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Dez anos sem projeto e uma década inteira de polarização imbecilizante

Desde a eleição de 2018, o Brasil deixou de discutir o futuro e passou a sobreviver das narrativas que sustentam a polarização. E isso não parece que vai acabar tão cedo. Você sabe dizer qual foi a última vez em que o país teve um plano para o futuro? Faz dez anos que tivemos algo parecido com um projeto estruturado de médio e longo prazo. Foi entre 2015 e 2016, quando o então PMDB lançou o documento "Uma Ponte para o Futuro", que serviria de plataforma política e econômica para o governo Michel Temer.

Faz uma década. Dez anos em que o debate nacional foi substituído por batalhas emocionais, slogans eleitorais e urgências imbecilizantes.

Ruptura

O fracasso político de Michel Temer em construir uma candidatura competitiva para a própria sucessão coincidiu com outro acontecimento decisivo. Luiz Inácio Lula da Silva foi preso sob acusações de corrupção e a eleição seguinte deixou de ser uma disputa entre projetos de país. O centro da discussão passou a ser a rejeição ao adversário. Além dos discursos para encantar cretinos que são feitos à esquerda ou à direita com um empenho tocante.

Jair Bolsonaro foi o principal beneficiário desse ambiente em 2018. Sua campanha reuniu desde a pauta legítima do combate à corrupção até teorias conspiratórias sobre comunismo, China, perseguição religiosa e ameaças imaginárias à sociedade brasileira. O ponto central era simples: impedir a volta do PT ao poder.

Bolsonaro não venceu porque apresentou um plano detalhado para o Brasil, mas porque milhões de brasileiros queriam evitar que o PT governasse novamente. A eleição foi decidida muito mais pela rejeição ao passado do que pela confiança no futuro.

Governo

O problema surgiu quando a campanha terminou. Porque se não há plano, o Executivo vai executar o que? O resultado foi uma gestão marcada por conflitos permanentes, crises sucessivas, improvisação e uma enorme dificuldade para transformar discurso em direção estratégica.

Existiram exceções relevantes. Tarcísio de Freitas no Ministério da Infraestrutura e Tereza Cristina no Ministério da Agricultura conseguiram produzir resultados concretos em suas áreas. Mas as exceções apenas reforçaram a percepção de ausência de rumo no restante do governo inteiro. Até Paulo Guedes, que começou a história como o "Posto Ipiranga", um tipo de oráculo que tudo resolveria, terminou enredado no caos.

Ao final de quatro anos, o Brasil continuava sem um projeto nacional capaz de orientar investimentos, produtividade, crescimento econômico ou modernização institucional.

Retorno

Para quem acreditava que a mudança de governo resolveria esse problema, a realidade trouxe outra surpresa.

Lula retornou ao Palácio do Planalto carregando uma missão pessoal evidente. Precisava demonstrar que ainda era capaz de governar e reescrever o capítulo mais delicado de sua trajetória política. O objetivo político era transformar as acusações de corrupção, que marcaram seus últimos anos antes da prisão, em uma nota secundária da própria biografia. Mas também faltava um projeto. E sem projeto não tem o que executar, como já dissemos.

A principal proposta apresentada na campanha de 2022 foi impedir a reeleição de Jair Bolsonaro. O discurso funcionou eleitoralmente. O problema começou novamente depois da posse.

Três anos e meio depois, o governo acumula dificuldades para apontar uma realização transformadora que redefina o rumo do país. Não existe uma agenda econômica comparável ao Plano Real ou mesmo ao combate à pobreza que o próprio Lula implementou nos primeiros mandatos. Não existe uma agenda social comparável ao Bolsa Família. Não existe uma agenda institucional capaz de reorganizar a relação entre Estado, produtividade e desenvolvimento.

O governo Lula administra acontecimentos. Não conduz uma estratégia nacional. É pífio, errático e danoso para o futuro, como também era Bolsonaro.

Eleição

Agora o país se aproxima de mais uma eleição presidencial. E o debate caminha novamente para o mesmo lugar. De um lado, o discurso de impedir que o PT permaneça no poder. Do outro, a mobilização para impedir o retorno do bolsonarismo.

As campanhas começam a se organizar em torno das mesmas emoções, dos mesmos medos e das mesmas rejeições que dominam a política brasileira há quase dez anos. Agora tem a relação com Donald Trump como ingrediente. Quem é amigo dos EUA e quem defende o Brasil?

A pergunta fundamental continua sem resposta. Qual é o plano para o Brasil? Como aumentar produtividade? Como melhorar a qualidade do gasto público? Como preparar o país para inteligência artificial, envelhecimento populacional, transição energética e competição internacional? Como recuperar a capacidade de investimento do Estado? Como aumentar renda sem ampliar dependência fiscal? Algum dos dois principais candidatos discutiu isso nos últimos meses? Nos últimos anos?

Futuro

A esperança brasileira virou a próxima eleição. E essa talvez seja a maior armadilha política da última década. Cada disputa é apresentada como decisiva. Cada adversário é tratado como uma ameaça existencial. Cada campanha promete impedir uma catástrofe. Terminada a votação, o país descobre novamente que continua sem direção.

Enquanto houver eleitores dispostos a embarcar nessas duas narrativas imbecilizantes, não existe motivo para acreditar que o Brasil voltará a discutir seriamente o próprio futuro. Quem for sério, que sonhe.

