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Situação dos oceanos é grave e demanda ação global urgente, diz ONU

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Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado nessa segunda-feira (8), concluiu que a situação dos oceanos é grave e demanda respostas urgentes e coordenadas entre governos, pesquisadores, setor privado, organismos multilaterais e comunidades costeiras.

O terceiro ciclo da Avaliação Mundial dos Oceanos (WOA-3, na sigla em inglês), principal análise multidisciplinar sobre o estado dos oceanos, reuniu mais de 550 cientistas e outros especialistas de 86 países. Os dados do WOA-3 referem-se principalmente ao período entre 2018 e 2023.

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O documento alerta que diversos indicadores críticos da saúde do oceano pioraram significativamente desde a última edição do estudo, publicada em 2022, incluindo aquecimento, elevação do nível do mar, perda de gelo polar, biodiversidade, pesca e poluição marinha. Essa é a versão mais extensa desde que a série de relatórios foi lançada em 2017.

O relatório destaca deslocamento de espécies marinhas para águas mais frias; impactos crescentes das ondas de calor marinhas sobre a pesca; e vulnerabilidade crescente de comunidades costeiras dependentes do oceano.

“O oceano é o principal amortecedor da crise climática, mas os sinais de estresse estão se tornando cada vez mais evidentes prejudicando sua atuação na regulação climática”, afirmou o professor Ronaldo Christofoletti, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), um dos coautores brasileiros do relatório.

Os impactos para o Brasil incluem maior vulnerabilidade costeira, riscos para cidades litorâneas, pressão sobre pesca e aumento de eventos extremos associados ao Atlântico tropical.

“O que vemos no novo relatório é que fenômenos antes considerados excepcionais estão se tornando recorrentes, inclusive com impactos potenciais para o litoral brasileiro, para a pesca, para os recifes de coral e para as populações costeiras”, explicou o professor.

O WOA-3 mostrou que o oceano entrou em uma fase de aquecimento acelerado e que fenômenos climáticos extremos passaram a acontecer em ritmo maior em ambiente marinho nos últimos anos.

Segundo o relatório, a taxa de elevação do nível médio global do mar atingiu 4,3 milímetro (mm) por ano no período entre 2013 e 2023. No relatório anterior, que tinha como base o período entre 1993 e 2018, a taxa de elevação era de aproximadamente 3,2 mm/ano.

Houve ainda agravamento das mudanças nos oceanos polares, com queda acelerada após 2016, atingindo níveis recordes de degelo nos anos de 2022, 2023, 2024 e 2025. Os especialistas alertam que mudanças no gelo polar têm impactos globais sobre circulação oceânica, clima, biodiversidade e elevação do nível do mar.

O documento apontou forte expansão dos impactos da poluição plástica sobre a biodiversidade marinha. Enquanto o relatório anterior registrava cerca de 1,4 mil espécies afetadas por plástico, o novo estudo aponta mais de 4 mil espécies impactadas.

Os especialistas alertam que a poluição plástica deixou de ser apenas um problema costeiro ou visual e passou a representar ameaça crescente para a biodiversidade, alimentação e saúde ambiental global. Segundo Ronaldo Christofoletti, no Brasil, o problema tem relação direta com saneamento insuficiente, resíduos urbanos, poluição costeira e contaminação de praias e rios.

Além disso, a pesca e a segurança alimentar continuam sob pressão crescente. O relatório anterior apontava que cerca de 64,6% dos estoques pesqueiros permaneciam biologicamente sustentáveis em 2019. O documento mais recente mostra queda para 62,3% em 2021.

Sou da Paz lança agenda de segurança pública para eleições

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O Instituto Sou da Paz lançou, nesta terça-feira (9), a campanha Vote pela Paz e a agenda eleitoral “Brasil em Ação pela Paz – Propostas para uma Segurança Pública de Verdade”. O objetivo é qualificar o debate eleitoral e pressionar candidaturas a apresentarem planos consistentes, metas e compromissos reais para reduzir a violência no país. A iniciativa se contrapõe a abordagens baseadas no improviso e no populismo.

“A população está cansada de frases de efeito, improviso e promessas simplistas na área da segurança pública. O que as pessoas querem é resultado concreto, proteção no cotidiano e políticas que funcionem de verdade. O período eleitoral é uma oportunidade importante para elevar a qualidade desse debate”, afirmou Carolina Ricardo, diretora-executiva do Sou da Paz.

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Embora alguns indicadores nacionais tenham apresentado melhora, como a queda dos homicídios, o Sou da Paz ressalta que o Brasil ainda enfrenta uma realidade em que mais de 44 mil pessoas são vítimas de morte violentas por ano. Há ainda a expansão do crime organizado, aumento das fraudes e extorsões digitais, medo dos roubos, especialmente de celulares, e crescente violência contra meninas e mulheres.

A agenda de propostas apresenta ações aplicáveis nos âmbitos estadual e federal e é organizada em cinco eixos prioritários: proteção de meninas e mulheres; fortalecimento das polícias; enfrentamento ao crime organizado; redução dos roubos; e retirada de armas ilegais de circulação.

As propostas destacam a valorização dos profissionais de segurança, o fortalecimento da investigação criminal, o uso responsável de tecnologia, a integração entre instituições e o combate ao tráfico de armas.

Dados da pesquisa “O que pensa a população brasileira sobre segurança pública”, do Sou da Paz, mostram que 94% da população reconhece algum grau de violência na cidade onde vive, mais da metade (53%) evita sair à noite e um terço (31%) evita o uso de celular na rua, como forma de autoproteção.

“A sociedade quer firmeza, mas quer firmeza que funcione. Existe uma maioria favorável a soluções inteligentes, ao uso de tecnologia, à investigação e à profissionalização das polícias. O desafio agora é transformar essa demanda social em compromisso político concreto”, explica Carolina.  

A pesquisa mostra ainda que, para 82% das pessoas, as câmeras corporais são tecnologias que protegem os bons policiais e produzem provas contra criminosos; 73% acredita que mais armas significam mais mortes e mais violência; e 65% avalia que não é preciso mais policiais, e sim de uma polícia melhor e mais preparada.

