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Misericórdias reforçam o seu papel estruturante e apontam prioridades para o futuro da ação social e da saúde

A União das Misericórdias Portuguesas (UMP) encerrou hoje o 15º Congresso Nacional das Misericórdias, que decorreu no Fórum Braga, dedicado ao tema “A atualidade de uma evolução segura”. O último dia dos trabalhos ficou marcado pela reflexão sobre o património cultural das Misericórdias, entendido como um elemento essencial de identidade e de continuidade, e pela […]

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Cientista da UFG conquista prêmio internacional com pesquisa sobre combate ao Alzheimer

A professora Sumbal Saba, do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás (UFG), conquistou o terceiro lugar no prêmio Ella Innova en Ciencia América Latina e Caribe 2026. O reconhecimento foi concedido ao projeto “Selênio contra o Esquecimento: Inovação em Química Medicinal Verde para Combater a Doença de Alzheimer”.

A premiação é promovida pela Organization for Women in Science for the Developing World (OWSD) e pelo International Science Council (ISC), entidades que reconhecem iniciativas lideradas por mulheres nas áreas de ciência, tecnologia e inovação na América Latina e no Caribe.

O primeiro lugar ficou com a boliviana Carla Eloísa Fernández Espinoza (purificação do ar urbano). A segunda colocação foi conquistada pela brasileira Fernanda Maria Policarpo Tonelli (espécies invasoras em soluções sustentáveis). A pesquisa da professora da UFG ficou em terceiro lugar.

Além das três vencedoras, pesquisas do México, Colômbia e Paraguai também receberam destaque na edição de 2026, evidenciando a presença feminina na produção científica e tecnológica latino-americana.

Segundo a OWSD Brasil, o resultado representa um marco para a ciência nacional, já que duas pesquisadoras brasileiras figuraram entre os projetos mais bem avaliados da premiação.

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Pequenos campeões entram em campo na Maternidade Dona Iris

Com muita coragem e espírito de campeões, os brasileirinhos da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) e da Unidade de Cuidados Intermediários Neonatais (UCIN) do Hospital e Maternidade Dona Iris (HMDI) participaram de um ensaio fotográfico inspirado na Copa do Mundo. A ação celebrou a vida e a força dos recém-nascidos que seguem em cuidados na unidade neonatal.

A iniciativa foi promovida pela Comissão de Eventos e Humanização do HMDI com o objetivo de promover a humanização da assistência neonatal por meio de uma atividade lúdica e afetiva. A proposta proporciona acolhimento, fortalece o vínculo familiar e ajuda a construir memórias positivas durante o período de internação dos bebês.

Segundo a supervisora de enfermagem da UTIN e UCIN, Cláudia Dias, a internação de um bebê costuma ser um período marcado por ansiedade, insegurança e muita expectativa para as famílias. “A realização de ações temáticas contribui para tornar o ambiente mais acolhedor e humanizado, favorecendo o bem-estar emocional dos pais. Além disso, possibilita que as famílias participem de momentos especiais da vida de seus filhos, mesmo durante a hospitalização, fortalecendo o vínculo afetivo e promovendo experiências positivas que ajudam a amenizar o impacto emocional da internação”, afirmou.

A emoção foi compartilhada pelas famílias. Bruna Jackeline, 41 anos, mãe da pequena Erika Helena, internada há mais de 10 dias na unidade neonatal, conta como viveu o momento. “Eu comentei com a colaboradora que nos ajudou com as fotos como isso faz bem. A gente sente uma alegria no coração. São dias muito difíceis aqui, e poder ter esse momento com eles, ver nossos bebês tão bonitinhos com uma decoração linda, enche a gente de alegria”, contou.

Para ela, o ensaio foi um respiro em meio à tensão da internação. “Para nós, mães, é um momento que tira um pouco o foco da tensão de viver aqui dentro. Foi muito bom ver nossos bebezinhos fantasiados, alegrou demais o nosso coração de mãe”, frisou Bruna Jackeline.

As fotografias serão entregues às famílias como forma de carinho e reconhecimento. A iniciativa integra as ações de humanização desenvolvidas pela unidade, que buscam tornar o período de internação mais acolhedor para os recém-nascidos e suas famílias, fortalecendo vínculos e criando memórias afetivas mesmo durante o tratamento.

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Hospital de Luziânia registra 5 mil partos

A maternidade do Hospital Estadual de Luziânia (HEL) registrou 5 mil partos desde o início de suas atividades, em 2021. O número representa milhares de famílias atendidas pela unidade e reforça a atuação do hospital na assistência às gestantes do Entorno Sul.

Ao longo desse período, gestantes da região receberam acompanhamento de equipes multiprofissionais durante o parto e o pós-parto, com atendimento voltado à segurança, ao acolhimento e ao bem-estar das mães e dos recém-nascidos. O trabalho envolve médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais que atuam diariamente na maternidade.

Segundo o diretor-geral do HEL, Francisco Amud, o número é resultado do empenho das equipes e da confiança depositada pelas pacientes no serviço prestado pela unidade.

“Cada nascimento representa uma nova história e reforça nosso compromisso com uma assistência segura e humanizada para mães e bebês. Chegar aos 5 mil partos é motivo de orgulho para todos os profissionais que fazem parte dessa trajetória”, destaca.

Para a diretora técnica do HEL, Patrícia Castro, o resultado demonstra a qualidade da assistência prestada pela maternidade e o comprometimento das equipes com o cuidado às gestantes.

“O resultado reflete a confiança da população no hospital e o comprometimento dos profissionais em oferecer um atendimento qualificado às famílias que passam pela maternidade”, afirma.

O volume de atendimentos evidencia a atuação da maternidade do HEL na assistência às gestantes da região e o papel da unidade no cuidado ao parto no Entorno Sul

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Cartaxo recebeu Reunião Nacional de Enfermeiros Diretores

Decorreu, no dia 29 de maio, no auditório da Quinta das Pratas, a Reunião Nacional de Enfermeiros Diretores, um encontro que reuniu responsáveis de enfermagem de várias instituições de saúde do país para a partilha de experiências, projetos e desafios. A sessão de abertura contou com as intervenções de Fátima Lopes, enfermeira diretora da ULS Lezíria, Rui Miguel Cruz, membro da Direção da…

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Algarve teve «boa adesão» à Greve Geral

O Algarve voltou a ter, tal como em Dezembro, uma «boa adesão» à Greve Geral que se vive esta quarta-feira, 3 de Junho, com constrangimentos no Aeroporto de Faro, nos comboios, escolas fechadas e hospitais em serviços mínimos.

Em declarações ao Sul Informação, Catarina Marques, coordenadora da União dos Sindicatos do Algarve, afeta à CGTP, considerou que a região deu, uma vez mais, uma «resposta» ao pacote laboral do Governo.

Um dos setores mais afetados foi o da educação, com várias escolas fechadas, como a E.B 2,3 D. Afonso III (Faro), a Neves Júnior (Faro) e a Secundária Laura Ayres (Quarteira).

Na saúde, apenas se cumpriram os serviços mínimos em Faro e Portimão e houve um dado novo: «a adesão, em cerca de 30%, do setor privado», segundo Catarina Marques.

Os comboios também apenas fizeram os serviços mínimos e, na rede de autocarros, houve uma adesão de cerca de 50%. No Aeroporto de Faro, registaram-se cerca de 40 voos cancelados.

Nas autarquias locais, o serviço de recolha do lixo, em Silves, aderiu a 100% e há também boas percentagens em Olhão ou Vila Real de Santo António. Os Centros de Emprego de Olhão, Silves, Portimão e Loulé estiveram encerrados.

Além disso, houve duas praças de greve, em Faro e Portimão, que juntaram cerca de 300 pessoas, no total.

Fotos: Luz Venceslau | Sul Informação

Nota: Luz Venceslau é aluna finalista do curso de Fotografia Profissional 24|26 da ETIC_Algarve – Escola de Tecnologias, Inovação e Criação do Algarve e está a fazer o seu estágio curricular no Sul Informação

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Requalificação do Centro de Saúde de Monte Gordo permite mais gabinetes médicos e de enfermagem

As obras de ampliação e requalificação do Centro de Saúde de Monte Gordo, reinaugurado esta terça-feira, 2 de Junho, permitiram aumentar aumentar de dois para quatro os gabinetes médicos e de dois para três os gabinetes de enfermagem, reforçando a capacidade de resposta da unidade e melhorar o atendimento aos utentes.

A cerimónia contou com a presença do Executivo Municipal, do coordenador da USF Levante, Ricardo Cordeiro, do presidente da Junta de Freguesia de Monte Gordo, da delegada de saúde do ACES Algarve III – Sotavento, Dr.ª Halyna Karuna, de representantes da equipa de enfermagem e do secretariado clínico da USF Levante, bem como de diversas entidades civis, militares, religiosas e associativas do concelho.

A obra contempla ainda a instalação de um novo sistema de climatização e a requalificação das áreas comuns, «tornando o edifício mais funcional, confortável e adequado às necessidades dos utentes e dos profissionais de saúde», refere a autarquia de Vila Real de Santo António.

