Normal view

O fim da construção de 144 anos da Sagrada Família com a Torre de Jesus

10 June 2026 at 12:00

É inevitável — todo mundo olha para cima. Quando os visitantes chegam à Sagrada Família, em Barcelona, seus olhos seguem instintivamente as linhas surreais e retorcidas das torres esculpidas da basílica até alcançarem o topo de cada agulha.

Agora, os olhares vão mais alto do que nunca. Mais de 144 anos após o início da construção, a igreja mais alta do mundo atingiu sua altura final de 172,5 metros (566 pés) em fevereiro, com a instalação de seu último grande elemento estrutural: uma cruz no topo da torre central de Jesus Cristo.

Adiada por guerras, política e falta de verbas, a presença imponente — mas inacabada — da Sagrada Família dominou o horizonte de Barcelona por décadas. Agora, a tão esperada torre final está, enfim, pronta para sua inauguração.

Na quarta-feira, o Papa Leão XIV — o 11º pontífice a reinar desde o início do projeto — celebrará uma Missa Solene e uma bênção cerimonial. Embora ainda restem anos de trabalhos não estruturais pela frente, 2026 há muito tempo é apontado como o ano desta grande abertura oficial. A inauguração da 18ª torre marca exatamente 100 anos da morte do arquiteto visionário da igreja, Antoni Gaudí.

Um triunfo de cores, artesanato e uma geometria extraordinária, a Sagrada Família é um monumento não apenas à fé, mas também à reverência de Gaudí pela natureza e seu domínio da engenharia complexa. Sua conclusão é um testemunho do esforço de inúmeros designers e arquitetos que precisaram decifrar as plantas da igreja, em grande parte destruídas na década de 1930.

De certa forma, a complexidade do projeto foi sintetizada por esta última peça do quebra-cabeça arquitetônico. Com sua superfície branca brilhante que reflete o sol escaldante da Espanha, a cruz que coroa a Torre de Jesus Cristo (as outras 17 torres são dedicadas aos 12 apóstolos, aos quatro evangelistas e à Virgem Maria) é tão alta quanto um prédio de cinco andares e pesa cerca de 100 toneladas. Sua instalação foi um processo complexo que durou meses.

Segundo Mauricio Cortés, o arquiteto responsável, Gaudí havia imaginado uma cruz reflexiva que brilhasse durante o dia e iluminasse o horizonte à noite. Cortés, como todos os seus antecessores, enfrentou dois grandes desafios: manter-se fiel à visão de Gaudí e, ao mesmo tempo, atender a exigências rigorosas de engenharia — neste caso, garantir que a agulha da torre permanecesse relativamente leve.

A cruz foi fabricada na Alemanha e entregue na Espanha em 14 seções pré-moldadas de concreto e aço inoxidável. Este último material, embora não fosse amplamente utilizado na época de Gaudí, garantiu a resistência necessária ao mesmo tempo em que reduziu o peso total. Essa convergência entre história e modernidade foi um dos muitos consensos delicados necessários para tirar o projeto do arquiteto do papel.

Uma vez em Barcelona, cada seção foi içada por um guindaste até uma oficina localizada a 60 metros (200 pés) de altura, bem acima da nave central da basílica. Lá, os operários finalizaram as peças com acabamento interno de pedra, revestimento de cerâmica branca esmaltada e vitrais com vidros de origem local, antes de a estrutura ser montada e erguida até sua posição final.

“Obviamente os tempos mudaram — a tecnologia evoluiu, assim como as regulamentações”, disse Cortés à CNN durante uma visita guiada pela basílica antes da inauguração. Mas o arquiteto mexicano está confiante de que a igreja permanece fiel à visão original de Gaudí. “Temos certeza de que estamos muito próximos [dos planos dele] para o exterior”, acrescentou. “Já no interior, como ele não o definiu em detalhes, há mais margem para interpretação.”

Projeto de Gaudí tem saído do papel • Maria Contreras Coll for CNN via CNN Newsource

Fé nas alturas

Do ponto de vista privilegiado da oficina suspensa, é possível ver não apenas a cidade inteira, mas também os elementos arquitetônicos mais altos da basílica. O teto da nave central explode em cores, com seus frontões decorados em cerâmica vibrante. As torres sineiras no topo das fachadas da Natividade e da Paixão — imensas paredes que contam suas respectivas narrativas bíblicas em pedras ornamentadas — são coroadas com pináculos que parecem insígnias, feitos de mosaicos de vidro veneziano cintilante.

É uma visão que Gaudí sabia que nunca veria em vida. Quando assumiu o projeto no lugar do arquiteto Francesc de Paula Villar, que renunciou após um desentendimento com o idealizador da obra, ele entendeu que não viveria para vê-lo concluído. A escala e a complexidade de sua visão tornavam isso quase impossível.