Ainda sobre soluções mais eficazes, Carolina destacou a necessidade, por exemplo, de ampliar o olhar sobre o crime organizado, que não se restringe ao tráfico de drogas. “É preciso trazer o sistema financeiro para o debate, fazer investigação financeira e combate à lavagem de dinheiro.”

Crime organizado

Segundo dados compilados na agenda eleitoral, o crime organizado movimentou mais de R$ 350 bilhões nos últimos três anos, incluindo atividades como a venda de combustíveis, garimpo ilegal e contrabando de cigarros e bebidas alcoólicas.

Além de atingir os territórios, segundo o Sou da Paz, o crime organizado ataca o Estado Democrático de Direito ao se infiltrar na administração pública e na política, o que resulta em violência e falta de confiança da população nas instituições.

“Essa presença se reflete num crescimento de 335% de casos de violência política no Brasil nos últimos três anos - somente nos primeiros meses de 2022, foram 45 homicídios”, diz trecho da agenda.

Uma das ações propostas na agenda é o fortalecimento da integração e cooperação entre instituições como Receita Federal, Polícia Federal, Banco Central, Ministério Público e polícias estaduais, além de cooperações internacionais, propiciando estratégias de atuação conjunta contra a lavagem de dinheiro e os diversos mercados ilícitos.

Outra medida é o reordenamento da ação policial, priorizando investigações, investimento em inteligência e fortalecimento de perícias, com objetivo de asfixiar as organizações em suas bases financeiras e de comando. Para o Sou da Paz, as operações de incursão territorial devem ser consideradas de forma excepcional, somente se houver condições de segurança reais para a população e os policiais.

 

Received — 6 June 2026 Agência Brasil

Viagem ao passado: dinossauros revelam história da Terra às crianças

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Um dente de tiranossauro rex, um carvão de 350 milhões de anos e um ovo de dinossauro.

Fascinantes até para os adultos, os fósseis foram levados até as crianças pelo paleontólogo Luiz Eduardo Anelli, durante a atividade História do Planeta Terra, promovida pelas editoras Moderna e Salamandra, no evento literário A Feira do Livro 2026, no Pacaembu, em São Paulo.

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Professor do Instituto de Geociência da Universidade de São Paulo (USP) há 30 anos, Anelli escreve livros infantojuvenis sobre o mundo pré-histórico, em especial dinossauros do Brasil.

“As crianças querem saber, as crianças querem conhecer, e não existia um livro sobre a pré-história profunda do Brasil, você acredita?”, disse Anelli, em entrevista à Agência Brasil.

O professor disse que começou a dar aulas sobre fósseis de animais marinhos - ainda mais antigos do que os dinossauros - no início de sua carreira na unversidade. “Dez anos depois, eu não queria saber de mais nada, além de dinossauros”, disse, revelando o encanto que tem pelo assunto.

“Nesses últimos 20 anos, escrevi mais de 30 livros sobre a história do mundo e dos dinossauros, e hoje existe uma demanda gigantesca sobre esse conhecimento, não só como entretenimento, mas como conhecimento escolar e para vestibular. ”

O professor, que é referência nacional na divulgação científica voltada ao público infantojuvenil, destacou uma de suas obras, o Almanaque da Terra e da Vida, onde os conceitos sobre seres vivos, fósseis, rochas e continentes foram ilustrados e tiveram linguagem adaptada para as crianças.

Além disso, com o título O Brasil dos Dinossauros, o autor ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro infantojuvenil em 2018.

Por que a ciência importa?

Anelli explicou que os dinossauros ajudam a conhecer a história do nosso planeta. “Nós vivemos numa era que veio depois da era dos dinossauros, da qual herdamos tudo semeado e plantado lá. Você quer conhecer o mundo em que vive? Então precisa conhecer o mundo dos dinossauros.”

“Desde quando temos a América do Sul? Desde quando temos as plantas com flores? Desde quando temos os mamíferos? Nós, em geral, não sabemos, né? Essas três coisas nasceram no tempo dos dinossauros.”

Segundo o pesquisador, os dinossauros viveram em um momento muito especial no mundo. Eles surgiram há mais de 230 milhões de anos e foram extintos há 66 milhões de anos, habitando o planeta por um período de aproximadamente 170 milhões de anos.

“Não existe um intervalo na história de 4,54 bilhões de anos da Terra que seja tão maravilhoso como esse. A nossa geografia nasceu nessa época. Os dinossauros nasceram quando tinha um supercontinente e dois oceanos. Quando eles morrem, na extinção, o planeta tem seis continentes e cinco oceanos”, lembrou Anelli.

O mundo passou por transformações intensas na era dos dinossauros. “E nós vivemos nessa nova era, logo depois da era dos dinossauros. Como se chama a era em que vivemos? Qual período geológico vivemos? A gente não sabe. Nós não sabemos cuidar do mundo, porque a gente não conhece a história dele, a gente não sabe como ele funciona”, apontou o professor.

Anelli destacou a necessidade da divulgação científica, especialmente para crianças e jovens, além da valorização das pesquisas nas universidades.

“Precisamos aproximar as crianças da ciência, ainda mais neste momento em que estamos nessas trevas negacionistas. Se as pessoas não conhecem o mundo científico, elas não sabem que voam de avião e que tomam remédio porque existe pesquisa nas universidades, porque a ciência existe”, destacou.

SP tem programação infantil gratuita na Feira do Livro do Pacaembu

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A 5ª edição da Feira do Livro, que ocupa a praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu, é opção de lazer para crianças e jovens na capital paulista. Com atividades gratuitas, o festival literário tem oficinas, mediação de leitura e contação de histórias até este domingo (7).

No Espaço Rebentos, as crianças poderão participar de oficinas de escrita criativa, em que poderão produzir contos de fadas; marcadores de livros, com papel reciclado e pigmentos naturais, e de construção de cadernos por meio de técnicas artesanais. Além de mediações de leitura, haverá um bate-papo com o público infantojuvenil sobre como criar personagens e contar histórias em quadrinhos.

