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Uma buganvília no caminho: contornos de um mapa esquivo

Do meu grande sentido de desorientação já dei conta em diversas crónicas – é verdade que esta e outras características menos abonatórias, as pessoas normalmente escondem, disfarçam. Afinal, como constatei com as reacções a algumas dessas crónicas, não estou sozinha no reino dos desorientados.

Há muitos e muitas mais, discretos. Afinal, a desorientação é algo do foro privado e ninguém tem de a conhecer, excepto quando afecta terceiros. Mas adiante, pois não é esse o tema destas breves linhas.

Elas referem-se sobretudo à minha primeira ida ao Festival Literário Fólio, em Óbidos. Tinha visitado a vila apenas uma vez, quando, numa espécie de viagem de finalistas, terminado o 11.º ano, fiz com alguns colegas e professores, uma volta ao país, que durou uma semana e nos levou de São Brás de Alportel a Viana do Castelo, com acampamento em diversos parques de campismo do país. Da paragem em Óbidos, ficou-me uma enorme náusea e um banco onde me sentei, sem forças, enquanto todos os outros foram visitar a vila.

Desta vez, estreei-me também num alojamento local. Uma aventura de códigos, passwords, palavras mágicas que deviam abrir portais, uma espécie de abre-te sésamo, só que o sésamo nem sempre abria. Senti que era uma mistura de peddy paper com caça ao tesouro. Sim, o primeiro passo era descobrir a rua onde ficava o alojamento. Tinha arranjado o mapa no posto de turismo e pedi à jovem que me entregou o tal código que a localizasse no mapa. Só que ela insistia em QR codes, apps… Sou sincera, apps ainda vá. QR codes é algo que me faz alergia, desperta-me certos instintos desconhecidos, selvagens, “viscerais» -para usar uma palavra moderna, sonante, daquelas que aparecem em todo o lado, pois tudo é «visceral», até a alma, fazendo parecer que andamos com fígados, intestinos, presos ao pescoço. Essencialmente, porque para tudo é preciso o amaldiçoado QR code. Lá está o quadrado cheio de pontos manhosos, constantemente a rir-se de quem não nasceu na tal «era digital»… O facto é que o meu mapa em papel provocou na jovem o mesmo efeito que em mim os QR codes. Segundo ela, o mapa estava todo mal feito. Não batia nada certo. Tudo fora do sítio, desde a Câmara à farmácia. Imaginei um imenso «mapa esquivo» (título de um belíssimo livro de poesia de Fernanda Dias, escritora e pintora que viveu em Macau muitos anos, vive em Faro e que ainda poucos por aqui, infelizmente conhecem), com edifícios e monumentos em trânsito, a mudarem de lugar para ficarem mais perto ou longe uns dos outros e assim constarem no «retrato», ou melhor, no mapa. No fim, ficou cada uma na sua, ela com o seu precioso QR e eu com o mapa em papel, disposta a descobrir para onde tinham «abalado» os edifícios, nomeadamente aquele onde eu ficaria alojada. Das atribulações da aventura não vale a pena dar conta, mas foram vários códigos marcados em sítios inadequados, que não funcionaram. No entanto, não notei nada esquivo, o mapa pareceu-me bastante fiel. E o melhor: encontrei um belo e fixo ponto de referência. Sim, fixo, porque uma vez considerei como referência um pastor-alemão deitado, que quando me fez mais falta, decidiu dormir noutro sítio… Desta vez foi uma buganvília esplendorosa, a derramar cor sobre um muro caiado.

Orientou-me os passos e os regressos após as sessões. Ao ver as suas flores acenarem-me, desejei que ali permanecesse sempre, a deleitar, a apontar caminhos (a gente orientada, desorientada, humana…), que nunca nenhum malfadado código lhe ofuscasse a beleza, a poesia, a vida.

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Alcantarilha: património, arte contemporânea e futuro cultural

Mais do que a recuperação de um edifício, a reabilitação das ruínas do Castelo de Alcantarilha representou uma oportunidade para devolver à vila um papel cultural ativo, ligando património, arte e participação pública.

O Castelo de Alcantarilha foi edificado durante o período de ocupação muçulmana com o objetivo principal de defesa das povoações costeiras.

A partir do século XVII, entrou numa fase de declínio e degradação estrutural. No século XX, teve múltiplas funções e ocupações, e, nos últimos 25 anos, esteve fechado, sem utilização pública ou privada.

Promovido e executado pelo executivo camarário de Silves, as ruínas do Castelo de Alcantarilha sofreram um processo de reabilitação profunda para se transformar no atual Centro de Exposições de Alcantarilha (CEA).

Foi inaugurado no dia 3 de setembro de 2023, pela então presidente da Câmara Municipal de Silves, Dra. Rosa Palma.

É um equipamento cultural de média dimensão, destinado à promoção e divulgação de arte contemporânea nas suas diferentes expressões e manifestações: pintura, escultura, fotografia, desenho, etc.

Alcantarilha é uma vila milenar que, após a Revolução do 25 de Abril e com as transformações económicas associadas ao crescimento do turismo, foi perdendo progressivamente a importância económica e o protagonismo cultural de outros tempos.

Hoje, tenta recuperar esse dinamismo humano, social, cultural e económico.

Várias associações culturais privadas laicas, como  a Aldepa (Associação de Defesa do Património Cultural e Natural de Alcantarilha), e outras de cariz religioso, como a Irmandade do Nosso Senhor Jesus dos Passos de Alcantarilha, têm promovido, nos últimos anos, várias iniciativas  e eventos que visam promover e divulgar Alcantarilha, com base no seu património e passado cultural, religioso, artístico, arqueológico e arquitetónico.

A inauguração e a atividade do CEA vêm integrar-se neste processo de renovação de Alcantarilha, assumindo a Câmara Municipal de Silves uma maior responsabilidade para dar à vila uma nova vida.

Sul Informação

Coleção de Arte Contemporânea Privada Luís Negrão e Família

A Coleção de Arte Contemporânea Privada Luís Negrão e Família (CLNF) é uma coleção dedicada à arte contemporânea portuguesa, reunindo obras de arte de vários artistas de reconhecido percurso, que refletem diferentes tendências e movimentos artísticos e percorre várias décadas de criação artística.

