O milagre da multiplicação da sardinha, a tempo dos Santos

O cheiro nem engana, depois vem o olhar:prateada e pequenina, a sardinha destaca-se na banca do peixe e a pergunta é sempre a mesma: “Já está boa?”“Já se come”, responde Elisabete Nunes, administradora da Propeixe.“Está gordinha”, reforça Joana Martins, peixeira no mercado de Benfica, em Lisboa, pegando orgulhosa no pescado enquanto o exibe para a fotografia.
Do lado de Matosinhos, onde o pulso da lota dita o ritmo dos dias, há sinais de abundância moderada. “Há muita sardinha, pelo menos aqui no Norte. E tem vindo a melhorar”, afiança Elisabete, contando 40 barcos diários a irem para o mar.

Contudo, a memória recente impede entusiasmos fáceis. A sardinha quase desapareceu do mar. Em 2017, no ponto mais crítico, Portugal e Espanha partilhavam uma quota de apenas 10 mil toneladas. Isto sucedeu devido a condições ambientais adversas e por pressão excessiva sobre o recurso. Juntos estes dois fatores contribuíram para o seu declínio.
“O risco de colapso não era um receio abstrato. Era uma realidade identificada pela ciência”, recorda ao jornal económico Alberto Martín, diretor do programa do Marine Stewardship Council (MSC) para a Península Ibérica.
Nesses anos, muitos pescadores passaram mais tempo em terra do que no mar. A sardinha, esse símbolo tão português, tornava-se escassa, Foi preciso parar para a salvar. Impor períodos de defesos, restrições à captura de juvenis e aceitar perdas no presente para garantir futuro. “A recuperação exigiu sacrifícios importantes por parte dos pescadores”, sublinha Alberto Martín. “Mas foram fundamentais para permitir que o stock regressasse a níveis sustentáveis, garantindo a sustentabilidade do setor e a preservação do recurso para as gerações futuras.”
Hoje, o cenário é outro — ainda que frágil na sua própria conquista. A biomassa da sardinha com mais de um ano de idade aumentou de cerca de 152 mil toneladas em 2019 para mais de 385 mil em 2020. O que representa um crescimento de 153%. Além disso, as quotas aumentaram cinco vezes face ao pior momento e a sardinha voltou às redes com outra consistência. Ainda assim, nem tudo o que vem à rede é peixe.

Joana Martins, peixeira, no mercado de Benfica, em Lisboa

Junho é o auge desta jóia do atlântico. Com a aproximação dos Santos Populares, a procura intensifica-se e a sardinha volta ao centro da mesa — e da economia que gira à sua volta. A EGEAC estima que, só em Lisboa, sejam consumidas cerca de 13 sardinhas por segundo durante as festas, o que se traduz em mais de um milhão ao longo dos dias de celebração.
Nas praças, mercados municipais e supermercados, esse movimento já é visível. Os consumidores regressam, antecipando as semanas de maior procura,e os preços acompanham essa pressão. O quilo oscila entre os sete e os 8,40 euros, refletindo a procura externa e a concorrência. “Os portugueses já estão a comprar muito e a sardinha já está a ficar gordinha”, diz Carlos Proença, peixeiro no mercado de Benfica.
Até chegar ao prato existe uma cadeia exigente. O preço à saída da lota ronda os dois euros, mas ao longo do percurso acumulam-se custos logísticos, operacionais e comerciais. A isso soma-se a pressão internacional sobre um recurso que voltou a ser pro- curado, sobretudo após a recuperação do stock e a certificação de sustentabilidade.
Segundo dados do INE, Portugal exportou entre 7000 a 9000 toneladas de sardinha fresca e congelada em 2024. O principal mercado foi Espanha, seguido de França e Itália, mas no mesmo período importou entre 3 a 5 mil toneladas sobretudo de Espanha, o maior forncedor, seguindo-se França e Países Baixos.
Já agora para não comprar gato por lebre, segundo a Deco, a qualidade da sardinha exige olhar atento: “pele brilhante, guelras vermelhas e olhos salientes e transparentes, com cheiro a maresia, são bons indicadores de frescura.” Apesar das contas, em junho a história é sempre a mesma: uma sardinha no pão, comida sentada ou de pé, ao ritmo de música popular e aromatizada com o perfume do manjerico.

O que significa a certificação do MSC?
O MSC (Marine Stewardship Council) é uma organização internacional sem fins lucrativos que estabelece normas reconhecidas globalmente para a pesca sustentável, contando com escritórios em todo o mundo, incluindo em Portugal. Atualmente, as pescarias certificadas pelo MSC representam cerca de 20% de toda a captura marinha selvagem a nível mundial. Em Portugal, já existem mais de 450 produtos disponíveis no mercado com o Selo Azul MSC.
Trata-se de uma certificação voluntária que avalia as pescarias com base em três princípios fundamentais. O primeiro diz respeito ao estado dos stocks pesqueiros, garantindo que as populações exploradas se mantêm em níveis saudáveis e capazes de assegurar a sua reprodução a longo prazo. O segundo avalia o impacto ambiental da atividade, exigindo que a pesca seja gerida de forma a minimizar os seus efeitos nos ecossistemas marinhos, noutras espécies e nos habitats. O terceiro princípio centra-se na gestão da pescaria, que deve cumprir a legislação em vigor e dispor de mecanismos que permitam adaptar-se a alterações das condições ambientais, científicas ou regulatórias.
Um aspeto particularmente relevante é que esta avaliação não é realizada pelo próprio MSC, mas por organismos certificadores independentes. A certificação tem uma validade de
cinco anos e está sujeita a auditorias anuais. Em alguns casos, podem ser impostas condições de melhoria que a pescaria certificada é obrigada a cumprir. Caso deixe de satisfazer os critérios exigidos, a certificação pode ser suspensa. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a pescaria da sardinha ibérica em 2014.
A certificação assenta ainda num segundo pilar essencial: a rastreabilidade. O Selo Azul que chega ao consumidor é suportado pela norma de Cadeia de Custódia do MSC, que assegura o acompanhamento e a verificação do produto certificado em todas as etapas dacadeia de abastecimento, desde o momento da captura até ao ponto de venda.