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Destaque também para o espetáculo infantil Canções do Mar, no domingo, a partir das 11h40, no Espaço Motiva Tablado Literário. Gislaine Caitano e Patrícia Franco apresentam canções e poemas ritmados, explorando o oceano e suas criaturas marinhas em uma experiência de música e imaginação.

O autor Walcyr Carrasco, que também traduziu e adaptou clássicos da literatura infantojuvenil, receberá o público para conversa e sessão de autógrafos a partir das 15h, deste sábado (6), na tenda das editoras Moderna e Salamandra. Entre os títulos adaptados ao público jovem, estão Sonho de Uma Noite de Verão, de William Shakespeare, e Pollyanna, de Eleanor H. Porter.

Escritores como Pedro Bandeira - autor de A Droga da Obediência (1984), livro inaugural da série Os Karas e sucesso entre os jovens há gerações - e as autoras de Rainha Kambinda: a guardiã de culturas, Mariana Queiroz da Silva e Belisa Monteiro, já passaram pela feira em encontros com o público. 

Para Belisa, levar uma obra com essa temática para um festival literário é “fundamental para ampliar o reconhecimento dessas mulheres como guardiãs da memória".

"A literatura e os espaços de discussão cultural têm um papel essencial na valorização das manifestações tradicionais, promovendo encontros entre diferentes atores e fortalecendo o respeito à diversidade cultural brasileira”, afirmou.

Acesso à cultura

No evento, houve ainda o lançamento do Circuito Cultural, uma iniciativa do Instituto Motiva com objetivo de ampliar o acesso de jovens estudantes da rede pública a museus e centros culturais em três estados. 

O projeto inaugura, durante a Feira do Livro de São Paulo, uma agenda de mais de 80 visitas ao longo deste ano. Durante o festival literário, mais de 400 jovens vão participar de visitas guiadas e atividades educativas.

No total, serão 15 espaços culturais em São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. Além da feira, as visitas acontecerão em locais como o Museu da Língua Portuguesa (SP), Museu do Amanhã (RJ) e Casa Jorge Amado (BA). Para este ano, a expectativa é beneficiar cerca de 3 mil pessoas.

A programação completa da feira está disponível no site do evento.

*texto atualizado às 15h17

Received — 5 June 2026 Agência Brasil

SP: A Feira do Livro recebe Ana Maria Machado nesta sexta-feira

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A escritora Ana Maria Machado participa, nesta sexta-feira (5), d’A Feira do Livro, realizada na Praça Charles Miller, em frente ao Estádio do Pacaembu. Membro da Academia Brasileira de Letras e Personalidade Literária do Jabuti 2025, a autora repassa mais de 50 anos de carreira literária em um encontro com o público, às 11h, no Palco da Praça

O festival literário conta com extensa programação de encontros e debates sobre temas que abordam literatura, quadrinhos, meio ambiente, consumismo na era digital e lendas e saberes da cultura afro-brasileiros. Além disso, diversos autores recebem o público em sessões de autógrafo. O evento acontece até domingo (7), com entrada e programação gratuitas.

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A programação para crianças e jovens tem oficinas, bate-papos, mediação de leitura e contação de histórias ao longo do dia no Espaço Rebentos. Destaque para o bate-papo “Nas sextas usamos branco”, às 12h, em que Maytê Freitas, Rodrigo Andrade e Waldete Tristão falam sobre mitos, lendas e saberes ancestrais africanos e afro-brasileiros que a literatura infantil ajuda a preservar.

Palco da Praça

No encontro “Laços de família”, às 14h30, as escritoras francesa Estelle-Sarah Bulle e a brasileira Bianca Santana conversam, com mediação de Adriana Ferreira Silva, sobre Onde o vento faz a curva, obra em que Bulle tematiza suas raízes familiares em Guadalupe, e Apolinária, romance de Bianca Santana sobre a vida de sua avó, baiana, na periferia de São Paulo.

Às 16h15, em Infância sob ditadura, Chico Mattoso e Maria Brant, com mediação de Patrícia Ditolvo, conversam sobre livros que narram histórias do Brasil visto por crianças que viveram o fim da ditadura e a cultura dos anos 1980.

No fim do dia, às 18h, a mesa “É sempre hora” reúne Mariana Salomão Carrara e Carla Madeira, duas das autoras de ficção brasileira mais premiadas e lidas dos últimos anos, com mediação de Iara Biderman.

Auditório Museu do Futebol

Às 13h15, Clara Rellstab recebe Gabriela Borges e Dani Marino, criadoras do Minas de HQ, projeto pioneiro de quadrinhos de autoria feminina e que celebra 10 anos de existência.

Na sequência, às 15h, os especialistas Januária Cristina Alves e Fernando José de Almeida  conversam sobre o papel da educação frente às transformações tecnológicas, sociais e culturais contemporâneas.

Tablados Literários

Às 13h, no Espaço Motiva, a pesquisadora Ana Rüsche e a escritora e cineasta Gisele Mirabai debatem, com mediação de Ana Luiza Sério, a produção literária e cinematográfica, de ficção e não ficção, sobre a emergência climática no Brasil. No debate “Narrar o som”, às 15h40, Roberta Martinelli e Vinicius Castro conversam sobre escuta e reinvenção na escrita sobre música.

No Tablado Mário de Andrade, às 13h, Cidinha da Silva, que lança o livro Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: nós e os livros, conversa com Tatiana Nascimento sobre o lugar das mulheres negras no mercado editorial brasileiro, e as estratégias que têm reconfigurado o sistema literário, ampliado o acesso a narrativas que foram historicamente invisibilizadas.

No Tablado Bubu, às 17h, em “Raízes do Brasil avivado”, o pesquisador André Castro e o filósofo Douglas Barros debatem o fenômeno evangélico no Brasil, movimento religioso contemporâneo que se reflete em transformações no país.