A coleção tem sido apresentada ao público em vários espaços expositivos do país, particularmente em Alcantarilha, no Centro de Exposições de Alcantarilha.

A programação da sua atividade costuma explorar temas variados, promovendo o diálogo entre obras, estilos e contextos, o que enriquece a experiência do público e estimula a reflexão sobre a arte contemporânea.

À semelhança de outras coleções privadas de arte, a CLNF tem, na sua matriz de origem, o compromisso cívico e o dever ético de partilha pública da coleção.

Independente da posse, pública ou privada, as obras de arte fazem parte do património cultural de um povo e o usufruto e apreciação por todos deve ser estimulado e apoiado.

A CLNF apresentou, no ano de 2023, e pela primeira vez, um conjunto de obras de arte em duas exposições distintas, no Centro de Arte e Espetáculos da Figueira da Foz e no Edifício Chiado de Coimbra.

Ainda no ano de 2023, a convite da Sra. Presidente da Câmara Municipal de Silves, Dra. Rosa Palma, organiza uma exposição de arte para a inauguração do CEA, no dia 3 de setembro, dia do município. Foi apresentada a exposição “Quebra-Costas”, com curadoria de Hugo Dinis. Recordando um espaço público célebre de Coimbra, o quebra-costas, a mostra reuniu 29 obras de arte, numa viagem visual eclética percorrendo várias décadas de arte contemporânea portuguesa.

A colaboração entre a CLNF e a Câmara Municipal de Silves desenvolveu-se nos anos seguintes.

Em 2024 e integrada nas comemorações municipais da celebração dos 50 anos da Revolução do 25 de Abril, apresentou a exposição “Eduardo Gageiro”, organizada por Hugo Dinis, e que reuniu um conjunto de 14 fotografias históricas sobre a Revolução do 25 de Abril, da autoria de Eduardo Gageiro.

No ano de 2025, e iniciando a colaboração com o curador Hugo Santos Silva, inaugurou a exposição “Vínculo, encontro para um jardim”. Integrando 18 obras de arte, é pensada como experiência ambiental e sensorial, explorando a relação entre formas e sentidos, sugerindo novos modos de ver e experienciar a arte contemporânea.

Ainda em 2025, é apresentada a exposição “Homenagem”, com 16 obras do artista autodidata alcantarilhense Inácio José de Oliveira Mendonça, reforçando o sentimento da arte local e memória cultural.

Em Silves, é inaugurada, no Teatro Municipal Mascarenhas Gregório, a exposição “Lugar, Lugares” com 25 obras de cerâmica do artista plástico António Vasconcelos Lapa.

Outras iniciativas baseadas estão programadas para os anos de 2026 e 2027, com a ambição de consolidar uma programação cultural regular e qualificada.

As coleções privadas de arte contemporânea desempenham hoje um papel cultural relevante e cada vez mais importante no país e têm colaborado ativamente com instituições culturais públicas (museus regionais, municipais e nacionais) e privadas (Fundação Gulbenkian e Fundação de Serralves, por ex.) para apresentar as obras de arte que têm sob a sua responsabilidade.

Estes três anos, 2023-2026, de colaboração entre a Câmara Municipal de Silves e a Coleção de Arte Contemporânea Privada Luís Negrão e Família, são um bom exemplo como entidades públicas e o colecionismo privado podem colaborar para a afirmação cultural de uma região, e neste caso, do concelho de Silves.

Sul Informação

O Futuro

O Algarve, ainda enfrentando desafios comuns às regiões periféricas – como público reduzido e financiamento limitado -, tem apresentado, nos últimos anos, uma experiência cultural cada vez mais inovadora e diversificada, com múltiplas iniciativas que promovem diálogo, experimentação e produção artística.

Através de novos equipamentos culturais (como o CEA, por ex.), e programações culturais dinâmicas e atualizadas, o Algarve tem procurado ganhar o seu lugar no movimento cultural mais geral do país e da arte contemporânea em particular.

Mas, apesar do esforço das entidades públicas e privadas, e de movimentos culturais recentes e importantes, o Algarve ainda carece de instituições de grande escala, como museus ou centros de arte contemporânea com programação contínua e com acervo próprio (ou em situação de comodato).

O CEA tem vindo a afirmar-se como polo importante de difusão de arte contemporânea regional, promovendo exposições com programas educativos, e projetando num futuro próximo, residências artísticas e colaboração com artistas nacionais. O seu impacto e relevância baseia-se na diversificação da programação, no acesso aberto ao público com entrada livre (ampliando a circulação cultural), e promovendo artistas locais ou ligados à região, criando vínculos entre identidade cultural e práticas contemporâneas.

O futuro cultural do Algarve não se construirá apenas nos grandes centros urbanos, mas também em lugares como Alcantarilha, onde património, iniciativa pública, colecionismo privado e participação comunitária podem definir uma nova forma de centralidade.

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Professores e Educadores de novo nas ruas

Depois das manifestações de 2023, onde exigiam a recuperação do tempo de serviço congelado, os professores e educadores voltam a ocupar as ruas. No passado dia 16 de maio fomos perto de 25 mil professores e educadores, que do Caís do Sodré aos Restauradores reivindicámos, entre outras coisas, uma justa negociação do Estatuto da Carreira Docente (ECD).

Esta negociação está a decorrer, apesar de já durar há nove meses, ainda vai nos primeiros pontos da discussão, mas há indícios de onde o governo e o ministério querem chegar.

Até agora o que se tem visto por parte do ministério é o não acolhimento das principais propostas da FENPROF, a falta de envio de documentos de apoio à negociação com a devida antecedência e a insistência em discutir variações de semântica que no fundo ocultam a diferença entre, por exemplo, o que é o concurso nacional de professores atualmente e um procedimento concursal ou o que é um corpo especial e uma carreira especial nos meandros da Administração Pública.

Os professores e educadores sabem bem que os jogos de palavras não lhes trazem estabilidade, respeito, condições dignas de trabalho e valorização salarial.

Nesta fase, o governo tem a oportunidade de, com a revisão do ECD, valorizar a carreira para atrair novos professores e resolver o grave problema de alunos sem aulas, no entanto faz exatamente o contrário, criando a ilusão de que está a resolver o problema.

