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Crucifixo de papel

13 June 2026 at 18:06

11 – SEF

Lúcia foi fazer o turno da noite, na Hamburgueria, com o estômago embrulhado pela tensão em que ficara depois do sucedido com Miguel, conhecia bem o seu grau de perversidade quando invadido pela raiva. Agilizou o serviço com gestos mecânicos, ausente e corroída, dominada por um estado de alerta impotente. A filha, fora do seu alcance, à mercê da instabilidade anímica do pai.

Margarete levou Luana a jantar fora na sua pizzaria favorita – a dos baloiços com cara de dinossauro no pátio interior. Guete tentou por tudo dissuadir a ressonância do episódio daquela tarde da cabeça da menina – lembrando-a de que a festa tivera muitos momentos alegres, que não desse importância ao chilique de Miguel.

O pai às vezes é mau, pois é Guete, ele fica muito zangado com a mãe e hoje ele ficou zangado contigo, eu vi.

Esquenta, não, Luana, os adultos são assim mesmo, a gente é difícil de entender, melhor mesmo é ser assim criança, que nem você é. O importante é que a sua festinha foi linda, cheia de amiguinhos, e agora você já tem cinco anos e é uma moça linda.

O pai diz que tu me vais roubar e levar para longe, às escondidas da mãe, o pai disse para eu nunca falar contigo, mas eu gosto de falar contigo, ele disse que conseguia ouvir tudo o que a gente fala, que ele paga a um senhor que está sempre na janela da nossa casa a ouvir a conversa, não é verdade que tu vais-me roubar, pois não, Guete?

É claro que não, menina, você acha que eu ia me dar ao trabalho de roubar uma dorminhoca que nem você, e para que é que eu ia querer uma moça que só sabe é dormir, para me dar despesa, você acha mesmo, aí eu ia ter que te dar comida, comprar roupa, levar na escola, ôxi, Deus me livre, não quero roubar você, não, menina.

Ouvir a pequena Luana falar do pai, perceber a desordem interior em que aquela situação a deixava, transportava Guete para dentro do caldeirão das memórias da sua própria infância. Utilizar estratégias que convencessem a menina a não temê-lo, que visassem desvalorizar a gravidade do cenário envolvente, resultava numa forma voluntária e premeditada de amansar as garras dos seus próprios pesares – esses fantasmas à reprimidos e sempre dados ao oportunismo. Cuidava dela como se assim remediasse a violência porque outrora passara. Amava-a como nunca fora amada nos tempos da meninice em Dançolândia.

Boa noite, meu amor, dorme bem, espero que você tenha gostado do seu dia de aniversário. Já já a mamãe está chegando e vem deitar com você, dorme tranquila, que eu fico aqui do seu lado até você pegar no sono, E cantou-lhe ao ouvido a canção do Sono É Um Gigante.

Antes de adormecer, a menina ainda lhe perguntou, Guete, queres ser minha madrinha, eu não tenho nenhuma madrinha, a mãe é madrinha da Bia, mas eu não tenho uma madrinha.

Então, a partir de hoje pode-me chamar de madrinha, que eu serei a melhor madrinha do mundo para a melhor afilhada do mundo, te amo, viu.

Guete sabia que precisava de um novo espaço para morar, uma nova casa, um quarto alugado, qualquer coisa, não podia mais ficar onde estava, sob pena de uma denúncia de Miguel à polícia.

Durante esse ano, das três vezes que estivera no SEF para tratar do seu processo de residência, foram-lhe sempre sendo requisitados novos documentos, cujas burocracias associadas ao deferimento dos mesmos lhe prolongavam a permanência na precária condição de ilegal. Nesta última tentativa – em que, numa noite gelada de inverno, ficara na fila à porta do SEF, desde as duas da manhã, para conseguir uma senha de atendimento geral quando o gabinete abrisse, às oito – voltou ainda com a informação de que o registo criminal não estava devidamente carimbado, era necessário apostila-lo junto dos serviços de segurança nacional do país de origem. Recorreria a Cida, para que o fizesse, através de procuração, e o enviasse por correio. Mais alguns meses de espera, clausura e angústia permanente.

Qualquer denúncia, qualquer incidente, qualquer contacto com as autoridades lhe valeria um convite de saída e consequente expulsão.

Pelo menos, Pensava, o contrato de trabalho, a manifestação de interesse, o registo nas finanças e segurança social foram aceites e está tudo certo, descontar, eu estou descontando.

Poucos dias depois, vagou um quarto no alojamento da Hamburgueria. Lúcia viu-a enfiar os pertences do seu quarto improvisado, ao fim do corredor, numa simples trouxa de pano e partir.

Era fim-de-semana, Luana estava com o pai. Despediu-se de Guete com um engasgado Amanhã a gente se vê na hamburgueria, até amanhã, amiga, beijo, espero que você fique bem lá no quartinho.

Fechou a porta e chorou a casa vazia, desfez a esperança de uma família que construira no sigilo mais fantasioso. Tirou a rolha à garrafa de cachaça 51, abasteceu o martelinho vezes sem conta e anestesiou-se.

(próximo capítulo: edição 25 de junho)

Com o apoio da Junta de Freguesia da Guia

Comboios no Algarve. Terceiro mundo?

13 June 2026 at 16:30

Declaração de interesses: Sou fã de comboios. São mais ecológicos, permitem ir confortavelmente sentado, permitem mexer as pernas e ler enquanto se viaja.

Nestes dias, fui de comboio do Barlavento algarvio até Lisboa no Alfapendular. Sem problemas, partimos e chegámos dentro do horário – o bicho chegou a atingir os 220km/h!