 

Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros

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A inserção de mulheres negras no mercado editorial brasileiro, que historicamente privilegia homens brancos, faz com que suas histórias ganhem vida, dignidade e humanidade. A avaliação é da autora Cidinha da Silva, que lança Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros, da Relicário Edições, nesta sexta-feira (5), durante mesa de conversa n’A Feira do Livro

“Histórias novas e desconhecidas têm sido contadas; personagens antes tratados como utensílios de casa, objetos de cama, mesa e banho - trabalhadoras domésticas e outras funções laborais subalternizadas e mal remuneradas”, disse Cidinha da Silva, em entrevista à Agência Brasil.

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O lançamento da autora ocorre a partir das 13h, no Tablado Literário Mário de Andrade. Na obra, ela investiga as tensões, armadilhas e insurgências que atravessam a experiência de escritoras negras no mercado editorial. Após a programação, Cidinha receberá o público em sessão de autógrafos.

A escritora ressalta que é preciso enfrentar os critérios racistas, machistas, misóginos e lesbofóbicos que têm privilegiado os homens brancos nesse espaço.

“Sujeitos que não nasceram em berço de livros, que não herdaram bibliotecas de pais, avós, trisavós, têm conseguido falar, criar, fabular histórias, para as quais há muito interesse.”

A trajetória de Carolina Maria de Jesus, lembrou a autora, abriu caminhos para mais escritoras negras, além de revelar elementos como: “a coragem de alimentar um projeto literário, mesmo em condições absolutamente adversas; o apetite do mercado editorial para extrair todo o sumo do que possa vender; os ardis do racismo para construir uma personagem, exauri-la e depois descartá-la”.

Além da programação integralmente gratuita do festival literário, cada visitante pode escolher dois títulos de uma seleção diversa, disponibilizados gratuitamente, na tenda da prefeitura de São Paulo. No estande, o público terá informações sobre a rede de bibliotecas municipais, ferramenta de democratização do acesso à leitura.

Dois dos títulos disponíveis são Escritoras de Cadernos Negros, com textos de Esmeralda Ribeiro e Conceição Evaristo; e Olhos de Azeviche, que reúne dez autoras negras, como a própria Cidinha da Silva e Geni Guimarães.

Confira os principais trechos da entrevista com Cidinha da Silva:

Agência Brasil - Qual é o lugar das mulheres negras no mercado editorial atualmente?

Cidinha da Silva - No mundo das editoras, o lugar ocupado pelas autoras negras é diverso e está muito relacionado ao poder de fogo da autora em tela, mensurado, por exemplo, pelo interesse manifesto de outras editoras em publicá-la, o que leva a editora da vez a oferecer boas condições para ter mais títulos dela no catálogo, ou mesmo para fidelizá-la. A definição desse lugar deve-se também às cotas raciais, toda editora quer uma autora negra para chamar de sua.

No que concerne aos eventos literários, é o lugar de alguns grandes nomes que ocupam espaços por elas mesmas, pelo reconhecimento do trabalho construído, ou seja, já ultrapassaram as cotas de participação destinadas às escritoras negras, são elas Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Elisa Lucinda, Marilene Felinto, Ana Paula Maia e Grace Passô. Tem um outro pelotão em ascensão que em breve integrará o primeiro, composto por mulheres como Bianca Santana, Luciany Aparecida, Eliane Marques, Bárbara Karine, Carla Akotirene e Rosane Borges.

Depois vem um terceiro pelotão que ocupa um lugar de alternância na cota destinada a autoras negras nos eventos literários de diferentes portes, por motivos como contemplar uma autora negra por ano ou edição do evento ou disparidade de cachês. O ideal seria contratar as autoras X, Y e Z, mas, como o cachê destas é considerado muito alto e a agenda muito ocupada por eventos que realmente valem a pena, os organizadores fazem cruzamentos de visibilidade pública, número de seguidores em redes sociais, histórico de participação em outros eventos, humores, local de residência no país - valor do bilhete aéreo -, traquejo para tirar a galera do chão e capacidade geral de entretenimento. Depois de descreverem e solucionarem a equação, as substitutas são escolhidas e convidadas.

[Outro elemento para a escolha é a] avaliação de linguagem da autora em tela - doce, contemplativa, ácida, raivosa, amarga, assertiva, ressentida, vitimista, altiva, vingativa, ou aquilo que os organizadores consideram ponderação - para definir o que é mais adequado ao momento, baseado nos interesses dos patrocinadores, do público, do peso na bolsa de valores da imprensa cultural, da crítica literária etc. [Além da] capacidade de articulação e trânsito junto aos donos e donas da banca, ou seja, aos players que definem quem entra e quem sai de cena, quem é lembrado e quem é esquecido, quem ficará sob holofotes e quem será relegado às sombras ou às feras.

Agência Brasil - Por muito tempo, as principais referências no mercado editorial eram homens brancos. Você avalia que há alguma mudança nesse modelo?

Cidinha da Silva - Sim, há mudanças, mas ainda estamos longe de alcançar um percentual de escritoras que se aproxime do número avassalador de leitoras que compõem o todo da audiência leitora. O que fazer para mudar? Enfrentar de peito aberto e com medidas propositivas os critérios racistas, machistas, misóginos, lesbofóbicos que têm privilegiado os homens brancos.

Agência Brasil - Quais obstáculos as mulheres negras enfrentaram e ainda enfrentam para inserção nesse espaço?

Cidinha da Silva - Os obstáculos enfrentados são aqueles atinentes às sociedades racializadas - hierarquicamente organizadas por critérios raciais - e racistas como a sociedade brasileira. Neste espaço, como em todos os outros, a inserção se deu e se dá pela luta política, afinal, ninguém aqui adormece ouvindo a canção da meritocracia estética, não é?

[As estratégias que viabilizaram essa inserção incluem] não alimentar ilusões, ter atenção incessante aos jogos de interesses e de poder, compreender que nada está ganho, tudo está em disputa.

Agência Brasil - Que resultados e reflexos podemos observar a partir da maior participação das mulheres negras no mercado editorial?

Cidinha da Silva - Histórias novas e desconhecidas têm sido contadas; personagens antes tratados como utensílios de casa, objetos de cama, mesa e banho - trabalhadoras domésticas e outras funções laborais subalternizadas e mal remuneradas -, têm ganhado vida, dignidade e humanidade. A expressão “bibliodiversidade” tem tido os sentidos ampliados. Sujeitos que não nasceram em berço de livros, que não herdaram bibliotecas de pais, avós, trisavós, têm conseguido falar, criar, fabular histórias, para as quais há muito interesse.

