O espaço deixou de ser ficção científica
Elon Musk e Jeff Bezos acreditam que a próxima grande fonte de prosperidade poderá estar acima das nossas cabeças. A cerca de 400 quilómetros da superfície terrestre começa a desenhar-se uma nova fronteira económica, onde poderão nascer fábricas orbitais, centrais solares espaciais e indústrias capazes de produzir materiais impossíveis de fabricar no nosso planeta. O espaço oferece condições únicas. Empresas farmacêuticas já recorreram à Estação Espacial Internacional para realizar experiências de cristalização de proteínas, enquanto algumas ligas metálicas apenas podem ser fabricadas em ambientes de microgravidade. Ao mesmo tempo, painéis solares instalados em órbita têm a capacidade de gerar energia de forma praticamente ininterrupta, sem depender das condições meteorológicas ou da sucessão entre o dia e a noite.
A concretização desta visão depende de um fator decisivo: a redução contínua dos custos de acesso ao espaço. A SpaceX, fundada em 2002, conquistou uma posição dominante no setor dos lançamentos espaciais graças ao sucesso dos seus foguetões Falcon 9. A empresa realiza mais lançamentos do que todos os seus principais concorrentes, nos Estados Unidos e no resto do mundo, acumulando uma vantagem tecnológica difícil de igualar.
A estratégia da Blue Origin, fundada por Bezos em 2000, tem sido bastante diferente. Enquanto a SpaceX adotou uma filosofia de desenvolvimento baseada em testes frequentes, falhas e aperfeiçoamentos sucessivos, a Blue Origin privilegiou um modelo mais cauteloso, apostando em longos ciclos de desenvolvimento para garantir que os seus sistemas funcionassem de forma fiável desde os primeiros voos.
A retalhista anunciou recentemente a aquisição da operadora norte-americana de satélites Globalstar por 11,6 mil milhões de dólares (9,82 mil milhões de euros), numa operação que lhe permitirá reforçar a sua infraestrutura espacial e aceder a frequências de rádio estratégicas. O objetivo é acelerar o desenvolvimento dos seus serviços de conectividade global e reduzir a distância que a separa da Starlink.
À semelhança da subsidiária da SpaceX, a Amazon aposta numa rede de satélites de órbita baixa capaz de fornecer serviços de comunicação em zonas sem cobertura móvel tradicional. Os utilizadores poderão fazer chamadas, enviar mensagens e aceder à internet através de ligações diretas por satélite. O projeto ainda está numa fase inicial. Apesar de ter começado os primeiros lançamentos de teste em 2023, a empresa conta atualmente com cerca de 200 satélites em órbita, muito longe da meta de 3.200 unidades prevista para a sua constelação.
Para Chris Quilty, analista do setor espacial citado pela “Forbes”, o que está em causa é muito mais do que uma simples expansão das telecomunicações. “O que estamos a assistir é à preparação para uma batalha de titãs entre a SpaceX e a Amazon”, afirma. Segundo o especialista, a SpaceX também estava interessada em adquirir o mesmo espectro de frequências controlado pela Globalstar, o que ajuda a explicar o elevado valor pago pela Amazon.
A NASA anunciou esta semana que irá realizar uma série de testes cruciais na órbita da Terra em 2027 para preparar o regresso da humanidade à superfície lunar em 2028. O principal objetivo da missão Artemis III será testar os procedimentos críticos de acoplagem com os gigantescos módulos de aterragem comercial em desenvolvimento: o Starship, da SpaceX, e o Blue Moon Mark 2, da Blue Origin. “Hoje damos mais um passo ousado no regresso da humanidade à Lua, aproveitando os alicerces extraordinários lançados pelos astronautas da Artemis II”, afirmou o administrador da NASA, Jared Isaacman.
Negócios
Estados e privados estão juntos numa disputa tecnológica pelo espaço sideral. A procura por dados e comunicações incentiva um negócio que tem os mais ricos do mundo entre os atores principais. Entendida de forma alargada, a economia do espaço impacta uma série de setores limítrofes, além do aeroespacial e da defesa, como as tecnologias de informação – tanto hardware como software – e das telecomunicações. Aliás, a grande fatia deste mercado respeita à utilização das comunicações por satélite, especialmente através da televisão, que representa cerca de um quarto do total do negócio.
O negócio está em franco crescimento, com as oportunidades mais significativas de curto e médio prazo a surgirem no acesso à Internet de banda larga via satélite, segundo o Morgan Stanley. O banco norte-americano prevê que a economia do espaço mais do que duplique nos próximos 20 anos, ultrapassando a fasquia do trilião de dólares (cerca de 860 mil milhões de euros). Antecipa, também, que o peso das comunicações aumente até representar 50% do negócio, num cenário central, ou até 70%, no cenário mais otimista. Isto, porque se espera que a procura por dados vai crescer e, ao mesmo tempo, o lançamento de satélites que oferecem serviço de Internet de banda larga ajudará a reduzir o custo desses mesmos dados.
O custo de lançamento de um satélite caiu para cerca de um terço, devido à tecnologia dos foguetes reutilizáveis, custando, agora, cerca de 60 milhões de dólares (cerca de 52 milhões de euros), mas pode diminuir, potencialmente, para cinco milhões de dólares (cerca de 4,3 milhões de euros), refere a instituição financeira.
A rivalidade chinesa
Em 2014, a China abriu o setor espacial ao investimento privado para rivalizar com a SpaceX e, cinco anos depois, as startups chinesas receberam financiamento de 300 milhões de euros. Em 2021, o governo chinês lançou a SatNet uma empresa esta tal que espera agilizar o processo de lançamento de satélites e formar uma rede de banda larga (com os 6.370 satélites ativos em órbita baixa, Musk controla 75% de todos os satélites ativos no espaço). A SpaceX opera num mercado global, em 50 países, e prepara-se para expandir a atividade nos continentes africano e asiático.
Responsáveis da empresa têm viajado ao redor do mundo para pedir permissão aos reguladores nacionais para vender ligações de internet de alta velocidade. A cooperação no espaço é uma parte fundamental da estratégia chinesa, tendo assinado 149 acordos, com 46 agências espaciais nacionais. E já forneceu a alguns países um sistema global de navegação por satélite que rivaliza com o GPS.
Aliás, 70% das infraestruturas de rede 4G em África foram construídas pela Huawei. Em dezembro do ano passado, a China lançou mais um lote de satélites de internet em órbita terrestre baixa para rivalizar com a SpaceX. No entanto, ainda está atrasada no que diz respeito ao domínio da tecnologia de foguetões reutilizáveis. Nas últimas décadas, a China investiu milhares de milhões de euros no seu programa espacial para recuperar o atraso em relação aos Estados Unidos e à Rússia. O país asiático espera enviar um astronauta à Lua antes de 2030 e construir uma base internacional em 2035.
Apesar da ambição chinesa, a liderança da nova economia espacial continua, para já, nas mãos de empresas privadas norte-americanas.