A intervenção permitiu também reforçar a vertente formativa da unidade, que passa agora a dispor de maior capacidade para acolher internos de Medicina Geral e Familiar, bem como alunos de enfermagem, contribuindo para a formação de futuros profissionais de saúde e para a qualificação contínua dos cuidados prestados.

A obra implicou um investimento global de 213 mil euros, dos quais 191,8 mil euros foram financiados através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

«A concretização desta obra resulta da articulação entre as entidades envolvidas e do compromisso de continuar a investir na melhoria dos cuidados de saúde de proximidade, dotando o Centro de Saúde de Monte Gordo de melhores condições para responder às necessidades atuais e futuras da população», remata a autarquia de VRSA.

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Estudantes de enfermagem da UAlg cumprem ensino clínico junto da comunitário farense

Dois grupos de sete estudantes do Curso de Licenciatura em Enfermagem da Universidade do Algarve (UAlg) estão a cumprir o seu ensino clínico junto da comunidade farense.

Esta parte do ensino decorre no âmbito de um protocolo de colaboração existente entre a União das Freguesias de Faro e a Escola Superior de Saúde da Universidade do Algarve e tem como principal objetivo «aproximar os futuros enfermeiros da realidade das populações, permitindo-lhes conhecer de perto os territórios, as necessidades das pessoas e a importância da promoção da saúde fora do contexto hospitalar».

O primeiro grupo iniciou o estágio no dia 18 de Maio e termina a 7 de Junho. De acordo com a Junta, durante este período, os estudantes têm desenvolvido trabalho de observação, planeamento e intervenção comunitária, sempre acompanhados por docentes e em articulação com a União de Freguesias.

No dia 29 de Maio, realizou-se a atividade “Mexa-se com Segurança!”, uma sessão de ginástica sénior, movimento e exercícios adaptados, orientada para a promoção do equilíbrio, da mobilidade, da força e da autonomia.

«Foi uma manhã muito positiva, marcada pela participação, boa disposição e partilha entre estudantes, comunidade e parceiros locais», lê-se na nota.

Hoje, às 14h00, realiza-se, na Ilha da Culatra, na Unidade Local de Proteção Civil, a atividade “Verão com Saúde na Culatra”, dedicada à hidratação, proteção solar e prevenção da insolação, através da partilha de histórias, mitos e verdades sobre os cuidados de saúde no verão.

«Estas iniciativas mostram bem a importância do trabalho comunitário: aprender com as pessoas, escutar as suas experiências, valorizar os seus saberes e transformar esse contacto em ações concretas de promoção da saúde e bem-estar», frisa ainda a União de Freguesias de Faro.

O segundo grupo iniciará os trabalhos a 8 de Junho.

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”Ozempic” 100% brasileiro custará R$452,00

A farmacêutica EMS anunciou os preços da Ozivy, primeira caneta de semaglutida produzida no Brasil. O medicamento chegará ao mercado com valores a partir de R$ 452, abaixo dos praticados atualmente por concorrentes importados que utilizam o mesmo princípio ativo.

A semaglutida é a substância utilizada em medicamentos como Ozempic e Wegovy, indicados para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. A entrada da versão nacional ocorre após o fim da patente da molécula no Brasil, abrindo espaço para novos fabricantes no mercado.

Segundo a EMS, a estratégia é oferecer o produto por valores cerca de 30% inferiores aos dos medicamentos concorrentes. A empresa estima comercializar mais de 1 milhão de unidades no primeiro ano e projeta faturamento de aproximadamente R$ 500 milhões com o novo medicamento.

Antes do anúncio dos preços ao consumidor, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) já havia definido o teto regulatório da Ozivy. O limite aprovado ficou no mesmo patamar dos medicamentos de referência à base de semaglutida, como Ozempic e Wegovy.

A chegada da Ozivy é vista pelo setor como um marco para a indústria farmacêutica nacional, já que se trata da primeira caneta de semaglutida desenvolvida e produzida por uma empresa brasileira. Especialistas avaliam que o aumento da concorrência pode contribuir para ampliar o acesso ao tratamento e pressionar os preços para baixo nos próximos meses.

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Caso de Tanaka revela “a burocracia do Estado que mata”, diz sociólogo

O caso de Tanaka Luanda Lawrence, a Lulu, uma mulher guianesa presa por 12 anos no Brasil e que morreu a dois dias de ganhar liberdade, joga luz nas falhas de um sistema penitenciário que nega direitos fundamentais de forma sistemática, especialmente quando essas pessoas são mulheres, negras, pobres e estrangeiras.

Ao analisar as violações de direitos e as omissões institucionais que marcaram o caso de Tanaka, revelado pela Agência Pública, o pesquisador em violência de Estado e violência policial e doutor em sociologia da Universidade de Brasília (UnB) Edergenio Negreiros Vieira aponta como o sistema carcerário brasileiro opera. Para ele, casos como o de Tanaka não são exceção, mas regra em uma estrutura que produz desigualdades de forma sistemática.

Negreiros Vieira detalha as múltiplas violações de direitos que Tanaka sofreu: desde a omissão do Estado no acesso à saúde, passando pela negligência médica e farmacêutica, até a morosidade da Justiça em responder a demandas urgentes. O pesquisador também analisa como o Brasil, signatário da Regra de Bangkok — que estabelece padrões mínimos de atendimento à saúde para mulheres presas —, falhou em cumprir seus próprios compromissos internacionais.

Além das questões legais e institucionais, a entrevista analisa sobre os cruzamentos de raça, classe, gênero e xenofobia que agravam ainda mais a situação de pessoas como Tanaka. Utilizando o conceito de necropolítica do teórico camaronês Achille Mbembe, Negreiros Vieira explora como o Estado decide quem merece proteção e quem é descartável. 

Confira os principais trechos da entrevista:

Tanaka Luanda Lawrence, conhecida como Lulu, passou 12 anos presa no Brasil. Morreu dois dias antes de conquistar a liberdade.
Tanaka Luanda Lawrence, conhecida como Lulu, passou 12 anos presa no Brasil. Morreu dois dias antes de conquistar a liberdade

A quais conclusões o senhor chegou a respeito dos direitos postergados e, na prática, negados de Tanaka Luanda Lawrence?

O caso de Tanaka não é isolado. Geralmente, quando surgem casos de violação de direitos e da dignidade humana de pessoas em situação de privação de liberdade, ou relacionados à violência policial, o senso comum tende a imaginar que são exceções, uma anomia dentro do sistema. Pelo contrário, é mais provável que casos como o de Tanaka sejam a regra. Se levarmos em conta que possuímos a terceira maior população carcerária do mundo — tanto no feminino, quanto no masculino —, apesar de o encarceramento no Brasil ser majoritariamente masculino (95% a 97%), a situação dela reflete uma realidade estrutural.

E quais direitos foram negligenciados?

Primeiro, houve omissão por parte do Estado. A Constituição de 1988 consagra o princípio da dignidade humana, inclusive na situação de cárcere. A Lei de Execução Penal (LEP – Lei 7.210/84) também garante plena assistência às pessoas privadas de liberdade. É importante destacar que o artigo 14 da LEP garante expressamente a assistência à saúde (médica, farmacêutica e odontológica) como um dever do Estado. No caso de Tanaka, o Estado negligenciou tanto o atendimento médico quanto o farmacêutico, pois ela não teria tido acesso aos medicamentos necessários.

Além disso, o Brasil é signatário de várias convenções internacionais sobre os direitos de pessoas privadas de liberdade. Temos a Regra de Bangkok, [da Organização] das Nações Unidas (ONU), voltada para o tratamento de mulheres presas e infratoras. O documento, de 2010, estabelece regras mínimas de atendimento à saúde (itens 22 ao 26). Ele determina que cada unidade prisional deve ter um médico à disposição, preferencialmente com conhecimentos mínimos em saúde mental e psiquiátrica. Pelo que consta, não era o caso da unidade onde Tanaka estava alocada, apesar de fazer muro com um hospital.

A questão da saúde dela foi levada à Justiça, mas os prazos concedidos não condizem com a urgência. O senhor avalia que houve aí outro tipo de violação de direitos humanos?

Houve uma evidente falha na tutela jurisdicional, uma dupla desproteção. O Estado falhou ao negar o acesso à saúde, e a Justiça falhou ao não fiscalizar o cumprimento da pena. Quando o advogado peticiona e a Justiça não se efetiva, ocorre essa dupla desproteção: falha do braço executivo do Estado e falha do Judiciário.

Acreditamos, erroneamente, que essas falhas são anomalias, mas os estudos mostram que essa é a forma como o sistema opera. O sistema prisional brasileiro foi alvo da ADPF [Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental] 347, que reconheceu o “estado de coisas inconstitucional” do nosso sistema carcerário. Esse conceito, adotado pelo STF [Supremo Tribunal Federal] a partir do sistema constitucional colombiano, trata exatamente dessas falhas estruturais do Estado.

Nossa Lei de Execução Penal é muito bonita no papel, mas não é cumprida. Esses litígios estruturais revelam uma violação generalizada, um ataque à dignidade da pessoa humana, marcado por inércia e omissão institucional. O caso de Tanaka evidencia essa burocracia do Estado que mata. Superar isso exige soluções complexas, pois envolve cruzamentos de raça, classe social e gênero. O fato de ela ser estrangeira, a xenofobia, é mais um elemento que contribui para esse estado de coisas inconstitucional.

