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Capacidade crítica em foco

9 June 2026 at 04:00

Estudo comparativo realizado a cada três anos em vários países, para identificar e qualificar a eficiência do conhecimento adquirido pelos estudantes no ensino básico, e assim, fornecer informações para o aperfeiçoamento do aprendizado e dos sistemas de ensino, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) anunciou um acréscimo importante na metodologia. Em sintonia com a preocupação externada no mundo inteiro acerca dos impactos da imersão digital de adolescentes, e da cada vez maior disseminação das ferramentas de Inteligência Artificial (IA) entre os jovens, o Pisa resolveu introduzir em sua avaliação periódica a capacidade crítica de assimilação responsável das novas tecnologias pelos estudantes.
A novidade não valerá para a aplicação das avaliações este ano que continuarão averiguando o aprendizado em leitura, matemática e ciências – destacando a compreensão e a interpretação do que se lê, que tendem a ser prejudicadas pela vida digitalizada e a dependência da IA para responder a tudo e fornecer textos sobre qualquer assunto. Mas a partir de 2029, na próxima rodada, o Pisa contará com questões dirigidas ao letramento em mídia digital e Inteligência Artificial.
Vale recordar que os governos dos países tentam não ficar para trás na discussão dos efeitos, e principalmente, na providência de medidas de prevenção e orientação aos estudantes. No Brasil, por exemplo, o Ministério da Educação lançou, em abril, um documento a respeito de alternativas curriculares e o uso da IA na educação básica, dividido em duas partes: aprender sobre a IA e aprender com a IA. As abordagens complementares parecem oportunas, num momento em que o acesso às ferramentas digitais é maior do que as diretrizes transmitidas a professores e alunos, sobretudo na rede público de ensino.
Um dos envolvidos na elaboração da nova avaliação do Pisa, Luis Francisco Vargas Madriz disse para o jornal Folha de S. Paulo que “o debate não é mais se devemos usar ou não a tecnologia e a inteligência artificial na educação. Elas já estão presentes na vida das crianças e jovens. A questão agora é se eles estão aprendendo a lidar com elas e usá-las”. Tal ponto de reconhecimento é fundamental para o planejamento da gestão pública e privadas do ensino em qualquer parte do mundo, mas há que se levar em conta com mais atenção no Brasil. A noção de que a IA seja uma inovação dispensável da sala de aula simplesmente não funciona, uma vez que a tendência é o desenvolvimento das ferramentas disponíveis, e a chegada de novas, ainda mais atraentes para os estudantes e o público em geral.
O pressuposto do Pisa mostra que eventuais proibições travestidas de regulação excessiva podem, na verdade, prejudicar o aprendizado, ao invés de deixá-lo fluir livre da IA. O momento é de compreensão profunda dos potenciais e dos riscos da tecnologia de informação turbinada pela IA, por toda a rede da educação: dos gestores públicos, das empresas da área, dos professores e, também dos estudantes. Nesse aspecto, o exame do Pisa há de evidenciar, como sempre faz, que as notas obtidas pelos jovens avaliados dizem mais sobre os sistemas em que estão inseridos, do que sobre suas próprias capacidades individuais de apreensão do conhecimento.

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