No final da manifestação de dia 16, foram definidas linhas de orientação das próximas ações de luta e foi ainda aprovada uma moção, aqui os professores e educadores afirmaram com determinação a sua disponibilidade para defender a carreira e exigir a valorização da profissão e para defender a Escola Pública.

No dia 3 de junho tivemos a GREVE GERAL onde a maioria dos trabalhadores, mais uma vez, demonstrou a sua rejeição ao pacote laboral, que representa um retrocesso de direitos.

Os professores e educadores não saem à rua por capricho. Fazem-no porque sentem diariamente o desgaste de uma carreira marcada pela desvalorização, pela sobrecarga burocrática e pela falta de condições.

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A ilusão do PIB brasileiro: O crescimento artificial e a fatura que chegará amanhã

A divulgação de que o PIB brasileiro do primeiro trimestre apresentou um crescimento de 1,1% pode, à primeira vista, parecer motivo para comemoração. Contudo, na economia, as manchetes costumam esconder os verdadeiros fundamentos estruturais. Ao olharmos os dados por dentro, a euforia inicial rapidamente dá lugar à preocupação: estamos diante de um crescimento de baixa qualidade, impulsionado por anabolizantes estatais e que cobra um preço alto do nosso futuro.

O grande motor desse avanço trimestral foi o consumo das famílias, que registrou uma alta de 1,0% em relação ao trimestre anterior. Mas não nos enganemos: esse apetite não deriva de ganhos reais de produtividade ou de uma expansão orgânica e sustentável da renda.

Injeção do governo federal

Ele foi fortemente turbinado por injeções diretas de recursos do governo, como a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, os efeitos do programa Desenrola e o salto anual de 12% na concessão de crédito para Pessoas Físicas, um dado que soa como alerta vermelho quando lembramos que a taxa Selic opera no patamar bastante restritivo de 14,75% ao ano. Na prática, as famílias estão se endividando a um custo altíssimo para sustentar o nível de consumo.

Enquanto o consumo é inflado artificialmente, os alicerces do nosso crescimento futuro definham. A Formação Bruta de Capital Fixo, que mede os investimentos produtivos, até apresentou um respiro de 3,5% na margem do trimestre, mas amarga uma queda de 1,4% na comparação anual.

Taxa de investimento despencou

O dado mais crítico aqui é estrutural: a taxa de investimento do Brasil despencou de 17,6% para 16,5% do PIB, um patamar muito baixo para uma economia emergente. Sem o setor privado investindo em máquinas, equipamentos e infraestrutura, a economia perde a capacidade de crescer sem gerar pressão inflacionária.

MIGUEL ÂNGELO/ CNI
No acumulado do ano, a região já soma 20.720 empregos formais, o equivalente a 5,59% do total nacional - MIGUEL ÂNGELO/ CNI

A estagnação do setor produtivo fica ainda mais evidente do lado da oferta. A Indústria de Transformação, que é historicamente o setor que gera os empregos de melhor qualidade técnica e remuneração, ficou completamente parada, com uma variação pífia positiva de 0,1%. Para piorar a fotografia, o setor externo também não ajudou: as nossas exportações recuaram 1,7%, enquanto as importações avançaram 4,4%, subtraindo do resultado final do PIB.

Crescimento lastreado em gasto público

Estamos vivenciando um crescimento puxado quase que exclusivamente pelo gasto público, e não pelo aumento da nossa eficiência ou produtividade. O ciclo criado é perigoso: o governo amplia estímulos e injeta dinheiro, o consumo responde imediatamente elevando a demanda, a inflação encontra resistência para ceder, o Banco Central se vê obrigado a apertar o cinto com juros altos e, na ponta final, o investimento corporativo murcha.

A atual composição da demanda brasileira é estruturalmente frágil. Ela sinaliza, de forma inequívoca, um menor potencial de crescimento para os próximos anos. Comemorar o número cheio desse PIB é fechar os olhos para a dinâmica real das nossas contas. O Brasil cresce hoje, sim, mas de forma completamente artificial. E, como a história econômica não cansa de nos ensinar, a conta dessa ilusão de curto prazo inevitavelmente chega amanhã.

© PIXABAY

Consumo das famílias registrou uma alta de 1% em relação ao trimestre anterior
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Montblanc não salva soberania

Há poucos dias, o governo anunciou mais um corte no orçamento do Ministério da Defesa. Dos R$ 15,5 bilhões previstos este ano como despesas discricionárias, R$ 4,4 bilhões foram bloqueados, o que equivale a 28% do total.

A notícia foi um balde de água fria na caserna. Semanas antes, divulgou-se que os projetos estratégicos das Forças Armadas receberiam aportes extraorçamentários para garantir suas continuidades.

Os técnicos do tesouro dirão que são recursos distintos. Tecnicamente, é verdade. Contudo, fica a sensação de o governo dar com uma mão e tirar com a outra.

A questão, porém, vai além de um corte específico. O problema Defesa Nacional deixou de ser conjuntural. Tornou-se estrutural.

Mudam os presidentes, os ministros, os parlamentares. O resultado permanece o mesmo: promessas de aporte seguidas por adiamentos, cortes e incertezas.

E essa realidade não é atribuível a uma corrente ideológica específica. Boa parte da sociedade compartilha a percepção de que a Defesa é importante, mas pode sempre esperar mais um pouco.

Em uma provocação bem-humorada, pergunto, caros leitores, vocês estariam dispostos a contribuir diretamente para a Defesa Nacional? Afinal, ofertam para igrejas, para ações filantrópicas, para parentes em dificuldades.

Caso positivo, sugiro também contratarmos um marqueteiro famoso para conduzir uma campanha, cujo mote seria: Doe R$ 1,30 e salve o país.

Para efetiva concretização desse intento, o PIX do Ministério da Defesa seria massivamente divulgado na imprensa tradicional e nas mídias sociais.

Claro, é uma piada. Contudo, ela esconde uma reflexão séria. Quanto custa manter a capacidade militar de um país como o Brasil?

