Chico José, o doutor que Pernambuco ainda não diplomou
Há momentos em que uma universidade deixa de ser apenas um espaço de aulas, bancas, seminários e certificados, e se transforma num lugar de reconhecimento da vida. Foi o que aconteceu na presença do jornalista Francisco José, o Chico José, no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco. O encontro, dedicado ao tema “A espiritualidade e memória dos povos indígenas registrados pela TV”, promovido pelo grupo de pesquisa Religião, Identidades e Diálogos emocionou professores, estudantes e convidados ao trazer relatos sobre povos originários, rituais, memória, espiritualidade e jornalismo vivido no coração da Amazônia.
Mas chamar aquilo apenas de palestra talvez seja pouco. Depois da aula de Chico José, é impossível não lembrar de sua obra inteira. Impossível não pensar no menino vindo do Crato, criado no Recife, que fez da voz sertaneja uma assinatura nacional. Impossível não reconhecer que aquele jornalista, conhecido como o “repórter dos cinco continentes”, nunca precisou abandonar Pernambuco para ganhar o mundo. Pelo contrário, foi levando Pernambuco na fala, no olhar, no jeito matuto assumido, na coragem de perguntar e na habilidade rara de transformar a reportagem em memória pública.
Chico não foi apenas um repórter de aventura. Essa definição é pequena demais. Ele foi, e continua sendo, um intérprete do Brasil profundo. Mergulhou nos sete mares, atravessou desertos, subiu montanhas, enfrentou guerras, entrou em aldeias, percorreu rios amazônicos, mostrou animais gigantes, registrou festas populares, denunciou a seca, revelou belezas naturais e ajudou o país a enxergar territórios que, muitas vezes, só existiam para o centro do poder como estatística, distância ou problema.
Na aula da Unicap, sua narrativa sobre os povos indígenas ultrapassou o campo da comunicação. Para quem pesquisa Ciências da Religião, o que Chico apresentou foi um arquivo vivo sobre espiritualidade, ritual, cura, morte, território e resistência. Quando contou a experiência com os Enawenê-Nawê, não descreveu rituais como curiosidade exótica. Falou de fé. Falou de um povo para quem canto, dança, pesca e oferenda não são encenação, mas modo de sustentar o mundo. Ao narrar a história da menina indígena em coma, filha do cacique, Chico colocou diante da universidade uma das questões mais complexas da ética: até onde o jornalista registra e a partir de que momento o ser humano precisa intervir?
Ele interveio. E a menina viveu. Mais do que um episódio emocionante, ali estava uma aula sobre alteridade, responsabilidade e limite. O repórter sabia que não deveria se tornar notícia. Mas também sabia que nenhuma regra profissional pode ser maior do que uma vida. Para as Ciências da Religião, esse relato tem enorme força porque mostra o encontro entre uma cosmologia indígena, uma prática ritual de cura, a medicina ocidental e a responsabilidade ética de quem testemunha o sofrimento do outro. Chico não reduziu a espiritualidade indígena a folclore. Ele a tratou como experiência humana profunda.
Esse é um ponto decisivo. Francisco José produziu conhecimento. Não conhecimento preso à linguagem acadêmica tradicional, mas conhecimento de campo, de escuta, de corpo, de risco e de memória. Suas reportagens são documentos para pesquisadores da comunicação, da antropologia, da história, do turismo, do meio ambiente, da cultura popular e das religiões. São fontes para pensar o Brasil que canta, reza, sofre, resiste, dança, migra, trabalha e sobrevive.
Foi assim também na cobertura da seca no Nordeste. Durante anos, Chico acompanhou o drama de milhares de sertanejos. Dona Iraci, uma de suas personagens mais marcantes, tornou-se símbolo de um tipo de Brasil que a televisão não podia esconder. Naquele tempo, a palavra “fome” era proibida pela censura, mas uma panela vazia dizia o que a censura tentava calar. Chico denunciou soluções inúteis, como as chamadas barragens de “sonrisal”, e mostrou que havia alternativas simples e concretas; poços, açudes eficientes, cisternas, políticas públicas capazes de enfrentar o problema com dignidade.
Isso também é universidade. Isso também é extensão. Isso também é pesquisa aplicada. Quando um repórter mostra que uma política pública não funciona, acompanha a vida de uma mulher que caminha quilômetros para trabalhar e volta para alimentar os filhos com quase nada, ele não está apenas fazendo televisão. Está produzindo consciência social. Está obrigando o país a olhar para onde não queria olhar.
