Fim da crise do Estreito de Ormuz não vai acabar com os altos preços dos combustíveis
O fecho do Estreito de Ormuz em 28 de fevereiro, na sequência do ataque conjunto dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, criou o maior choque de oferta de energia da história, tamnto no segmento do petróleo como do gás natural. Diariamente, em 2025, cerca de 15 milhões de barris de petróleo bruto e cinco milhões de barris de derivados de petróleo transitavam pelo Estreito, aproximadamente 20% da oferta global. Mas, se o fecho daquela via marítima resultou em consequências imediatas do lado da oferta e no consequente aumento dos preços, a abertura do estreito não resultará na reposição da oferta à mesma velocidade a que ela desapareceu.
A normalização dos mercados na próxima semana, por exemplo, é uma quimera que não vai acontecer – por muito que a guerra acabe mesmo, o que ainda não é certo. “Mesmo que o estreito seja reaberto rapidamente, espera-se que o mercado global de petróleo permaneça com oferta insuficiente até 2027, visto que a retoma das instalações de produção e da logística global leva vários meses”, refere um estudo analítico da autoria dos especialistas Thomas Mramor, Alexander Roth, Simone Tagliapietra e Georg Zachmann, dado a conhecer pelo ‘think tank’ Bruegel.
“Restaurar a cadeia de fornecimento pré- guerra significa realocar centenas de navios-tanque de outras rotas comerciais, deslocar trabalhadores e reabrir campos de petróleo. Acima de tudo, as empresas de transporte marítimo e os produtores precisam de recuperar a confiança na estabilidade futura da região para retomar o transporte marítimo e a produção. Nesse contexto, a dependência da Europa em relação às importações de petróleo parece ser um passivo de longo prazo”, referem.
A economia da União Europeia está altamente exposta a preços mais altos do petróleo e a défices de oferta: em 2024, o petróleo representou 38% da matriz energética da União. Quase todo o petróleo bruto é refinado para produzir combustível para transporte rodoviário e da aviação, ou como matéria-prima para a indústria, salientam os analistas.
Ora, a União depende quase inteiramente do petróleo importado, com 97% do seu consumo de petróleo bruto proveniente do exterior. Embora os volumes totais de importação tenham permanecido relativamente estáveis nos últimos 30 anos, a sua composição deslocou-se, “passando do petróleo bruto para os produtos refinados, em particular o gasóleo e o querosene de aviação. O petróleo bruto representava quase 97% das importações em 1990, mas apenas cerca de 89% em 2024, enquanto as importações de querosene de aviação e gasóleo aumentaram cinco e vinte e cinco vezes, respetivamente”.
Neste contexto, os choques globais afetam a União através das importações de petróleo bruto e dos mercados de produtos, dependendo da diversificação. “O fornecimento de petróleo bruto é relativamente bem diversificado, com a maior parte das importações provenientes da Noruega, dos Estados Unidos e do Cazaquistão. No caso da gasolina, a União é exportadora líquida. Para o diesel, cerca de 17% do fornecimento da União é importado, principalmente da Arábia Saudita, dos Estados Unidos e da Índia. Para o querosene de aviação, as importações representam cerca de 38% do fornecimento, sendo o Kuwait, a Índia e os Emirados Árabes Unidos os principais países fornecedores.
Capacidade interna diminuiu
Ao mesmo tempo, a capacidade de refinação global do bloco diminuiu 5% desde 2015. As refinarias de petróleo podem, até certo ponto, alternar entre diferentes produtos petrolíferos, mas quanto mais se afastam do produto em bruto, menos eficientemente operam, refere o estudo.
Para atenuar o impacto do aumento dos preços do petróleo ao consumidor, os governos europeus já comprometeram mais de 11 mil milhões de euros em medidas fiscais – 72% das quais consistem em medidas não direcionadas, como o imposto geral sobre a energia ou cortes no IVA, que não têm um grupo-alvo claro nem critérios de qualificação definidos. “Estas medidas correm o risco de distorcer o sinal dos preços ao consumidor, aumentando, em última análise, o consumo de energia durante um período de escassez”.
Apesar da interrupção em curso, os preços do petróleo bruto permaneceram abaixo de seu máximo histórico – atingido em 2008 – e caíram recentemente, acompanhando os preços dos derivados. “Parece que os mercados de commodities não acreditam num défice de oferta duradouro; o que pode refletir a esperança de uma resolução rápida do conflito com o Irão”. Se este perceção se consolidar entre os consumidores, o consumo pode aumentar, o que levará inevitavelmente a que os níveis de armazenamento caírem ainda mais.
As recomendações da AIE (Agência Internacional de Energia), a Unnião exige que os Estados-membros mantenham reservas de emergência equivalentes a pelo menos 90 dias de importações líquidas ou 60 dias de consumo. O armazenamento comercial é significativo, com a região ARA (Amsterdão-Roterdão-Antuérpia) como um centro fundamental. “Os seus níveis de enchimento apresentam um panorama misto: enquanto as reservas de petróleo bruto e gasóleo parecem estáveis em relação à média de 2021-2025, as reservas de querosene de aviação diminuíram drasticamente desde janeiro, atingindo menos de 70% da média dos últimos cinco anos”. Embora algumas companhias aéreas estejam otimistas quanto à possibilidade de evitar a escassez de querosene de aviação, analistas, incluindo o Goldman Sachs e a S&P Global, estão muito menos otimistas.
Escassez à vista
É neste contexto que os quatro analistas aconselham vivamente a União a “começar a preparar-se para a possibilidade de escassez de alguns produtos petrolíferos nos próximos meses” – o que deve impulsionar medidas do curto ao longo prazo. Em primeiro lugar, dizem, os Estados-membros devem suspender a implementação de subsídios indiscriminados aos combustíveis, que apenas sustentam a procura de petróleo durante períodos de escassez. Os subsídios indiscriminados aumentam a procura global e agravam a escassez”. Os escassos fundos públicos devem, em vez disso, ser utilizados para proteger os mais vulneráveis e para incentivar tecnologias limpas, referem.
Em segundo lugar, a União deve elaborar um plano de contingência com medidas coordenadas de redução da procura de petróleo em caso de crise de abastecimento. “Um aumento acentuado dos preços do petróleo reduz naturalmente a procura, mas algum grau de coordenação continuará a ser importante. Isto poderia ser concretizado com a adoção de uma meta de redução da procura de petróleo, tal como foi implementado para o gás natural durante a crise energética de 2022-23”.
Em terceiro lugar, “deve-se evitar uma maior liberação das reservas de emergência. Os países devem garantir o abastecimento quando necessário, e não limitar artificialmente os preços, para preservar uma reserva adequada para situações de escassez real”.
Depois, “a União precisa de desenvolver um caminho claro para reduzir a sua dependência de combustíveis fósseis importados, introduzindo uma meta específica, se necessário, e identificando em quais fornecedores poderá confiar no futuro, já que um retorno ao status quo pré-guerra é improvável”.
Finalmente, o bloco “deve aproveitar a crise para acelerar a sua transição para energias limpas e para a eletrificação, o que reduziria as emissões e a sua dependência de combustíveis fósseis importados, mitigando os impactos de crises semelhantes no futuro”.