Quando dividimos o orçamento anual da Defesa - cerca de 1% do PIB - pela população do país, chegamos a um valor diário per capita inferior ao preço de um cafezinho, de uma garrafa de água ou uma pipoca no sinal.

E é com essa quantia que se espera proteger 17 mil quilômetros de fronteiras terrestres, 8.500 quilômetros de costa, 22 milhões de Km2 do espaço aéreo, infraestruturas críticas, bem como riquezas estratégicas que despertam crescente interesse internacional.

O paradoxo é evidente.

Queremos proteger a Amazônia Verde ou Azul? Combater ilícitos transnacionais? Fortalecer a Base Industrial de Defesa? Ampliar a influência do Brasil no mundo? Enfrentar organizações criminosas tipo PCC ou CV?

A resposta da maioria dos brasileiros certamente será sim. Então, qual a dúvida?

Enquanto isso, o mundo segue volátil, incerto, complexo e ambíguo (VUCA).

Na recente conferência de segurança realizada em Cingapura - Diálogo de Shangrilá -, um contraste me chamou a atenção.

De um lado, o Ministro da Defesa anfitrião destacou a importância do diálogo e dos mecanismos multilaterais de cooperação.

De outro, o Secretário de Guerra dos Estados Unidos alertou que o momento exige menos discursos e mais aprestamento para possíveis conflitos.

A história nos recomenda prudência. Conversar é sempre a primeira opção.

Mas isso não elimina a necessidade de poder militar. Mais uma vez, vale recordar o diálogo meliano narrado por Tucídides: os fortes fazem o que podem; os fracos sofrem o que devem.

A tradição da diplomacia brasileira é sobejamente reconhecida. Nossa vocação pacífica é inquestionável. Nosso compromisso com a solução negociada dos conflitos permanece inalterado.

Ainda assim, boas intenções não substituem meios militares credíveis. Discursos não monitoram fronteiras. Canetas Montblanc não protegem plataformas de petróleo. Tratados não interceptam aeronaves hostis.

No fim, permanece a pergunta: quanto vale a soberania brasileira?

Porque toda vez que afirmamos que ela é inegociável, mas recusamos prover os investimentos necessários para protegê-la, transmitimos ao mundo uma mensagem ambígua, quiçá de fraqueza: valorizamos a soberania no discurso, mas não a sustentamos na prática.

Otávio Santana do Rêgo Barros, general de Divisão da Reserva

 

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Tucidides

Quem diria que tanto séculos depois o seu pensamento voltaria a dar volta ao mundo.

A visita de Trump à China pode não ter consequências significativas imediatas mas, como o mundo já entendeu, serviu para finalmente acabar com o perigo para a humanidade do domínio de um único sistema e poder dono e senhor de tudo.

Claro que Trump em si é uma figura menor e triste de toda esta história. O capitalismo neo liberal conduziria a isto mais cedo ou mais tarde. A concentração do capital inexorável em meia dúzia de potentados, como não poucos previram, não impediu a competição pelos lucros como a I.A. demonstrou claramente.

Porém, ao contrário de outros que ainda acreditam num ressurgimento do neo-liberalismo anglo-saxónico em que uma ilusória liberdade serviu como bandeira para intoxicar o mundo a partir de Hollywood p.ex. como valor ocidental e em que as armas sempre serviram como sustentáculo, o capitalismo chinês tem um cariz ditatorial única e última etapa possível para o seu processo evolucionista. E, por outro lado, poder ganhar com os mesmos trunfos jogando melhor.

E assim, graças a uma simples frase de TUCIDIDES, o mundo mudou mais uma vez como sempre é imperioso que aconteça.

E hoje passamos a ter dois donos do mundo… e não um só!

Um passo histórico sem dúvida para quem ainda não percebeu!

E amanhã há mais…!!!

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Equívocos

“O Hospital de Faro recusou admitir nas Urgências uma grávida em trabalho de parto porque esta não tinha ligado antes para a linha SNS 24. O INEM que assistiu a grávida à porta da urgência, insistiu que a mulher fosse admitida mas o hospital ordenou o transporte para Portimão, a 70 quilómetros” noticia a Comunicação Social, escrita e televisiva, que acrescenta “A Unidade Local de Saúde do Algarve garante ter sido uma decisão acertada: a grávida era saudável, a gravidez de termo e acompanhada“ e também é noticiado que a Ministra da Saúde, quando questionada, respondeu que serão pedidas explicações ao Hospital.

O habitual sururu do costume como se o facto verificado seja alheio à metodologia que o Ministério instituiu.

Não dispensam estas notícias algumas reflexões, começando pela matéria exposta, passando pela sua congruência e a importância muito mais relevante da causa deste estado de coisas.

Quanto à matéria exposta não fica claro se a utente não é admitida por ter cometido “o pecado“ de não ter telefonado para a linha SNS 24, embora o seja na notícia afirmado, ou se por não haver mais do que um obstetra de serviço e em prevenção, como afirma a ULS, logo se o Bloco de Partos estaria funcional, e também a ULS explicitar condições clinicas constantes no processo clínico a que só teria tido acesso depois de a parturiente ser admitida, o que na mesma noticia é afirmado não ter acontecido.

Poder-se-á concluir de certeza, é ser um episódio que em primeiro lugar atinge uma mãe quase a dar à luz e em segundo lugar a regulamentação que origina estes equívocos.

Reflitamos no que seria determinado a uma gestante de termo que morasse na Rua Leão Penedo, a mesma do Hospital de Faro, e telefonasse para a linha Saúde 24 ou para o INEM. Se o Bloco de Partos, de Faro, estivesse encerrado, seria igualmente encaminhada para o Hospital de Portimão.

Nenhuma diferença na resposta do sistema organizado ao telefonar para o INEM á porta da urgência ou do outro lado da rua, salvo a componente emoção.

Daqui a a questão que não se pode perder de vista:

Serviços insuficientes para a população que lhes está consignada.

Se se pode e tender que a falta de recursos humanos disponíveis para assegurarem o funcionamento das maternidades necessárias (programadas pelos ratios populacionais abrangidos e não pelos recursos humanos disponíveis), possam obrigar a metodologias transitórias de regionalização da prestação ou o recurso a contactos telefónicos prévios, apesar de indesejados, já não se entenderá porque surge esta dificuldade especialmente na especialidade de Obstetrícia.