O senhor conseguiria estipular a quantidade de direitos violados?

De imediato, temos a omissão do direito à saúde, que é o mais evidente. Mas também podemos incluir a violação da dignidade da pessoa humana, garantida pela Constituição. Ela enfrentou um calvário para fazer a cirurgia, foi negligenciada na sala de operação e teve que retornar à instituição carcerária. A morosidade do juiz ao ser provocado mostra uma total desumanização das pessoas encarceradas. Não há preocupação com o processo de reeducação. O sistema carcerário, ao invés de ser um lugar de esperança e reeducação, tem produzido cada vez mais desigualdades.

Vivemos uma crise evidente das estruturas sociais, que está se agravando. Não é uma crise cíclica e passageira. O problema é que a crise virou a própria essência do modelo de produção capitalista na sua vertente mais cruel, o neoliberalismo. O neoliberalismo virou uma forma de organização social da vida que não oferece alternativas para todos. Pessoas como Tanaka, que o teórico Clóvis Moura chamaria de “franja marginal”, acabam sendo recrutadas para servir como “mulas”. Se o sistema não resolve o problema dos excluídos, ele os encarcera ou os mata. Não é à toa que o encarceramento e a violência aumentam na sociedade.

Há solução?

Acredito que sim. A solução precisa ser pautada na ideia de uma igualdade radical e em repensar esse modelo de organização social. O discurso progressista que defendo muitas vezes vai na contramão do que circula na sociedade. Precisamos denunciar as mazelas desse modelo e oferecer alternativas para gestar uma nova forma de organização social. No entanto, vejo que muitos que querem gerir o Estado acabam se tornando apenas “gestores da miséria”.

A solução passa por um processo de reeducação e por um debate profundo, como o que a Agência Pública faz, para que chegue a mais pessoas. Esses textos precisam circular nos espaços populares e institucionais para que a sociedade pressione por mudanças, especialmente no sistema judiciário, que tem sido um elemento fundamental na produção de desigualdades.

O senhor acredita que, num caso como esse, faz diferença Tanaka não ser brasileira, não ser branca e/ou não ser homem?

Faz toda a diferença. Podemos pensar no conceito de necropolítica, do camaronês Achille Mbembe. Se antes os estados absolutistas decidiam quem vivia ou morria, nos estados modernos o Estado assume essa função. Ele decide quem vai morrer e quem vai sobreviver. Alguns corpos são passíveis de luto, enquanto outros são “corpos matáveis”.

O corpo de Tanaka e de tantas outras mulheres, especialmente negras, pobres e estrangeiras de países fora do eixo ocidental dominante, são tratados dessa forma. 

Se fosse alemã, inglesa ou estadunidense branca, o caso teria virado um escândalo e um problema diplomático tremendo. Mas Tanaka é uma mulher guianesa, pobre e preta. Ela está marcada por esses cruzamentos que tornam a existência ainda mais cruel.

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Precisamos falar sobre Lulu

Talvez a melhor descrição das mudanças na vida de Lulu esteja em suas próprias palavras: “Eu reflito sobre minha antiga vida, meu erro, meus direitos e meu futuro adiante”, diz uma de suas anotações. Guianense, negra e mãe de cinco filhos, Tanaka Luanda Lawrence estava presa havia alguns anos na Penitenciária Feminina da Capital (PFC), na zona norte de São Paulo, no antigo complexo do Carandiru. A sua trajetória no sistema penitenciário brasileiro é um retrato das engrenagens de negligência operadas nas prisões do país, em um sistema que mói existências e é especialmente cruel contra mulheres.

Entre 2016 e 2019, Tanaka, ou Lulu, como foi carinhosamente apelidada devido ao sobrenome Luanda, chamava de “senhoras” as outras mulheres brasileiras, angolanas, cabo-verdianas e peruanas, a quem descrevia como “bonitas”.

 “Adoro poemas e nem sequer consegui escrever um adequado hoje, mas, de qualquer forma, o período que passo aqui vale o meu tempo”, anotou em um dos encontros do projeto coletivo Mulheres possíveis — corpo, gênero e encarceramento voltado a reeducandas do sistema penitenciário. 

“Este projeto traz à tona a mulher, a criança e a artista em mim. É realmente um prazer estar aqui com vocês, senhoras, aprendendo, desenhando, rindo, compartilhando ideias. Quando nos encontramos, para mim é uma libertação mental da prisão, apesar de eu ainda estar nela”, registrou. Nos encontros, os registros de Lulu indicam que ela aprendeu “novas habilidades”, que fez “um pouco de exercício” e que dava risada. Relatou, ainda, que entendia melhor “sobre o corpo feminino” e “sobre o Brasil e sua maneira de sobreviver”. 



“Hoje eu tinha tanto em que pensar”, escreveu, ao ilustrar o que seria sua cela, a de número 81.


“Uma cela é um quarto quadrado de 2x2 com paredes brancas e uma porta azul de ferro que às 6 da tarde deve estar trancada e aberta às 7 ou 8 horas da manhã de um sábado. Tem um vaso sanitário e um banheiro bem pequeno.


Tem duas camas de cimento, uma pequena prateleira para deixar as coisas. Também tem duas janelas bem gradeadas, então, ao menos você pode ter um pouco de ar para respirar. Quanto a mim, prefiro ficar na cela.


Por quê? Porque quando eu estou lá dentro, minha mente pode ir a qualquer lugar que eu queira estar.”
"Adoro poemas e nem sequer consegui escrever um adequado hoje, mas, de qualquer forma, o período que passo aqui vale o meu tempo", anotou em um dos encontros do projeto coletivo Mulheres possíveis — corpo, gênero e encarceramento voltado a reeducandas do sistema penitenciário. "Este projeto traz à tona a mulher, a criança e a artista em mim. É realmente um prazer estar aqui com vocês, senhoras, aprendendo, desenhando, rindo, compartilhando ideias."
"Quando nos encontramos, para mim é uma libertação mental da prisão, apesar de eu ainda estar nela", registrou. Nos encontros, os registros de Lulu indicam que ela aprendeu "novas habilidades", que fez "um pouco de exercício" e que dava risada. Relatou, ainda, que entendia melhor "sobre o corpo feminino" e "sobre o Brasil e sua maneira de sobreviver". "Hoje eu tinha tanto em que pensar", escreveu, ao ilustrar o que seria sua cela, a de número 81.

“Uma cela é um quarto quadrado de 2x2 com paredes brancas e uma porta azul de ferro que às 6 da tarde deve estar trancada e aberta às 7 ou 8 horas da manhã de um sábado. Tem um vaso sanitário e um banheiro bem pequeno. Tem duas camas de cimento, uma pequena prateleira para deixar as coisas. Também tem duas janelas bem gradeadas, então, ao menos você pode ter um pouco de ar para respirar.”



Quanto a mim, prefiro ficar na cela. Por quê? Porque quando eu estou lá dentro, minha mente pode ir a qualquer lugar que eu queira estar.”

A autoridade de um diamante “bruto”

“Ela acabou virando uma referência lá dentro, seja pela luta pelos direitos delas, seja porque conseguia unir as estrangeiras”, relata Lucas Lopes, advogado que assumiu a defesa de Tanaka em 2021. Ele destaca que Lulu passava a impressão de ser dura, num primeiro momento, mas tinha um grande coração, além de ser generosa e acolhedora. 

“[Para] muitas [reeducandas] que tinham acabado de chegar e queriam sair em liberdade, ela conseguia fazer a ponte, para que tivessem um lugar para ficar no primeiro momento”, conta Lopes.

Ex-reeducanda francesa, Sophie Marie* conheceu Tanaka no pavilhão das estrangeiras da PFC e também relembra as primeiras impressões. Ela conta que levou alguns meses até que as duas trocassem mais do que cumprimentos: nenhuma falava ainda português, e se aproximaram pelo inglês.

Lulu usava cartas e desenhos para se expressar e evidenciava o conhecimento que obtinha em encontros com colegas de cela tanto sobre o Brasil quanto sobre o próprio corpo
Lulu usava cartas e desenhos para se expressar e evidenciava o conhecimento que obtinha em encontros com colegas de cela tanto sobre o Brasil quanto sobre o próprio corpo

“Era uma mulher robusta, forte, sempre disposta a fazer as pessoas rirem.” Em 2013, com a progressão ao semiaberto, Sophie Marie perdeu o contato com Lulu, especialmente após ser solta, em 2015.

Nove anos depois, a francesa, reencarcerada por outro delito, encontraria novamente Tanaka no mesmo lugar. Ambas passaram a dividir a cela no pavilhão das brasileiras. Ali, Sophie Marie diz ter conhecido “a Tanaka de verdade, não a Tanaka de fachada”. 

“Quando eu voltei, ela continuava alegre, sim, mas esses anos todos a mudaram, o sofrimento, a incerteza de não saber o futuro. Eu vi uma Lulu mais sombria”, conta Sophie. 

