vez mais restrita”, disse.

Segundo ele, Rússia e Cazaquistão respondem juntos por cerca de 15% da produção mundial de enxofre. A restrição ao transporte do produto aumentou a pressão sobre os fabricantes de fertilizantes fosfatados, que, em alguns casos, enfrentam custos de produção superiores aos preços de venda do produto final.

Nesse contexto, a Mosaic anunciou paralisações em suas operações. A empresa já interrompeu atividades em cinco unidades, incluindo duas parcialmente nos Estados Unidos, localizadas em Baton Rouge e Louisiana.

No Brasil, a companhia encerrou de forma permanente as operações da unidade de Araxá (MG), colocada à venda, e suspendeu temporariamente as atividades dos complexos de Tapira (MG) e Catalão (GO).

Segundo Monteiro, as paralisações temporárias estão diretamente relacionadas ao aumento do custo do enxofre e à dificuldade de repassar essa alta aos preços dos fertilizantes.

“O que a gente tem controle é efetivamente a gestão dos nossos custos, a segurança e a forma como interagimos com os clientes”, afirmou.

A empresa também participa de discussões com entidades do setor e órgãos do governo federal em busca de medidas para apoiar a produção nacional de fertilizantes fosfatados. Entre as propostas em debate está a criação de mecanismos temporários de suporte para a cadeia do enxofre. De acordo com o executivo, a indústria defende a adoção de subsídios temporários para o insumo, em modelo semelhante ao já existente para o diesel.

Apesar das dificuldades, Monteiro afirmou que ainda não é possível determinar se haverá escassez de fertilizantes no mercado brasileiro. Segundo ele, a combinação entre possível redução da demanda e diminuição da oferta torna difícil prever o equilíbrio do mercado nos próximos meses.

“O debate hoje é se faltará fertilizante em função da guerra ou se a redução potencial da demanda poderá funcionar como um ponto de equilíbrio”, disse.

Para o executivo, os meses de agosto e setembro tendem a concentrar os principais gargalos logísticos e de abastecimento. 

Diante desse cenário, “a palavra que predomina dentro desse mercado hoje é incerteza”, afirmou.

Por que o Brasil precisa importar fertilizantes?

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