À vinda para cá é que foram elas. O comboio Intercidades vinha de Braga e chegou a Lisboa com meia hora de atraso. Carruagem praticamente cheia, desconfio que éramos dos poucos portugueses, senão os únicos. Pelo caminho, fomos acumulando mais atrasos e chegámos a Tunes cerca de uma hora depois do previsto.

Nunca é demais realçar que Tunes é só o entroncamento ferroviário mais importante do Algarve – e quem vai para o Barlavento desce aqui para apanhar a ligação.

Desembarcados no cais 3 e 4, a pergunta era em qual das linhas vinha o comboio, para prosseguirmos a viagem. Ficamos à espera que a instalação sonora nos desse a dica, mas nada. Confrontados com a interrogação em várias línguas, usamos o inglês de praia, o francês da escola e o português da lusofonia para tentar dar uma resposta – que não tínhamos.

No fim da plataforma de desembarque, lá estava ela, mas em painéis diferentes. Num tinha o horário do comboio que ia para Lagos, com o número da viagem, e, no painel ao lado, tínhamos que pacientemente procurar o número da viagem para ver qual a plataforma.

Deveria haver uma instalação sonora, essencial para informar os passageiros, muitos deles estranhos numa terra estranha e baralhados pelos sucessivos atrasos, quanto tempo ainda vão ter de esperar pelo comboio que os levará ao destino – e onde o apanham.

A referida instalação sonora existe… mas manteve-se estoicamente muda e calada. Assim, dividimos as forças, fiquei no cais do meio e a mulher foi à bilheteira da estação ver se conseguia mais indicações e tentar saber onde era a casa de banho, uma vez que não se via sinalética em lado nenhum.

Dentro da estação, não havia informação, apenas o funcionário que estava de saída lhe confirmou apressadamente que o comboio passaria na linha 1 e lá fomos encaminhando o pessoal para a plataforma certa. Quanto à casa de banho, a resposta foi categórica – não há.

Por acaso havia… mas era privada do bar restaurante, pelo que era necessário fazer alguma despesa para lhe ter acesso. Como estamos numa sociedade concorrencial, os preços eram de estação de serviço de autoestrada.

Continuando sem informação sonora oficial, ficámos num alegre convívio multilingue até que, mais de meia hora depois, lá chegou o comboio, personalizado com os grafitti da ordem. Curiosamente, o destino indicado na frente do dito cujo era… Vila Real de Santo António, em vez de Lagos. Como devem calcular, para o turista é uma confusão tremenda.

Cheios de vergonha alheia face ao triste estado do nosso transporte ferroviário nesta eletrificada linha do Algarve (linha temos, faltam “apenas” os comboios), chegámos finalmente ao destino com hora e meia de atraso.

Se, à partida de Lisboa, descontando o atraso, parece que estamos na Europa, quando chegamos ao Algarve, desculpem e sem querer ofender ninguém, parece que estamos no terceiro mundo ferroviário. E não me refiro apenas ao que pensarão os turistas estrangeiros, também penso naqueles que (tentam) usar o comboio nas suas deslocações frequentes.

Já agora, uma nota de rodapé: Comprar bilhetes no site da CP requer uma boa dose de paciência, insistência e resiliência.

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Nova “Casa do Trânsito”

13 June 2026 at 16:04

O título intrigou-nos, pois, pensávamos que se tratasse de algo referente a movimentos de meios aéreos, terrestes, fluviais ou marítimos. Puro engano, pois, a «Casa do Trânsito», recentemente aberta em novas instalações na capital algarvia, objectiva em termos sociais algo de muito importante.

Numa concretização viável graças ao protocolo celebrado entre a Fundação Calouste Gulbenkian e o Município de Faro e sob a iniciativa e gestão da benemérita instituição «O Companheiro», cuja existência não conhecíamos, surgiu esta «Casa do Trânsito». Destina-se a mesma a prestar todo o meritório apoio, com todo o ambiente protegido e os meios técnicos e pedagógicos necessários a quantos estiveram envolvidos em questões judiciais, tendo em vista a respectiva inserção, em termos correctos, na comunidade.

Com activa colaboração dos estabelecimentos prisionais existentes no Algarve (Faro, Olhão e Silves), que de outra forma honesta o não podia ser, esta “Casa do Trânsito” vai ser assim, em modos práticos, o percurso entre o cumprimento da pena aplicada pelos tribunais e o voltar a ter um papel condigno e fiável na sociedade a que o cidadão é devolvido.

Para que não volte a repetir o indevido praticado, como tantas vezes tem acontecido e na vivência, infelizmente autêntica de que «ao menos na cadeia tenho cama, mesa e roupa lavada».

O Brasil renascido em Pernambuco

13 June 2026 at 14:31

Esta é uma história de dificuldade, carinho e superação que eu gostaria de recontar. Em 1970, a Seleção Brasileira encantou o mundo na Copa do México, liderada pelo extraordinário Pelé, com atuações memoráveis de Rivellino, Jairzinho, Tostão, Gerson e Carlos Alberto.

Depois, no entanto, fracassamos várias vezes, na Alemanha, na Argentina, na Espanha (com aquele timaço de Zico, Sócrates e Falcão), no México (sede novamente) e na Itália. A maior parte da torcida ficou desapontada e descrente.

Nas Eliminatórias para a Copa de 1994, passamos por maus bocados. Começamos com um decepcionante empate em 0 a 0 com o Equador. Depois, fomos derrotados por 2 a 0 pela Bolívia, em La Paz. Nesse calvário, tivemos ainda um empate com a Venezuela e outro com o Uruguai. A matemática ficou bem complicada. Poderíamos, pela primeira vez, ficar fora de uma Copa do Mundo.