A ex-colega de cela diz que Lulu “era como um diamante”. “Para ver todas as faces do diamante, é preciso girar a peça. Lulu era assim, tinha autoridade natural”, recorda. “Extremamente generosa, impaciente, às vezes, insegura. Quem não a conhecia podia pensar que era brava, meio bruta, de tanto que tinha o respeito das brasileiras. Bastava ela olhar ou levantar um pouquinho a voz e já resolvia o problema”, diz a amiga.

Para Paula*, outra das reeducandas que dividia o alojamento com a guianense, Lulu era uma figura materna no ambiente hostil do cárcere. “Ela era minha mãe lá dentro”, diz, acrescentando que havia até planos de as duas abrirem um negócio de costura em sociedade quando estivessem fora da prisão. 

“Um dos sonhos dela era abrir um negócio de costura comigo e com outra colega, que a gente é costureira, né? Ela também queria comprar uma casa e voltar ao país dela para conhecer os netinhos”, detalha a amiga já em liberdade.

A autoridade de um diamante “bruto”

“Ela acabou virando uma referência lá dentro, seja pela luta pelos direitos delas, seja porque conseguia unir as estrangeiras”, relata Lucas Lopes, advogado que assumiu a defesa de Tanaka em 2021. Ele destaca que Lulu passava a impressão de ser dura, num primeiro momento, mas tinha um grande coração, além de ser generosa e acolhedora. 

“[Para] muitas [reeducandas] que tinham acabado de chegar e queriam sair em liberdade, ela conseguia fazer a ponte, para que tivessem um lugar para ficar no primeiro momento”, conta Lopes.

Ex-reeducanda francesa, Sophie Marie* conheceu Tanaka no pavilhão das estrangeiras da PFC e também relembra as primeiras impressões. Ela conta que levou alguns meses até que as duas trocassem mais do que cumprimentos: nenhuma falava ainda português, e se aproximaram pelo inglês.

Lulu usava cartas e desenhos para se expressar e evidenciava o conhecimento que obtinha em encontros com colegas de cela tanto sobre o Brasil quanto sobre o próprio corpo
Lulu usava cartas e desenhos para se expressar e evidenciava o conhecimento que obtinha em encontros com colegas de cela tanto sobre o Brasil quanto sobre o próprio corpo

“Era uma mulher robusta, forte, sempre disposta a fazer as pessoas rirem.” Em 2013, com a progressão ao semiaberto, Sophie Marie perdeu o contato com Lulu, especialmente após ser solta, em 2015.

Nove anos depois, a francesa, reencarcerada por outro delito, encontraria novamente Tanaka no mesmo lugar. Ambas passaram a dividir a cela no pavilhão das brasileiras. Ali, Sophie Marie diz ter conhecido “a Tanaka de verdade, não a Tanaka de fachada”.

“Quando eu voltei, ela continuava alegre, sim, mas esses anos todos a mudaram, o sofrimento, a incerteza de não saber o futuro. Eu vi uma Lulu mais sombria”, conta Sophie.

A ex-colega de cela diz que Lulu “era como um diamante”. “Para ver todas as faces do diamante, é preciso girar a peça. Lulu era assim, tinha autoridade natural”, recorda. “Extremamente generosa, impaciente, às vezes, insegura. Quem não a conhecia podia pensar que era brava, meio bruta, de tanto que tinha o respeito das brasileiras. Bastava ela olhar ou levantar um pouquinho a voz e já resolvia o problema”, diz a amiga.

Para Paula*, outra das reeducandas que dividia o alojamento com a guianense, Lulu era uma figura materna no ambiente hostil do cárcere. “Ela era minha mãe lá dentro”, diz, acrescentando que havia até planos de as duas abrirem um negócio de costura em sociedade quando estivessem fora da prisão.

“Um dos sonhos dela era abrir um negócio de costura comigo e com outra colega, que a gente é costureira, né? Ela também queria comprar uma casa e voltar ao país dela para conhecer os netinhos”, detalha a amiga já em liberdade.

Página do livro "Mulheres Possíveis" em que Tanaka Luanda participa e tenta definir o que seria o substantivo carta
Página do livro “Mulheres Possíveis” em que Tanaka Luanda participa e tenta definir o que seria o substantivo carta

Geografia de uma solidão continental

Sobre uma foto sua que integra o livro Mulheres possíveis, Tanaka descreveu o substantivo sobre o qual parecia ter se tornado especialista: “Carta — substantivo feminino, conversa prolongada no tempo-espaço, pertence ao grupo de objetos ‘espelho’ cujo conteúdo transborda o continente, pode conter pessoas, lembranças, relatos, conselhos, mistérios, imagens, objetos, fragmentos (de si e do outro), aproximações e rompimentos; une dois pontos no espaço; pressupõe o desapego daquilo que se deixa dentro; objeto de manutenção de vínculo; e registro no papel daquilo que se sente e pensa”. 



Lulu escrevia cartas. Pela falta de visitas, pela distância dos filhos e pelas restrições do Estado brasileiro ao contato de reeducandas estrangeiras com suas famílias no exterior. As mensagens eram, para Lulu, companhia, saudade e resgate de afetos distantes. Em uma delas, ela conta que com música e dança se sentia conectada à família e à própria alma. “Eu uso música para curar minha alma”.



Apenas em 2024, o Estado brasileiro se tornou obrigado a providenciar videochamadas para as detentas estrangeiras do sistema penitenciário nacional. Até então, as reeducandas estrangeiras viviam uma espécie de exílio legalizado. No Brasil, essas mulheres presas enfrentam um isolamento duplo, uma punição que vai muito além da privação de liberdade.



Sem família no país, a maioria das reeducandas estrangeiras têm dificuldades de acesso ao “jumbo”, pacote com alimentos e produtos de higiene que parentes têm permissão de levar em dias de visita. Os visitantes, no entanto, para serem cadastrados, precisam apresentar documentos nacionais, como CPF ou RG, o que inviabiliza o envio de itens, inclusive pelos Correios, e dificulta o contato com familiares.

O jumbo cumpre a função de suprir lacunas estruturais do Estado, que, na rotina prisional, serve o jantar pouco após as 16h e o café da manhã no início da manhã seguinte, muitas vezes impondo longos períodos de jejum forçado.



Lulu escrevia cartas. Pela falta de visitas, pela distância dos filhos e pelas restrições do Estado brasileiro ao contato de reeducandas estrangeiras com suas famílias no exterior.


As mensagens eram, para Lulu, companhia, saudade e resgate de afetos distantes. Em uma delas, ela conta que com música e dança se sentia conectada à família e à própria alma. “Eu uso música para curar minha alma”.


Apenas em 2024, o Estado brasileiro se tornou obrigado a providenciar videochamadas para as detentas estrangeiras do sistema penitenciário nacional.


Até então, as reeducandas estrangeiras viviam uma espécie de exílio legalizado. No Brasil, essas mulheres presas enfrentam um isolamento duplo, uma punição que vai muito além da privação de liberdade.

Sem família no país, a maioria das reeducandas estrangeiras têm dificuldades de acesso ao “jumbo”, pacote com alimentos e produtos de higiene que parentes têm permissão de levar em dias de visita. Os visitantes, no entanto, para serem cadastrados, precisam apresentar documentos nacionais, como CPF ou RG, o que inviabiliza o envio de itens, inclusive pelos Correios, e dificulta o contato com familiares.

O jumbo cumpre a função de suprir lacunas estruturais do Estado, que, na rotina prisional, serve o jantar pouco após as 16h e o café da manhã no início da manhã seguinte, muitas vezes impondo longos períodos de jejum forçado.

Entre as atividades propostas em oficiais com reeducandas estava a confecção de cartas para que as mulheres pudessem se expressar livremente
Entre as atividades propostas em oficiais com reeducandas estava a confecção de cartas para que as mulheres pudessem se expressar livremente

A ex-reeducanda cabo-verdiana Tânia* conta que o tamanho dessa solidão depende de uma variável: ter ou não um consulado em funcionamento. “O suporte consular é um privilégio até para as brasileiras dentro da cadeia. Ser uma estrangeira sem apoio consular torna-se mais complicado e difícil”, explica. 

Segundo ela, assessores ou secretárias executivas de alguns consulados visitam a unidade prisional para entregar produtos de higiene, comida e roupas; em outros, vão a cada dois ou três meses. Em alguns casos, intermedia o contato com advogados e o repasse de dinheiro da família, depositado na folha prisional. “Eles averiguam o teu processo. Você já sabe que, com o suporte consular por trás, não é muito humilhada”, diz a mulher, hoje em liberdade e de volta ao país africano.

Uma pesquisa realizada pelo World Female Imprisonment List, divulgada em 2023, revelou que o Brasil possui, atualmente, a terceira maior população carcerária feminina do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. O país apresentou um crescimento exponencial, ao quadruplicar o número de mulheres encarceradas em 20 anos, chegando a cerca de 33.488 até dezembro de 2025, das quais 34% estão na chamada “prisão provisória”, segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), ligado ao Ministério da Justiça.

