VoxPop: Uma comunidade dividida: quando ser português no Canadá ainda depende de ser ‘da ilha’ ou ‘do continente’

Apesar de milhares de quilómetros de distância, a comunidade portuguesa no Canadá continua a carregar uma divisão silenciosa — mas persistente — entre continentais, açorianos e madeirenses. O que começou como identidade regional transformou-se, ao longo das décadas de emigração, em fronteiras invisíveis dentro da própria diáspora. Em festas, associações e até na vida social quotidiana, ainda há quem sinta que não basta ser português: é preciso ser “do grupo certo”. Entre a preservação das raízes e a criação de muros internos, esta realidade levanta uma pergunta desconfortável — estaremos realmente unidos enquanto comunidade, ou apenas a viver lado a lado, separados por origens que nunca ficaram para trás?
Maria Silva, 62 anos (Açoriana)
Porque acha que ainda existe uma separação tão visível entre portugueses continentais e açorianos (e, em menor escala, madeirenses) na comunidade luso-canadiana?
Porque essa separação já vinha de trás. As pessoas emigraram com as suas identidades muito marcadas e nunca houve uma verdadeira fusão entre comunidades. Cada grupo acabou por criar os seus próprios espaços.
Já sentiu ou testemunhou essa divisão no dia a dia? Pode dar um exemplo?
Sim, várias vezes. Em festas comunitárias ou eventos culturais, nota-se logo a divisão nas conversas e até nas mesas. Já ouvi comentários a diferenciar “os das ilhas” e “os do continente” como se fossem quase comunidades diferentes.
Na sua opinião, essa divisão tem raízes culturais e históricas trazidas de Portugal e das ilhas, ou foi algo que se desenvolveu já no Canadá? Porquê?
Tem as duas coisas. Já existia em Portugal, mas no Canadá ficou mais visível porque as comunidades cresceram separadas e criaram as suas próprias associações.
Até que ponto esta separação ajuda ou prejudica a força, a representatividade e a afirmação da comunidade portuguesa no Canadá?
Prejudica. Em vez de uma comunidade forte e unida, ficamos divididos em pequenos grupos.
João Pereira, 45 anos (Continental)
Porque acha que ainda existe uma separação tão visível entre portugueses continentais e açorianos (e, em menor escala, madeirenses) na comunidade luso-canadiana?
Porque ainda existe muito orgulho regional e pouca abertura para ultrapassar essas diferenças. Muitas pessoas continuam a ver mais o que nos separa do que o que nos une.
Já sentiu ou testemunhou essa divisão no dia a dia? Pode dar um exemplo?
Sim. Em alguns clubes e associações, percebe-se que certas decisões são sempre dominadas pelos mesmos grupos regionais. Já vi situações em que pessoas de fora do “grupo principal” acabam por não ter a mesma voz.
Na sua opinião, essa divisão tem raízes culturais e históricas trazidas de Portugal e das ilhas, ou foi algo que se desenvolveu já no Canadá? Porquê?
Veio de Portugal, mas no Canadá ficou mais forte porque cada comunidade se organizou de forma independente e isolada.
Até que ponto esta separação ajuda ou prejudica a força, a representatividade e a afirmação da comunidade portuguesa no Canadá?
Prejudica bastante. Enfraquece a nossa representação coletiva.
Sofia Almeida, 27 anos (descendente de madeirenses)
Porque acha que ainda existe uma separação tão visível entre portugueses continentais e açorianos (e, em menor escala, madeirenses) na comunidade luso-canadiana?
Porque a identidade regional ainda é muito forte, especialmente entre gerações mais velhas que mantiveram essas diferenças vivas no Canadá.
Já sentiu ou testemunhou essa divisão no dia a dia? Pode dar um exemplo?
Sim. Já estive em contextos sociais onde se fazem distinções entre “ilhas” e “continente” de forma quase automática. Já me disseram diretamente que “não sou bem de lado nenhum”, o que é estranho sendo portuguesa.
Na sua opinião, essa divisão tem raízes culturais e históricas trazidas de Portugal e das ilhas, ou foi algo que se desenvolveu já no Canadá? Porquê?
Veio dos dois lados, mas no Canadá ficou mais rígida porque as comunidades cresceram separadas e com pouca interação entre si.
Até que ponto esta separação ajuda ou prejudica a força, a representatividade e a afirmação da comunidade portuguesa no Canadá?
Prejudica, mas também preserva tradições. O problema é quando isso vira exclusão.
Tony Martins, 35 anos (nascido no Canadá)
Porque acha que ainda existe uma separação tão visível entre portugueses continentais e açorianos (e, em menor escala, madeirenses) na comunidade luso-canadiana?
Porque é mais fácil as pessoas se identificarem com grupos pequenos e familiares do que construírem uma identidade portuguesa única no estrangeiro.
Já sentiu ou testemunhou essa divisão no dia a dia? Pode dar um exemplo?
Sim. Em eventos culturais ou sociais, nota-se que as pessoas se agrupam por origem e há pouca mistura real entre esses grupos.
Na sua opinião, essa divisão tem raízes culturais e históricas trazidas de Portugal e das ilhas, ou foi algo que se desenvolveu já no Canadá? Porquê?
Acho que se desenvolveu mais no Canadá. Aqui, a distância e o tempo fizeram com que as diferenças regionais ficassem mais fixas do que em Portugal.
Até que ponto esta separação ajuda ou prejudica a força, a representatividade e a afirmação da comunidade portuguesa no Canadá?
Prejudica a representatividade global da comunidade.
Ricardo Sousa, 50 anos (Continental)
Porque acha que ainda existe uma separação tão visível entre portugueses continentais e açorianos (e, em menor escala, madeirenses) na comunidade luso-canadiana?
Porque existe uma mentalidade antiga que nunca foi ultrapassada. Há uma tendência para cada grupo se ver como “mais autêntico” do que o outro, e isso nunca desapareceu completamente.
Já sentiu ou testemunhou essa divisão no dia a dia? Pode dar um exemplo?
Sim, e vou ser direto: já vi pessoas serem ignoradas ou afastadas de associações apenas por não pertencerem ao grupo regional dominante. Isso ainda acontece, mesmo que muita gente não queira admitir.
Na sua opinião, essa divisão tem raízes culturais e históricas trazidas de Portugal e das ilhas, ou foi algo que se desenvolveu já no Canadá? Porquê?
Veio de Portugal, mas no Canadá foi amplificada. Aqui, em vez de desaparecer, foi organizada em estruturas comunitárias separadas que reforçaram essa divisão.
Até que ponto esta separação ajuda ou prejudica a força, a representatividade e a afirmação da comunidade portuguesa no Canadá?
Prejudica muito. E enquanto continuarmos a fingir que isto é só “diferença cultural”, vamos continuar fragmentados e sem uma voz forte.
Romulo M. Avila/MS



