A gente refloresta os imaginários, como nos ensinou a irmã guarani, Geni Núñez, e, reflorestá-los é potencializar a vida em alternativas mais saudáveis e plenas.

Agência Brasil - Gostaria que você citasse algumas das mulheres negras fundamentais para abrir os caminhos no mercado editorial brasileiro.

Cidinha da Silva - São muitas, em diferentes épocas, citarei algumas, embora seja consciente do risco de cometer grandes injustiças. Dentre as escritoras precursoras temos Maria Firmina dos Reis e Auta de Souza, nomes que tiveram existência isolada no século 19 e cujo significado foi recuperado mais de século depois de elas terem partido.

O fenômeno Carolina Maria de Jesus também escancarou portas e mostrou pelo menos três coisas fundamentais: a coragem de alimentar um projeto literário, mesmo em condições absolutamente adversas; o apetite do mercado editorial para extrair todo o sumo do que possa vender; os ardis do racismo para construir uma personagem, exauri-la e depois descartá-la. A gente aprendeu e aprende muito com a trajetória de Carolina.

Antonieta de Barros e Ruth Guimarães foram autoras negras que construíram a obra e um lugar na literatura brasileira nas primeiras décadas do século 20, totalmente à revelia dos holofotes. Geni Guimarães tem aproximações de Ruth Guimarães, as duas são do interior de São Paulo, atuaram como professoras e ousaram bater na porta das editoras estabelecidas para apresentar seu trabalho, conseguiram, se firmaram, foram premiadas e isso nos abriu portas. 

Conceição Evaristo é um dos fenômenos contemporâneos de acolhimento do público, vendagem de livros e reconhecimento da crítica, tendo sido a primeira representante consagrada daquilo que desde os anos 1980 tem sido compreendido como literatura negra.

Agência Brasil - Quais outras contemporâneas você citaria?

Cidinha da Silva - A meu ver, existem quatro escritoras contemporâneas pouco incensadas que ao longo de décadas têm feito um trabalho despreocupado dos ditames do mercado e muito focado em projetos literários consistentes, implementados como possível nas editoras tradicionais: Marilene Felinto, Elisa Lucinda, Heloísa Pires Lima e Ana Paula Maia.

Djamila Ribeiro tem também atuação gigantesca em nosso favor no mercado editorial brasileiro e não abriu apenas portas, abriu comportas. A existência de rios de diferentes matizes tem sido possível a partir de suas articulações e projetos, [como] a coleção Feminismos Plurais e o espaço de protagonismo negro ocupado por ela, [que] merece estudos aprofundados. A capacidade de negociação de Djamila no mercado também é algo admirável, inspirador e definidor de novos patamares para autorias negras.

Bárbara Karine, que me parece seguir com estilo próprio as veredas abertas por Djamila, também ensina muito, principalmente às novas gerações. Por fim, nossa imortal da ABL [Academia Brasileira de Letras], Ana Maria Gonçalves, que é acadêmica, reconhecida, premiada e imortalizada também pelo samba - samba-enredo da Portela em 2024 -, abrindo possibilidades para que outras autoras também sejam imortalizadas em vida pelo cancioneiro popular.

Received — 4 June 2026 Agência Brasil

Marcha para Jesus reúne público evangélico em São Paulo

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A 34ª edição da Marcha para Jesus reúne nesta quinta-feira (4), Dia de Corpus Christi, milhares de fiéis na zona norte da capital paulista ao longo do dia. O público evangélico participa da tradicional caminhada de cerca de três quilômetros, saindo das proximidades da estação Luz do metrô, às 10h, e seguindo em direção ao palco instalado na Praça Heróis da FEB - Força Expedicionária Brasileira, próxima ao Campo de Marte.

A expectativa dos organizadores é receber 2 milhões de pessoas, que viriam em 26 caravanas.

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O evento faz parte do calendário oficial do país desde setembro de 2009, quando o Dia Nacional da Marcha para Jesus foi instituído pela Lei 12.025, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.. A legislação determina que a comemoração ocorra anualmente no primeiro sábado subsequente aos 60 dias após o Domingo de Páscoa. Além da norma federal, a marcha também é reconhecida em diversas legislações estaduais e municipais em todo o país.

Diversas autoridades públicas subiram no principal trio elétrico da marcha, junto ao apóstolo Estevam Hernandes, presidente do evento no Brasil. Um deles foi o advogado-geral da União, Jorge Messias.

Hernandes convidou também o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas e o senador Flávio Bolsonaro para cantar no trio elétrico, onde também estavam o prefeito da capital paulista Ricardo Nunes e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça.

Segundo a organização da marcha, mais de 26 mil caravanas participam do evento, que conta com o desfile de trios elétricos durante a caminhada. O apóstolo Estevam Hernandes afirmou que a marcha ganha força a cada ano, o que reflete “o crescimento do evangelho e do número de fiéis no Brasil”, segundo ele. O evento chegou ao Brasil em 1993.

No palco do evento, estão previstos shows até o final do dia, com artistas como Aline Barros, André & Felipe, Anderson Freire, Eli Soares, Gabriela Rocha, Jefferson & Suellen, Isadora Pompeo, Julliany Souza, Leandro Borges, Lukas Agustinho, Marcelo Markes, Maria Marçal, Maria Pita, Renascer Praise, Samuel Eleoterio, Talita Dias, Thalles Roberto, Ton Carfi e Zoe Dance.

Feriado em SP tem programação gratuita em feira do livro no Pacaembu

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A quinta edição do evento A Feira do Livro, que ocupa a Praça Charles Miller, em frente ao estádio do Pacaembu, é opção de lazer durante o feriado de Corpus Christi, na capital paulista. Com atividades gratuitas, o festival literário reúne autores e especialistas em debates, lançamentos, sessões de autógrafos e oficinas até domingo (7).