Longe do paraíso

Para Tanaka, a prisão era “o inferno de verdade”. Em uma mensagem mais soturna, ela descreve: “Você não pode nem mesmo falar em paz com outra prisioneira em outro pavilhão, esses guardas gritariam com você como uma criança, ou eles ouviriam o que estamos dizendo e, mais tarde, viriam para dar blitz em sua cela. Ontem à noite eles vieram à minha cela para procurar um telefone, tudo porque eu estava dando à minha colega de país uma mensagem que veio para ela através do meu e-mail – e o que piorou a situação foi a minha maneira de falar [português]”. 

O registro de Tanaka reforça o que revelam os dados divulgados em 2023 pelo Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC), que atua na defesa dos direitos de mulheres migrantes em conflito com a lei, a respeito de a barreira do idioma aprofundar o abismo comunicacional no sistema penitenciário: cerca de 9% das mulheres atendidas entre 2008 e 2018 não falavam espanhol, inglês ou português. 

A comunicação e o acesso a direitos básicos, como o acompanhamento de seus processos judiciais, dependem frequentemente de traduções improvisadas feitas por outras reeducandas. Era o que Tanaka fazia para ajudar outras detentas. 

Lulu desabafa: “Cara, esse lugar é muito confuso. Agora eles querem tirar seus direitos de falar com uma companheira presa. Eu estava tão brava, mas eu tinha que permitir que eles fizessem o trabalho. Depois eu limpo a bagunça. Nunca fui para a cama depois da 1 da manhã. Tudo começou às 17h41 de sábado à tarde, 21-07, mas enquanto eu estiver na cela 81, os guardas nunca encontrarão nada que me leve ao castigo, em nome do Senhor que eu sirvo. Deixem-me em paz”. 

Segundo o ITTC, o racismo institucional também atua como uma engrenagem central nesse sistema: entre 351 mulheres migrantes da América Latina e do Caribe, 71% se autodeclararam não brancas, como Tanaka. A análise dos dados da organização demonstra que mulheres negras e indígenas tendem a receber penas mais altas do que mulheres brancas e amarelas, ainda que possuam perfis e experiências semelhantes.

Ilustração da cela 81 pela própria Lulu representando o lugar onde passou parte da vidaIlustração da cela 81 pela própria Lulu representando o lugar onde passou parte da vida
Ilustração da cela 81 pela própria Lulu representando o lugar onde passou parte da vida. Todas as ilustrações desta reportagem são de autoria de Tanaka Luanda
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Liberdade ao alcance das mãos

Tanaka cumpriu todos os requisitos objetivos e subjetivos, ostentava bom comportamento e possuía registro de trabalho externo. Em 2024, no dia 11 de dezembro, recebeu parecer do Ministério Público favorável à progressão para o regime aberto. No papel, o Estado reconheceu que estaria pronta retornar ao convívio social após 12 anos.

Tanaka aproveitava as saidinhas temporárias para buscar médicos em busca de solução para sua condição de saúde e sempre voltou ao presídio no prazo esperado

Quase dois anos após chegar ao Brasil, Tanaka foi capturada em uma operação da Polícia Federal (PF), no aeroporto de Guarulhos, em 14 de fevereiro de 2012. A ação desmantelou um grupo criminoso que usava “mulas” para transportar cocaína para a Europa. 

Tanaka começou transportando drogas no próprio corpo. Com o passar do tempo, ganhou confiança dos chefes e passou a preparar outras mulheres para a mesma função. Ocupava um cargo baixo na hierarquia da organização, mas foi condenada por tráfico internacional de entorpecentes, o que lhe rendeu uma pena severa: 24 anos de prisão em regime fechado.

Durante mais de uma década encarcerada, trabalhou incansavelmente no sistema — chegou a atuar na montagem de caixas de panetone para uma grande marca alimentícia —, estudou, fez cursos profissionalizantes e manteve um histórico irretocável de bom comportamento. 

Aprendeu a falar português e, com essa habilidade somada ao seu carisma, tornou-se uma liderança entre as outras presas estrangeiras. Por isso, aquele parecer do MP era tão desejado.

Tanaka havia acertado as contas com seu passado. 

Burocracia íntima e impessoal

Tanaka Luana passou 12 anos confinada em regime fechado e teve progressão de pena concedido em dezembro de 2024, após meses de luta por saúde lidando com um mioma

Tanaka já cumpria pena no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) Feminina de São Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista, quando passou a relatar à sua defesa em maio de 2023 um quadro de sangramento vaginal contínuo e dores abdominais intensas. Desde o início do cumprimento da pena seu prontuário médico já registrava a presença de um mioma uterino, doença que afeta quatro em cada 10 mulheres com mais de 40 anos e que é de três a nove vezes mais comum em pacientes negras, segundo dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Sem acompanhamento adequado, o mioma cresceu. Nas saídas temporárias a que passou a ter direito, Tanaka procurou médicos particulares e comprou os remédios com o próprio dinheiro, recursos guardados a duras penas do seu trabalho na prisão. O sofrimento foi testemunhado pelas colegas. Paula relata ter enfrentado noites insones no alojamento superlotado: “Como a gente ficava em uma cela com 17, 18 meninas, tinha dias que ela ficava a madrugada gemendo de dor. E como eu era mais próxima, a gente não dormia, de tanto que ela gemia”.

Em janeiro de 2024, durante uma saída temporária de fim de ano, um médico particular atestou a gravidade do caso e recomendou a histerectomia total (retirada do útero). O advogado de Tanaka acionou a embaixada da Guiana em Brasília e somente após pressão diplomática, uma cirurgia foi agendada no Sistema Único de Saúde (SUS) para o dia 2 de abril de 2024, no Hospital Estadual Sapopemba, em São Paulo.

Naquela mesma noite, no entanto, funcionários do hospital ligaram diretamente para o celular do defensor. A cirurgia não havia sido realizada, devido a uma “diferença”, não especificada, no exame pré-operatório. Segundo a equipe médica, o contato com o advogado se deu porque ninguém conseguiu contato com a escolta prisional para levar Tanaka de volta ao presídio. “Como assim? Você tá achando que eu vou conseguir chamar a escolta? O mesmo número do presídio que eu tenho é o de vocês”, respondeu Lucas Lopes.

O que se seguiu foi um labirinto burocrático de petições ignoradas e prazos descumpridos. Em 12 de abril de 2024, o advogado protocolou pedido urgente de esclarecimentos ao juiz Hélio Narváez, responsável pela execução penal. O magistrado proferiu um despacho padrão que, na especificidade do juridiquês, não dialogava com a urgência do caso de Lulu, concedendo 15 dias para o presídio responder. O prazo expirou sem qualquer manifestação.

O pedido foi reiterado, em busca de respostas. O juiz ainda concedeu mais cinco dias para manifestação. Apenas 26 dias após o primeiro pedido de urgência, em 8 de maio de 2024, a unidade prisional informou que o exame de colpocitologia oncótica havia apresentado alterações e que um novo exame seria agendado.

A defesa, alarmada com a falta de transparência, pediu acesso imediato ao prontuário completo, aos exames detalhados e à lista de medicamentos que seriam fornecidos à detenta. O Ministério Público concordou com a pertinência do pedido. O juiz Narváez, no entanto, mandou arquivar a solicitação. 

“Este juízo não se presta a ficar acompanhando as sucessivas medidas terapêuticas e medicinais a que a pessoa presa é submetida”, decidiu. O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP), ao julgar o recurso da defesa de Tanaka, manteve a decisão de Narváez.

Lulu chegou ao Brasil em 2010 e foi presa menos de dois anos depois, em São Paulo. Ganhou direito a ser reintegrada à sociedade por bom comportamento e por cumprir todos os requisitos exigidos

A Agência Pública procurou o juiz Narváez por meio do TJSP, mas o tribunal informou que ele não se manifestaria: “Os magistrados têm independência funcional para decidir de acordo com os documentos dos autos e seu livre convencimento. Essa independência é uma garantia do próprio Estado de Direito. Quando há discordância da decisão, cabe às partes a interposição dos recursos previstos na legislação vigente”. 

Tanaka continuava sangrando na cela. Em setembro de 2024, durante mais uma saída temporária, ela comprou novamente, com seus próprios recursos, o Primolut-Nor, um medicamento essencial para controlar a hemorragia. O advogado peticionou, mais uma vez, no processo, informando detalhadamente que a cirurgia estava atrasada há mais de cinco meses. O juiz repetiu o despacho padrão: 15 dias para resposta do presídio. 

Em 31 de outubro de 2024, diante do silêncio da unidade prisional e da juntada de um ofício de cobrança enviado pela embaixada da Guiana, o juiz limitou-se a escrever uma linha: “Ciente. Aguarde-se resposta”. O presídio nunca respondeu à determinação judicial.

A cirurgia foi feita apenas em 5 de dezembro de 2024, no Hospital Planalto, em São Paulo. Dois dias depois, num sábado, Tanaka teve alta e, antes de retornar ao presídio, recebeu uma recomendação taxativa: “Sinais de alarme para ida imediata ao pronto-socorro: dores intensas, sangramento aumentando, febre ou outra intercorrência”. 

