Eletrificação não trouxe melhorias ao Algarve e ainda circulam comboios com mais de meio século
“Os comboios refletem de forma precisa a cultura do país: o país sórdido e miserável tem caminhos de ferro sórdidos e miseráveis; a nação orgulhosa e eficiente reflete-se de forma semelhante no seu parque ferroviário” — Paul Theroux em O velho Expresso da Patagónia
Às seis e cinquenta e quatro da manhã – horário cumprido com sucesso - tem início em Lagos uma viagem de três horas e pouco de comboio. Na verdade, teve início um pouco antes com a chegada do maquinista para “aquecer os motores” e ver se está tudo em ordem. Engane-se quem pensa que o destino é Lisboa ou outro distrito qualquer ou até um país europeu vizinho. A aventura é do Algarve até ao Algarve. Há uma linha que separa o homem da natureza; a linha férrea à saída de Lagos: à direita vê-se o sol roubar, aos poucos, a escuridão ao céu; vê-se o mar, ondas, areia, dunas, ervas e, ao longe, uma miniatura da Ponta da Piedade. Do lado esquerdo hotéis, casas que dificilmente um habitante local consegue pagar, obras e campos de golfe. No meio, viaja uma centopeia cansada, a arfar e a arrastar-se, como faz diariamente desde os anos 50.
O laranja começou cedo a pincelar a cidade porque o verão aproxima-se. Se fosse inverno, o passageiro teria de levantar os pés para evitar ser atingido pelo vento gelado proveniente das saídas de ar que estão perto do chão, logo após o ar condicionado da automotora ser ligado. Demora uns minutos até sair quente. Desta vez o azar falou mais alto e os passageiros têm ao seu dispor um transporte modernizado, mas não é a modernização que esperam há anos; são apenas os graffitis que decoram o seu exterior. Nem os vidros escaparam. Afinal, o que é uma viagem de comboio sem janelas? Apenas uma carruagem possui bancos com encosto de cabeça. As restantes têm uma espécie de ferro que não é muito amigo de nucas. Esta diferença faz o passageiro não-habitual achar que viaja em primeira classe, pelo menos até entrar na casa de banho e perceber que a sanita é um buraco com vista para os carris. Como não existem cortinas, o utente tem de conhecer a posição do sol em relação ao comboio se quiser evitar que, durante a viagem, o lado da cara que está virado para a janela fique vermelho. Talvez os «artistas» que vandalizaram os comboios estivessem, na verdade, a lutar contra escaldões. “Que incrível este comboio «novo» que circula no Algarve” é uma frase que nas últimas décadas seria impossível de proferir (e ainda é). Hoje, e já há vários anos, uma das maiores reivindicações dos algarvios é a aquisição de comboios modernos. O Jornal do Algarve questionou a CP e a Infraestruturas de Portugal sobre esta e outras questões, mas até ao fecho desta edição não obteve respostas. "A Chegada do Comboio à Estação", dos irmãos Lumière, foi um dos primeiros filmes da história do cinema, no final do século 19. Já “A Chegada dos Comboios Elétricos ao Algarve” também poderia ser um filme, talvez de ficção científica. O trailer foi lançado mais ou menos há um ano quando um comboio elétrico cir...
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