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Comboios no Algarve. Terceiro mundo?

13 June 2026 at 16:30

Declaração de interesses: Sou fã de comboios. São mais ecológicos, permitem ir confortavelmente sentado, permitem mexer as pernas e ler enquanto se viaja.

Nestes dias, fui de comboio do Barlavento algarvio até Lisboa no Alfapendular. Sem problemas, partimos e chegámos dentro do horário – o bicho chegou a atingir os 220km/h!

À vinda para cá é que foram elas. O comboio Intercidades vinha de Braga e chegou a Lisboa com meia hora de atraso. Carruagem praticamente cheia, desconfio que éramos dos poucos portugueses, senão os únicos. Pelo caminho, fomos acumulando mais atrasos e chegámos a Tunes cerca de uma hora depois do previsto.

Nunca é demais realçar que Tunes é só o entroncamento ferroviário mais importante do Algarve – e quem vai para o Barlavento desce aqui para apanhar a ligação.

Desembarcados no cais 3 e 4, a pergunta era em qual das linhas vinha o comboio, para prosseguirmos a viagem. Ficamos à espera que a instalação sonora nos desse a dica, mas nada. Confrontados com a interrogação em várias línguas, usamos o inglês de praia, o francês da escola e o português da lusofonia para tentar dar uma resposta – que não tínhamos.

No fim da plataforma de desembarque, lá estava ela, mas em painéis diferentes. Num tinha o horário do comboio que ia para Lagos, com o número da viagem, e, no painel ao lado, tínhamos que pacientemente procurar o número da viagem para ver qual a plataforma.

Deveria haver uma instalação sonora, essencial para informar os passageiros, muitos deles estranhos numa terra estranha e baralhados pelos sucessivos atrasos, quanto tempo ainda vão ter de esperar pelo comboio que os levará ao destino – e onde o apanham.

A referida instalação sonora existe… mas manteve-se estoicamente muda e calada. Assim, dividimos as forças, fiquei no cais do meio e a mulher foi à bilheteira da estação ver se conseguia mais indicações e tentar saber onde era a casa de banho, uma vez que não se via sinalética em lado nenhum.

Dentro da estação, não havia informação, apenas o funcionário que estava de saída lhe confirmou apressadamente que o comboio passaria na linha 1 e lá fomos encaminhando o pessoal para a plataforma certa. Quanto à casa de banho, a resposta foi categórica – não há.

Por acaso havia… mas era privada do bar restaurante, pelo que era necessário fazer alguma despesa para lhe ter acesso. Como estamos numa sociedade concorrencial, os preços eram de estação de serviço de autoestrada.

Continuando sem informação sonora oficial, ficámos num alegre convívio multilingue até que, mais de meia hora depois, lá chegou o comboio, personalizado com os grafitti da ordem. Curiosamente, o destino indicado na frente do dito cujo era… Vila Real de Santo António, em vez de Lagos. Como devem calcular, para o turista é uma confusão tremenda.

Cheios de vergonha alheia face ao triste estado do nosso transporte ferroviário nesta eletrificada linha do Algarve (linha temos, faltam “apenas” os comboios), chegámos finalmente ao destino com hora e meia de atraso.

Se, à partida de Lisboa, descontando o atraso, parece que estamos na Europa, quando chegamos ao Algarve, desculpem e sem querer ofender ninguém, parece que estamos no terceiro mundo ferroviário. E não me refiro apenas ao que pensarão os turistas estrangeiros, também penso naqueles que (tentam) usar o comboio nas suas deslocações frequentes.

Já agora, uma nota de rodapé: Comprar bilhetes no site da CP requer uma boa dose de paciência, insistência e resiliência.

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