Reading view

O país onde a esperança custa um euro – e a solidão custa ainda mais | Por Luís Ganhão

Há imagens que dizem mais sobre Portugal do que qualquer relatório estatístico.

Uma delas repete-se diariamente em papelarias e quiosques de norte a sul do país: um idoso, de mãos trémulas, a contar moedas para comprar uma raspadinha. Outra, mais silenciosa, mas igualmente reveladora: uma pessoa idosa, sozinha em casa, a ligar para um programa televisivo de participação paga que promete prémios imediatos, enquanto calcula se a pensão chega até ao fim do mês.

Estas imagens não são exceções curiosas. São sinais de um país onde a esperança foi convertida em negócio — e onde essa transformação recai com especial intensidade sobre quem tem menos recursos, menos proteção e menos alternativas.

LUÍS GANHÃO
Jurista
Para muitos idosos, jogos como o Euromilhões ou as raspadinhas, bem como concursos televisivos baseados em chamadas pagas, tornam-se rotina

Não se trata apenas de entretenimento. Para muitos idosos, jogos como o Euromilhões ou as raspadinhas, bem como concursos televisivos baseados em chamadas pagas, tornam-se rotina. Não apenas pela promessa remota de ganho, mas porque preenchem um vazio mais imediato: o da solidão, da repetição dos dias e da ausência de contacto humano regular.

A raspadinha não é um simples jogo. É um mecanismo de antecipação emocional cuidadosamente explorado. Um instante de expectativa vendido a quem, muitas vezes, já perdeu quase tudo o resto em termos de expectativa social.

E é aqui que o problema deixa de ser individual.

Portugal mantém níveis persistentes de pobreza entre a população idosa. Muitas pensões não chegam para responder ao custo real de vida. Neste contexto, a promessa de uma mudança súbita de destino deixa de ser fantasia inocente e passa a funcionar como substituto simbólico de uma mobilidade social inexistente.

Não há necessidade de engano explícito para que haja exploração. Basta a existência de um desequilíbrio estrutural: produtos concebidos para maximizar repetição, estímulo e adesão, colocados num mercado onde uma parte significativa dos consumidores vive com margens económicas mínimas.

As raspadinhas estão omnipresentes, normalizadas, integradas no quotidiano. Os concursos televisivos alimentam-se de urgência emocional, linguagem de vitória fácil e promessa permanente de recompensa imediata. Tudo isto é legal, tudo isto é publicamente visível — e precisamente por isso a sua eficácia é tão relevante.

O que está em causa não é a liberdade individual de jogar ou participar. O que está em causa é a forma como essa liberdade é sistematicamente capturada num contexto de vulnerabilidade. Quando pequenas perdas sucessivas têm impacto real no orçamento mensal, o jogo deixa de ser neutro. Passa a ser regressivo.

Há aqui uma assimetria difícil de ignorar: de um lado, sistemas desenhados para maximizar participação e receita recorrente; do outro, pessoas para quem a promessa de um ganho improvável representa, muitas vezes, a única narrativa de escape disponível.

Não é preciso caricaturar intenções para reconhecer o resultado. Pode não haver malícia individual direta. Mas há um modelo que funciona porque encontra fragilidade — e a explora de forma consistente.

E isso deve ser dito com clareza: quando a esperança se torna produto vendido sistematicamente a quem menos pode suportar a perda, não estamos apenas perante entretenimento. Estamos perante uma forma normalizada de extração de valor a partir da vulnerabilidade.

O problema não é moralizar quem joga. O problema é aceitar sem incómodo suficiente um sistema que depende, estruturalmente, de que os mais frágeis continuem a alimentar a sua promessa.

E é nesse desequilíbrio — entre promessa e fragilidade, entre estímulo e limitação — que se torna difícil evitar a conclusão essencial: quando a esperança é transformada em produto sistematicamente direcionado a quem menos margem tem para perder, o problema já não é apenas individual. É estrutural.

Leia também: A era dos comentadores de fato feito | Por Luís Ganhão

  •  

O que importa saber sobre radiações

Para muitas pessoas, a palavra “radiação” surge imediatamente associada a momentos de preocupação, exame médico ou um tratamento.

Quando se fala em radiação, surgem, frequentemente, na memória imagens marcantes e assustadoras, como os bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki ou o acidente nuclear de Chernobyl.

Atualmente, o tema continua muito presente nas conversas, não só por estas memórias terem sido marcantes e com repercussões extremamente severas, mas também porque está ligado a questões atuais, como a transição para energias mais limpas, a necessidade de maior independência energética na Europa e as preocupações com a segurança internacional, especialmente no contexto da guerra na Ucrânia.

Estes episódios reforçam a perceção de um perigo invisível, quase abstrato, mas profundamente inquietante.

Mas e se a radiação fizer parte da nossa vida muito mais do que pensamos?

Na verdade, a radiação faz parte do nosso dia a dia, maioritariamente sem nos darmos conta. Está no solo que pisamos, no ar que respiramos, nos alimentos que consumimos e até no nosso próprio corpo.

Vem também do espaço, sob a forma de radiação cósmica, que atravessa a atmosfera, sendo que a quantidade a que estamos expostos pode até variar: por exemplo, quanto mais elevada for a altitude, maior tende a ser essa exposição.

Ou seja, a radiação não é algo raro ou excecional, faz parte do ambiente que nos rodeia. Talvez por isso, a verdadeira questão não seja se ela existe, mas sim como é utilizada e em que condições.

E apesar de falarmos muitas vezes de “radiação” como se fosse uma única coisa, na realidade nem toda a radiação é igual.

No dia a dia, convivemos sobretudo com a chamada radiação não ionizante, de baixa energia, presente na luz visível, nas ondas de rádio ou no micro-ondas, ao qual somos expostos diariamente.

A radiação ionizante, por ser mais energética, é aquela que encontramos sobretudo em áreas como a medicina. É também a que costuma gerar mais dúvidas e, de forma compreensível, mais receios.

Falar de radiação implica, naturalmente, falar de riscos. Quando utilizada em doses elevadas ou de forma inadequada, pode provocar danos nas células e aumentar o risco de doença.

Mas também é verdade que o seu uso, especialmente na medicina, é altamente controlado. Existe um princípio internacional, conhecido como ALARA, que orienta a prática para garantir que a exposição é sempre a mínima necessária para obter benefício terapêutico.

No caso das baixas doses, como aquelas associadas à maioria dos exames médicos ou à exposição natural do dia a dia, o risco é considerado reduzido.

E talvez seja importante lembrar que esta não é a única fonte de risco à nossa volta. O tabaco, a poluição ou os alimentos processados têm impactos muito mais evidentes na saúde da população.

É na saúde que a radiação mostra, talvez, o seu lado mais invisível e ao mesmo tempo mais transformador.