Lulu usou recursos próprios para buscar saúde, o que nem Justiça nem sistema penitenciário lhe garantiram. Após meses de dor, um novo capítulo se desenhava com o regime aberto à vista.

Lulu chegou ao Brasil em 2010 e foi presa menos de dois anos depois, em São Paulo. Ganhou direito a ser reintegrada à sociedade por bom comportamento e por cumprir todos os requisitos exigidos

Burocracia íntima e impessoal 

Tanaka Luana passou 12 anos confinada em regime fechado e teve progressão de pena concedido em dezembro de 2024, após meses de luta por saúde lidando com um mioma

Tanaka já cumpria pena no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) Feminina de São Miguel Paulista, na zona leste da capital paulista, quando passou a relatar à sua defesa em maio de 2023 um quadro de sangramento vaginal contínuo e dores abdominais intensas. Desde o início do cumprimento da pena seu prontuário médico já registrava a presença de um mioma uterino, doença que afeta quatro em cada 10 mulheres com mais de 40 anos e que é de três a nove vezes mais comum em pacientes negras, segundo dados da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Sem acompanhamento adequado, o mioma cresceu. Nas saídas temporárias a que passou a ter direito, Tanaka procurou médicos particulares e comprou os remédios com o próprio dinheiro, recursos guardados a duras penas do seu trabalho na prisão. O sofrimento foi testemunhado pelas colegas. Paula relata ter enfrentado noites insones no alojamento superlotado: “Como a gente ficava em uma cela com 17, 18 meninas, tinha dias que ela ficava a madrugada gemendo de dor. E como eu era mais próxima, a gente não dormia, de tanto que ela gemia”.

Em janeiro de 2024, durante uma saída temporária de fim de ano, um médico particular atestou a gravidade do caso e recomendou a histerectomia total (retirada do útero). O advogado de Tanaka acionou a embaixada da Guiana em Brasília e somente após pressão diplomática, uma cirurgia foi agendada no Sistema Único de Saúde (SUS) para o dia 2 de abril de 2024, no Hospital Estadual Sapopemba, em São Paulo.

Naquela mesma noite, no entanto, funcionários do hospital ligaram diretamente para o celular do defensor. A cirurgia não havia sido realizada, devido a uma “diferença”, não especificada, no exame pré-operatório. Segundo a equipe médica, o contato com o advogado se deu porque ninguém conseguiu contato com a escolta prisional para levar Tanaka de volta ao presídio. “Como assim? Você tá achando que eu vou conseguir chamar a escolta? O mesmo número do presídio que eu tenho é o de vocês”, respondeu Lucas Lopes.

O que se seguiu foi um labirinto burocrático de petições ignoradas e prazos descumpridos. Em 12 de abril de 2024, o advogado protocolou pedido urgente de esclarecimentos ao juiz Hélio Narváez, responsável pela execução penal. O magistrado proferiu um despacho padrão que, na especificidade do juridiquês, não dialogava com a urgência do caso de Lulu, concedendo 15 dias para o presídio responder. O prazo expirou sem qualquer manifestação.

O pedido foi reiterado, em busca de respostas. O juiz ainda concedeu mais cinco dias para manifestação. Apenas 26 dias após o primeiro pedido de urgência, em 8 de maio de 2024, a unidade prisional informou que o exame de colpocitologia oncótica havia apresentado alterações e que um novo exame seria agendado.

A defesa, alarmada com a falta de transparência, pediu acesso imediato ao prontuário completo, aos exames detalhados e à lista de medicamentos que seriam fornecidos à detenta. O Ministério Público concordou com a pertinência do pedido. O juiz Narváez, no entanto, mandou arquivar a solicitação. 

“Este juízo não se presta a ficar acompanhando as sucessivas medidas terapêuticas e medicinais a que a pessoa presa é submetida”, decidiu. O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP), ao julgar o recurso da defesa de Tanaka, manteve a decisão de Narváez.

Lulu chegou ao Brasil em 2010 e foi presa menos de dois anos depois, em São Paulo. Ganhou direito a ser reintegrada à sociedade por bom comportamento e por cumprir todos os requisitos exigidos

A Agência Pública procurou o juiz Narváez por meio do TJSP, mas o tribunal informou que ele não se manifestaria: “Os magistrados têm independência funcional para decidir de acordo com os documentos dos autos e seu livre convencimento. Essa independência é uma garantia do próprio Estado de Direito. Quando há discordância da decisão, cabe às partes a interposição dos recursos previstos na legislação vigente”. 

Tanaka continuava sangrando na cela. Em setembro de 2024, durante mais uma saída temporária, ela comprou novamente, com seus próprios recursos, o Primolut-Nor, um medicamento essencial para controlar a hemorragia. O advogado peticionou, mais uma vez, no processo, informando detalhadamente que a cirurgia estava atrasada há mais de cinco meses. O juiz repetiu o despacho padrão: 15 dias para resposta do presídio. 

Em 31 de outubro de 2024, diante do silêncio da unidade prisional e da juntada de um ofício de cobrança enviado pela embaixada da Guiana, o juiz limitou-se a escrever uma linha: “Ciente. Aguarde-se resposta”. O presídio nunca respondeu à determinação judicial.

A cirurgia foi feita com médico particular, apenas em 5 de dezembro de 2024, no Hospital Planalto, em São Paulo. Dois dias depois, num sábado, Tanaka teve alta e, antes de retornar ao presídio, recebeu uma recomendação taxativa: “Sinais de alarme para ida imediata ao pronto-socorro: dores intensas, sangramento aumentando, febre ou outra intercorrência”. 

Lulu usou recursos próprios para buscar saúde, o que nem Justiça nem sistema penitenciário lhe garantiram. Após meses de dor, um novo capítulo se desenhava com o regime aberto à vista.

“Desculpa, obrigado, meninas”

Era 9 de dezembro de 2024, uma segunda-feira, quando as dores pós-cirúrgicas começaram a se manifestar. Tânia, que dividia a cela com ela, conta ter ouvido as primeiras queixas ainda no almoço. “Perguntei se era dor de barriga ou na cicatriz. Falou que era por dentro”, recorda. No dia seguinte, a guianense foi até a enfermaria; a auxiliar de saúde de plantão entregou remédio para gases, atribuindo o desconforto ao pós-operatório. No mesmo dia 10, o quadro se agravou.

 “Ela passou muito mal, mencionando que sentia uma bola de fogo dentro dela, que queimava por dentro, transpirava muito e que a pressão estava muito baixa”, relatou outra presa, testemunha do sofrimento. A solução adotada pela chefia de plantão do presídio, segundo depoimento oficial prestado em uma sindicância interna instaurada pela Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), foi oferecer um prato de sopa à Lulu, que agonizava.

Os relatos de ao menos quatro colegas de cela, obtidos pela Pública, que acompanharam de perto o calvário pós-cirúrgico de Tanaka, afirmam que houve negligência. “Passaram, acho, só diclofenaco e dipirona. Ela reclamava de dor. Já tinha febre. Falaram para ela que eram gases, que era para ela ficar andando”, diz Tânia, que insistiu com a chefia do plantão por socorro. “A agente respondeu que era frescura, que a cirurgia tinha corrido bem, que a enfermaria já tinha dado remédio para gases”. 

A agente em questão, segundo o depoimento de Tânia, foi quem mandou que a cozinha preparasse uma sopa para a presa, sob a hipótese de que o problema pudesse ser gastrite. “Só que, quando ela terminou de comer a sopa, vomitou. E a dor só aumentava”. Lulu não foi encaminhada ao hospital, e já sem conseguir andar, foi levada à enfermaria do próprio presídio.

“De terça para quarta, a gente chamando ajuda, falando que ela estava ruim, e ela falando: ‘Eu vou morrer, eu vou morrer. Eu tô com muita dor’”, recorda Paula. “A gente chamou ajuda para tirar ela dali, porque ela estava sofrendo: vomitava, gritava, arregalava os olhos de tanta dor, e a gente não podia fazer nada.”

Às 22h55, mais de 24 horas após o início das dores intensas relatadas no prontuário, Tanaka deu entrada no Hospital Municipal Tide Setúbal. O detalhe mais perverso é que o hospital fica, literalmente, parede a parede com o presídio, dividindo o mesmo muro na zona leste de São Paulo.

Paula relembra a cena emocionada. “Ela só queria ficar comigo, segurando a minha mão. Ela dizia: ‘Eu vou morrer, eu vou morrer.’ Aí teve uma hora em que ela falava bem assim: ‘Obrigado, meninas, desculpa, obrigado, meninas’”, diz a amiga, que carregou Tanaka até o carro que a levaria, enfim, ao hospital. “Eu falei: ‘Tchau, Tanaka, fica com Deus, tá?’ e nunca mais a vi.”

No dia seguinte, 11 de dezembro, alheio à tragédia que se desenrolava na UTI do hospital vizinho ao presídio, o parecer favorável à progressão de Tanaka ao regime aberto foi emitido pelo Ministério Público. À 1h de 12 de dezembro, Lulu morreu, aos 47 anos. 

O laudo pericial do Instituto Médico Legal (IML) apontou como causa mortis “sepse generalizada e necrose mesentérica”, uma infecção generalizada letal que tomou conta do seu corpo após a cirurgia pela qual ela e seu advogado tanto batalharam.