Um dos destaques do evento, o sambista e escritor Nei Lopes marca presença nesta quinta-feira (4), a partir das 18h, no Palco da Praça. Ele apresenta suas últimas obras, incluindo o Dicionário de Direitos Humanos e Afins.

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Na sequência, o Quinteto de Metais, grupo de câmara do Instituto Baccarelli, leva ao festival um repertório que transita pela música de concerto e pela música popular. A partir das 19h30, a apresentação ocorre no Espaço Motiva Tablado Literário.

Autora de Benditas Coisas que Eu Não Sei, a cantora e escritora Zélia Duncan estará no Palco da Praça, no sábado (6), às 11h, em conversa com a jornalista Alice Granato.

São três palcos da programação oficial: Palco da Praça, Auditório do Museu do Futebol e Espaço Rebentos. Os Tablados Literários – Espaço Motiva, Tablado Mário de Andrade e Tablado Bubu – são espaços dedicados à programação paralela, com expositores e parceiros realizando atividades para públicos diversos.

Entre os convidados nacionais, a programação conta com outros autores consagrados como Ana Maria Machado, Silviano Santiago, além dos destaques contemporâneos Ian Uviedo, Mariana Salomão Carrara e Jeferson Tenório.

Jornalismo, política, cultura afro-brasileira, pensamento indígena, futebol, infância, cultura do livro, comportamento e meio ambiente são alguns dos temas presentes no festival. A programação completa está no site oficial do festival literário.

Não ficção

Pela primeira vez no Brasil, o cientista político e professor judeu Norman G. Finkelstein lançará A Indústria do Holocausto: Reflexões sobre a Exploração do Sofrimento Judeu, hoje (4), às 16h45. O autor será entrevistado pela jornalista Patrícia Campos Mello, no Auditório Museu do Futebol, no encontro intitulado Holocausto e Palestina.

O filósofo Vladimir Safatle participa do debate Novos Fascismos Globais, no sábado, a partir das 11h40, no Tablado Literário Mário de Andrade, junto com o historiador Michel Gherman, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Eles conversam sobre a compreensão contemporânea do fascismo.

Da não ficção, a feira receberá ainda Fernando Morais, que biografou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva; João Barile, autor de biografia sobre Silviano Santiago; e Erika Palomino, que aborda vida noturna, música e cultura urbana.

Transporte gratuito

Durante o evento, serão oferecidas ao público vans gratuitas que farão o trajeto contínuo entre a Estação Paulista, da Linha 4-Amarela, e o local da feira. Os veículos da Motiva, parceira do festival, realizam o embarque no acesso Belas Artes da estação, na Rua da Consolação. No dia 7 de junho, o transporte terá partida e retorno da Estação Oscar Freire, em vez da Estação Paulista.

O serviço funcionará em dois sentidos: para a ida, as vans partem da estação das 14h às 20h30 nos dias úteis e das 10h às 19h30 aos finais de semana e feriados. Na volta, o trajeto até o metrô ocorre das 14h30 às 21h durante a semana e das 10h30 às 20h aos sábados, domingos e feriados.

Safatle afirma que pensadores não podem ter medo de nomear o fascismo

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Crítico dos pensadores que resistem a classificar movimentos autoritários da extrema direita contemporânea como fascistas, o filósofo Vladimir Safatle defende que é preciso perder o medo de nomear esse fenômeno. E, mais do que isso, considerar que seus apoiadores fazem um cálculo racional:

"É mais ou menos o seguinte: 'não tem mais sociedade para todo mundo, não tem mais espaço para todo mundo, alguém vai ter que sair e alguém vai ficar. E é melhor que esse alguém que vai ficar seja eu'", descreve em entrevista exclusiva à Agência Brasil o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

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Segundo Safatle, formas de violência típicas de estruturas fascistas foram naturalizadas em democracias liberais, quando acontecem em determinados territórios e são cometidas contra certos grupos. Ele defende ainda que haja reflexão no ambiente acadêmico em relação à evolução do conceito de fascismo, em vez de reduzi-lo ao contexto do autoritarismo na Itália, na década de 1930.

“Uma boa parte dos intelectuais que hoje se recusam a sequer pensar na possibilidade de que há mesmo um fascismo que é um elemento constituinte da nossa história, da nossa realidade, eles acabam sendo cúmplices desse processo”, disse Safatle.

Confira os principais trechos da entrevista.

Agência Brasil: Gostaria que você falasse sobre a evolução e aplicação do conceito de fascismo.

Vladimir Safatle: Eu sou daqueles que acham que o uso do termo fascismo é adequado para dar conta das formas de autoritarismo contemporâneo. Na verdade, a gente teve um uso muito restrito que tentava circunscrever o fascismo a um fenômeno histórico preciso dos anos 1930 que não se repetiria mais.

Eu acho que isso é fruto de uma decisão política, antes de qualquer outra coisa, que é de tentar impedir que se perceba como as nossas democracias liberais sempre naturalizaram, em certos territórios, para certos grupos, em certos contextos, práticas e formas de violência que são tipicamente utilizadas dentro de estruturas fascistas.

Por isso que eu sou daqueles que acham que, melhor do que falar de uma democracia liberal como uma forma natural da nossa estrutura política, seria mais interessante falar de fascismos restritos, que, em situação de crise, se generalizam, como o que está acontecendo agora. Restrito porque são formas de violência fascista que estão sendo aplicadas de maneira sistemática contra certos grupos sociais, em certos territórios, em certas circunstâncias, e elas são práticas normais dentro das nossas sociedades.

 

São Paulo - 03/06/2026 - Vladimir Safatle é professor  do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP . Foto: Cecília Bastos/USP São Paulo - 03/06/2026 - Vladimir Safatle é professor  do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP . Foto: Cecília Bastos/USP
Vladimir Safatle é professor do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP . Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Agência Brasil: O que o conceito de fascismo significou historicamente e como pode ser caracterizado no período mais recente no Brasil?