A radiação X é das mais utilizadas para o diagnóstico de diversas patologias, nomeadamente traumáticas, degenerativas, infeciosas ou malignas. Uma radiografia é muitas vezes o primeiro passo para um diagnóstico.

Existem, no entanto, tecnologias mais avançadas que utilizam baixas doses de radiação X que permitem a deteção de doença em fases precoces, como é o caso do cancro de mama através da mamografia e da osteoporose, através da Densitometria Óssea, que avalia a densidade mineral óssea, contribuindo para o aumento da sobrevida e da qualidade de vida das populações.

 A medicina personalizada e de precisão não dispensa diagnósticos completos e de elevada fiabilidade para os quais em muito contribuem, por exemplo, os exames de Tomografia Computorizada (TC) e Angiografia, que permitem uma avaliação anatómica tridimensional e funcional, baseada na aplicação de doses mais elevadas de radiação X.

Atualmente estas técnicas de imagem até possibilitam o tratamento de algumas patologias através de imagem guiada sem existir necessidade de procedimentos cirúrgicos mais invasivos.

 A radioterapia — uma palavra que, à partida, pode assustar, mas que, todos os dias, ajuda a tratar pessoas com cancro, pela aplicação terapêutica de radiação X. Com uma precisão cada vez maior, permite destruir células tumorais ao mesmo tempo que preserva, tanto quanto possível, os tecidos saudáveis.

Para quem passa por este processo, ou acompanha de perto, a radiação deixa de ser um conceito distante ou abstrato. Torna-se algo concreto, uma ferramenta essencial e, muitas vezes, uma verdadeira aliada no tratamento e na melhoria da qualidade de vida.

Mas a presença da radiação não se limita à medicina. Está nas tecnologias que executam tratamento de águas, monitorizam o ambiente ou ajudam a desenvolver culturas agrícolas mais resistentes. Na indústria, permite analisar estruturas sem as danificar. Na ciência, abre caminho à inovação.

Mas compreender a radiação o que é, como funciona, quando e onde é utilizada, ajuda a transformá-la de ameaça difusa em realidade concreta. E, muitas vezes, menos assustadora.

Em suma, a radiação faz parte do nosso quotidiano e, quando utilizada de forma segura, constitui uma ferramenta essencial ao serviço da saúde, da ciência e da sociedade. Mais do que alimentar receios, importa promover literacia científica que permita compreender os seus riscos reais, mas também os seus benefícios

Porque, no fim, aquilo que não se compreende tende a assustar. Mas aquilo que se conhece… pode ajudar-nos a viver melhor.

Gostou do que leu? Ajude-nos a continuar!
 
O nosso compromisso é levar até si notícias rigorosas, relevantes e próximas da sua comunidade. Para continuarmos a fazer o que fazemos, precisamos do seu apoio. Qualquer donativo, por mais pequeno que seja, faz a diferença e ajuda a garantir a continuidade deste projeto. Juntos, mantemos a informação viva no Algarve e no Alentejo.
Obrigado por fazer parte desta missão!
Contribua aqui!

O conteúdo O que importa saber sobre radiações aparece primeiro em Sul Informação.

  •  

Planetas, Lua Nova e Via Láctea fazem de junho um mês especial | Por Fernando J.G. Pinheiro

O primeiro evento astronómico significativo deste mês tem lugar no dia oito, altura em que a Lua atinge a sua fase de quarto minguante junto à constelação do Aquário.

Na noite de dia nove os planetas Vénus e Júpiter apresentar-se-ão a pouco mais de um grau e meio (três vezes o diâmetro da Lua) um do outro. Vénus será o mais brilhante destes dos planetas situando-seentre Júpiter e Pólux, uma estrela situada numa das cabeças da constelação do Gémeos, até junto do planeta Júpiter. Vénus continuará a sua deslocação para leste ao longo do mês, chegando aos limites da constelação do caranguejo no dia doze.

Ao final da madrugada de dia dez a Lua irá nascer junto ao planeta Saturno e, dois dias depois, junto ao planeta Marte.

O planeta Mercúrio atingirá a sua maior elongação (afastamento relativamente à posição do Sol) no dia quinze, coincidindo com a Lua Nova. A presença da Lua na direção do Sol dar-nos-á a oportunidade de observarmos melhor a Via Láctea e alguns objetos do céu profundo como a Nebulosa da Lagoa (ou Messier 8), uma nebulosa interestelar situada na constelação do sagitário, ou os aglomerados estelares Messier 10 e o da Borboleta (Messier 6) situados, respetivamente, na constelação do Ofiúco e do Escorpição. Como o nome “objetos de céu profundo” sugere, a observação destes astros requer a ausência de fontes de poluição luminosa tais como as luzes das cidades.

FERNANDO J.G. PINHEIRO
Astrónomo e investigador do CITEUC – Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra

Ao final do dia dezasseis a Lua passará ao lado de Mercúrio e, na madrugada seguinte, junto ao planeta Júpiter. De notar que a distância entre estes dois planetas irá diminuindo aos poucos até chegarmos ao dia vinte e cinco, altura em que distarão em cerca de quatro graus, i.e., pouco menos do que três dedos vistos com o braço estendido.

Por sua vez, ao final de dia dezassete, a Lua passará tão perto da direção do planeta Vénus que será possível ver este planeta a ser ocultado pela lua ao longo de uma faixa que vai do Canadá até ao nordeste brasileiro, passando pelo norte do méxico, e incluindo países como a Venezuela ou Cuba

Na noite de dia dezoito não só iremos observar o alinhamento dos planetas Mercúrio, Júpiter e Vénus, mais a estrela Régulo, como também o crescente da Lua.

De todas as efemérides deste mês, a mais importante irá ocorrer as nove horas e vinte e cinco minutos da manhã de dia vinte e um. Neste dia a Terra atingirá o ponto da sua órbita no qual o hemisfério norte se encontra mais inclinado na direção do Sol: é o que neste hemisfério é conhecido por solstício de verão por marcar o início desta estação.

Ceu a oeste pelas 22:00 de dia 21. Igualmente é indicada a posição da Lua na noite de dia 16

Ao final deste mesmo dia vinte e um a Lua atinge a sua fase de quarto minguante, enquanto que a Lua Cheia chegará ao início da última madrugada do mês. No entanto por esta última fase lunar ocorrer pouco depois da Lua ter atingido o seu apogeu (ponto da órbita mais alto) ela apresentar-se-á ligeiramente mais pequena do que é habitual: é o que se chama de micro Lua cheia.