Pelo menos é a especialidade cuja falta de recursos tem determinado o encerramento pontual ou definitivo dos respetivos serviços de urgência, as maternidades.

Ratios excelentes de médicos obstetras e pediatras nas equipas médicas, mas desligados da realidade do País? Ausência de equipas funcionais e multidisciplinares? Não sabemos.

Será assim indispensável identificar o que leva a este estado de coisas até porque se no ano passado os privados conseguiram aumentar para 16.317 os partos realizados num acréscimo de mais de 8% em relação ao ano anterior, com certeza não tiveram falta de obstetras.

Dualidade de critérios quanto à exigência numérica de médicos nas equipas funcionais, no público e no privado? Também não sabemos.

Só sabemos ser indispensável identificar as causas profundas desta situação tão dificil da assistência materno-infantil, que irá muito para além das vindas a público com soluções só aparentes, maternidades regionais, telefonemas prévios, ou incentivos pecuniários ilegais(!).

Ilegais como explicitamente expressa o comunicado do Conselho de Ministros de 7 de Maio, que reza que um dos diplomas aprovados ”prevê a atribuição de um incentivo remuneratório progressivo para o trabalho prestado além dos limites legais anuais

Reduzir a solução da carência de médicos obstetras, ou outros, exclusivamente à atribuição de incentivos pecuniários remunerando trabalho extraordinário além do considerado conveniente ao eficiente desempenho, não será o caminho para a normalização do SNS, pelo menos do SNS universal e tendencialmente gratuito ainda estabelecido, já que não foi qualquer outro eleitoralmente sufragado.

Urge serem encaradas soluções competentes que, na sua abrangência, realmente modifiquem este estado de coisas.

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Obrigada, Grada!

As culturas europeias se constituíram a partir do recalque de pulsões agressivas e sexuais consideradas ameaçadoras ao convívio social. Opinião de Fernanda Hamann
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Os Millennials: das disquetes à Cloud | Por Anna Kosmider Leal

A geração dos millennials, aqueles que nasceram entre o principio dos anos 80 e a chegada aos anos 2000, encontra-se numa posição única e, muitas vezes, desafiadora. Eles são os intermediários entre dois mundos: o tradicional, marcado por valores e realidades pré-digitais, e o digital, onde a informação flui a uma velocidade vertiginosa. Este fenómeno, acrescido ao facto de ser a “geração sandwich” atual, carrega consigo uma série de responsabilidades e pressões que podem impactar profundamente o seu bem-estar psicológico.

Dupla Exposição: O Conflito de Gerações

Na Antropologia, o conceito de “transição cultural” é fundamental para entender como as sociedades evoluem e se adaptam. Os millennials são, de certa forma, os arautos desta transição, vivendo num espaço onde as expectativas dos pais em relação ao sucesso e à estabilidade financeira se confrontam com a realidade incerta do mundo digital. Enquanto os seus pais, maioritariamente da geração X ou Baby Boomers, valorizam a segurança no emprego e a vida familiar convencional, os millennials são frequentemente empurrados para o empreendedorismo, a flexibilidade e a inovação. Esta discrepância gera um dilema: como equilibrar as expectativas familiares com as novas oportunidades e desafios que a era digital proporciona?

ANNA KOSMIDER LEAL
Antropóloga

A sobrecarga de informações é outra pressão significativa. Com acesso a um mundo de dados e opiniões a um clique de distância, os millennials enfrentam uma avalanche de perspectivas que podem ser confusas e contraditórias. Isso gera um estado de paralisia decisional, onde a dificuldade em escolher um caminho se torna um fardo emocional. A constante comparação com os outros, amplificada pelas redes sociais, pode levar a sentimentos de inadequação e ansiedade, criando um ciclo vicioso que afeta a saúde mental.

Sabedoria de Duas Realidades

Apesar dos desafios, a geração millennials também possui um rico capital cultural. Crescendo em dois mundos, eles desenvolvem uma perspetiva única que combina a sabedoria das tradições com a inovação da era digital. Esta habilidade de transitar entre diferentes realidades permite que os millennials sejam mais adaptáveis e resilientes, características valiosas num mundo em constante mudança. Eles aprendem a navegar em ambientes complexos, conciliando o que aprenderam com os seus pais, com as novas práticas e tecnologias que emergem.

Além disso, a experiência de ser a “geração sanduíche” pode também fortalecer laços familiares. Os millennials encontram-se, frequentemente, a cuidar não apenas dos seus filhos, mas também dos seus pais, criando uma dinâmica de apoio mútuo que pode ser enriquecedora. Este papel de mediador entre gerações pode fomentar um diálogo intergeracional que enriquece ambos os lados, promovendo uma compreensão mais profunda das necessidades e desafios de cada grupo.

Consequências Psicológicas e a Necessidade de Apoio

Entretanto, a pressão persistente pode levar a consequências psicológicas significativas. O burnout, a ansiedade e a depressão são problemas que afetam muitos millennials, resultantes da tensão constante entre as expectativas familiares e as realidades do mundo moderno. É crucial que haja uma maior compreensão e apoio, tanto a nível familiar como comunitário, para que esta geração possa encontrar um equilíbrio saudável.

Os millennials têm uma oportunidade única de moldar o futuro, aproveitando a riqueza das suas experiências. Ao aprenderem a integrar as lições do passado com as inovações do presente, podem construir um caminho que não só honra as tradições, mas também acolhe a mudança. A chave está em reconhecer que, mesmo sob pressão, a sabedoria de duas realidades pode ser uma força poderosa para a criação de um futuro mais inclusivo e sustentável.

Em última análise, os millennials devem ser vistos não apenas como a “geração sanduíche” e intermediaria do analógico para o digital, mas também como os arquitetos de uma nova era, onde a convergência de mundos pode gerar um inimaginável potencial.

Nota: A propósito, esta imagem foi gerada por IA.

Leia também: A justiça do polegar levantado | Por Anna Kosmider Leal

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Crimes sem criminoso...

Será desagradável para o Pingo Doce, mas a liberdade de opinião tem de abranger os eventuais exageros, imprecisões, erros e injustiças. Para bem de todos nós, neste caso, os consumidores. Opinião de Francisco Teixeira da Mota
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Sabes quanto vale hoje?