“Meu cliente não tem pressa”, respondeu Gaudí em uma frase que ficou famosa ao ser questionado sobre os prazos de conclusão. Seu cliente não era o idealizador da obra e nem os fiéis de Barcelona: era Deus.

O arquiteto catalão viveu o suficiente para ver a primeira torre concluída. Mas ele jamais poderia prever os obstáculos que atrasariam o projeto após sua morte, em 1926.

Dois fatores foram particularmente prejudiciais para o avanço das obras: o dinheiro e a Guerra Civil Espanhola.

O país mergulhou no caos dez anos após a morte de Gaudí. Em julho de 1936, anarquistas incendiaram a cripta da igreja e invadiram a oficina do arquiteto, destruindo muitas de suas plantas e modelos de gesso. Felizmente, nem tudo desapareceu.

Grande parte das informações perdidas foi reconstruída por discípulos e colaboradores de Gaudí, que haviam documentado suas ideias em livros, artigos, desenhos e fotografias. O trabalho deles serviu como um guia valioso para as gerações posteriores de arquitetos.

Talvez o mais importante seja que ele deixou para seus sucessores uma espécie de lógica de design, explicou Jordi Faulí, o arquiteto-chefe que atualmente supervisiona as obras. Embora o trabalho subsequente tenha utilizado tecnologia moderna — desde softwares de modelagem digital até robôs industriais —, a lógica subjacente permaneceu.

“Ele criou um método para projetar um sistema”, disse Faulí, acrescentando: “Quando analisamos os fragmentos [que restaram] de seus modelos, ou fotos deles, conseguimos interpretá-los facilmente, porque entendemos as superfícies que Gaudí usou no projeto e como elas se cruzam.”

O financiamento foi outro desafio. Por ser um “templo expiatório”, a igreja é financiada inteiramente por doações e, desde que foi aberta oficialmente ao público em 2010, pela receita dos visitantes.

A vulnerabilidade desse modelo ficou clara durante a pandemia da Covid-19, quando o turismo entrou em colapso e a venda de ingressos despencou. Desde então, no entanto, o número de visitantes se recuperou fortemente. Só em 2025, a basílica recebeu quase 5 milhões de pessoas.

A luz invade a nave central através dos vitrais da Fachada da Paixão, que foi concebida em um estilo austero e anguloso para transmitir o sofrimento de Jesus Cristo. A impressionante nave, consagrada pelo Papa Bento XVI em 2010, tem quase 45 metros (150 pés) de altura • Maria Contreras Coll for CNN via CNN Newsource

Polêmica em fogo brando

A Sagrada Família pode parecer completa agora, mas está longe de estar terminada. Com a Torre de Jesus Cristo erguida — sem contar o interior, que deve ser concluído até 2028 —, as atenções se voltaram para a Fachada da Glória.

A terceira e última das fachadas decoradas de Gaudí foi pensada pelo arquiteto como a grande entrada principal da basílica. Sua construção, no entanto, gerou tensões com os moradores que vivem em frente ao local.

O problema central é uma proposta de escadaria. Como o pórtico de entrada fica a cerca de 4 metros (13 pés) acima do nível da rua, a Junta Construtora do Templo Expiatório da Sagrada Família (a fundação sem fins lucrativos responsável pelas obras) propôs uma escadaria monumental para ligar a basílica à rua, permitindo que o trânsito passe por baixo.

Para isso, seria necessário um espaço significativo, o que poderia exigir a demolição de edifícios residenciais diretamente opostos à igreja. Por conta disso, muitos comerciantes e moradores locais se opõem à proposta.

Entre eles está Alicia Busquets, que mora no bairro há três décadas. Seu apartamento oferece uma vista excepcional da basílica, mas a incerteza que cerca o projeto tornou-se uma fonte de preocupação constante, impedindo-a até mesmo de investir em reformas.

“Quem pode garantir que daqui a dois anos a minha casa não será derrubada?”, perguntou ela.

Suas preocupações são compartilhadas por muitos vizinhos, que afirmam ainda não ter informações claras sobre o cronograma das obras, segundo Salvador Barroso, presidente de uma associação criada pelos moradores afetados pelas propostas. A Junta Construtora, por sua vez, declarou que precisa primeiro chegar a um acordo com as autoridades municipais antes de abrir diálogo com os moradores.

É improvável que a polêmica ofusque as celebrações desta semana. Mas ela serve como um lembrete de que a basílica continua inacabada e que o destino das pessoas que passaram anos vivendo sob sua sombra permanece indefinido.

“Estamos em um impasse”, disse Barroso. “Há muitos boatos, muita coisa sendo dita, mas a realidade é que não há nada garantido. Com a visita do Papa chegando em poucos dias… isso aqui está parecendo uma panela de pressão”, concluiu.