E, no caso de Francisco José, esse olhar sempre teve uma dívida amorosa com Pernambuco. Ele mostrou o Nordeste sem maquiagem, mas também sem desprezo. Mostrou o lado ferido e o lado bonito. Mostrou a seca e mostrou o São João. Mostrou o sertão e mostrou o mar. Mostrou Fernando de Noronha, o Atol das Rocas, a natureza exuberante, o frevo, o Galo da Madrugada, o carnaval do Recife e de Olinda, as festas que formam a alma do povo nordestino. O próprio Memória Globo, projeto da Rede Globo, registra sua paixão pelo Atol das Rocas, a 148 km de Fernando de Noronha, e lembra a dimensão que a cobertura do Galo ganhou, transmitida para milhões e levada inclusive para o exterior.
É curioso. Muitos conhecem Chico como o repórter que atravessou o mundo, mas talvez sua maior grandeza esteja em ter mostrado Pernambuco ao mundo e, mais ainda, em ter mostrado Pernambuco aos próprios pernambucanos. Há territórios que só passam a existir no imaginário coletivo quando alguém os narra com verdade. Chico fez isso. Deu imagem, voz e pertencimento a um estado que ele adotou e que o adotou.
Sua trajetória, claro, não se resume à paisagem. Na Guerra das Malvinas, em 1982, foi expulso da Argentina pelos militares. No Recife, em 1987, durante a cobertura de um assalto a banco, ofereceu-se para ficar como refém no lugar de uma mulher grávida ameaçada com um revólver na cabeça. São episódios que demonstram coragem, mas também revelam uma marca de sua carreira. Ele nunca foi um jornalista de gabinete. Sempre esteve no lugar onde a história acontecia.
Por isso, depois de uma aula como essa, uma pergunta se impõe com força: por que nenhuma universidade pernambucana concedeu a Francisco José o título de Doutor Honoris Causa? Não se trata de vaidade. Nem de transformar popularidade em diploma. O título de Doutor Honoris Causa é a distinção máxima que uma universidade pode conceder a personalidades com contribuições relevantes às ciências, às letras, às artes ou à sociedade em geral. É um reconhecimento público de trajetória, mérito intelectual e serviço prestado à coletividade.
Então, se é disso que estamos falando, o caso de Chico José parece evidente. Poucos jornalistas brasileiros ensinaram tanto sobre território, cultura, natureza, religião, sofrimento social e identidade nacional. Poucos produziram um acervo tão amplo sobre o Brasil real. Poucos atravessaram com tanta coerência a fronteira entre comunicação e educação pública. Poucos fizeram o país ver o Nordeste, a Amazônia, o Sertão, o mar e os povos originários com tanta proximidade.
Pernambuco tem universidades capazes de reconhecer grandes trajetórias. A própria Unicap, a UFPE e a UPE já se articularam para conceder conjuntamente o título de Doutor Honoris Causa a personalidades de reconhecida contribuição intelectual e pública. Portanto, a questão não é falta de instrumento institucional. É falta de decisão simbólica. É falta de coragem para afirmar que o saber também nasce fora dos muros acadêmicos.
Chico José merece o título não apesar de ser jornalista, mas justamente porque fez do jornalismo uma forma de conhecimento. Merece não apenas porque viajou pelos cinco continentes, mas porque nunca perdeu o vínculo com o chão de onde fala. Merece não só porque tem uma carreira grandiosa, mas porque sua obra ajuda a entender o Brasil. E, especialmente, ajuda a entender Pernambuco. Suas festas, sua natureza, seu sotaque, sua dignidade, suas contradições. Suas dores e seus amores.
Um Doutor Honoris Causa para Chico José não seria um favor. Seria uma reparação simbólica. Seria a universidade reconhecendo que há mestres que não passaram a vida orientando dissertações, mas orientaram o olhar de gerações inteiras. Mestres que não escreveram tratados acadêmicos, mas deixaram imagens, narrativas e documentos indispensáveis para a memória nacional. Mestres que ensinaram sem lousa, sem PowerPoint e, como ele mesmo gosta de lembrar, sem papel na mão.
Pernambuco não deve esperar a ausência para produzir homenagem. Há uma mania brasileira de reconhecer tarde demais. Com Chico José, ainda há tempo de fazer diferente. Tempo de entregar o título em vida, com ele presente, contando histórias, rindo, provocando, discordando, emocionando e lembrando que seu jeito de falar nunca foi obstáculo, foi identidade.
Depois daquela aula, a pergunta deixou de ser apenas “por que Chico José merece?”. A pergunta agora é outra. Qual universidade pernambucana terá a grandeza de ser a primeira?
Porque doutor, no sentido mais profundo da palavra, é quem ensina. E Chico José ensinou o Brasil a se ver. Falta Pernambuco ter a coragem acadêmica de dizer isso em latim: honoris causa.
João Carvalho, jornalista, pesquisador e mestrando em Ciências da Religião


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