Ter de tudo ao pontapé é uma especialidade portuguesa. O pontapé está lá porque não podemos dar um passo sem tropeçar naquela porcaria, mas também porque é aquilo que mais apetece enfiar-lhe. Crónica de Miguel Esteves Cardoso
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Chico José, o doutor que Pernambuco ainda não diplomou

Há momentos em que uma universidade deixa de ser apenas um espaço de aulas, bancas, seminários e certificados, e se transforma num lugar de reconhecimento da vida. Foi o que aconteceu na presença do jornalista Francisco José, o Chico José, no Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco. O encontro, dedicado ao tema “A espiritualidade e memória dos povos indígenas registrados pela TV”, promovido pelo grupo de pesquisa Religião, Identidades e Diálogos emocionou professores, estudantes e convidados ao trazer relatos sobre povos originários, rituais, memória, espiritualidade e jornalismo vivido no coração da Amazônia.

Mas chamar aquilo apenas de palestra talvez seja pouco. Depois da aula de Chico José, é impossível não lembrar de sua obra inteira. Impossível não pensar no menino vindo do Crato, criado no Recife, que fez da voz sertaneja uma assinatura nacional. Impossível não reconhecer que aquele jornalista, conhecido como o “repórter dos cinco continentes”, nunca precisou abandonar Pernambuco para ganhar o mundo. Pelo contrário, foi levando Pernambuco na fala, no olhar, no jeito matuto assumido, na coragem de perguntar e na habilidade rara de transformar a reportagem em memória pública.

Chico não foi apenas um repórter de aventura. Essa definição é pequena demais. Ele foi, e continua sendo, um intérprete do Brasil profundo. Mergulhou nos sete mares, atravessou desertos, subiu montanhas, enfrentou guerras, entrou em aldeias, percorreu rios amazônicos, mostrou animais gigantes, registrou festas populares, denunciou a seca, revelou belezas naturais e ajudou o país a enxergar territórios que, muitas vezes, só existiam para o centro do poder como estatística, distância ou problema.

Na aula da Unicap, sua narrativa sobre os povos indígenas ultrapassou o campo da comunicação. Para quem pesquisa Ciências da Religião, o que Chico apresentou foi um arquivo vivo sobre espiritualidade, ritual, cura, morte, território e resistência. Quando contou a experiência com os Enawenê-Nawê, não descreveu rituais como curiosidade exótica. Falou de fé. Falou de um povo para quem canto, dança, pesca e oferenda não são encenação, mas modo de sustentar o mundo. Ao narrar a história da menina indígena em coma, filha do cacique, Chico colocou diante da universidade uma das questões mais complexas da ética: até onde o jornalista registra e a partir de que momento o ser humano precisa intervir?

Ele interveio. E a menina viveu. Mais do que um episódio emocionante, ali estava uma aula sobre alteridade, responsabilidade e limite. O repórter sabia que não deveria se tornar notícia. Mas também sabia que nenhuma regra profissional pode ser maior do que uma vida. Para as Ciências da Religião, esse relato tem enorme força porque mostra o encontro entre uma cosmologia indígena, uma prática ritual de cura, a medicina ocidental e a responsabilidade ética de quem testemunha o sofrimento do outro. Chico não reduziu a espiritualidade indígena a folclore. Ele a tratou como experiência humana profunda.

Esse é um ponto decisivo. Francisco José produziu conhecimento. Não conhecimento preso à linguagem acadêmica tradicional, mas conhecimento de campo, de escuta, de corpo, de risco e de memória. Suas reportagens são documentos para pesquisadores da comunicação, da antropologia, da história, do turismo, do meio ambiente, da cultura popular e das religiões. São fontes para pensar o Brasil que canta, reza, sofre, resiste, dança, migra, trabalha e sobrevive.

Foi assim também na cobertura da seca no Nordeste. Durante anos, Chico acompanhou o drama de milhares de sertanejos. Dona Iraci, uma de suas personagens mais marcantes, tornou-se símbolo de um tipo de Brasil que a televisão não podia esconder. Naquele tempo, a palavra “fome” era proibida pela censura, mas uma panela vazia dizia o que a censura tentava calar. Chico denunciou soluções inúteis, como as chamadas barragens de “sonrisal”, e mostrou que havia alternativas simples e concretas; poços, açudes eficientes, cisternas, políticas públicas capazes de enfrentar o problema com dignidade.

Isso também é universidade. Isso também é extensão. Isso também é pesquisa aplicada. Quando um repórter mostra que uma política pública não funciona, acompanha a vida de uma mulher que caminha quilômetros para trabalhar e volta para alimentar os filhos com quase nada, ele não está apenas fazendo televisão. Está produzindo consciência social. Está obrigando o país a olhar para onde não queria olhar.

E, no caso de Francisco José, esse olhar sempre teve uma dívida amorosa com Pernambuco. Ele mostrou o Nordeste sem maquiagem, mas também sem desprezo. Mostrou o lado ferido e o lado bonito. Mostrou a seca e mostrou o São João. Mostrou o sertão e mostrou o mar. Mostrou Fernando de Noronha, o Atol das Rocas, a natureza exuberante, o frevo, o Galo da Madrugada, o carnaval do Recife e de Olinda, as festas que formam a alma do povo nordestino. O próprio Memória Globo, projeto da Rede Globo, registra sua paixão pelo Atol das Rocas, a 148 km de Fernando de Noronha, e lembra a dimensão que a cobertura do Galo ganhou, transmitida para milhões e levada inclusive para o exterior.

É curioso. Muitos conhecem Chico como o repórter que atravessou o mundo, mas talvez sua maior grandeza esteja em ter mostrado Pernambuco ao mundo e, mais ainda, em ter mostrado Pernambuco aos próprios pernambucanos. Há territórios que só passam a existir no imaginário coletivo quando alguém os narra com verdade. Chico fez isso. Deu imagem, voz e pertencimento a um estado que ele adotou e que o adotou.