Leia também: Super Lua Cheia e chuva de estrelas Leónidas iluminam o céu nas noites de novembro | Por Fernando J.G. Pinheiro

  •  

A política europeia de reindustrialização: soberania, segurança e competitividade | Por António Covas

Nas últimas décadas a política industrial europeia foi concebida em termos de soft policy com base numa política de abertura comercial, concorrência e eficiência das cadeias de valor globais. Os factos da geoeconomia e da geopolítica fizeram, entretanto, evoluir este paradigma de soft policy. Hoje somos testemunhas de um regresso às políticas de potência e relações de força, que delimitam áreas de influência e novos alinhamentos geoestratégicos. A pandemia, a guerra na Ucrânia, a guerra no Médio Oriente, a crise energética, a rivalidade tecnológica entre grandes potências e a crescente utilização do comércio, da tecnologia e do investimento como instrumentos de poder revelaram uma vulnerabilidade estrutural, qual seja, a dependência excessiva pode converter-se em risco estratégico e geopolítico. A chamada reindustrialização europeia nasce, precisamente, desta tomada de consciência. A política industrial, a soberania digital e a segurança económica não podem, mais, ser conduzidas separadamente pois fazem, doravante, parte de um conceito geoestratégico de autonomia e segurança europeias. Este pensamento está presente no alinhamento mais recente dos instrumentos de política industrial europeia: o Regulamento das Subvenções Estrangeiras (2023), a Estratégia de Segurança Económica (2023), o Regulamento dos chips (2023), o Regulamento dos Serviços Digitais (2024), o Regulamento do impacto-zero (2024), o Regulamento das matérias-primas críticas (2024), a Bússola para a Competitividade (2025), o Pacto da Indústria Limpa (2025), a Bússola da Cultura (2025), o Regulamento da IA (em vigor no dia 2 de agosto de 2026), o Ato do Acelerador Industrial (proposta da Comissão de março de 2026).

Estamos na primavera de 2026, podemos dizer que a política industrial europeia e os principais setores industriais se inscrevem em quatro grandes cadeias de valor: a cadeia de valor da soberania digital, mais ou menos diferenciada, que se estende dos minérios raros aos materiais críticos e dos semicondutores à computação avançada (1), a cadeia de valor da descarbonização e eletrificação, com uma sustentabilidade mais ou menos diferenciada, que vai da matriz energética até à interoperabilidade do sistema elétrico (2), a cadeia de valor da gestão multirrisco, que se estende da prevenção do risco até à gestão de vulnerabilidade e segurança das infraestruturas críticas (3), finalmente, a cadeia de valor da segurança económica, mais ou menos globalizada, e que se estende das cadeias globais de abastecimento à produção local e do comércio de mercadorias ao investimento direto estrangeiro (4). Vejamos algumas dimensões desta nova política industrial europeia.

Uma primeira dimensão diz respeito à Estratégia de Segurança Económica de 2023. A União identificou quatro riscos prioritários: a resiliência das cadeias de abastecimento, incluindo a segurança energética (1), a segurança física e cibernética das infraestruturas críticas (2), a segurança tecnológica e a fuga de informação valiosa (3), e ainda a instrumentalização de dependências económicas por países terceiros (4). Neste sentido, a Comissão propôs organizar a sua ação em torno de três objetivos: promover a competitividade, proteger a segurança económica e estabelecer parcerias de reciprocidade. Mais recentemente, a Bússola para a Competitividade e o Pacto da Indústria Limpa consolidaram esta viragem. A primeira, apresentada em janeiro de 2025, parte do diagnóstico de que a Europa precisa de recuperar competitividade, reduzir encargos regulatórios e reforçar a integração do mercado interno, e, entre outros, identifica formas de reforçar e diversificar cadeias de abastecimento. O segundo, lançado em fevereiro de 2025, procura transformar a descarbonização num motor de crescimento industrial, incentivando investimento em tecnologias limpas e respondendo simultaneamente aos elevados preços da energia e à intensificação da concorrência internacional em setores estratégicos. Ambas visam reforçar a base industrial, acelerar a transição energética e reduzir dependências num contexto cada vez mais competitivo.

Uma segunda dimensão da nova política industrial europeia diz respeito à revisão dos instrumentos de análise do investimento estrangeiro. O atual mecanismo europeu de escrutínio de 2019 está em revisão. O texto, que já mereceu o acordo do Parlamento Europeu e do Conselho, visa tornar o sistema mais coerente e eficaz em toda a União, introduzindo requisitos mínimos para os regimes nacionais de controlo em setores críticos e reforçando a cooperação entre Estados-Membros e Comissão. Num contexto em que investimento, tecnologia e segurança se tornaram dimensões cada vez mais interligadas, este reforço do quadro europeu de controlo do investimento estrangeiro assume uma importância crescente para a proteção da segurança económica da União. A este instrumento soma-se o Regulamento das Subvenções Estrangeiras, aprovado em 2022 e atualmente em processo de revisão, que permite à Comissão investigar apoios financeiros concedidos por países terceiros a empresas ativas no mercado interno sempre que esses apoios sejam suscetíveis de falsear a concorrência. O regulamento incide sobre operações de concentração e procedimentos de contratação pública onde o impacto económico e estratégico pode ser significativo. Isto é, a União Europeia já não se limita a escrutinar quem investe ou adquire ativos estratégicos, passa, também, a olhar para a fonte de financiamento que não está sujeita às mesmas restrições dos auxílios de Estado dentro da União. O regulamento procura impedir que dependências estratégicas se aprofundem por via de formas indiretas de projeção de poder económico por países terceiros.

Uma terceira dimensão diz respeito a uma proposta legislativa da Comissão de 4 de março de 2026 denominada Industrial Accelerator Act (IAA), cujo objetivo é impulsionar a indústria transformadora e apoiar a adoção de tecnologias mais limpas. Esta iniciativa, em linha com o relatório Draghi, foi lançada no âmbito do Clean Industrial Deal e introduz índices de baixo carbono para os contratos públicos e os regimes de apoio público, em especial em setores estratégicos selecionados como o aço, o cimento, o alumínio, os automóveis. Atualmente, a indústria transformadora representa 14,3% do PIB da União Europeia e a proposta estabelece como meta aumentar este valor para 20% até 2035. A proposta incentiva uma maior reciprocidade nos contratos públicos, introduz condições específicas para investimentos estrangeiros e medidas para simplificar os processos de licenciamento, incluindo a criação de um balcão único digital. Outra novidade é a criação de Áreas de Aceleração Industrial, isto é, zonas destinadas a facilitar a cooperação entre empresas e a criação de clusters de produção limpa tendo em vista os investimentos em infraestruturas energéticas e projetos de produção sustentável. 