A notícia chegou tarde à unidade prisional, que à época tinha na direção Nivia Claudia Firmo Pedro. “Era quase onze horas da manhã quando informaram que Tanaka tinha morrido à meia-noite. Para o senhor ver que eles não tinham nem dignidade para respeitar a nossa dor”, reclama Tânia. 

Naquele dia, quatro ou cinco estrangeiras africanas foram à enfermaria com a pressão arterial elevada, transtornadas com a morte da amiga guianense. O luto estava apenas começando. De sua casa, por mensagem de uma amiga em comum, Sophie Marie soube logo cedo da tragédia. “Mandei uma mensagem perguntando como ela estava e a resposta veio: ‘A Lulu morreu, a Lulu morreu’. Eu dei um grito.”

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A dois dias da liberdade

O corpo de Tanaka Luanda Lawrence cruzou o Brasil no final de dezembro de 2024, partindo de São Paulo até Boa Vista. De lá, a viagem seguiu até a cidade de Bonfim (RR), na fronteira seca com a Guiana, país de origem de Lulu. 

Do outro lado da linha imaginária que divide as duas nações, uma funerária guianesa já a aguardava para a viagem final até a capital, Georgetown. O traslado internacional, com toda a sua complexidade logística e financeira, só foi possível porque familiares e ex-companheiras de cela organizaram uma vaquinha. 

O medo era que Lulu fosse enterrada como indigente em uma vala comum em solo estrangeiro. Com esforço, os amigos juntaram cerca de R$ 10 mil. Do filho mais velho de Tanaka, que havia tentado a vida nos Estados Unidos, veio o complemento. 

A coleta foi realizada por Sophie Marie fora dos muros do presídio. Durante três dias, ela angariou contribuições de cerca de quarenta pessoas. A burocracia estatal brasileira ainda tentou reter os documentos originais de Lulu até o último momento, mas a pressão do consulado guianês viabilizou a viagem de retorno. 

Antes do traslado, amigas se reuniram em uma missa numa igreja da zona leste de São Paulo que Tanaka frequentava nos dias de saidinha do presídio.

O enterro, realizado a milhares de quilômetros do presídio, foi transmitido ao vivo no Facebook, para que as amigas que ficaram para trás no Brasil, pudessem, pela tela de um celular, se despedir.

Na Guiana, o caçula de Tanaka, que tinha acabado de nascer quando ela tomou a decisão de vir para o Brasil, hoje com 14 anos, é um promissor tenista da seleção nacional de seu país. O grande desejo da mãe era, ao sair em regime aberto, trabalhar para trazê-lo a São Paulo e dar-lhe uma raquete profissional de presente. 

O sonho foi interrompido de forma abrupta numa maca de um hospital público, a poucos metros da cela onde ela passou parte dos últimos anos de sua vida, e a meros dois dias de deixar o presídio.

A dois dias da liberdade

O corpo de Tanaka Luanda Lawrence cruzou o Brasil no final de dezembro de 2024, partindo de São Paulo até Boa Vista. De lá, a viagem seguiu até a cidade de Bonfim (RR), na fronteira seca com a Guiana, país de origem de Lulu. 

Do outro lado da linha imaginária que divide as duas nações, uma funerária guianesa já a aguardava para a viagem final até a capital, Georgetown. O traslado internacional, com toda a sua complexidade logística e financeira, só foi possível porque familiares e ex-companheiras de cela organizaram uma vaquinha. 

O medo era que Lulu fosse enterrada como indigente em uma vala comum em solo estrangeiro. Com esforço, os amigos juntaram cerca de R$ 10 mil. Do filho mais velho de Tanaka, que havia tentado a vida nos Estados Unidos, veio o complemento. 

A coleta foi realizada por Sophie Marie fora dos muros do presídio. Durante três dias, ela angariou contribuições de cerca de quarenta pessoas. A burocracia estatal brasileira ainda tentou reter os documentos originais de Lulu até o último momento, mas a pressão do consulado guianês viabilizou a viagem de retorno. 

Antes do traslado, amigas se reuniram em uma missa numa igreja da zona leste de São Paulo que Tanaka frequentava nos dias de saidinha do presídio.

O enterro, realizado a milhares de quilômetros do presídio, foi transmitido ao vivo no Facebook, para que as amigas que ficaram para trás no Brasil, pudessem, pela tela de um celular, se despedir.

Na Guiana, o caçula de Tanaka, que tinha acabado de nascer quando ela tomou a decisão de vir para o Brasil, hoje com 14 anos, é um promissor tenista da seleção nacional de seu país. O grande desejo da mãe era, ao sair em regime aberto, trabalhar para trazê-lo a São Paulo e dar-lhe uma raquete profissional de presente. 

O sonho foi interrompido de forma abrupta numa maca de um hospital público, a poucos metros da cela onde ela passou parte dos últimos anos de sua vida, e a meros dois dias de deixar o presídio.

Desejo e reparação

Na sindicância administrativa instaurada pela SAP para apurar a morte de Tanaka Luanda Lawrence, todas as presas e funcionárias ouvidas declararam formalmente que “não houve omissão de socorro”. No entanto, a leitura atenta dos próprios relatos anexados ao processo obtido pela reportagem indicam que Tanaka sentiu dores intensas, que a recomendação médica por escrito de retorno imediato ao hospital foi flagrantemente ignorada pelos servidores.

e que ela permaneceu horas agonizando na cela ou na enfermaria antes de ser finalmente transferida para o hospital que ficava do outro lado do muro. Além disso, ex-companheiras de cela que falaram sob condição de anonimato questionam a sindicância da SAP e afirmam que o sofrimento de Tanaka foi sistematicamente subestimado pelas funcionárias, que insistiam em diagnosticar a dor pós-cirúrgica como “gases” e as repreendiam pelos apelos de socorro à colega.



Tânia afirma que não foi chamada a depor na sindicância e é categórica: “foi omissão de socorro, sim, da parte da chefe de plantão e da penitenciária”. Para ela, a morte de Lulu tem cor. “Continuo a falar: ela morreu por causa do racismo”.


“Aquele foi o pior Natal. Eu fiquei muito, mas muito mal. Comecei a tomar remédio por conta própria para dormir. Tive que aguentar ainda alguns meses sem ela, eu sofri demais porque meus filhos gostavam muito dela”, lembra Paula.

Procurada, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) afirmou que Tanaka “recebeu atendimento de saúde contínuo, de acordo com todos os protocolos exigidos, incluindo acompanhamento clínico, ginecológico e realização de exames, conforme a necessidade identificada pelas equipes médicas” e que o PAD instaurado não apontou irregularidades no caso. Sobre detentos estrangeiros, em nota oficial, a SAP disse adotar protocolos para garantir comunicação com familiares, com apoio consular quando necessário e que demandas adicionais são “analisadas caso a caso”.

“O que houve foi o que eu chamaria de uma dupla desproteção”, avalia o doutor em sociologia e pesquisador de violências de Estado da Universidade de Brasília (UnB) Edergenio Negreiros Vieira. “Houve omissão por parte do Estado na assistência à saúde médica e farmacêutica e até na atenção à dignidade da pessoa humana, uma omissão estrutural e institucional. […] E se o Estado falhou ao negar acesso à saúde, a Justiça também falhou. Por que? Porque a Justiça deve fiscalizar o cumprimento da pena”, afirma.

O pesquisador ressalta que houve um claro descumprimento da Regra de Bangkok, da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual o Brasil é signatário e que versa sobre o acesso a ao menos um médico à disposição por unidade prisional como condição mínima, e que o profissional ainda tenha conhecimentos a respeito de saúde mental. “Quando se fala em falha, pode-se pensar que é um caso isolado, mas o mais provável é que essa realidade esteja mais para regra que para exceção”, complementa Vieira, salientando que o caso de Tanaka evidencia o que seria uma desumanização das pessoas encarceradas, “o que acaba produzindo mais desigualdades, em vez de reeducação”.

O processo de execução penal de Tanaka Luanda Lawrence, a Lulu, que deveria culminar com o seu alvará de soltura, foi encerrado com a juntada de uma certidão de óbito. Em 6 de abril de 2026, quase um ano e meio após a sua morte evitável, a defesa da guianense formalizou o pedido de remessa dos autos ao Ministério Público para apuração dos crimes de omissão de socorro (artigo 135 do Código Penal) e homicídio culposo (artigo 121, §3º, do CP).

A petição assinada pelos advogados Lucas Marques Gonçalves Lopes, Rubens Siebner Mendes de Almeida e Guilherme Fortes Bassi reúne as contradições entre os depoimentos prestados na sindicância da SAP, os documentos hospitalares e o sumário de alta da cirurgia.

Em 16 de abril de 2026, o promotor de Justiça Mateus Victor Ribeiro de Castilho, da Promotoria do Departamento Estadual de Execução Criminal (DEECRIM), emitiu parecer favorável ao pedido da defesa e requereu à autoridade policial a “apuração de eventual crime”. 