Sua trajetória, claro, não se resume à paisagem. Na Guerra das Malvinas, em 1982, foi expulso da Argentina pelos militares. No Recife, em 1987, durante a cobertura de um assalto a banco, ofereceu-se para ficar como refém no lugar de uma mulher grávida ameaçada com um revólver na cabeça. São episódios que demonstram coragem, mas também revelam uma marca de sua carreira. Ele nunca foi um jornalista de gabinete. Sempre esteve no lugar onde a história acontecia.

Por isso, depois de uma aula como essa, uma pergunta se impõe com força: por que nenhuma universidade pernambucana concedeu a Francisco José o título de Doutor Honoris Causa? Não se trata de vaidade. Nem de transformar popularidade em diploma. O título de Doutor Honoris Causa é a distinção máxima que uma universidade pode conceder a personalidades com contribuições relevantes às ciências, às letras, às artes ou à sociedade em geral. É um reconhecimento público de trajetória, mérito intelectual e serviço prestado à coletividade.

Então, se é disso que estamos falando, o caso de Chico José parece evidente. Poucos jornalistas brasileiros ensinaram tanto sobre território, cultura, natureza, religião, sofrimento social e identidade nacional. Poucos produziram um acervo tão amplo sobre o Brasil real. Poucos atravessaram com tanta coerência a fronteira entre comunicação e educação pública. Poucos fizeram o país ver o Nordeste, a Amazônia, o Sertão, o mar e os povos originários com tanta proximidade.

Pernambuco tem universidades capazes de reconhecer grandes trajetórias. A própria Unicap, a UFPE e a UPE já se articularam para conceder conjuntamente o título de Doutor Honoris Causa a personalidades de reconhecida contribuição intelectual e pública. Portanto, a questão não é falta de instrumento institucional. É falta de decisão simbólica. É falta de coragem para afirmar que o saber também nasce fora dos muros acadêmicos.

Chico José merece o título não apesar de ser jornalista, mas justamente porque fez do jornalismo uma forma de conhecimento. Merece não apenas porque viajou pelos cinco continentes, mas porque nunca perdeu o vínculo com o chão de onde fala. Merece não só porque tem uma carreira grandiosa, mas porque sua obra ajuda a entender o Brasil. E, especialmente, ajuda a entender Pernambuco. Suas festas, sua natureza, seu sotaque, sua dignidade, suas contradições. Suas dores e seus amores.

Um Doutor Honoris Causa para Chico José não seria um favor. Seria uma reparação simbólica. Seria a universidade reconhecendo que há mestres que não passaram a vida orientando dissertações, mas orientaram o olhar de gerações inteiras. Mestres que não escreveram tratados acadêmicos, mas deixaram imagens, narrativas e documentos indispensáveis para a memória nacional. Mestres que ensinaram sem lousa, sem PowerPoint e, como ele mesmo gosta de lembrar, sem papel na mão.

Pernambuco não deve esperar a ausência para produzir homenagem. Há uma mania brasileira de reconhecer tarde demais. Com Chico José, ainda há tempo de fazer diferente. Tempo de entregar o título em vida, com ele presente, contando histórias, rindo, provocando, discordando, emocionando e lembrando que seu jeito de falar nunca foi obstáculo, foi identidade.

Depois daquela aula, a pergunta deixou de ser apenas “por que Chico José merece?”. A pergunta agora é outra. Qual universidade pernambucana terá a grandeza de ser a primeira?

Porque doutor, no sentido mais profundo da palavra, é quem ensina. E Chico José ensinou o Brasil a se ver. Falta Pernambuco ter a coragem acadêmica de dizer isso em latim: honoris causa.

João Carvalho, jornalista, pesquisador e mestrando em Ciências da Religião

© REPRODUÇÃO

Francisco José
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Eleições no banco dos réus: A Justiça está decidindo o seu voto?

Imagine a seguinte situação: durante um período de disputa eleitoral determinado candidato recebe um processo por uma acusação que, meses depois, é julgada como improcedente (ou seja, ele era inocente). Se, durante o período da campanha, essa notícia foi usada para minar sua credibilidade e ele perdeu votos por causa disso, quais as principais consequências?
Este cenário, longe de ser apenas uma suposição, reflete um fenômeno crescente no Brasil: a judicialização do pleito eleitoral. Nas últimas décadas, os brasileiros se acostumaram a uma rotina: em anos eleitorais, o noticiário não se resume apenas a comícios, debates e promessas, mas inclui em suas pautas um volume crescente de notícias sobre as diversas ações judiciais envolvendo os candidatos. O palco das disputas parece ter se deslocado das praças públicas para as salas dos tribunais. Como pesquisadora e doutoranda em Ciência Política na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), tenho me debruçado sobre um fenômeno que, embora pareça técnico, afeta diretamente o coração da nossa democracia: a judicialização das eleições.
Para o cientista político Robert Dahl, uma democracia real exige eleições "livres, justas e frequentes". No papel, a possibilidade de contestar uma irregularidade na justiça é uma garantia de que as regras do jogo estão sendo seguidas. No entanto, os dados indicam um crescimento significativo dos processos judiciais envolvendo disputas eleitorais, o que pode acarretar desdobramentos sobre a opinião pública.
Vejamos os números. Conforme dados extraídos do site institucional do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de ações protocoladas nas eleições presidenciais apresentou crescimento exponencial nas últimas disputas eleitorais: de aproximadamente 4.252 processos em 2014, passou para 104.412 em 2018, o que representa um aumento de cerca de 2.356%. Em 2022, o volume alcançou a marca histórica de 176.139 processos, correspondendo a um acréscimo adicional de aproximadamente 68,7% em relação a 2018. Considerando todo o período entre 2014 e 2022, o crescimento acumulado foi da ordem de 4.043%. Esse crescimento sugere que o desenho institucional brasileiro — onde o TSE acumula as funções de administrar as eleições, criar regras e julgar conflitos — pode estar favorecendo uma estratégia de litigância político-partidária agressiva.
No âmbito da minha pesquisa, investigo se essa ativação constante do Judiciário — através de instrumentos como a Ação de Impugnação de Registro de Candidatura (AIRC) e a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE) — afeta a opinião pública. A hipótese do trabalho sustenta que quando um um candidato é acionado judicialmente devemos observar uma redução nas suas intenções de voto.
Observando as eleições para o cargo de chefe do poder Executivo, a gravidade desse cenário torna-se ainda mais evidente. Na esfera federal, quando analisamos dados específicos sobre a Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), verifica-se que no ano de 2022, registrou-se um aumento de 2.400% no número dessas ações em relação ao pleito de 2014. Mais revelador ainda é o desfecho desses processos: 54% das AIJEs em 2022 foram julgadas improcedentes, sendo que quase a totalidade desses indeferimentos ocorreu por falta de interesse processual.
No estado de Pernambuco, considerando o mesmo período (2014-2022), o aumento foi um pouco menos expressivo - de 300%. No entanto, os resultados dessas ações são ainda mais intrigantes: 91% das ações terminaram julgadas como improcedentes.
Através de técnicas de análise de dados e modelos estatísticos avançados, buscamos testar se o ajuizamento de ações esteve associado a alterações nas intenções de voto.
A estratégia de “janela temporal” (event study) cria uma janela de observação ao redor do ajuizamento das ações, medindo as alterações nas pesquisas e permitindo observar mudanças na tendência.
Já a ferramenta de web scraping (coleta automatizada de dados da internet) possibilitará mensurar a repercussão midiática das ações, mapeando como as menções aos conflitos judiciais na internet influenciam a percepção do eleitorado.
A pesquisa em desenvolvimento busca contribuir para esse debate por meio da análise sistemática de dados eleitorais, judiciais e midiáticos, adotando métodos capazes de identificar eventuais associações entre o ajuizamento de ações e variações nas intenções de voto. Mais do que confirmar ou refutar hipóteses específicas, o estudo pretende oferecer evidências empíricas que permitam compreender melhor os efeitos políticos da judicialização eleitoral em democracias contemporâneas.
Ao lançar luz sobre esse fenômeno, espera-se ampliar o conhecimento sobre as interações entre instituições judiciais, competição eleitoral e opinião pública, contribuindo para um debate fundamentado sobre os desafios e os limites da atuação judicial no contexto das eleições.