Hierarquia da Igreja Católica: entenda os principais cargos e funções

Papa Leão XIV promete a vítimas de abusos "novos esforços"

8 June 2026 at 18:56
O Papa está a visitar Espanha desde sábado e já referiu várias vezes a problema dos abusos sexuais na Igreja Católica desde que chegou a Madrid. "São uma chaga ainda aberta", disse Leão XI.

© MARIA AGUILELLA PARDO/EPA

Os abusos sexuais na Igreja "são uma chaga ainda aberta", disse Leão XIV

Associações de vítimas de abusos denunciam exclusão de encontros com Leão XIV

Papa Leão XIV

Associações de vítimas de abusos sexuais na Igreja Católica em Espanha lamentaram hoje a exclusão de encontros com o Papa, que está em Madrid, de vários grupos que representam estas pessoas.

“Sobreviventes dos abusos sexuais na Igreja pedem ao Papa Leão XIV uma escuta verdadeiramente inclusiva e denunciam a exclusão de associações representativas” de vítimas, denunciaram oito associações, num comunicado.

Leão XIV chegou no sábado a Madrid para um visita de uma semana a Espanha que passará também por Barcelona e pelas ilhas Canárias e durante a qual terá encontros com vítimas de abusos sexuais no seio da Igeja Católica em Espanha, disse o Vaticano.

As oito associações que hoje divulgaram um comunicado denunciaram “a falta de representatividade e de pluralidade nos encontros previstos com o Papa”, cujo local e hora não são conhecidos.

“A opinião pública pode interpretar erradamente que o conjunto das vítimas se sente satisfeito com a celebração destes encontros. No entanto, existem diversas sensibilidades e numerosos grupos que não foram levados em conta. A exclusão de associações representativas e de sobreviventes que trabalham há anos pela verdade, a justiça e a reparação só contribui para aumentar o sentimento de abandono”, lê-se no comunicado.

O Governo de Espanha e a Igreja Católica, através da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), anunciaram em 08 de janeiro um acordo para a reparação de centenas de vítimas de abusos sexuais cujos casos já não podem ter resposta judicial.

Ao abrigo deste acordo, será a Igreja a assumir essa reparação.

Em causa estão indemnizações económicas ou outro tipo de reparações simbólicas de vítimas de crimes sexuais no âmbito da Igreja católica em Espanha cujos casos são processados e analisados através de uma estrutura da Provedoria de Justiça.

O parlamento espanhol decidiu em 10 de março de 2022 criar uma comissão presidida pelo provedor de Justiça, Ángel Gabilondo, para investigar, pela primeira vez de forma oficial, os abusos a menores no seio da Igreja Católica.

Num relatório apresentado em outubro de 2024, o provedor revelou terem sido recolhidos 674 testemunhos de abusos sexuais cometidos “no âmbito da Igreja Católica” em Espanha e apelou às instituições públicas para avançarem com formas de compensação das vítimas.

O relatório incluiu também o resultado de uma sondagem que estima que 1,3% da população adulta de Espanha foi vítima deste tipo de crimes, o que equivale a cerca de 445 mil pessoas.

Segundo a mesma estimativa, 0,6% dos abusos (envolvendo perto de 236.500 vítimas) foram cometidos por sacerdotes ou outros membros da Igreja Católica.

Na sequência deste relatório, o Governo espanhol aprovou no mesmo ano um plano para ressarcir as vítimas e disse ter iniciado negociações com os bispos para ser a instituição a assumir os custos das indemnizações de casos que não tiveram resposta judicial, por já terem prescrito ou por dificuldade de obtenção de provas.

As associações que hoje divulgaram um comunicado sublinharam que trabalharam também com a Provedoria de Justiça nos últimos anos, mas nem todas as vítimas estão reconhecidas no acordo assinado entre Governo e Igreja ou o apoiam.

“O nosso apelo não procura enfrentar umas vítimas com outras. Todas merecem respeito e consideração. O que pedimos é que nenhuma pessoa sobrevivente fique relegada à invisibilidade e que o compromisso com a verdade, a justiça, a reparação e as garantias de não repetição alcancem todos os afetados, sem exclusões”, sublinham.

O Papa disse no sábado que os abusos sexuais “são uma chaga ainda aberta” e que vai continuar a trabalhar pessoalmente, assim como toda a Igreja, neste problema.

“Sublinho o facto de que eu pessoalmente trabalhei sempre para instituir comissões, para fazer regras e continuarei a fazê-lo, também toda a Igreja, porque é uma chaga ainda aberta”, disse Leão XIV, citado por jornalistas que viajaram com o Papa no avião que o levou de Roma a Madrid.

❌