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Helicóptero dos EUA cai junto ao estreito de Ormuz

Um helicóptero AH-64 Apache do exército dos EUA caiu perto do Estreito de Ormuz nesta segunda-feira. Os dois tripulantes da aeronave sobreviveram ao acidente e foram resgatados em segurança. Ainda não é claro se o Apache foi abatido por fogo iraniano, sofreu uma avaria mecânica ou se ocorreu outro problema. Este incidente ocorreu um dia depois de o Irão e Israel terem afirmado que tinham suspendido os ataques mútuos, na sequência de um apelo de Trump, embora Teerão tenha advertido que retomaria as hostilidades se Israel continuasse a atacar o Hezbollah no Líbano. De acordo com o New York Times,

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Médio Oriente: guerra pode escapar das mãos de Donald Trump

De retaliação em retaliação: o Irão atacou Israel em retaliação pelos ataques israelitas a uma base do Hezbollah nos arredores de Beirute, capital do Líbano; e o exército israelita atacou o Irão em retaliação a este ataque. A muitos quilómetros dali o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exige que os dois países cumpram o cessar-fogo e parem de aumentar a tensão regional – mas é muito duvidoso que Teerão e Telavive o ouçam.

Para todos os efeitos, os analistas dizem que a guerra entre Israel e Irão foi retomada no domingo, depois de o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, ter desafiado o pedido de Trump para que as hostilidades fossem suspensas. Israel atacou Teerão e outras cidades após o Irão lançar mísseis em direção a Israel.

Segundo a imprensa norte-americana, Trump ligou novamente para Netanyahu na manhã de segunda-feira, 8 de junho, e pediu que interrompesse os ataques no Irão. Netanyahu informou Trump que estava pronto para interromper os ataques se o Irão não realizasse mais disparos contra Israel.

Mais cordato, o Irão anunciou a suspensão das operações militares contra Israel, mas ameaça com “medidas mais severas e repressivas” caso a “agressão” israelita continue, no que se inclui as operações de Israel no sul do Líbano. Para vários analistas citados pela imprensa norte-americana, Trump arrisca deixar de ter controlo sobre a guerra. Se Israel continuar a usar a força contra o Irão independentemente da vontade de Washington, Trump ficará ‘agarrado’ àquilo que o Estado hebraico decidir que fará. O receio do presidente dos Estados Unidos é que mais esta escalada encerre de vez a possibilidade de um acordo de paz entre Teerão e Washington. Para todos os efeitos, a ‘trapalhada’ entre Israel e os Estados Unidos é claramente favorável ao Irão – que observa a desarticulação das prioridades no seio da coligação que iniciou os ataques em fevereiro passado. A aparente falta de sintonia deu-se também mais tarde, quando oficiais norte-americanos afirmaram que as forças armadas dos EUA não estiveram envolvidas nos ataques israelitas deste domingo contra o Irão, ao mesmo tempo que um oficial israelita disse que os norte-americanos ajudaram a intercetar os ataques iranianos contra Israel.

Um oficial das Forças de Defesa de Israel disse na segunda-feira que Israel está a preparar-se para vários dias de combates, embora as declarações tenham sido feitas antes de o Irão anunciar a pausa. Na manhã de segunda-feira, as Forças de Defesa de Israel afirmaram ter atacado sistemas de defesa aérea que os iranianos reconstruíram durante o cessar-fogo. Posteriormente, Israel atacou uma grande instalação petroquímica no Irão, que as Forças de Defesa de Israel alegaram ser usada para produzir matéria-prima para a produção de armas. Os militares iranianos dispararam mais de 25 mísseis contra alvos em Israel, incluindo a capital, Telavive.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irão, Esmail Baghaei, afirmou que os Estados Unidos são diretamente responsáveis ​​pelas ações de Israel e que os acontecimentos “só irão agravar a situação caótica do processo diplomático”.

Entretanto, os houthis – instalados no Iémen e apoiados por Teerão – voltaram a entrar em combate, lançando dois mísseis contra Israel e anunciando que atacariam embarcações israelitas no Mar Vermelho.

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O Irão e os limites da autonomia estratégica europeia

A guerra envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irão tem exposto uma questão mais profunda e de maior relevância para o futuro da ordem internacional: os limites da autonomia estratégica europeia num mundo cada vez mais multipolar.

Durante anos, líderes europeus defenderam a necessidade de uma política externa mais independente, capaz de refletir os interesses específicos do continente sem depender automaticamente das prioridades de Washington. No entanto, momentos de crise costumam separar ambições de capacidades. E poucos episódios ilustram melhor essa realidade do que a trajetória do acordo nuclear iraniano.

Quando os Estados Unidos decidiram abandonar unilateralmente o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), em 2018, a França, a Alemanha e o Reino Unido manifestaram oposição à decisão. A União Europeia procurou preservar o acordo, criou mecanismos alternativos de pagamento e reafirmou o seu compromisso com uma solução diplomática. Apesar disso, os resultados foram limitados. A maioria das empresas europeias retirou-se do mercado iraniano, não por convicção política, mas por receio de perder acesso ao sistema financeiro internacional dominado pelo dólar e à economia norte-americana. A experiência revelou uma realidade desconfortável.

A Europa possuía vontade política, mas não dispunha dos instrumentos necessários para sustentá-la diante da pressão extraterritorial dos Estados Unidos. A autonomia estratégica europeia encontrou os seus limites precisamente onde o poder económico, financeiro e geopolítico norte-americano continua sendo determinante.

É nesse contexto que a postura chinesa merece atenção, não porque represente um modelo a ser copiado, mas porque evidencia uma abordagem diferente da diplomacia contemporânea. Pequim manteve relações funcionais simultaneamente com Irão, Israel, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Estados Unidos.  Naturalmente, essa postura não decorre de altruísmo. A China busca proteger interesses nacionais concretos relacionados à segurança energética, à estabilidade regional e à preservação de suas rotas comerciais.

Ainda assim, a estratégia chinesa demonstra a importância de preservar canais de interlocução com atores rivais, reduzindo a dependência de alinhamentos rígidos e ampliando as margens de manobra diplomática. Seria, contudo, um erro considerar essa prática uma exclusividade chinesa. Índia, Turquia, Brasil e diversas outras potências médias têm adotado estratégias semelhantes, procurando equilibrar suas relações com diferentes polos de poder sem aderir integralmente a nenhum deles. A verdadeira lição não é chinesa. É multipolar.

A questão central para a Europa, portanto, não é escolher entre Washington e Pequim. Trata-se de desenvolver capacidades que tornem sua autonomia estratégica operacional e não apenas retórica. Isso inclui mecanismos financeiros menos vulneráveis a sanções extraterritoriais, maior coordenação em matéria de defesa, instrumentos próprios de mediação diplomática e capacidade de sustentar compromissos internacionais independentemente das mudanças políticas ocorridas em outras capitais.

A crise iraniana demonstrou que a Europa continua sendo uma potência económica, tecnológica e regulatória de primeira grandeza. Demonstrou também que recursos, por si só, não se traduzem automaticamente em influência estratégica. A autonomia não depende apenas da capacidade de formular posições independentes. Depende, sobretudo, da capacidade de implementá-las. Num mundo cada vez mais marcado pela dispersão do poder, essa talvez seja a principal lição da crise.

A influência internacional será cada vez mais medida pela capacidade de transformar preferências políticas em ações efetivas. E é precisamente nesse terreno que a Europa continua a enfrentar o seu maior desafio.

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