Aí, em agosto de 1993, foi realizado o jogo da volta contra o Equador, no Morumbi.Atuação sem brilho dos brasileiros. E a torcida paulista vaiou muito o selecionado e o técnico Parreira, mesmo com a vitória por 2 a 0. O psicológico dos jogadores estava realmente abalado.

A impaciência da torcida resultava também de outros fatores. Naquele agosto, o dinheiro derretia na carteira. A inflação mensal foi 32,96%. A acumulada do ano bateria em inacreditáveis 2.477%. O Real, aliás, eixo monetário do plano de estabilização econômica, somente entraria em circulação no ano seguinte, justamente durante a Copa.

A partida na sequência, decisiva, seria contra nossa algoz da época, a Bolívia. E foi marcada para o Recife, justamente na casa do meu Santa Cruz, o Arruda. Os jogadores chegaram e, com espanto, encontraram um clima totalmente diferente. Em vez de vaias e palavrões, ouviram incentivos e aplausos. No aeroporto e no hotel, receberam enorme carinho das pernambucanas e dos pernambucanos.

Naquele 29 de agosto, o público pagante foi de 75.325, mas 96.990 pessoas lotaram as arquibancadas tricolores, superando em muito a capacidade do estádio. Muita gente ainda ficou do lado de fora, ouvindo o jogo em radinhos de pilha.

Aí, entra outro fator fundamental naquela campanha. Os atletas entraram em campo de mãos dadas, conforme o projeto de união e superação imaginado pelo excelente zagueiro Ricardo Rocha, pernambucano, recifense, que começara a carreira aqui no nosso Santinha, antes de jogar por times como São Paulo, Real Madrid e Vasco da Gama.

O Brasil deu o troco. Vitória expressiva de 6 a 0! O ânimo mudou! No jogo seguinte, vencemos a Venezuela. Ainda faltava, no entanto, outra disputa decisiva. Seria disputada no Maracanã, em 19 de setembro, e muita gente temeu desfecho semelhante àquele da final da Copa de 1950, quando fomos derrotados pelo cascudo time comandado por Obdúlio Varela.

Começou a campanha informal “Chama o Romário”, afastado por lesões e problemas com a comissão técnica. Enfim, a paz foi selada. Romário foi convocado, voltou, jogou e, no segundo tempo da partida, marcou os únicos dois gols da partida. Acabou-se o drama e a Seleção Brasileira conseguiu sua classificação.

Ricardo Rocha, o grande espírito motivador daquele grupo, lesionou-se com gravidade já no primeiro jogo da Copa. Comissão técnica e jogadores, no entanto, decidiram que ele continuaria com o grupo. E seguiu como incentivador máximo dos colegas, mantendo viva a chama pernambucana de garra, valentia e confiança.

Como todos sabemos, conquistamos o cobiçado tetra, depois de jogos difíceis, especialmente a final, contra a Itália, em 17 de julho. Dois dias depois, os heróis retornaram ao Brasil. E decidiram pousar, primeiramente, no Recife.

Não foi uma parada técnica. Todo mundo desceu. Houve desfile em carros do Corpo de Bombeiros. Mais de 1,5 milhão de pessoas promoveram uma gigantesca festa pela cidade. Boa Viagem tinha dois mares: o Atlântico e aquele da gente que celebrava a conquista.

Depois, Ricardo Rocha pronunciou uma frase que ficaria famosa: “o tetra começou no Recife”. Ele tinha razão. Pernambuco entrou para a memória coletiva como um lugar de resistência, de acolhimento, de resgate da brasilidade. E isso diz tudo sobre nosso povo, nossa cultura e nossa identidade.

Muitas vezes, portanto, em momentos difíceis de nosso país, penso aqui com os meus botões. Se o que falta é uma injeção de ânimo, o Brasil precisa de mais Recife, de mais Pernambuco.

Marcelo Silva, conselheiro de empresas

O problema não é o divórcio. O problema é o conflito | Por Joaquim Manuel da Silva

13 June 2026 at 15:20

Durante muitos anos (e ainda hoje) discutimos uma questão que parecia decisiva: será melhor para uma criança crescer com os pais juntos ou com os pais separados?

Hoje sabemos que essa não é a pergunta mais importante.

A investigação científica das últimas décadas tem demonstrado, de forma consistente, que aquilo que mais prejudica o desenvolvimento das crianças não é a separação dos pais em si mesma. O verdadeiro problema é a exposição prolongada ao conflito, ao medo, à insegurança e à perda de relações afetivas significativas.

Uma criança que vive numa família aparentemente intacta, mas marcada por discussões constantes, hostilidade e tensão emocional, pode sofrer mais do que uma criança cujos pais se separaram, mas conseguiram construir uma relação parental respeitadora e cooperante.

Podemos simplificar a realidade em três cenários.

– Pais juntos e em conflito permanente.

– Pais separados e em conflito permanente.

– Pais separados, mas capazes de cooperar e colocar os filhos acima das suas divergências.

A evidência aponta claramente para que este último cenário seja, em regra, o mais favorável ao desenvolvimento da criança.

E aponta também para que o segundo seja frequentemente o mais destrutivo.

Porque ao conflito junta-se a perda da convivência diária com um dos pais, os conflitos de lealdade, os sentimentos de abandono e, muitas vezes, anos de litigância que transformam a infância num campo de batalha.

O problema não está na forma jurídica da família.

Está no conflito.

E hoje sabemos que esse conflito não produz apenas sofrimento emocional.

Produz alterações reais no desenvolvimento da criança.

Afeta a forma como o cérebro se organiza.