Vladimir Safatle: A estrutura de violência do fascismo histórico já é uma derivação, ela não é uma coisa que aparece lá [na década de 1930]. Ela é uma derivação da violência colonial. Todos os dispositivos de tecnologia de violência do fascismo foram desenvolvidos inicialmente dentro de contextos coloniais. Guerra de raça, supremacismo, desaparecimento forçado, extermínio, massacres administrativos, indiferença a genocídio, estruturas de estado dual, ou seja, tudo isso estava presente dentro do colonialismo.

Mais do que isso, países que têm forte matriz colonialista, como no caso brasileiro, vão à sua maneira perpetuar essas formas de violência na relação do Estado com certas populações. Eu tendo a dizer, basicamente, que é impossível falar em democracia se você não coloca uma questão posterior que é: democracia na perspectiva de quem?

Na perspectiva de alguém que habita onde eu habito, Higienópolis [bairro nobre de São Paulo], e que está na classe em que eu estou, é possível falar em democracia no Brasil, por exemplo, porque eu tenho integridade pessoal, sei que a polícia não vai bater aqui na minha casa sem um mandado colocando uma metralhadora na minha cabeça do nada.

Mas, se você mora no Complexo do Alemão, onde é possível matar 122 pessoas e depois essas pessoas continuarem sem nome, sem história, sem dolo, sem comoção pública, sem indiciamento das pessoas responsáveis, falar de democracia nesse caso é uma obscenidade. Dessa perspectiva, [a democracia] ela simplesmente nunca existiu.

Agência Brasil: Essas seriam as feições específicas do fascismo brasileiro? Quais os aspectos e manifestações mais imediatas e perceptíveis na rotina democrática do país?

Vladimir Safatle: Tem estruturas de permanência de violência, segregação muito explícita da forma de proteção do Estado, o Estado protege certos setores e preda outros. Em países como o Brasil, isso é uma norma muito explícita, é muito fácil perceber. Mesmo em países europeus, por exemplo, que normalmente são vistos como exemplos do que seria a democracia liberal, é sempre bom lembrar que esses países foram países coloniais até o final dos anos 1960, pelo menos. Ou seja, essa lógica estava presente no território deles, uma distinção territorial entre metrópole e colônia.

Só que, posteriormente, com o acirramento das crises estruturais do capitalismo, a tendência é que eles voltem a praticar níveis de violência nesse sentido, de maneira cada vez mais sistemática, contra as populações precarizadas que agora habitam os seus próprios territórios metropolitanos. Então, toda a dinâmica própria [em relação] aos imigrantes, desde centros de detenção até deportação forçada. Então, é claro o fascismo, a violência fascista.

Eu acho que a gente tem que descrever o fascismo principalmente como uma forma de violência, ela tem gradações, isso já desde o fascismo histórico. E essas gradações vão se fortalecendo, ou seja, você vai aumentando a gradação de acordo com a dinâmica interna do processo e a lógica de crise à qual vai ter que se confrontar.

Agência Brasil: O fascismo está ligado necessariamente à extrema direita?

Vladimir Safatle: Sim. Você pode falar “mas tem violências também na esquerda e todo esse tipo de coisa”. Sim, claro. Só que eu não sou daqueles que, por exemplo, como a Hannah Arendt, trabalharia com conceito similar de violência num caso e no outro. Ela utiliza, por exemplo, o conceito de totalitarismo para criar um amálgama entre a violência fascista e a violência stalinista, por exemplo. Eu acho que são duas formas de violência que estão longe de serem realmente o espectro da luta por emancipação, independentemente do que a gente possa entender por isso, mas elas são formas diferentes de violência.

Eu tentei trabalhar isso no meu livro, a violência fascista tem uma grande diferença em relação à violência do stalinismo. A violência do stalinismo é uma violência de preservação do Estado, é uma violência clássica, é um Estado que mobiliza sua violência contra setores descontentes ou em sedição na sociedade. A violência fascista é outra coisa, é um tipo de violência suicidária, ou seja, ela desenvolve uma lógica auto-sacrificial de natureza tal que até mesmo o próprio Estado começa a entrar em colapso.

Ou seja, ela [a violência fascista] não para na preservação do Estado, ela é uma violência de transformação da sociedade em uma dinâmica de guerra permanente. Nessa dinâmica de guerra permanente, para sustentá-la, é necessário que se sustente uma espécie de mobilização permanente para a guerra, e chamados contínuos ao sacrifício de si. Eu diria que essa é uma tendência que vai se aprofundando.

Você pode falar “mas isso é só numa situação de guerra explícita”. O que a gente vê hoje, mais ou menos dessa maneira, é a forma com que os Estados que são atualmente governados pela extrema de direita têm uma lógica [de gestão] que, diante das catástrofes climáticas, das catástrofes ecológicas, das catástrofes sanitárias e das catástrofes humanitárias, é importante que se acomode a sociedade a aceitar isso como algo normal. Ou seja, como se a sociedade aceitasse, afinal de contas, um nível cada vez maior de destruição dentro do seu próprio seio.

Agência Brasil: Então, o conceito de fascismo permanece pertinente para compreender especialmente a realidade brasileira?

Vladimir Safatle: A gente tem cada vez mais crises ecológicas brutais no nosso presente e no nosso futuro. Diante delas, você tem duas opções a fazer: gerenciá-las, ou seja, tratar as causas dessas crises para que elas não voltem a ocorrer, ou simplesmente não fazer nada e tratar como se elas fossem casos normais a partir de agora. Você pode até tentar reconstruir aquilo que uma enchente destruiu, remontar aquilo que o incêndio queimou, mas, no fundo, se nenhuma das causas são modificadas, você sabe que isso vai acontecer de novo.

Eu lembraria que esse segundo paradigma, que é uma espécie de lógica da contra gestão, é o mais utilizado hoje em dia. É quase como se estivesse acomodando a sociedade a admitir que ela vai ser destruída.

Agência Brasil: A gestão da pandemia no Brasil é um exemplo de situação que foi atravessada pelo fascismo?

Vladimir Safatle: Sim, foi. Eu diria que foi aí, inclusive, que eu comecei a escrever esse livro. Quando, diante daquilo, para mim, estava muito claro que era alguma coisa de uma natureza completamente diferente. Não era nada parecido com o que a gente tinha visto antes.