Uma quarta dimensão na política industrial europeia para o século XXI diz respeito a uma nova geração de indústrias culturais e criativas (ICC) que nasce precisamente do cruzamento entre ciência, tecnologia, dados, propriedade intelectual, inteligência artificial, design e comunicação. Doravante, a tecnologia, a economia e a cultura, deixarão de ser mundos compartimentados e dessa nova matriz de recursos e ativos surgirá uma competitividade europeia muito mais imaginativa e sustentável. Num mundo em que a IA redefine criação, distribuição e valor acrescentado o património europeu não pode ficar restringido à gestão da conservação e restauro, precisa de ser reinterpretado, digitalizado e valorizado para gerar novas formas de conhecimento, experiência e inovação. As múltiplas interfaces entre economia produtiva e economia criativa serão o grande trunfo da sociedade e do projeto europeu para o século XXI. O alargamento dos modelos de linguagem, a produção de conteúdos e aplicações proporcionados pela inteligência artificial terá um impacto muito abrangente, ou seja, vamos assistir, por um lado, a uma padronização crescente da economia produtiva e, por outro, ao crescimento da economia criativa em sentido amplo em toda a cadeia de valor que se estende da educação à ciência e tecnologia e das artes à cultura.

Em síntese, a escala proporcionada pela tecnologia e suas hiperligações – digitalização, automação, inteligência artificial, computação avançada – exige o alargamento dos mercados globais que tornam lucrativos os investimentos realizados e, acima de tudo, se traduzem na capacidade de definir standards tecnológicos globais, capacidade industrial e controlo de cadeias globais de abastecimento de recursos críticos. No plano europeu a política pública tem assentado em regulação, investimento e normalização técnica. No plano regulatório com legislação sobre gestão de dados, serviços digitais e inteligência artificial, procurando assegurar as condições de funcionamento do mercado que tenham em conta controlo, segurança e previsibilidade, o que influencia também a forma como as tecnologias são desenvolvidas e utilizadas fora da Europa. Ao nível do investimento há um esforço importante para desenvolver capacidade própria, em áreas como cloud, computação avançada, semicondutores e cibersegurança e na vertente da normalização técnica é relevante a definição de standards em áreas como interoperabilidade, segurança e IA que permitem à União Europeia influenciar mercados e cadeias de valor a uma escala mais ampla.

Dito isto, a transformação estrutural da indústria europeia projeta-se para o século XXI através de uma matriz energética mais renovável (1), infraestruturas de rede, capacidade computacional e inteligência artificial de suporte a ecossistemas tecnológicos (2), novas fileiras e consórcios empresariais e industriais inseridos em cadeias críticas de abastecimento e circularidade (3), uma nova geração de atividades científicas e culturais, com mais conteúdos criativos (4) e a rematar este complexo, uma rede de infraestruturas críticas de proteção, vigilância e cibersegurança (5), Neste contexto, a dúvida que permanece é dupla. Por um lado, se esta reindustrialização salvaguarda a competitividade da Europa nos mercados globais, pois a Europa continua, por agora, a debater a soberania sem ter resolvido ainda as dependências estruturais que a limitam, das indústrias mais críticas à autonomia tecno-digital. Por outro, se salvaguardamos as nossas liberdades e direitos fundamentais no interior de um crescente universo tecno-digital.

Artigo publicado no Observador.

Leia também: União Europeia, a reforma da governação, do governing ao governance | Por António Covas

Esta imagem tem um texto alternativo em branco, o nome da imagem é logotipo-Europe-Direct-Algarve.jpg

Europe Direct Algarve faz parte da Rede de Centros Europe Direct da Comissão Europeia. No Algarve está hospedado na CCDR Algarve – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve.

CONSULTE!  INFORME-SE!  PARTICIPE!  Somos a A Europa na sua região! 

Newsletter * Facebook * Twitter * Instagram

  •  

A não necessidade dos porquês | Por Andrea Moura e Joaquim Caeiro

Durante muitos anos senti uma necessidade constante de compreender tudo.

“Porque me acontece isto?”

“Porque me acontece sempre o mesmo?”

“Porque não consigo sair desta situação?”

Procurava respostas, causas e justificações para aquilo que me fazia sofrer. E, muitas vezes, essa procura é importante. Compreender a origem de uma dor pode ajudar-nos a curá-la.

Mas existe uma diferença entre procurar compreensão e ficar preso numa busca interminável por explicações.

Quando vivemos agarrados aos porquês, corremos o risco de permanecer ligados ao passado, aos acontecimentos e ao papel de vítima. Sem nos apercebermos, colocamos fora de nós a responsabilidade pelo que sentimos e perdemos contacto com o nosso verdadeiro poder: a capacidade de escolher como lidamos com aquilo que nos aconteceu.

O passado ajudou a construir quem somos hoje. As experiências, as escolhas, os erros e os acertos fazem parte da nossa história. Contudo, a nossa história não precisa de determinar o nosso futuro.

Se existem memórias, situações ou emoções que continuam a gerar sofrimento, é importante olhar para elas, integrá-las e, se necessário, procurar ajuda para as transformar.
Não para ficarmos presos ao que aconteceu, mas para nos libertarmos disso.

Talvez a questão mais importante não seja:

“Porquê?”
Mas sim:
“Como?”

Como quero viver a minha vida? Como quero sentir-me? Como quero relacionar-me comigo e com os outros? Como quero utilizar a minha energia? Como posso transformar aquilo que vivi numa força para avançar?

O “como” convida à ação. Implica escolha, responsabilidade e movimento.

Não podemos mudar o passado, mas podemos mudar a forma como nos relacionamos com ele.
Acredito que muitas pessoas continuam em sofrimento porque procuram incessantemente justificações para aquilo que viveram. No entanto, a verdadeira liberdade surge quando deixamos de procurar respostas para tudo e começamos a construir conscientemente o caminho que queremos percorrer.

A necessidade de saber porquê pode tornar-se uma prisão.
A não necessidade de saber porquê pode ser profundamente libertadora.

Chega um momento em que precisamos de deixar de olhar constantemente para trás e começar a olhar para a frente. Honrar a nossa história, sem viver presos a ela.

E talvez a vida nos continue a perguntar:
“Como queres viver daqui para a frente?”
Cabe a nós escolher.

Gratidão.