Afeta os mecanismos de resposta ao stress.

Afeta a aprendizagem.

Afeta a saúde futura.

A criança não vive o conflito apenas na mente.

Vive-o no corpo inteiro.

Talvez por isso a verdadeira questão ética não seja descobrir quem tem razão.

Nem quem ganhou o processo.

Nem quem venceu a última batalha.

A verdadeira questão é outra:

Que direito tem um adulto de sacrificar o bem-estar dos seus filhos para continuar uma guerra contra o outro progenitor?

Ao longo da minha experiência profissional aprendi uma lição simples.

Os conflitos persistentes raramente sobrevivem quando uma das partes deixa de os alimentar.

Quando deixa de responder à agressão com agressão.

Quando deixa de procurar culpados.

Quando deixa de precisar de vencer.

Quando deixa de precisar de ter razão.

Quando passa a preocupar-se mais com a saúde dos filhos do que com a derrota do outro progenitor.

Ninguém discute sozinho.

Ninguém faz uma guerra sozinho.

O conflito exige cooperação.

A paz também.

É neste contexto que deve ser entendida a residência alternada.

Não como uma solução mágica.

Não como um objetivo em si mesmo.

Mas como um possível instrumento para garantir a presença de ambos os pais na vida da criança e reduzir dinâmicas de exclusão.

O essencial continua a ser o mesmo: reduzir o conflito.

Porque a pergunta decisiva não é:

«Com quem vive a criança?»

A pergunta decisiva é:

«Em que ambiente emocional vive a criança?»

Uma criança criada na paz, no respeito e na cooperação terá normalmente condições para crescer de forma saudável.

Uma criança criada no medo, na hostilidade e na guerra permanente pagará frequentemente esse preço durante muitos anos.

Às vezes durante toda a vida.

E quando isso acontece, não perde apenas a criança.

Perde a família.

Perde a comunidade.

Perde a sociedade inteira.

Talvez esteja na altura de compreendermos uma verdade simples: proteger as crianças não significa escolher um dos pais.

Significa protegê-las da guerra entre eles.

Talvez a verdadeira medida do amor pelos filhos não esteja naquilo que fazemos por eles, mas sim naquilo que somos capazes de deixar de fazer ao outro progenitor por causa deles.

Porque o amor sem segurança não é amor; é apenas uma necessidade adulta disfarçada de afeto.

Nota bibliográfica: As ideias expostas neste texto apoiam-se na prática do autor e, doutrinalmente, entre outros, nos trabalhos de Vincent Felitti, Bruce Perry, Bessel van der Kolk, Jack Shonkoff e John Bowlby sobre trauma, desenvolvimento infantil e teoria do apego.

Leia também: Universidade do Algarve disponibiliza provas digitais gratuitas para preparação das avaliações nacionais | Por Mauro Figueiredo

Como é possivel conciliar ainda com Israel?

13 June 2026 at 14:04

Em meu entender condescender com Israel, diria mesmo no que quer que seja, será sempre uma cumplicidade com o terrível morticínio de crianças para além de todos os outros conhecidos que, em meu entender, fazem do seu mandante Netanyahu um dos maiores criminosos deste século.

E não me venham com a teoria da defesa a todo o transe.

Ataque de quem?

Será que essa ideia de haver ainda(!) palestinianos é pura utopia?

Será que não têm o direito de lutar pela sua terra em grande parte já “ocupada(?)” por Israel?

Será que o chamado terrorismo apenas se aplica a um dos lados?

Será que Israel tem o direito de alegar que ao atacar o Líbano o faz em legítima defesa?

Não será que ninguém quer entender que Israel, em última análise, o que pretende é estender o seu poder militar com o apoio essencial dos USA hoje de Trump, mas já há muito anterior, apenas aguardando a altura certa?

Por favor, já chega de manipulações e tentativas de justificação.

Hoje a chamada “Europa” melhor “União Europeia” vem sendo cúmplice em todos os sentidos, inclusive em apoio militar, de Israel e de todas atrocidades que vem cometendo.

E um já habitual “mea culpa” aqui ou ali não basta. Estamos a falar de toda a problemática de uma zona do globo tão importante politicamente como o Médio Oriente e erros desta natureza pagam-se muito caros ou assumem-se sempre do lado errado o que será ainda pior.

Naturalmente que alguns países desta mesma UE já se demarcaram felizmente como a nossa vizinha Espanha… e se muitos outros o não fizeram vale apena tentar perceber porquê…

Claro que, desde o fim da segunda guerra, o “inclave” Israel em terras palestinas, e não sejamos ingénuos, teve como fim último o controle de uma região importantíssima sob todos os pontos de vista políticos e económicos (v.g. petróleo!) e em que os USA e a U.K. e já mesmo a França suplantaram a URSS de Stalin distante com outros problemas. Ora, tudo isso escorre até países como o nosso e a maioria dos U.E. que hoje e amanhã estão ainda iludidos com uma coisa chamada NATO e transidos de medo da URSS (perdão Rússia)! conhecedores como são das relações íntimas e que se consubstanciam em biliões e biliões de dólares entre os que, há já largo tempo, são detentores e como tal controladores dos políticos e, não por acaso, nem nos dois países pseudo -democrato-liberais em causa.

Cada vez mais me parece elementar ser necessária uma aliança de todas as “forças“e movimentações populares com os partidos de esquerda e em consequência solicito com humildade ao nosso Livre que reflita relativamente quanto à sua posição no que concerne a União Europeia.

É fundamental entender nos tempos que correm que apenas a unidade de todos os que se opõem à concentração neo capitalista que domina o mundo poderá conseguir, se ainda a tempo, que o único planeta conhecido onde existe vida mantenha essa benção cósmica!