Dias depois, o juiz Hélio Narváez, o mesmo que conduziu o processo de execução penal desde o primeiro pedido de providências por intervenção médica urgencial, proferiu um novo despacho. Determinou que, antes da instauração de procedimento para apurar eventuais crimes, fossem solicitadas mais informações sobre os fatos elencados pela defesa à unidade prisional, a mesma instituição que nunca respondeu ao pedido judicial, de mesma natureza, enquanto Lulu sangrava.

Desejo e reparação



Na sindicância administrativa instaurada pela SAP para apurar a morte de Tanaka Luanda Lawrence, todas as presas e funcionárias ouvidas declararam formalmente que “não houve omissão de socorro”.


No entanto, a leitura atenta dos próprios relatos anexados ao processo obtido pela reportagem indicam que Tanaka sentiu dores intensas


que a recomendação médica por escrito de retorno imediato ao hospital foi flagrantemente ignorada pelos servidores


e que ela permaneceu horas agonizando na cela ou na enfermaria antes de ser finalmente transferida para o hospital que ficava do outro lado do muro.

Além disso, ex-companheiras de cela que falaram sob condição de anonimato questionam a sindicância da SAP e afirmam que o sofrimento de Tanaka foi sistematicamente subestimado pelas funcionárias, que insistiam em diagnosticar a dor pós-cirúrgica como “gases” e as repreendiam pelos apelos de socorro à colega. 

Tânia afirma que não foi chamada a depor na sindicância e é categórica: “foi omissão de socorro, sim, da parte da chefe de plantão e da penitenciária”. Para ela, a morte de Lulu tem cor. “Continuo a falar: ela morreu por causa do racismo”. 

“Aquele foi o pior Natal. Eu fiquei muito, mas muito mal. Comecei a tomar remédio por conta própria para dormir. Tive que aguentar ainda alguns meses sem ela, eu sofri demais porque meus filhos gostavam muito dela”, lembra Paula.

Procurada, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) afirmou que Tanaka “recebeu atendimento de saúde contínuo, de acordo com todos os protocolos exigidos, incluindo acompanhamento clínico, ginecológico e realização de exames, conforme a necessidade identificada pelas equipes médicas” e que o PAD instaurado não apontou irregularidades no caso. Sobre detentos estrangeiros, em nota oficial, a SAP disse adotar protocolos para garantir comunicação com familiares, com apoio consular quando necessário e que demandas adicionais são “analisadas caso a caso”.

“O que houve foi o que eu chamaria de uma dupla desproteção”, avalia o doutor em sociologia e pesquisador de violências de Estado da Universidade de Brasília (UnB) Edergenio Negreiros Vieira. “Houve omissão por parte do Estado na assistência à saúde médica e farmacêutica e até na atenção à dignidade da pessoa humana, uma omissão estrutural e institucional. […] E se o Estado falhou ao negar acesso à saúde, a Justiça também falhou. Por que? Porque a Justiça deve fiscalizar o cumprimento da pena”, afirma.

O pesquisador ressalta que houve um claro descumprimento da Regra de Bangkok, da Organização das Nações Unidas (ONU), da qual o Brasil é signatário e que versa sobre o acesso a ao menos um médico à disposição por unidade prisional como condição mínima, e que o profissional ainda tenha conhecimentos a respeito de saúde mental. “Quando se fala em falha, pode-se pensar que é um caso isolado, mas o mais provável é que essa realidade esteja mais para regra que para exceção”, complementa Vieira, salientando que o caso de Tanaka evidencia o que seria uma desumanização das pessoas encarceradas, “o que acaba produzindo mais desigualdades, em vez de reeducação”.

O processo de execução penal de Tanaka Luanda Lawrence, a Lulu, que deveria culminar com o seu alvará de soltura, foi encerrado com a juntada de uma certidão de óbito. Em 6 de abril de 2026, quase um ano e meio após a sua morte evitável, a defesa da guianense formalizou o pedido de remessa dos autos ao Ministério Público para apuração dos crimes de omissão de socorro (artigo 135 do Código Penal) e homicídio culposo (artigo 121, §3º, do CP).

A petição assinada pelos advogados Lucas Marques Gonçalves Lopes, Rubens Siebner Mendes de Almeida e Guilherme Fortes Bassi reúne as contradições entre os depoimentos prestados na sindicância da SAP, os documentos hospitalares e o sumário de alta da cirurgia.

Em 16 de abril de 2026, o promotor de Justiça Mateus Victor Ribeiro de Castilho, da Promotoria do Departamento Estadual de Execução Criminal (DEECRIM), emitiu parecer favorável ao pedido da defesa e requereu à autoridade policial a “apuração de eventual crime”. 

Dias depois, o juiz Hélio Narváez, o mesmo que conduziu o processo de execução penal desde o primeiro pedido de providências por intervenção médica urgencial, proferiu um novo despacho. Determinou que, antes da instauração de procedimento para apurar eventuais crimes, fossem solicitadas mais informações sobre os fatos elencados pela defesa à unidade prisional, a mesma instituição que nunca respondeu ao pedido judicial, de mesma natureza, enquanto Lulu sangrava.

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Como estragar seu dia: vá ao dermatologista

Faz uns dias que tive uma consulta com a dermatologista. Mais de uma década se passou desde que tive o desprazer de alguém apontar uma lupa para os meus poros, e achei que era hora de conferir a saúde da pele. Nada, porém, me preparou para a experiência. Inclusive, se um dia você estiver procurando um jeito de estragar sua semana, faça como eu e marque um dermatologista para segunda de manhã bem cedo. É um estrago garantido.

Fomos eu e meu companheiro: dois branquelos com histórico de algumas pintas meio problemáticas na família. A médica pediu para entrarmos juntos para “dedurarmos um ao outro”. Meu companheiro começou explicando que seu objetivo era ver pintas. A médica fez perguntas sobre elas e sobre a pele dos pais etc. Tudo normal e profissional. Até que ela se virou para mim.

Repeti que também estava ali por causa das pintas, especialmente de uma no rosto. Daí a primeira diferença: ela me perguntou o que eu fazia de “skin care”. Bastou mencionar o produto para a região dos olhos que ela me interrompeu: “Pois é, a verdade é que você devia pensar seriamente em botox com essas linhas na sua testa”.

Mesmo chocada, consegui articular: “Não quero colocar botox”. Ela, porém, não desanimou. Insistiu: botox era a única saída, porque minha pele “tem tendência a craquelar” e as linhas de expressão “já estão visíveis mesmo com o rosto relaxado” e, portanto, era “agora ou nunca”: se eu quiser colocar em alguns anos, será tarde; as linhas terão se tornado “vincos irreversíveis”.

“Mas… eu não me importo com as minhas linhas”, falei, baixinho, enquanto minha autoestima era sugada por aquela médica transformada em vendedora de botox.

Vejam, eu entendo as mulheres que se injetam a toxina botulínica. O ano é 2026, mas a pressão ainda é tão grande que até dá pra argumentar que a função primeira e principal de toda mulher é ser bonita e, portanto, jovem — o que só é possível com uma pele livre de qualquer marca deixada pelo tempo. Não é como se surpreendesse que, em 2024, as aplicações de botox tenham representado 46% de todos os procedimentos estéticos não-cirúrgicos no Brasil. Foram 351 mil aplicações, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética.

O que me surpreendeu foi ter sido explícita sobre minha preocupação naquela consulta (a saúde da minha pele) e, em troca, ter recebido uma enxurrada de opiniões não solicitadas sobre a aparência dela.

Sem falar na diferença no tratamento: meu companheiro também tem linhas de expressão na testa. Adivinhe se a médica falou alguma coisa para ele? Já eu tive que passar minutos ouvindo sobre como minha pele “é difícil” e, que absurdo!, eu, “com 30 anos”, já estou “com essas linhas todas”.

Saí arrasada, me sentindo inadequada e com raiva de mim mesma por não ter antecipado o pior. O que esperava? Receber o mesmo tratamento que um homem? Encontrar uma médica focada na saúde? Mesmo sabendo que homens não são tão cobrados pela aparência quanto nós, como todo mundo vem me dizer, que dermatologista ganha dinheiro mesmo aplicando botox? Inocência da minha parte.

Depois, fui falar com mulheres. Uma tem um grupo de amigas com a opinião unânime de que “depois dos 25 anos é obrigatório colocar botox”. Outra estava pensando em se candidatar, enquanto uma terceira admitiu: “Já cedi, estou noiva, não tem como!”. Uma quarta confessou: “Não gosto de falar sobre isso; esse assunto me dá muita ansiedade”. Bom, pelo menos não sou a única lançada nesse redemoinho que só deve ter aprofundado minhas linhas.​

Desde então, não paro de me perguntar: por que um procedimento que não é indicado para grávidas é vendido como a coisa mais tranquila do mundo? O que é tão horrível em linhas de expressão? Estou perdendo o bonde da História ao não me livrar das minhas? Será que algum dia vamos deixar as mulheres envelhecerem em paz? Ou será que, em breve, vamos ser incapazes de lembrar como são os rostos humanos normais e imperfeitos?

Quem procura, acha. E eu, em 30 minutos, estraguei minha semana e achei uma nova noia para chamar de minha.

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