  • Artigo da autoria de Andrea Moura e Joaquim Caeiro

Leia também: Auto-conhecimento e liberdade | Por Andrea Moura

  •  

Imposto saudável

Sabendo-se o quanto são potencialmente danosos as bebidas alcoólicas, os refrigerantes e os cigarros, uma maneira inteligente de combater o abuso é o imposto seletivo. O desestímulo ao consumo depende de definição das alíquotas pelo Congresso, transformado em ringue simbólico onde equipes de saúde enfrentam as forças do cifrão.A sábia articulação terá seus primeiros efeitos já em 2027, convergindo a mecânica de mercado, com preços mais altos, e as recomendações dos médicos para conter doenças. Por tabela, o governo arrecada mais, além de desonerar hospitais, alcançando a benfazeja medida veículos poluentes, atividades mineradoras, loterias, apostas e jogos.Quem não curtiu foi o investidor, tanto o industrial como o varejista, restando levar em conta fortemente a migração para o mundo verde, no qual as mercadorias fazem bem. A medida aguçou olhares distintos: quem lê a vida por viés humanista está feliz porque óbitos serão adiados; quem tem obsessão por números, vê desemprego e falências. Leia Também: EDITORIAL Rapina digital EDITORIAL Patrimônio das letras OPINIÃO O lar da luta racial Mesmo estes afeiçoados aos algarismos podem, no entanto, relevar seu pessimismo: o consumo de álcool custou, no levantamento anual mais recente, 1 bilhão em tratamento. O peso maior foi para a rubrica perda de produtividade, licenças, aposentadorias compulsórias, falta ao trabalho por internação e afastamento médico previdenciário: 17,7 bi.Não entra no prontuário eletrônico o preço da dor do sofrimento provenientes de cirroses, pancreatites, diabetes, cânceres, acidentes vasculares e os males mais variados. Tampouco os tecnoburocratas encontraram algum teorema, desde Pitágoras, para quantificar a influência das adições no comportamento, causando conflitos e mortes.Queixam-se os produtores de vinho, destilados, cerveja, cachaça, refrigerantes e cigarros, e com toda razão, devido à ameaça de reduzir suas margens de lucros. No primeiro momento de adaptação, é possível admitir alguma perda, mas logo, logo, saberão, com o apoio do governo, encontrar um meio de ajustar as vendas.

  •  

Acelerar até ao desastre?

O plano para acelerar as renováveis pode abrir 7% do território continental a centrais energéticas e levanta alertas sobre ambiente, ordenamento e participação pública. Opinião de Demétrio Alves
  •  

Biba la Lhibardade

A opinião de Aníbal Fernandes em mirandês no encerramento do programa EDA 50 – Escolas à Descoberta de Abril, que acontece hoje no Agrupamento de Escolas de Miranda do Douro. Opinião de Aníbal Fernandes
  •  

Cuidado com os marroquinos

Portugal e Espanha lixam-se, claro — toda a Europa é obviamente maltratada. Mas a Inglaterra safa-se, estranhamente — porventura porque está cheia de fãs de Mamdani. Crónica de Miguel Esteves Cardoso
  •  

Roberto Pereira: Adeus, Bertini

Onde está, ó morte, a tua vitória? Assim exclamou o apóstolo Paulo ao refletir sobre o sentido da existência e da eternidade. Para ele, a morte não representava castigo ou derrota, mas a passagem para o encontro definitivo com Deus.

Foi igualmente Paulo quem afirmou: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé”. O combate a que se referia não era uma guerra, mas a perseverança nos valores, a fidelidade aos princípios e a dedicação a uma causa. Creio que Alfredo Bertini, meu ex-aluno e querido amigo, percorreu esse caminho com admirável coerência.

Escrevo estas linhas com profunda tristeza. Receber a notícia de sua partida foi uma dolorosa pancada no coração. Acompanhávamos sua luta pela continuidade da vida, sempre marcada pelo entusiasmo, pela capacidade de trabalho e pelo espírito empreendedor que o distinguiu em todas as etapas de sua trajetória.

Na gestão de Joaquim Francisco, presidiu Suape e deixou uma marca de competência, ética e compromisso com o interesse público. Exercia a liderança com naturalidade, unindo lucidez e honradez em uma combinação rara e inseparável de seu caráter.

Mas quem foi Alfredo Bertini?

Desde os tempos de estudante, revelava qualidades incomuns. Dedicado aos estudos, destacava-se pela inteligência, pela disciplina e pela liderança. Tive a oportunidade de testemunhar essas virtudes em sala de aula.

Formou-se em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco, onde também concluiu o mestrado. Posteriormente, obteve o doutorado em Economia, pela Universidade de São Paulo. Sua sólida formação acadêmica permitiu-lhe desenvolver uma visão ampla, capaz de integrar cultura, desenvolvimento econômico e geração de renda, temas que orientariam sua atuação profissional e intelectual.

Ao lado de sua esposa, Sandra Bertini, criou e consolidou o Cine-PE – Festival do Audiovisual. O evento, que nasceu como Festival de Cinema do Recife, transformou-se em um dos mais importantes do país. Sob sua liderança, tornou-se espaço de encontro para cineastas, produtores, atores, estudantes e pesquisadores, contribuindo para fortalecer o audiovisual brasileiro e ampliar a visibilidade da produção realizada além do eixo Rio-São Paulo.

Em 2016, assumiu a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura. Defendeu a continuidade dos mecanismos de incentivo ao setor, buscou aprimorar a gestão pública e trabalhou em favor da modernização das políticas voltadas às novas plataformas de distribuição audiovisual.

Também deixou contribuição relevante como autor. Entre suas obras, destaca-se Quando o caso é de cinema, a paixão é um festival, livro que reúne reflexões sobre o universo cinematográfico e o papel dos festivais na difusão da cultura.

Entre 2004 e 2005, exerceu o cargo de secretário municipal de Turismo e Esportes do Recife. Nesse período, aprofundou sua compreensão da cultura como instrumento estratégico para o desenvolvimento econômico e social.

Mais do que gestor público ou produtor cultural, Alfredo Bertini tornou-se uma referência na defesa do audiovisual brasileiro e da economia criativa, como fatores de transformação da sociedade.

Brilha igualmente em sua trajetória a passagem pela Presidência da Fundação Joaquim Nabuco, onde reafirmou seu compromisso com a cultura, a educação, a pesquisa e a produção do conhecimento. Em todas as funções que exerceu, deixou a marca da competência, da dedicação e da visão de futuro.

Sua caminhada foi exemplar. Por suas obras e realizações, legou à família, aos amigos e à sociedade um patrimônio que o tempo não apagará. Permanecerá a saudade, mas uma saudade iluminada pelo orgulho e pela gratidão. Afinal, quanto mais os anos passarem, mais sua memória se libertará dos limites da morte.
Morte apenas biológica. Alfredo Bertini pode repetir, com justiça, as palavras de São Paulo: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé”.

*Roberto Pereira, Cadeira 35 — Academia Pernambucana de Letras

© Divulgação/ Sport Club do Recife

Alfredo Bertini tornou-se uma referência na defesa do audiovisual brasileiro e da economia criativa, como fatores de transformação da sociedade
  •  

Jones Figueirêdo Alves: Direitotecnia, uma nova metodologia

O direito positivo já não consegue, sozinho, responder às exigências éticas, científicas, ambientais, econômicas e existenciais do mundo contemporâneo. A lei permanece necessária, mas tornou-se insuficiente.

O século XX foi profundamente marcado pela hegemonia do positivismo jurídico. A segurança jurídica dependia da centralidade da lei escrita, da hierarquia normativa e da previsibilidade formal das decisões. Há um esgotamento do positivismo jurídico isolado e a pós-modernidade expôs os limites desse modelo.