© Thiago Lucas

Trump e a eleição no Brasil entre Lula e Flávio Bolsonaro
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Eleição em Pernambuco: toda antecipação será castigada

A entrada do senador Rodrigo Pacheco no PSB parecia resolver vários problemas políticos ao mesmo tempo. O acordo envolveu o presidente nacional do partido, João Campos, o presidente Lula e o próprio senador mineiro. Pacheco deixaria o PSD para disputar o Governo de Minas Gerais pelo PSB, oferecendo ao petismo um palanque competitivo em um dos estados mais importantes do país.

Em troca, os socialistas esperavam fortalecer a defesa de uma candidatura praticamente exclusiva de Lula em Pernambuco, ampliando o alinhamento entre PT e PSB na eleição estadual. Mas, até agora, deu tudo errado.

Minas

A construção começou a apresentar rachaduras antes mesmo de sair do papel. Pacheco enfrentou resistência dentro do próprio campo lulista. Parte do PT passou a criticá-lo por sua postura durante o processo de indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. O ambiente se deteriorou rapidamente. O senador desistiu da disputa pelo governo mineiro e o PT iniciou a procura por alternativas.

Hoje, as conversas em Minas Gerais passam muito mais pelo MDB e por nomes do próprio PT do que pelo PSB. Isso muda completamente a equação política construída meses atrás. O partido de João Campos ainda luta, mas começou a deixar de ser a principal ferramenta para resolver um problema estratégico do presidente da República em um estado decisivo como MG.

Espelho

A importância de Minas Gerais para a eleição presidencial é conhecida há décadas. O estado costuma reproduzir, com impressionante frequência, o comportamento do eleitorado brasileiro. Em 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro em Minas por uma margem muito próxima daquela que garantiu sua vitória nacional.

Existe uma explicação geográfica e política para isso. Minas faz divisa com estados de praticamente todas as grandes regiões do país e recebe influências econômicas, culturais e eleitorais muito distintas. O Norte mineiro possui características sociais e eleitorais semelhantes às do Nordeste. O Sul de Minas se aproxima do perfil encontrado em parte do Sudeste. Há regiões que dialogam com o Centro-Oeste e áreas fortemente integradas ao eixo Rio-São Paulo. Poucos estados conseguem reunir tantas características do eleitor brasileiro em um único território.

Por isso, qualquer dificuldade de Lula para montar um palanque competitivo em Minas deixa de ser um problema regional e passa a ser uma preocupação nacional.

Troca

O cálculo do PSB era relativamente simples. O partido aceitaria hospedar lideranças consideradas estratégicas pelo PT. Rodrigo Pacheco em Minas Gerais e Simone Tebet em São Paulo são exemplos dessa lógica. Em troca, os socialistas esperavam reciprocidade onde realmente precisam dela: Pernambuco.

A expectativa era que Lula restringisse seu apoio estadual ao projeto liderado por João Campos. O raciocínio político era objetivo. Se o presidente conseguisse concentrar seu eleitorado pernambucano em uma única candidatura ao governo, parte dos votos lulistas que hoje também alcançam a governadora Raquel Lyra poderia migrar para o ex-prefeito do Recife.

O problema é que essa conta dependia da capacidade do PSB de entregar ativos relevantes para Lula em outros estados. Com a saída de Pacheco do jogo mineiro, esse argumento perdeu força. E existe uma realidade difícil de ignorar: o PSB continua sendo um partido de porte pequeno quando analisado sob a perspectiva nacional.

Recado

Nesse contexto, ganhou relevância uma declaração recente do senador Humberto Costa (PT). Em entrevista a uma rádio do interior, o parlamentar afirmou que o apoio de Lula a Raquel Lyra continua sendo discutido em Pernambuco. Acrescentou ainda que “ninguém renuncia a votos em uma eleição”. E ela tem votos.

A frase parece simples, mas carrega significado político. Presidentes disputando reeleição ou tentando eleger sucessores costumam ampliar alianças, não as reduzir. Quanto menor a margem nacional, maior a tendência de incorporar apoios regionais.

A observação de Humberto surgiu justamente quando o PSB encontra mais dificuldades para oferecer contrapartidas nacionais ao PT. Pode ter sido apenas uma constatação objetiva da realidade eleitoral. Pode também ter funcionado como um aviso de que as negociações permanecem abertas.

Tempo

A eleição pernambucana foi antecipada com intensidade incomum. Movimentos que normalmente ocorreriam perto das convenções passaram a ser discutidos meses antes. Palanques foram desenhados, alianças foram tratadas como definitivas e algumas disputas foram apresentadas ao público como se estivessem resolvidas.

A política não funciona dessa forma. A definição do comportamento de Lula em Pernambuco continua ligada a fatores que ultrapassam as fronteiras do estado. Minas Gerais é um exemplo evidente. Um acordo que parecia consolidado em Belo Horizonte produzia efeitos diretos sobre o cálculo eleitoral no Recife.

Até posições consideradas centrais para a disputa pernambucana ainda dependem da conjuntura de estados localizados a milhares de quilômetros daqui. A política nacional continua interferindo na política local. E toda antecipação será castigada.

© RODOLFO LOEPERT

João Campos, presidente nacional do PSB, e Rodrigo Pacheco, quando passou a integrar o partido
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