A Escola da Ponte, a primeira em Portugal a ter um contrato de autonomia, comemora 50 anos em 2026, num percurso que mexeu com o ensino e com a demografia em Santo Tirso, fruto dos alunos estrangeiros que tem.
Quem entra nas suas instalações em São Tomé de Negrelos percebe imediatamente que não é uma escola comum. No pequeno ‘hall’, um aluno do I Ciclo está sentado no chão a fazer um castelo de cartas. Mais à frente outros, sensivelmente da mesma idade, estão também espalhados pelo chão em jogos lúdicos.
Ali, são os adultos que têm de desviar-se.
A gestora da escola, Alexandra Ferreira, explicou à Lusa que se trata de “uma escola que só foi possível surgir após [a revolução de] abril e que é uma escola de abril para toda a sua gente, para o bem e para o mal. Ainda que às vezes isto traga alguns momentos mais amargos”.
Atualmente, o estabelecimento alberga 275 alunos distribuídos por grupos (turmas) entre a pré-escola e o 9.º ano, continuando a cumprir o sonho do professor José Pacheco, que a criou em setembro de 1976.
Em 2005, foi assinado o primeiro contrato de autonomia, então o primeiro do país, seguindo-se em 2013 um novo contrato rubricado para a manutenção da autonomia de ensino, contou a gestora (diretora).
“Eles não estão organizados por turmas. Trabalham de forma autónoma, em grupo, a gestão dos núcleos não está associada a ciclos, necessariamente”, continuou a responsável de uma escola onde o 1.º, 2.º e 3.º ciclos têm a denominação de Inovação, Consolidação e Aprofundamento, respetivamente.
“Não há seleção de alunos”
Assinalando que na Escola da Ponte “não há seleção de alunos” e que são “as famílias que fazem a escolha da escola”, a responsável contou, a título de exemplo, que para o próximo ano letivo, para a pré-escola, “estão à volta de 38 pessoas inscritas e só há 22 vagas”.
Sobre a ausência de testes, o antigo aluno André Martins explicou sobre os métodos de avaliação, por exemplo, que “um aluno só se propõe quando realmente sabe que tem capacidade sobre esse tema”.
Alexandra Ferreira acrescentou: “Não há o teste para a turma, há a proposta de uma avaliação, pode ser escrita ou não, mas tem em conta o percurso dele, o percurso que ocorreu durante a quinzena, ou mais que uma quinzena”.
António Silva é aluno do 9.º ano e desloca-se todos os dias de Paços de Ferreira para aprender em Santo Tirso e, a poucos meses de abandonar a escola, admite que “vai ser difícil, mas pelo bem, porque esta escola preparou para isso”, enquanto ao seu lado, e também do 9.º ano, Lily Nunes, aluna do 9.º ano, referiu que a sua “maior dificuldade não vai ser tanto a transição”, mas sim “aceitar” que saiu de um grupo onde está desde a pré-escola.
O toque brasileiro da Escola da Ponte nasceu da ajuda que o pedagogo Rubem Alves deu no início do projeto ao fundador da instituição, José Pacheco, e que depressa ganhou fama e trouxe alunos do outro lado do oceano Atlântico, contou a gestora.
“Temos pais do Porto que vieram viver para aqui e outros de Lisboa. Atualmente, temos um pedido de uma família dos Países Baixos”, disse, revelando depois terem entre os atuais alunos, “crianças da China, que vieram do Bali, do Brasil, Inglaterra e das Filipinas”.
“Ninguém se sente inferiorizado, nem superior por estar aqui”
Esta atração, sublinhou, decorre do facto de defenderem “uma escola democrática, solidária, igual para todos, mas adaptada à diferença de cada um”.
“Ninguém se sente inferiorizado, nem superior por estar aqui”, frisou.
Para além disso, continuou a gestora, a escola é muito procurada para acolher crianças com necessidades educativas especiais, mas também pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), por tribunais, psicólogas e terapeutas da fala.
Polémica recorrente nas escolas nacionais, o uso do telemóvel, contou António Silva, também presidente da assembleia geral de alunos, foi resolvida de forma progressiva pelos alunos.
No anterior ano letivo, contou, aproviaram a criação do dia sem telemóvel, acabando a situação por evoluir, no corrente ano letivo, para a abolição do uso diário no 3.º Ciclo, acompanhando as medidas decretadas pelo Governo para o 1.º e 2.º ciclos, explicou o aluno.
“Soltou um lado de nós que não estava presente e um lado de nós que é melhor para nós mesmos e para os nossos colegas. Com isso, alarguei o meu grupo de amizades”, acrescentou o jovem, uma leitura partilhada por Lily Nunes para quem a ausência de telemóveis obriga os alunos a ”socializar”.
“Falo hoje com gente com quem não o faria antes”, admitiu.
Presente na conversa com a Lusa, o presidente da associação de pais, Tiago Sousa, testemunhou a forma peculiar como foi cativado para inscrever os filhos gémeos.
Próximos passos passa por alargar a oferta educativa até ao 12.º ano
“Nós somos de Santa Maria da Feira e, quando vim conhecer instituição, foi um miúdo de 6 anos que me acompanhou na visita à escola. Fiquei convencido, não precisei de ver mais nada”, relatou.
Questionada se os próximos passos da Escola da Ponte passam por alargar a oferta educativa até ao 12.º ano, Alexandra Ferreira admitiu-o como um objetivo, mas ainda sem horizonte definido.
“Estamos com um grande problema de instalações. Se nos fossem atribuídas novas instalações, poderíamos pensar nisso. Nós precisamos de mais espaço para crescer, mas, nos tempos mais próximos, isso não está em cima da mesa”, explicou.
O conteúdo A escola autónoma de Santo Tirso que há 50 anos faz a ponte para o mundo: “Não há seleção de alunos” aparece primeiro em O MINHO.