Essa crise do direito não decorre apenas da inflação normativa ou da instabilidade jurisprudencial. Ela nasce da insuficiência dos modelos clássicos de interpretação diante de uma sociedade hipercomplexa, tecnológica, fragmentada e interdisciplinar.

É nesse cenário que emerge a ideia da Direitotecnia (expressão por mim cunhada), uma metodologia científica de aplicação do direito fundada nos princípios estruturantes do sistema jurídico, na racionalidade técnica e no diálogo interdisciplinar com outros campos do conhecimento humano.

Em um deslocamento paradigmático, o direito deixa de ser sistema normativo fechado para transformar-se em ciência integradora da complexidade social.

Passamos a operar uma realidade na qual o conhecimento jurídico precisa dialogar com a medicina, psicologia, economia, tecnologia, filosofia, neurociência, linguística, ética aplicada e outros ramos do saber. Nenhuma dessas áreas do conhecimento, como fenômenos de interesse, poderá ser adequadamente compreendida apenas pela literalidade normativa, senão por uma técnica científica de concretização do direito mediante integração principiológica e interdisciplinar.

A Direitotecnia nasce dessa insuficiência do direito autocentrado, promovendo a interdisciplinaridade estruturada. Parte da premissa de que a lei não contém todas as respostas; os princípios funcionam como vetores estruturantes, assumindo função nuclear.

Eles fornecem unidade axiológica ao sistema, permitem adaptação às transformações sociais, viabilizam ponderação de interesses e conectam o direito com os temas pós-modernos.

Quando controvérsias envolvem a bioética, a inteligência artificial, a proteção de dados, as mudanças climáticas, a genética, a neurociência e todas essas realidades exigem mediações técnicas provenientes de outros saberes; o direito deixa de operar isoladamente e passa a construir soluções integradas.

A pós-modernidade jurídica deslocou o centro do sistema, da regra para o princípio. Nesse cenário, princípios como os da dignidade da pessoa humana, proporcionalidade, razoabilidade, solidariedade, proteção integral, sustentabilidade, vedação do retrocesso, boa-fé objetiva, afetividade, vulnerabilidade, igualdade substancial, proteção da confiança legítima, entre outros, transformam-se em elementos operacionais da interpretação.

A Direitotecnia não interpreta apenas textos. Interpreta finalidades civilizatórias em dimensão humanística do direito. O operador não será mero repetidor normativo, há de efetivar princípios, dialogar com os saberes técnicos, reconhecer os limites epistêmicos, evitar tanto o formalismo cego quanto o voluntarismo subjetivo.

A pós-modernidade dissolveu certezas absolutas. O direito deixou um ambiente homogêneo, convive com a hiperconectividade, instantaneidade informacional, multiplicidade de narrativas, fragmentações sociais; advindo a necessidade da Direitotecnia como resposta metodológica a essa complexidade. O jurista não se limita à exegese normativa. Terá de compreender o ser humano em sua integralidade biológica, psicológica, tecnológica, econômica e existencial.

A Direitotecnia representa um novo estágio epistemológico do direito ao propor a integração científica do sistema jurídico com os demais campos do conhecimento. Um direito tecnicamente informado, principiologicamente orientado e humanamente responsável.

*Jones Figueirêdo Alves é Desembargador Emérito do TJPE. Advogado e parecerista.*

© Nano Banana/Gemini

A integração científica do sistema jurídico com os princípios fundamentais, tecnologia, ética e outros saberes, para um direito humanamente orientado e adaptado à complexidade contemporânea
  •  

O meu vizinho e amigo “Sr. Manuel Papo Seco”

Tinha como Manuel Miguel o seu nome oficial, como pude constatar, vezes múltiplas através da leitura de documentos oficiais – Certidão de nascimento, bilhete de identificação, etc. emitidos pelos serviços próprios. Nasceu em Loulé, sendo arreigadamente bairrista, deslocando-se várias vezes à sua terra natal, em algumas das quais o acompanhei – Batalha de Flores, Mãe Soberana e outras festividades louletanas e sendo um dedicado fã da Banda Artistas de Minerva, que ora completa os 150 anos de existência, assinalada efeméride que justifica as nossas mais efusivas felicitações. Nunca soubemos das razões que trouxeram este arreigado louletano até Faro, nem das motivações da alcunha «Papo Seco», porque era conhecido cidade em fora.

Seria pela forma clássica como sempre se apresentava? Ainda o vi a usar «polainites»…

Durante longas décadas fomos vizinhos e amigos. O sr. «Manuel Papo Seco» morou sempre no nº15 da Rua Infante D. Henrique e eu nos n.ºs 13 e 11 daquela artéria também conhecida por Rua Direita ou Rua da Carreira. Éramos «fronteiriços» do Grande Hotel, imponente imóvel construído ainda no século XVIII, a quando da «Era dos Cumanos» para unidade de saúde (tratamento da sífilis) e vindo posteriormente a ser unidade hoteleira de luxo (nela se instalou o malogrado presidente Sidónio Pais – «o presidente rei» e foi também centro de alojamento liceal. Nos tempos a que este escrito remonta (anos 40, 50 e 60 do século passado era o «Grande Hotel», hoje uma residência de apartamentos de luxo e que ocupa uma vasta área nas Ruas Infante D. Henrique, Dr. Teófilo Braga e da Viola, de armazéns de mercearia e frutos secos, bem como a sede dos Serviços de Abono de Família (hoje Segurança Social) e residência de ilustres famílias farenses – os Inglês O Ramos, os Tavares Belo (com destaque para o Maestro) e os Matos Parreiras (cujo líder além de Chefe da Delegação Aduaneira era um dos mais influente líderes do então partido único, a União Nacional. O vizinho e amigo Manuel Papo Seco era uma espécie de mordomo do Grande Hotel, ocupando um pequeno espaço com oficina de sapateiro. Era casado com a «vizinha Joana», benévola senhora que exercia o mister de «pespontadeira», uma actividade com reduzida ou quase nula expressão na cidade. Como não tiveram filhos adoptaram uma menina, a «Manelinha», que quando chegou a idade devida casou e foi morar para a Grande Lisboa, onde hoje, avó embevecida vive. Um trio de bons vizinhos, grandes amigos e gente que marcou a Faro dos tempos idos…

  •  

De Leão XIII a Leão XIV – a Encíclica Magnifica Humanitas

Mesmo quem não é católico praticante, mas se interessa pelos problemas sociais e políticos dos tempos em que se vive, facilmente toma conhecimento da sábia consciência com que a Igreja Católica, velha de muitos séculos, lida com as gerações em cada época. 

E se deu azo a períodos de grande asfixia das populações, isso ocorre sempre que os padres, seja de que religião for, acedem ao Poder.

Fora desses períodos, a figura dos Papas escolhidos teve sempre a ver com a realidade de cada tempo.

