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Violência de gangues no Haiti desloca quase 600 mil pessoas em 2025

14 June 2026 at 17:00

A violência gerada por gangues que operam no Haiti, particularmente na capital Porto Príncipe, expulsou de suas casas quase 600.000 pessoas durante 2025, fazendo com que o número de deslocados internos no país caribenho chegasse a 1,4 milhão, de acordo com um novo relatório da ACNUR, a Agência da Organização das Nações Unidas para os Refugiados.

Esses dados fazem parte do relatório anual de tendências globais da ACNUR, que analisa o fenômeno do deslocamento forçado no mundo.

Em nível global, 68,7 milhões de pessoas são deslocadas internas, diz o relatório publicado nesta quinta-feira. Embora o Haiti não esteja entre os países com mais casos — Sudão, com 9,1 milhões; Colômbia, com 7,2 milhões; e Síria, com 5,9 milhões —, a ACNUR alerta para o agravamento das condições de vida em seu território e para o risco que isso representa para a população.

“Ao longo de 2025, no Haiti, a violência relacionada a gangues, a desordem civil, os ataques direcionados contra civis e os confrontos violentos pelo controle territorial continuaram se intensificando, particularmente em Porto Príncipe e nas comunas vizinhas. Pouco mais de 574.300 haitianos foram deslocados internamente durante o ano. Como resultado, o número de deslocados internos aumentou drasticamente em 38%, chegando a 1,4 milhão no final de 2025”, diz o relatório.

“O Haiti se tornou cada vez mais inseguro, caracterizado por violações generalizadas dos direitos humanos e níveis alarmantemente altos de violência de gênero. Em resposta, em outubro de 2025 foi estabelecida uma Força de Supressão de Gangues por meio de uma resolução do Conselho de Segurança para combater a violência das gangues e melhorar a segurança de milhões de haitianos”, acrescenta.

Na América Latina, a Colômbia é o país com o maior número de deslocados internos, um fenômeno atribuído à violência gerada por diversos grupos armados e criminosos. Segundo a ACNUR, o número de casos no país sul-americano diminuiu 0,74% no último ano, passando de 7 milhões 265 mil em 2024 para 7 milhões 211 mil em 2025.

Haiti e Colômbia enfrentam alto risco humanitário, segundo ONGs

Haiti e Colômbia também figuram entre os países da América Latina que a organização não governamental Comitê Internacional de Resgate (IRC, na sigla em inglês) mantém sob vigilância pelo risco de agravamento de crises humanitárias durante 2026, em um contexto global marcado por conflitos prolongados, deslocamentos forçados e redução da ajuda internacional.

O alerta faz parte da atualização de meio de ano da lista de emergência do IRC, um relatório que identifica os países mais expostos a emergências humanitárias. O Haiti aparece entre os 10 países com maior risco em nível global, enquanto a Colômbia integra o grupo ampliado de nações monitoradas pela organização.

Segundo a ONG, o mundo atravessa uma fase de crescente instabilidade na qual as crises se expandem mais rapidamente do que a capacidade de resposta internacional. O IRC afirma que sistemas-chave como a ajuda humanitária, a diplomacia e a proteção de refugiados estão enfraquecendo justamente quando mais são necessários.

“O resultado não é simplesmente uma maior instabilidade, mas um mundo que se torna progressivamente mais difícil de estabilizar”, diz o relatório.

Haiti entre os focos de maior preocupação

No caso do Haiti, o relatório alerta para o impacto da violência armada sobre a população civil e destaca o uso crescente de drones em cenários de conflito.

De acordo com o IRC, mais de 1.200 pessoas, incluindo pelo menos 17 crianças, morreram em ataques com drones desde 2025.

A organização alerta que essas tecnologias, cada vez mais acessíveis e menos regulamentadas, estão facilitando ataques em cidades e comunidades afastadas das linhas tradicionais de combate, com consequências devastadoras para a população civil. Outras organizações de direitos humanos também fizeram alertas nesse mesmo sentido.

O relatório também afirma que a expansão da violência e a deterioração das condições de segurança continuam agravando a crise humanitária em vários dos países incluídos na lista de monitoramento, entre eles o Haiti.

Deslocamento em níveis históricos

A publicação do relatório do IRC ocorre após a divulgação de novos dados da ACNUR que mostram que 118 milhões de pessoas permanecem deslocadas em todo o mundo, incluindo os 68,7 milhões de deslocados internos, um número que dobrou na última década e que continua próximo de níveis históricos máximos.

Segundo o IRC, cerca de 70% dos refugiados vive em situações de deslocamento prolongado, ou seja, há cinco anos ou mais longe de suas casas, sem perspectivas claras de retorno ou integração. A maioria vem de um grupo reduzido de países afetados por conflitos persistentes, entre eles Afeganistão, Sudão, Síria, Sudão do Sul, Mianmar e a República Democrática do Congo.

A ONG também alerta que quase 60% das pessoas deslocadas nunca cruzaram uma fronteira internacional, permanecendo dentro de seus próprios países, muitas vezes enfrentando novos deslocamentos provocados pela violência ou por fenômenos climáticos extremos.

“O primeiro recuo do deslocamento global em mais de uma década deveria ser uma boa notícia. No entanto, os números refletem sofrimento em uma escala histórica”, disse o presidente e CEO do IRC, David Miliband.

Miliband afirmou que grande parte da redução registrada neste ano se deve ao retorno de populações a países que ainda enfrentam crises profundas. “Retornos sem recursos não são uma solução; são um deslocamento duplicado”, declarou.

Menos recursos para responder às crises

O IRC também alertou para a queda da ajuda destinada aos países mais afetados por conflitos e fragilidade. Segundo seus cálculos, a proporção da assistência oficial ao desenvolvimento direcionada a esses Estados caiu de 43% em 2013 para 25% em 2024.

“As ferramentas para evitar uma piora existem: assistência em dinheiro, investimento contínuo em Estados frágeis e instituições multilaterais funcionais”, afirmou Miliband. “A questão é se os governos vão decidir usá-las ou permanecer à margem enquanto essa desordem crescente tira mais vidas e meios de subsistência.”

O relatório conclui que, sem maior investimento em ajuda humanitária e em mecanismos de prevenção e resposta, países vulneráveis como Haiti e Colômbia podem enfrentar maiores pressões sociais e humanitárias nos próximos meses.

 

 

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