O INEM em Crise

13 June 2026 at 12:04

A refundação do INEM tem suscitado grande discussão e até ansiedade em todos os que a ela têm estado atentos.

O Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), hoje dado como um Serviço da República inquestionavelmente adquirido, teve como ideólogo Rocha da Silva que em 1974 foi incumbido de desenvolver o Serviço Nacional de Ambulâncias, SNA, que substituíra o primeiro serviço organizado de socorro estabelecido em 1965 onde as ambulâncias eram operadas por agentes da polícia, o 115.

Rocha da Silva não só é o ideólogo como o mentor do Serviço de Emergência pré Hospitalar e vem mudar a metodologia da condução acelerada ao hospital para a imprescindibilidade do tratamento ser iniciado no local, até ao patamar das VMER, agora consignadas só a transferências entre hospitais, na atual refundação. Aquela nova metodologia veio não só salvar vidas como impedir que fossem agravadas as condições de saúde dos assistidos, como por exemplo, nas patologias vertebro medulares ou dos membros.

Dele parte a iniciativa de estágios especializados em emergência pré hospitalar de técnicos do SNA, no Canadá e na América, onde ele próprio já havia estado, desenvolvendo uma cultura de saberes indispensáveis à eficiência do socorro, assim como também dele parte o Gabinete de Emergência Médica (GEM), seguido em 1981 pelo Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM), que articula as diversas Entidades participantes no socorro, seguindo-se naturalmente o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), instituído pelo Decreto-Lei 234/81, numa curva evolutiva institucional de que o Dr. Rocha da Silva é o motor e primeiro responsável, sendo o seu primeiro presidente, cargo que pelo apreço do seu empenho, mantém até aos 72 anos, por interesse especial do Governo.

Em 1988, sob a sua batuta, é criado o primeiro Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), operando só em Lisboa por limitações da rede de comunicações da responsabilidade dos TLP, onde os Técnicos de Emergência Pré Hospitalar iniciam outro trabalho difícil, filtrar e decidir sobre a informação que lhes é comunicada, sempre perturbada pela emoção do participante.

Surge agora uma refundação do INEM pela mão do actual presidente que logo declarou vir refundá-lo, sublinhando ser essa a missão que vem cumprir.

São estabelecidas alterações profundas, acolhidas no despacho nº 5816/2026 de 6 de Maio da Ministra da Saúde, que são contestadas pelos quatro últimos presidentes do INEM, da reserva expressa do Bastonário da Ordem dos Médicos, da refutação do Sindicato dos Técnicos de Emergência Médica que afirma “a redução de ambulâncias do INEM dedicadas à emergência, a transformação de ambulâncias em veículos ligeiros, a transferência de meios para transporte inter-hospitalar e a desvalorização progressiva dos Técnicos de Emergência representam um caminho que fragiliza a resposta às populações e coloca em risco a eficácia do socorro” enquanto protesta na Rua, à porta do Ministério da Saúde e da Assembleia da República, mostrando que a cultura institucional, desenvolvida por Rocha da Silva, está profundamente abalada num Serviço Público da maior relevância para todos nós, cidadãos.

Por outro lado, esta refundação não mostra colmatar a falta de recursos humanos que a Ministra da Saúde declarou como impeditiva do funcionamento das viaturas de socorro, não contempla a reposição das muitas obsoletas, como também expressou, salvo se a menor oferta e a desresponsabilização no socorro, entregue a terceiros, tiver como objetivo emagrecer a necessidade de pessoal e viaturas.

Será que a Emergência pré Hospitalar com tanto esforço e entusiasmo criada pelo Dr Francisco Filipe Rocha da Silva – que bem merecia (aqui fica a sugestão) ser homenageado na toponímia de Faro, sua cidade natal – com um tão vasto currículo profissional, considerado o Pai da Emergência Médica, vai progressivamente ser esvaziado na sua função de salvar vidas, subjugado a ventos doutrinários de menos Estado, melhor Estado?

Não o acreditamos, a consciência cívica de todos nós não o permitirá.

O Exército do futuro e as lições do LEGO

13 June 2026 at 09:00

O “neto mais novo de Recife” está em Brasília. A casa ganhou outro ritmo. Aquela alegria que só criança produz tomou conta do ambiente. Os gêmeos, “Galeguinho” e “Cabeludinho”, acostumados a disputar atenção e colo, estão injuriados. “Quem é esse aí?”.

No fim do mês, junta-se o “neto mais velho de Recife” e a festa estará completa. Entre uma brincadeira e outra, encontrei o mais novo de Recife brincando com LEGO. “É um edifício, vovô.”

O prédio tinha rodas, era modular, podia ser desmontado e remontado rapidamente e aproveitava partes de outras estruturas guardadas na caixa de brinquedos.

Observei a cena encantado, enquanto era tomado por uma inquietação profissional dos últimos dias: qual o maior desafio para conceber o Exército do futuro?

Organização, mobilidade, orçamento, inteligência artificial, ameaças, integração ou presença nacional?
Ao me imaginar construtor daquele edifício, logo percebi como permanecemos presos a modelos ultrapassados e soluções que já nascem obsoletas.

Por que não nos inspirarmos no conceito do LEGO? A pergunta é simples para um tema tão sério? Humildade antes de respondê-la.

Uma criança, livre dos corrimões cognitivos, para recorrer a Hanna Arendt, combina peças improváveis, desmonta sem drama, remonta sem medo e encontra possibilidades onde muitos enxergam apenas limites.
Não se trata de reduzir a defesa nacional a uma brincadeira. Trata-se de intuir que o sucesso das operações militares do futuro pertencerá a quem souber montar, desmontar e remontar capacidades.

