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Eletrificação não trouxe melhorias ao Algarve e ainda circulam comboios com mais de meio século

11 June 2026 at 19:00

“Os comboios refletem de forma precisa a cultura do país: o país sórdido e miserável tem caminhos de ferro sórdidos e miseráveis; a nação orgulhosa e eficiente reflete-se de forma semelhante no seu parque ferroviário” — Paul Theroux em O velho Expresso da Patagónia

Às seis e cinquenta e quatro da manhã – horário cumprido com sucesso - tem início em Lagos uma viagem de três horas e pouco de comboio. Na verdade, teve início um pouco antes com a chegada do maquinista para “aquecer os motores” e ver se está tudo em ordem. Engane-se quem pensa que o destino é Lisboa ou outro distrito qualquer ou até um país europeu vizinho. A aventura é do Algarve até ao Algarve. Há uma linha que separa o homem da natureza; a linha férrea à saída de Lagos: à direita vê-se o sol roubar, aos poucos, a escuridão ao céu; vê-se o mar, ondas, areia, dunas, ervas e, ao longe, uma miniatura da Ponta da Piedade. Do lado esquerdo hotéis, casas que dificilmente um habitante local consegue pagar, obras e campos de golfe. No meio, viaja uma centopeia cansada, a arfar e a arrastar-se, como faz diariamente desde os anos 50.

O laranja começou cedo a pincelar a cidade porque o verão aproxima-se. Se fosse inverno, o passageiro teria de levantar os pés para evitar ser atingido pelo vento gelado proveniente das saídas de ar que estão perto do chão, logo após o ar condicionado da automotora ser ligado. Demora uns minutos até sair quente. Desta vez o azar falou mais alto e os passageiros têm ao seu dispor um transporte modernizado, mas não é a modernização que esperam há anos; são apenas os graffitis que decoram o seu exterior. Nem os vidros escaparam. Afinal, o que é uma viagem de comboio sem janelas? Apenas uma carruagem possui bancos com encosto de cabeça. As restantes têm uma espécie de ferro que não é muito amigo de nucas. Esta diferença faz o passageiro não-habitual achar que viaja em primeira classe, pelo menos até entrar na casa de banho e perceber que a sanita é um buraco com vista para os carris. Como não existem cortinas, o utente tem de conhecer a posição do sol em relação ao comboio se quiser evitar que, durante a viagem, o lado da cara que está virado para a janela fique vermelho. Talvez os «artistas» que vandalizaram os comboios estivessem, na verdade, a lutar contra escaldões. “Que incrível este comboio «novo» que circula no Algarve” é uma frase que nas últimas décadas seria impossível de proferir (e ainda é). Hoje, e já há vários anos, uma das maiores reivindicações dos algarvios é a aquisição de comboios modernos. O Jornal do Algarve questionou a CP e a Infraestruturas de Portugal sobre esta e outras questões, mas até ao fecho desta edição não obteve respostas. "A Chegada do Comboio à Estação", dos irmãos Lumière, foi um dos primeiros filmes da história do cinema, no final do século 19. Já “A Chegada dos Comboios Elétricos ao Algarve” também poderia ser um filme, talvez de ficção científica. O trailer foi lançado mais ou menos há um ano quando um comboio elétrico cir...

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Chapéus-de-sol dividem banhistas e concessionários no Algarve

4 June 2026 at 11:11

A poucos dias do arranque oficial da época balnear, as praias algarvias tornaram-se palco de uma crescente controvérsia em torno da colocação de chapéus-de-sol particulares em frente às zonas concessionadas. A ausência de uma clarificação definitiva das regras está a gerar conflitos entre banhistas e concessionários, com situações que já obrigaram à intervenção da Polícia Marítima. A Praia de Monte Gordo é um dos exemplos mais visíveis desta disputa. Muitos veraneantes chegam ao areal convencidos de que já não existem restrições à instalação de chapéus-de-sol em frente às concessões, mas acabam por ser confrontados com indicações para se deslocarem para outras áreas da praia. Na origem da polémica está a interpretação de que não existe qualquer legislação que proíba explicitamente a colocação de chapéus-de-sol particulares nessas zonas. As recentes declarações do presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que classificou como abusiva a proibição imposta em algumas praias, alimentaram a expectativa de mudança. Contudo, essa posição ainda não se refletiu na sinalização existente em vários areais. Enquanto algumas praias já começaram a flexibilizar as regras, outras mantêm o modelo tradicional. Na Praia da Galé, em Albufeira, os banhistas voltaram a ocupar áreas anteriormente reservadas às concessões. Já em Vila Real de Santo António, a proibição continua em vigor. Os operadores de praia argumentam que a manutenção da atual organização é essencial para garantir a segurança dos utilizadores e evitar situações de desordem no areal. Alguns receiam mesmo que uma liberalização total da ocupação das praias transforme determinadas zonas numa verdadeira “selva”, dificultando a circulação e a gestão do espaço. Além das preocupações relacionadas com a segurança, existe também apreensão quanto ao impacto económico da medida. Atualmente, muitos turistas e frequentadores pagam cerca de 20 euros para usufruir dos serviços disponibilizados pelas concessões, incluindo chapéus, espreguiçadeiras e apoio de praia. A possibilidade de qualquer banhista instalar os seus próprios equipamentos em frente a essas áreas poderá reduzir a procura pelos serviços concessionados.

Praia de Monte Gordo

Concessionários pedem regras clarasOs concessionários das praias algarvias defendem que a situação resulta essencialmente da falta de orientações uniformes por parte das entidades competentes. André Sousa, concessionário na Praia do Garrão, afirma que os operadores têm seguido as regras constantes da sinalética e dos editais de praia. “A verdade é que parece que nunca houve nenhuma lei, mas nos editais de praia vinha sempre a dizer que era obrigatório cumprir a sinalética em vigor”, explicou. O empresário rejeita ainda a ideia de que os concessionários tenham atuado de forma abusiva, defendendo que apenas informavam os utentes sobre as zonas destinadas à colocação de chapéus-de-sol particulares. “Nunca obrigámos ninguém a sair. Sempre recomendámos às pessoas, informando tod...

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