Espanha: abandono de projeto de caça europeu preocupante

© ZIPI/EPA

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A gestora estatal de capital de risco de Abu Dhabi está interessada em comprar uma cadeia de hambúrgueres em Portugal.
A Mubadala está a preparar uma oferta pela empresa que detém a cadeia Burger King em Portugal e Espanha, detida pelo fundo britânico Cinven.
O “Expansion” revela que a Mubadala já contratou assessores para apresentar a oferta pela Restaurant Brand Europeu (RBE), que gere também as cadeias Popeyes e Tim Horton na Ibéria.
Outros interessados são os fundos americanos Meritage Group e Apollo Global Management, segundo o jornal espanhol, que preparam as ofertas não-vinculativas para apresentar nas próximas semanas.
A Mubadala chegou a ser acionista da EDP e é atualmente acionista da petrolífera espanhola Moeve.
A Burger King ibérica era detida pela Ibersol, mas foi vendida no final de 2022 por 260 milhões de euros à RBI, num total de 158 restaurantes.
O apagão de 28 de abril de 2025 colocou a segurança de abastecimento elétrico no centro do debate público. Após a divulgação dos relatórios técnicos finais de investigação, importa analisar as suas causas com rigor e retirar as conclusões corretas.
O sistema elétrico exige um equilíbrio constante e em tempo real entre geração e consumo. Qualquer desvio afeta a frequência nominal da rede – na Europa, os 50 Hz – podendo desencadear atuações automáticas dos sistemas de proteção e, em situações extremas, provocar o colapso em cascata.
Foi o que aconteceu a 28 de abril. O painel de peritos da ENTSO-E concluiu que o apagão resultou de uma combinação de fatores: oscilações na rede, lacunas no controlo de tensão e de potência reativa, e uma rápida sequência de desligamentos de geradores em Espanha. Além disso, os conversores de eletrónica de potência dos geradores espanhóis não reagiram adequadamente às variações de tensão – uma falha de requisitos técnicos que o operador de rede espanhol deveria ter acautelado. Importa sublinhar: o relatório não atribui a causa do apagão às renováveis enquanto tecnologia. Identifica antes falhas de operação e de comportamento de equipamentos em condições específicas de rede.
Por outro lado, o apagão deu munições a quem tenta associar as renováveis à instabilidade elétrica. Convém clarificar: as renováveis não são intermitentes. São variáveis no tempo. A diferença é fundamental. “Intermitente” descreve algo que funciona em modo “tudo ou nada”, que liga e desliga de forma abrupta – como um pisca-pisca. “Variável” descreve algo cuja produção oscila de forma gradual e previsível, acompanhando os ciclos do vento e do sol. A geração solar e eólica enquadra-se na segunda categoria: a sua curva de produção é antecipável com crescente precisão e incorporada no planeamento diário da rede.
Quem é genuinamente intermitente? A geração nuclear. Uma central nuclear opera em modo de carga base: está ligada ou está desligada. Não modela a sua produção em função da procura. Uma paragem não planeada retira instantaneamente do sistema blocos superiores a 1.000 MW – uma perturbação de enorme magnitude para uma rede da dimensão da portuguesa. Aliás, durante o próprio apagão de 28 de abril, as centrais nucleares espanholas foram as primeiras a ser desligadas por razões de segurança e não serviram para o black start. Esse papel coube a uma central de ciclo combinado a gás (Tapada do Outeiro) e a uma hidroelétrica (Castelo de Bode) do lado português.
No entanto, a integração de fontes renováveis variáveis exige gestão mais sofisticada – não a substituição por tecnologias do século XX. O portfólio de geração combina fontes complementares: a hidroeletricidade armazenada nas albufeiras (altamente despachável), a eólica e solar (variáveis mas previsíveis, com custo marginal nulo), o armazenamento em baterias (resposta quase instantânea) e o gás natural em ciclo combinado (flexível, essencial na transição).
A gestão da rede opera em vários níveis: planeamento de longo prazo, para garantir que o portfólio cobre os cenários de variação renovável; gestão diária, ajustando produção e consumo e ativando reservas; mercado de serviços auxiliares, onde a flexibilidade tem valor económico crescente; e manutenção preditiva, apoiada em ferramentas digitais de apoio à decisão. A estas acrescem a flexibilidade do lado da procura – consumidores que adaptam o seu consumo à disponibilidade de geração -, a geração distribuída e as micro-redes. O Grupo de Aconselhamento Técnico criado em Portugal após o apagão sublinhou ainda a urgência de implementar conversores com inércia sintética (grid-forming), que emulam o comportamento estabilizador das massas girantes dos geradores convencionais. Estas tecnologias existem e são implementáveis.
Perante o debate sobre Energia Nuclear em Portugal, importa ser direto: a geração nuclear não resolve os desafios de integração de renováveis – agrava-os. Os custos de construção dispararam (Flamanville e Hinkley Point C são exemplos de derrapagens que tornaram o nuclear a fonte mais cara do mercado europeu). Portugal não tem o know-how técnico nem a cadeia de fornecimento necessária. Os resíduos de alta atividade continuam sem solução definitiva. E a sua intermitência real – paragens abruptas de grande capacidade – seria uma ameaça séria à estabilidade do Sistema Elétrico Nacional.
O apagão foi um aviso sobre a necessidade de adaptar operação e regulação à crescente penetração renovável. Não foi um argumento contra as renováveis. A Agência Internacional de Energia é clara: a segurança elétrica depende não apenas da geração, mas da qualidade da operação da rede e do comportamento de todos os ativos conectados.
Para descarbonizar a economia portuguesa – eletrificando transportes, aquecimento e processos industriais – não há alternativa à expansão das renováveis. São as mais baratas, as mais rápidas de instalar e as mais abundantes no território nacional. O desafio está em construir, em paralelo, as infraestruturas, os mercados e as ferramentas de operação que permitam gerir essa variabilidade com robustez e segurança.
É esse o caminho. Não o pisca-pisca.