Em foro íntimo, creio que o Exército do futuro precisará ser modular, flexível, móvel e eficaz. Modular, porque não será possível responder a todos os desafios com a mesma estrutura. Espera-se uma base comum, capaz de gerar inúmeras combinações e múltiplas capacidades. Em determinado cenário, o país necessitará de uma força aeromóvel. Em outro, de uma blindada. Em outro, de tropas de selva, de montanha ou de capacidades especializadas.

Flexível, porque as ameaças escaparam das tipologias tradicionais. Precisamos estar preparados para enfrentar desafios convencionais, irregulares, híbridos, cibernéticos, informacionais e ambientais. Móvel, porque um país continental não pode manter tropas capacitadas em todas as áreas do território. Seria  desperdício, além de incompatível com nossas possibilidades orçamentárias. Eficaz, porque modernidade sem resultado é apenas ornamento para discurso político. Não basta possuir sistemas sofisticados. É preciso convertê-los em poder militar efetivo.

O vigor de um Exército apto a enfrentar os desafios do futuro estará associado à dinâmica dos encaixes de suas peças, que, no ambiente militar, recebem o nome de integração. Por isso, o Exército do futuro não poderá ser pensado isoladamente. Terra, mar, ar, espaço, ciberespaço e informação são dimensões de uma mesma estratégia.

A interoperabilidade deixará de ser aspiração para tornar-se exigência operacional. O tempo das ilhas institucionais ficou para trás.

Tudo isso, contudo, precisa ser compatível com o perfil geopolítico do Brasil. Somos um país dotado de imensos recursos naturais, extensas fronteiras, responsabilidades regionais e interesses permanentes a proteger. A defesa brasileira deve nascer dessa realidade, e não da simples reprodução de modelos estrangeiros.

Também precisa ser compatível com a disponibilidade orçamentária, ao mesmo tempo em que enfrenta as ilusões kantianas que ainda vicejam em parte das lideranças nacionais. Mas, se eu tivesse de eleger o centro de gravidade dessa manobra informacional, diria que o maior desafio está fora dos quartéis. Está na mesa de jantar da sociedade.

Nenhum projeto de defesa resistirá se for compreendido apenas por especialistas. A sociedade precisa entender que defesa não é gasto supérfluo, assunto distante ou preocupação reservada a tempos excepcionais. O mais novo de Recife já desmontou o edifício que havia construído. Amanhã, novas ideias o moverão na construção do outro LEGO. Eis a lição para o Exército do futuro: solte o corrimão!

Otávio Santana do Rêgo Barros
General de Divisão da Reserva

Universidade do Algarve disponibiliza provas digitais gratuitas para preparação das avaliações nacionais | Por Mauro Figueiredo

13 June 2026 at 11:00

Num momento em que as avaliações externas em formato digital assumem um papel cada vez mais relevante no sistema educativo português, a Universidade do Algarve acaba de disponibilizar uma nova funcionalidade gratuita na plataforma MILAGE APRENDER+, permitindo aos alunos prepararem-se para as provas nacionais em ambiente digital igual ao das avaliações oficiais.

A novidade surge numa altura em que milhares de alunos do ensino básico se preparam para realizar provas e exames em formato digital, exigindo não apenas a consolidação dos conteúdos curriculares, mas também a familiarização com novas formas de interação, navegação e resolução de questões no computador.

Desenvolvida pela Universidade do Algarve e atualmente explorada pela Associação Ser MILAGE, a plataforma MILAGE APRENDER+ passou a permitir a geração automática de provas de treino digitais, estruturadas de forma igual às provas oficiais disponibilizadas pelo EduQA. Os alunos podem realizar múltiplas tentativas, praticar ao seu próprio ritmo e receber feedback imediato sobre o seu desempenho, identificando mais facilmente os conteúdos em que apresentam maiores dificuldades.

MAURO FIGUEIREDO – Coordenador do Projeto MILAGE APRENDER+ da Universidade do Algarve
Os resultados alcançados demonstram a crescente adesão da comunidade educativa a este modelo de aprendizagem

Esta funcionalidade integra-se num projeto educativo que, ao longo dos últimos anos, tem vindo a apoiar escolas de diferentes regiões do país na integração das tecnologias digitais ao serviço das aprendizagens. Resultado da investigação académica e da experiência acumulada em contexto escolar, a plataforma MILAGE APRENDER+ procura responder a um dos grandes desafios da educação contemporânea: utilizar a tecnologia não apenas como um recurso complementar, mas como uma plataforma educativa capaz de promover uma aprendizagem mais ativa, personalizada e inclusiva.

Disponível gratuitamente para todas as disciplinas, desde o pré-escolar até ao 12.º ano de escolaridade, a plataforma reúne vídeos educativos, recursos digitais interativos, atividades diferenciadas e funcionalidades de acompanhamento que permitem aos professores monitorizar o progresso dos seus alunos em tempo real.

O modelo pedagógico da MILAGE assenta em princípios reconhecidos pela investigação educacional como potenciadores do sucesso escolar. A autonomia dos alunos é incentivada através da realização de atividades ao seu próprio ritmo, enquanto mecanismos de gamificação contribuem para aumentar a motivação e o envolvimento nas tarefas propostas. Paralelamente, os processos de autoavaliação e avaliação entre pares promovem a reflexão crítica sobre as aprendizagens e o desenvolvimento de competências de responsabilidade e autorregulação.