No conturbado século XIX   – nós achamos que este nosso século é especialmente conflituoso, mas também o século XIX o foi – ganhou relevância o Papa Leão XIII, quando publicou, em 1891, a sua Rerum Novarum. É forçoso ler aquele documento para quem quiser entender o que se passou daí em diante em termos politico-ideológicos. 

Naquela Carta Aberta, Leão XIII condena, no mesmo grau, o marxismo-leninismo simplesmente chamado socialismo, uma utopia que, na prática, conduzia à perda da individualidade dos trabalhadores, e o capitalismo liberal, que, com a revolução industrial, era avassalador e, por outros meios, conduzia os trabalhadores a idêntica submissão.

Escreveu então: “recordem-se o rico e o patrão de que explorar a pobreza e a miséria e especular com a inteligência são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas”; mas também: “…os socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida...”

Ninguém se convença que foi por acaso que, a seguir a um Papa como foi Francisco, a Igreja escolheu um outro Papa que retoma o nome de Leão  talvez as contradições e acções lesivas da dignidade humana e de uns povos contra outros exija este Papa.

E a encíclica Magnifica Humanitas, que saiu no dia 15 de Maio, merece ser lida por quem se interessa pelos problemas que afectam o nosso mundo, o caos que campeia em muitas regiões assoladas pela guerra e a falta de consciência que a maioria dos governantes revela face aos problemas da biodiversidade ameaçada pelas alterações climáticas.

!35 anos após a Rerum Novarum, publicada quando se assumia que uma profunda mudança iria ocorrer no mundo com o comunismo e o liberalismo capitalista, uma nova e profunda transformação já iniciada deixa antever que vai afectar todos os povos do planeta de forma desigual.

Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais evidente o quão rápida e profundamente a digitalização, a inteligência artificial e a robótica estão a transformar o nosso mundo” – diz-se na abertura da Enciclica.

Outrora, eram os Estados quem assumia a orientação da vida dos povos, agora, como denuncia Leão XIV, são actores privados, transnacionais, dotados de capacidades superiores às de muitos Governos, pelo mundo fora.

A ideia de um desenvolvimento sustentável pelo qual muitos de nós lutam e sem êxito, também é sinalizado nesta encíclica: “A ideia de um desenvolvimento humano integral, encontra hoje um decisivo critério de avaliação na ecologia integral…”.

Não se pode atribuir ao algoritmo e à IA a definição das nossas vidas, e o documento papal aborda de forma contundente para muitos poderes instituídos, questões como a democracia, a busca pela liberdade, o desemprego como mal muito grave, a dignificação do trabalho, e a guerra que impõe a obrigatoriedade de lutar pela paz.

É um documento não demasiado extenso que merece ser lido por todos, com a certeza de que certos energúmenos, como Putin ou Trump ou Netanyahu, para citar apenas alguns dos mais icónicos. Não vão gostar.  E só isso já é uma consolação.

Gostou do que leu? Ajude-nos a continuar!
 
O nosso compromisso é levar até si notícias rigorosas, relevantes e próximas da sua comunidade. Para continuarmos a fazer o que fazemos, precisamos do seu apoio. Qualquer donativo, por mais pequeno que seja, faz a diferença e ajuda a garantir a continuidade deste projeto. Juntos, mantemos a informação viva no Algarve e no Alentejo.
Obrigado por fazer parte desta missão!
Contribua aqui!

O conteúdo De Leão XIII a Leão XIV – a Encíclica Magnifica Humanitas aparece primeiro em Sul Informação.

  •  

Associativismo Estudantil: quando os estudantes constroem a universidade

No setembro passado, ao ingressar no Mestrado em História da Arte e Património, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, deparei-me com uma ausência que já me parecia evidente desde a licenciatura: a inexistência de um núcleo estudantil dedicado aos alunos de História da Arte. Faltava um espaço de representação e dinamização, capaz de aproximar estudantes de licenciatura, mestrado e doutoramento, mas também docentes, investigadores e profissionais da área. Depois de ouvir vários professores, que reconheceram a importância desta criação, decidi avançar, apesar do receio inicial de que a ideia pudesse ficar apenas no entusiasmo de uma pessoa.

Foi assim que nasceu o NEHAP (Núcleo de Estudantes de História da Arte e Património). Concebi o nome, os primeiros objetivos e a identidade do projeto, divulgando-o depois junto dos estudantes através dos grupos de turma e de um processo de entrevistas que permitiu reunir uma equipa motivada e diversa. Aquilo que começou como uma inquietação individual tornou-se uma construção coletiva, assente numa convicção simples: a universidade não se esgota nas aulas, nos exames ou nos trabalhos escritos; deve ser também um espaço de comunidade, debate, produção científica, contacto profissional e crescimento pessoal.

Agora, quando o primeiro ano da minha presidência se aproxima do fim, sinto a necessidade de deixar uma reflexão dirigida aos meus colegas do ensino superior: estas estruturas são vitais. Ao longo deste mandato, o NEHAP procurou demonstrar que um núcleo estudantil pode ter um impacto concreto na vida dos estudantes. Organizamos formações dedicadas à escrita científica e à produção investigativa, promovemos conversas com profissionais das respetivas áreas, criamos momentos de esclarecimento sobre percursos académicos e profissionais, e realizámos várias visitas de estudo, desde a Assembleia da República ao Museu de Arte Contemporânea.

Estas atividades não foram apenas eventos isolados. Foram oportunidades de contacto, descoberta e crescimento. Permitiram abrir portas a espaços que muitos estudantes talvez nunca tivessem pensado visitar, aproximaram os alunos de realidades profissionais diversas e criaram experiências de trabalho real, capazes de enriquecer o currículo, desenvolver competências e preparar melhor o futuro.

Foi também neste processo que compreendi uma das grandes lições do associativismo estudantil: um núcleo não serve apenas para organizar atividades. Serve para criar possibilidades. Pode ajudar um estudante a descobrir uma área que desconhecia, a ganhar confiança para participar, a contactar com profissionais, a construir currículo ou simplesmente a sentir que pertence a uma comunidade.

Os núcleos estudantis têm uma importância que, por vezes, é subestimada. No entanto, são estruturas capazes de influenciar percursos, aproximar pessoas, criar pontes entre estudantes e professores, e complementar aquilo que a instituição nem sempre consegue oferecer de forma imediata. Não substituem a universidade, mas tornam-na mais viva, mais participada e mais próxima dos seus estudantes.

Por isso, deixo um apelo: participem nos núcleos estudantis das vossas faculdades. E, se eles não existirem, criem-nos. Criem-nos em nome dos estudantes do vosso curso, da vossa área e da vossa comunidade académica. Porque, no fim, quando alguém se aproxima depois de uma atividade para agradecer, quando um estudante diz que aquele evento lhe abriu uma nova perspetiva, ou quando percebemos que uma iniciativa teve impacto real na vida de alguém, todo o trabalho invisível passa a fazer sentido.