Agência Brasil: A quais esferas de gestão você se refere?

Vladimir Safatle: Teve uma dinâmica de contraposição, de fato, teve esferas estaduais que agiram de maneira, entre aspas, mais tradicional, que é tentar respeitar certos protocolos de autopreservação da população. Só que a dinâmica federal desestabilizou tudo. Ela funcionava de um jeito que a gente nunca tinha visto, que era naturalizar para a sociedade a ideia de que agora ia se confrontar com o nível mais elevado de, digamos, exposição à morte violenta, isso para todo mundo. É quase uma lógica do sacrifício.

Quando você via aquela massa de pessoas indo fazer manifestações diante de hospitais para criticar a ação dos médicos e dos enfermeiros, ou seja, para se expor a um nível mais elevado de morte, como se fosse um ato de coragem, isso tem uma matriz muito clara do tipo de auto sacrifício que é próprio do fascismo, que modifica radicalmente as subjetividades naquele momento.

E você pode falar “ah, mas isso aconteceu só no Brasil”. Por isso que eu insisto: não, na verdade, o que a gente viu no Brasil é uma coisa que a gente deve chamar de lógica da contra gestão de crise.

Seja uma crise sanitária, seja uma crise ecológica, seja uma crise econômica, o que você vê é cada vez mais o Estado fazendo menos. E esse “fazer menos” implica em cada vez mais deixar a sociedade à mercê da destruição, que a gente vê de forma cada vez mais explícita. É importante ver isso a partir de uma lógica da naturalização do sacrifício, que é própria do que a gente vê no interior de situações tipicamente fascistas.

Agência Brasil: Considerando que se trata de uma ameaça interna, o que precisa ser feito por partidos, grupos ou organizações sociais para suprimir a disposição fascista das democracias liberais?

Vladimir Safatle: Primeiro, entender mais claramente o que é o fenômeno e não ter medo de nomear o fenômeno. Dar nome correto às coisas é a primeira condição para conseguir resolver os problemas.

Segundo, lembrar que essa opção fascista não é uma regressão psicológica, não é fruto de algum tipo de déficit cognitivo, déficit moral, [nem] que as pessoas estão envolvidas num ódio eterno ou são tão burras que acreditam que a Terra é plana, acreditam em fake news ou qualquer coisa parecida. Na verdade, é uma escolha racional do fascismo.

É importante entender esse cálculo racional. Acho que é um elemento mais desafiador hoje para a nossa perspectiva analítica. Na verdade, quem escolhe isso, escolhe fazendo um cálculo que é mais ou menos o seguinte: “não tem mais sociedade para todo mundo, não tem mais espaço para todo mundo, alguém vai ter que sair e alguém vai ficar. E é melhor que esse alguém que vai ficar seja eu. Se for você que tiver que sair, desculpe, mas é você ou sou eu”. Tem uma dinâmica de dessensibilização social fundamental aí.

Eu não posso sentir que o seu destino diz respeito a mim também, eu não posso imaginar que o que acontecer com você e que a sua tragédia também seja uma tragédia minha. Então, a indiferença tem que ser o afeto central da sociedade. Essa é uma transformação enorme, porque implica você decompor todas as estruturas de solidariedade social que ainda restavam.

Agora, o que os partidos políticos podem fazer, o que os atores políticos podem fazer, é compreender como a gente chegou até aqui, primeira coisa. Como é que a gente chegou numa época em que a coisa mais racional é ser fascista.

Ou seja, tem um fracasso nosso, muito importante. Até agora, parece que a gente não consegue mais convencer a sociedade de que há uma outra alternativa, de que não estamos destinados a aceitar que não há mais sociedade para todo mundo. Isso não é só uma questão de discurso, é uma questão de ação, então, tem toda uma discussão sobre o tipo de ação que a gente fez nesses últimos tempos, para que a gente chegasse até esse ponto.

 

Brasília - Df - 03/06/2026 - Filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Vladimir Safatle. Foto: Facebook/Vladimir Safatle Brasília - Df - 03/06/2026 - Filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Vladimir Safatle. Foto: Facebook/Vladimir Safatle
Filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Vladimir Safatle. Foto: Facebook/Vladimir Safatle

Agência Brasil: Entre intelectuais e pesquisadores, há uma resistência para usar o termo fascismo para caracterizar as relações sociopolíticas do país. O que pode estar na base dessa resistência? O que explica essa resistência?

Vladimir Safatle: A gente está falando de um país, principalmente no que diz respeito à resistência de pesquisadores brasileiros, que teve o maior partido fascista fora da Europa, que é a Ação Integralista Nacional, que teve 1,2 milhão de membros nos anos 1930. O Integralismo teve uma influência fundamental no golpe, na ditadura militar. Lembrando que o integralista Augusto Rademaker era vice-presidente do [Emílio Garrastazu] Médici. A junta militar [na época] era composta por três militares, dois eram integralistas. Essa junta que vai fazer inflexão da linha dura no regime militar.

A gente teve um presidente que, em setembro de 2021, depois de tentar desestabilizar a República em 7 de setembro, com os seus apoiadores, foi obrigado a fazer uma carta à nação, e ele assina com o lema integralista “Deus, Pátria e Família”. Ou seja, a história do fascismo nacional é uma história constituinte do Brasil.

A universidade deveria começar fazendo uma profunda autocrítica sobre como é que foi capaz de não enxergar essa história por tanto tempo, até que ponto a gente foi ensinado a não vê-la.

Talvez para não perceber que nós não estávamos dentro de um processo de aprofundamento das nossas democracias, a gente estava num processo de preservação de uma estrutura de violência e de precarização das vidas que nunca mudou um centímetro, nunca mudou uma linha.

Eu diria que uma boa parte dos intelectuais que hoje se recusam a sequer pensar na possibilidade de que há mesmo um fascismo que é um elemento constituinte da nossa história, da nossa realidade, eles acabam sendo cúmplices desse processo. E cumplicidade intelectual em relação ao que há de pior na sociedade brasileira não vai ser nenhuma novidade.

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