Uma das características mais valorizadas pelos professores é a possibilidade de diferenciar percursos de aprendizagem dentro da mesma turma. Através da plataforma, é possível identificar dificuldades específicas, acompanhar a evolução individual dos alunos e disponibilizar recursos adequados às necessidades de cada um, promovendo uma resposta educativa mais equitativa e ajustada à diversidade existente nas escolas.

Também as famílias assumem um papel importante neste processo. Através das contas de encarregado de educação, os pais podem acompanhar o percurso dos seus educandos, consultar o trabalho realizado e participar de forma mais ativa no acompanhamento das aprendizagens.

A plataforma promove igualmente a participação ativa da comunidade educativa, incentivando professores e alunos a criar e partilhar recursos educativos digitais que podem ser reutilizados por outros utilizadores, promovendo uma cultura de colaboração, inovação pedagógica e construção coletiva do conhecimento.

A introdução das novas provas digitais de treino representa mais um passo na evolução deste ecossistema educativo. Além de apoiar os alunos na preparação para as avaliações externas, a plataforma permite agora aos professores criar gratuitamente testes digitais de avaliação sumativa, utilizando questões próprias ou recorrendo ao vasto banco de recursos educativos já disponível.

Anualmente, o projeto promove a Conferência Internacional de Aprendizagem Móvel no Projeto MILAGE e os Prémios MILAGE APRENDER+, iniciativas que visam divulgar boas práticas educativas e reconhecer o trabalho desenvolvido por alunos e professores em escolas de todo o país. A edição de 2026 realiza-se nos dias 8 e 9 de julho, em Matosinhos.

Os resultados alcançados demonstram a crescente adesão da comunidade educativa a este modelo de aprendizagem. Atualmente, a plataforma MILAGE APRENDER+ disponibiliza cerca de 80 mil recursos educativos digitais e registou, apenas no presente ano letivo, mais de um milhão de problemas resolvidos pelos alunos. Desde a sua criação, a plataforma já impactou mais de 223 mil alunos.

A dimensão nacional do projeto reflete-se também na diversidade de escolas, regiões, disciplinas e níveis de ensino envolvidos. Da educação pré-escolar ao ensino secundário, os professores utilizam diariamente a plataforma para apoiar as aprendizagens, criar recursos educativos digitais, acompanhar o progresso dos alunos e promover práticas pedagógicas mais personalizadas e inclusivas.

Os dados recolhidos em diferentes contextos educativos evidenciam igualmente resultados encorajadores. Em várias escolas que integraram iniciativas apoiadas pela plataforma MILAGE APRENDER+, verificaram-se melhorias significativas nos desempenhos dos alunos.

Os números representam apenas uma parte do impacto alcançado. Mais significativa é a forma como professores, alunos e famílias reconhecem na plataforma uma ferramenta capaz de tornar a aprendizagem mais motivadora, mais personalizada e mais próxima das necessidades reais de cada estudante.

Ao longo dos últimos anos temos acompanhado milhares de alunos, professores e famílias que utilizam diariamente a plataforma. Essa proximidade às escolas tem-nos permitido compreender melhor os desafios que enfrentam e desenvolver soluções que procuram responder às necessidades reais dos diferentes contextos educativos.

Num contexto em que a transformação digital da educação continua a colocar novos desafios às escolas, a experiência acumulada ao longo dos últimos anos reforça a convicção de que a inovação tecnológica produz melhores resultados quando é colocada ao serviço das pessoas e integrada em práticas pedagógicas que valorizam o papel dos professores.

A plataforma encontra-se disponível gratuitamente em webmilage.ualg.pt, permitindo a qualquer aluno, professor ou encarregado de educação explorar os seus recursos e funcionalidades. Mais informações sobre a Conferência Internacional de Aprendizagem Móvel no Projeto MILAGE e os Prémios MILAGE APRENDER+ podem ser consultadas em milagelearnmore.org.

Continuaremos, por isso, a trabalhar para que a tecnologia contribua para uma educação mais inclusiva, mais humana e mais capaz de responder aos desafios de uma sociedade em permanente transformação.

MILAGE APRENDER+ em números

  • 223 278 alunos impactados desde 2016
  • 79 660 recursos educativos digitais criados
  • 1 086 328 problemas resolvidos em 2025/2026
  • Recursos disponíveis do pré-escolar ao 12.º ano
  • Utilização em escolas de norte a sul do país
  • Plataforma gratuita: webmilage.ualg.pt
  • Conferência e Prémios MILAGE 2026: milagelearnmore.org

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Importunação

13 June 2026 at 06:25
Um pretenso poder sobre o corpo feminino habita as fantasias de homens desajustados aos padrões civilizatórios, como no caso recente de tara ocorrido no metrô de Salvador. A notícia desse tipo de crime, tipificado como “importunação sexual”, repetiu-se 267 vezes entre janeiro e maio, conforme boletins de ocorrência registrados nas delegacias de polícia.No entanto, não se tem conhecimento de inquéritos concluídos com pedido de prisão por infração de prática de libidinagem sem consentimento. Como ocorre em tantas outras anomalias, como racismo, feminicídio e maus tratos aos animais, a lei é dura, prevendo detenção de cinco anos, mas se não é aplicada, gera impunidade.O contexto demonstra o quanto é falacioso o argumento de legisladores quando supõem ser suficiente o enrijecimento das penas a fim de inibir delitos.A origem do mal se esvanece no murmúrio dos tempos, talvez recuando quando hominídeos, portando tacapes, arrastavam puxando pelos cabelos as mulheres pré-históricas. A chamada “servidão feminina” foi reativada nas cavernas da internet, recriando-se na suposta “machosfera” as antigas mentiras do ancestral falocentrismo.Diante de um contexto de lei flexibilizada, recrudescimento do preconceito e facilidades da viagem do metrô lotado, precisa-se de paliativo. Uma boa opção voltou a defender a vereadora Marta Rodrigues, que propôs vagão exclusivo para mulheres em Salvador.A Lei nº 9.835/2025, conhecida como Lei do Vagão para Mulheres, prevê a medida protetiva nos horários de pico. A aplicação, no entanto, permanece suspensa por decisão judicial, após questionamento apresentado por associação de empresários.Enquanto isso, diariamente diversas mulheres seguem sendo atacadas nos trens, nas ruas, estabelecimentos e equipamentos públicos da capital baiana. É preciso, o quanto antes, viabilizar providências no sentido da prevenção e combate a tais atos de violência.