No meu caso, são precisamente esses agradecimentos simples, mas profundamente significativos, que me fazem continuar. O associativismo estudantil exige tempo, responsabilidade, paciência e resiliência.

Mas também ensina algo que nenhuma unidade curricular consegue ensinar da mesma forma: que a universidade não é apenas um lugar onde se aprende. É também um lugar que podemos ajudar a construir.

  •  

Jogador do ano na Premier League, do talento à excelência…

…De seu nome completo Bruno Miguel Borges Fernandes, hoje com 31 anos, destro de pé preferencial, a atuar no Manchester United como médio centro e segundo avançado, desde que chegou em janeiro de 2020 por 55M€+ 25M€ em objetivos. A atuar com o número 8, sendo capitão de equipa há 3 épocas e com contrato até 30 de Junho de 2027, com opção por mais um ano.

Depois de ter sido considerado o jogador do ano na Premier League, estabeleceu novo recorde de passes para golo (assistências) numa só época na competição e nos 3068 minutos de utilização, em 35 jogos realizados. Foram 21 os últimos passes para golo, a ‘explicar’ a arte que lhe é tão característica e que lhe permitiu ultrapassar o recorde que estava na posse do francês Thierry Henry (Arsenal, época 2002/03) e do holandês Kevin de Bruyne (M.City, 2019/2020).

É realmente impressionante o trajeto deste formidável jogador, talvez que a justificar, de todo, a designação de se constituir num manual de ‘fazer, estar e ser’. Recordar que saíu de Portugal com 17 anos para Itália, sem saber falar italiano e sem qualquer rede a ampará-lo. Jogou no Novara, tinha 18 anos. Mais tarde, na Udinesse, onde aprendeu tática, marcação, sacrifício, começa a emergir como talento bruto, a justificar ser lapidado, na medida em que talento sem disciplina ‘só’ dará… promessa.

A atuar no Sporting – 2027/2020 -, começa a assumir a responsabilidade de marcar livres, penáltis, a ser capitão. Condição para juntar a arte e o exemplo de deixar de jogar só para si e passar a jogar mais para o coletivo.

Depois, a sua ‘casa’ atual, onde ao talento juntou (outra) mentalidade e (nova) presença, ‘explicando’ que excelência, significa ser consistente, aliada à atitude e ao impacto nos outros. De sublinhar que, enquanto miúdo e no Novara, marcou 4 golos, e agora, no firmamento do estrelato, enquanto capitão de uma equipa – sita em Old Trafford – já regista na sua conta pessoal 107 golos.

Far-se-á justiça, se e enquanto com: ”rosto, voz e coração”, considerarmos que Bruno Fernandes nunca terá sido ‘menino prodígio’, do jeito de Figo ou Ronaldo, foi-se construíndo jogo a jogo, época após época, a dar provas de que o ‘palco’, dos egocêntricos, não tem sido o seu ADN, antes ‘no terreno’ e com ‘chão’ e ‘voz’ autorizada de verdadeiro ídolo, porque ensina… sendo!

Mérito que se enaltece, a fornecer um extraordinário exemplo de como sabendo fazer, estar e ser se consegue sulcar os ‘mares’, nem sempre bonançosos, com o compromisso de uma ‘rota’, enquanto navegadores com bússola, que nos leve a ‘porto seguro’, porque: “Do talento à excelência”!
Uma vez mais, as tais ‘coisas’ da ‘coisa desportiva’… e não só!

*Embaixador para a Ética no Desporto, uma vez, Embaixador para sempre

  •  

Duas guerras

Sou suspeito, já que é – quase – sempre um assunto que me interessa, a nova série do canal História, “A Segunda Guerra Mundial com Tom Hanks”, com o grande planos da voz do actor, que acumula funções com a de co-produtor, e que trata como já devem ter percebido da Segunda Guerra Mundial.

Dito isto, desta singela forma, assim como quem não quer a coisa, podemos perguntar: precisa, o Mundo, de mais uma série documental sobre a Segunda Guerra Mundial? Eu responderia que talvez não, tantas são as séries que já nos foram oferecidas olhando o conflito sobre variados ângulos, geralmente na perspectiva dos vencedores. Com imagens a preto e branco, coloridas a posteriori, entrevistas a personalidades, antigos militares, pessoas comuns (populares para a imprensa tuga), são horas e horas de opiniões e factos, sobre o maior conflito da história da humanidade. De todo o material que tenho visto, o grosso da coluna navega, de uma forma geral no mar dos factos que já são conhecidos, e uma vez por outra traz à lidação imagens ainda não editadas e, nalguns casos, uma por outra com mais sangue e violência, que é o resultado do pé ante pé, que procura tactear o que é aceitável passar-se para o grande público. “A Segunda Guerra Mundial com Tom Hanks”, não foge à regra, não embarcando em versões revisionistas da História. Tenho a ideia que, desde o contributo dos historiadores mais consagrados, tudo o que lá se vê, já se aceitava nos idos de setenta, oitenta. O que tem vindo de novo são mais pormenores que outra coisa, mesmo depois da abertura de muitos ficheiros do mundo de leste, depois da queda do muro. Sem dúvida que o trunfo aqui me parece a voz de Hanks, que faz a diferença, nas narrações. Nada que me lembre mais as versões dos filmes para a criançada em versão portuguesa – que me perdoe o sindicato dos actores de teatro e cinema português nada ultrapassa o original. O restante é muito linear, mas está bem defendido pelo tratamento das imagens (muitas delas já conhecidas) e pelas declarações dos estudiosos que me parecem inatacáveis, simples e sem grandes leituras políticas. Claro que, para quem está interessado em discussões e segundas intenções (qualidades como quaisquer outras), não precisa de esforçar a vista: não está no sítio certo.

O jornalismo tuga anda pela hora da morte: perguntas chatas a políticos só em meses bissextos e no dia trinta de Fevereiro. Passos Coelho, um dos políticos que joga todos os trunfos na cegueira que lhes relatei na linha anterior, farta-se de fazer de S. Sebastião (acompanhado por aquele que não ousamos dizer o nome), sempre a ditar frases obscuras que, de certeza o divertem, quando olha para as caras de parvo da malta que o acompanha, por amor ou interesse. Uma coisa é uma coisa, outras, outra, mas o denominador comum das suas declarações é: “quero chamara a atenção para as reformas que os políticos não querem fazer”. E nem um empecilho daqueles jornalistas lhe pergunta: “Ora diga-me lá, só para nos dar um exemplo, quais são essas reformas de que fala?”. Talvez que se os tugas soubessem, lhe deixassem de perguntar, que hão-de ser tão boas, que podia ser que nunca mais lhe olhassem para a cara.

  •  
❌