Irritações cívicas | Por Mendes Bota

13 June 2026 at 07:30

Num raro momento de generosidade para com os contribuintes, a Assembleia da República aprovou em 2006 uma nova Lei das Finanças Locais (Lei 2/2007 de 15 de Janeiro), na qual conferiu a cada Município 5% das receitas do IRS liquidado anualmente por quem tenha domicílio fiscal na sua área geográfica. Mas também foi dada a cada autarquia a possibilidade de devolver essa receita aos cidadãos, total ou parcialmente, assim aliviando a carga fiscal que asfixia a grande maioria (de quem paga impostos). Uma consulta ao sítio electrónico da Autoridade Tributária traz algumas revelações interessantes. Apenas seis dos municípios algarvios decidiram no sentido de devolver essas quantias na sua totalidade: Albufeira, Alcoutim, Aljezur, Lagos, Loulé e Vila do Bispo. Outros, ficam-se a meio caminho. S. Brás de Alportel, Silves e Vila Real de Santo António não devolvem um tusto, mas compreende-se. A um falta-lhe dimensão orçamental e territorial, outro deve ter uma visão ideológica do problema, e o terceiro continua afogado em dívidas passadas. Agora, dois dos municípios mais pujantes do Algarve, são dos mais avarentos. Faro, devolve a ninharia de 0,5%, e Olhão prescinde apenas de 1%. Há um elo comum chamado António Pina. Liderava Olhão, e agora chefia Faro. O sovina é o mesmo.

Claro que este é o tipo de irritação que encontra nos políticos o alvo mais fácil, o bode expiatório de todos os males, o exutório da frustração colectiva feita de um cúmulo de frustrações individuais. Aqui, o alvo está mesmo ali à frente como numa tenda de feira onde se atiram bolas de trapos para derrubar os bonecos. O pior são as irritações que advêm da falta de civismo dos cidadãos, e quando se multiplicam os exemplos quotidianos da falta de ética, onde prevalece o chico-espertismo de alguns, em claro desrespeito pelo próximo e pelas regras de convivência de toda a comunidade. Existem hoje condições no sistema escolar como nenhum de nós alguma vez sonhou. Todos os anos sai das universidades um número inacreditável de doutores, mestres, prof-docs. O analfabetismo clássico roça taxas marginais. A (des)informação tomou conta em excesso do nosso quotidiano, mas – porém todavia contudo como se costumava recitar antigamente – parece que os valores cívicos estão em queda livre.

Nunca houve tantas leis, tantas posturas municipais, tantos regulamentos, tantos sinais e códigos proibitivos, mas impressiona o número de indivíduos que têm prazer em vandalizar infraestruturas que pertencem a todos, como jardins, transportes, mobiliário urbano, monumentos, fachadas, contentores de lixo até. Independentemente da guerra dos guarda-sóis que subitamente se declarou nas nossas praias, é irritante ver quem se levanta cedo só para marcar com toalhas os espaços de areia que outros virão ocupar mais tarde, ou cativam espreguiçadeiras nas piscinas de prédios e hotéis. É irritante ver como certos automobilistas não respeitam as filas de trânsito, e intrometem-se mais à frente dos outros, sem vergonha nem rebuço. Há demasiados loucos na estrada, que se mocam dos limites de velocidade e da segurança de terceiros. Irrita que a polícia raramente esteja onde se pensa que faz falta. Irrita, ver certos adiantados mentais estacionar em lugares destinados a veículos de pessoas com certas dificuldades. Já para não falar, nos transportes públicos, de quem ocupa lugares reservados para idosos ou pessoas com mobilidade reduzida.

Causa irritação ver tanta gente de telemóvel na mão, ou nas orelhas, a falar aos gritos no meio da rua ou no interior de uma carruagem de combóio ou de autocarro, incomodando os outros, esparramando a sua própria privacidade como se estivesse numa cabine telefónica sem porta. Há um acréscimo de gente que atira garrafas, restos de comida, papéis, papelões e detritos de jardinagem para o meio da rua, sabendo que alguém terá de limpar a porcaria que faz. Tudo isto são irritações cívicas. Já agora, redireccionando os binóculos na direcção de quem manda nisto tudo, é revoltante ver a escassez de lugares destinados ao público que se encontra nas gares rodoviárias, ferroviárias ou aeroportuárias. Está tudo feito para o negócio, e para a exploração do zé povinho. Esgotados os parcos assentos disponíveis, a alternativa é ficar de pé, ou pagar comes e bebes para ficar sentado no espaço dos concessionários. Num país onde a taxa de atraso dos transportes é gigantesca, ninguém parece preocupado em servir o público como deve ser. É preciso é que pague e que consuma, mesmo que não lhe apeteça. Falta-nos cada vez mais a dimensão ética na atitude cívica. Que se lixem os princípios, salve-se quem puder, parece ser o mote dos tempos que correm.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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