Reane Raulino, advogada e assistente da Procuradoria Federal junto à UFPE. Especialista em Direito Administrativo, mestre em Políticas Públicas e doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco, com pesquisas na área de instituições políticas e eleições.

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9 de maio de 1940, um adolescente suspira pela guerra, ela chegou | Por Mário Beja Santos

O que há verdadeiramente singular nesta novela? Temos um adolescente à janela, o pensamento desliza à solta, atropelam-se desejos, a par de uma grande sensação de tédio, depois vemo-lo inserido no ambiente familiar, há uma atmosfera de tensão que percorre o país, a Alemanha fizera capitular a Polónia numa guerra-relâmpago, partilhara os despojos do país com a URSS, iria inevitavelmente virar-se para oeste, a França e a Grã-Bretanha tinham declarado guerra. A cabeça do adolescente gira em todas as direções, reflete sobre a guerra e a distribuição que a acompanha: “Tenho mil pensamentos. Talvez eu não seja normal. Imagine-se que havia um bombardeamento, que neste momento apareciam aviões alemães a sobrevoar a cidade. Uma bomba, nesta enfadonha rua de merda, seria mesmo fantástica. Prédios a arder, uma boa dúzia deles todos em renque. Imagine-se que esta rua estava em chamas, incluindo a nossa casa, que perdíamos tudo.”

E continua radical, a falar em abrigos subterâneos, em valas comuns, em profundação de cadáveres, que as bombas caiam por toda a parte. Assim se começa a desenhar uma potente água-forte, uma notável peça literária sobre a arrogância da juventude, o desejo de aventura, a perda da inocência, o chocante a assustador encontro com os bombardeamentos, a tal guerra chegara àquele país de bonomia e do gosto do bom viver, naquele exato momento ia mudar, por vezes de modo radical, a sociedade, a civilização e a cultura, mas nada se sabia ainda naquele início da invasão alemã. Cai, Bomba! por Gerrit Kouwenaar, Publicações Dom Quixote 2026.

Regressamos à novela quando Karel chega das compras que fizera a pedido da mãe, instala-se no quarto. O adolescente está dominado por pensamentos fulminantes, um tanto caóticos, sabe, entretanto, que os tios vêm jantar, chamam-se Robert e Lies, os pais chamam-se Cora e Philip, parece estarmos numa atmosfera de bonomia, o tio Robert só fala em felicidade, no fim do jantar o tio pede-lhe para ir no dia seguinte transmitir uma mensagem a alguém, o tio deu-lhe um papelinho enrolado e uma nota de dez florins.

Gerrit Kouwenaar (1923-2014). Foto DR

Karel sente que há problemas graves entre o pai e a mãe, um conflito que ele não entende, mas que o constrange. É neste ambiente que o irmão lhe vem anunciar que começou a guerra, o ataque alemão. Cá fora ainda tudo parece normal. Aquele rapaz de 17 anos questiona-se como vai ser a guerra, há pessoas que estão descansadas, acreditam que daqui a pouco vão aparecer os ingleses. O pai de Karel dá a saber que os alemães estão a cem quilómetros da cidade, há que contê-los; nas ruas, os automóveis continuam a circular como sempre, as lojas estão abertas, correm notícias que tanques e tropas motorizadas francesas e inglesas atravessaram a fronteira belga. Karel sai de casa e vai olhar a água da ponte, sempre com o seu espírito renitente e contraditório pensa que devia chover, que o tempo devia estar frio e sombrio. Nisto, dois aviões voavam por cima da cidade, Karel viu dois pontinhos a cair. Seguir-se-ão estrondos, casas esventradas, a guerra dava sinal de vida.

Então Karel foi cumprir o pedido do tio Robert, levou uma mensagem à amante dele, é recebido pela filha, acolhimento amistoso, elas perguntam-lhe se os ingleses já chegaram, ele não sabe, mas decerto hão de vir. Karel é confrontado com uma atmosfera de uma inquestionável normalidade, elas revelam serem judias, põem a hipótese de terem de fugir, ainda confiam com a chegada das tropas britânicas para suster as alemãs. A filha sentou-se ao piano e tocou uma melodia lenta e sincopada. A mãe não tem resposta para a carta do tio Robert.

No dia seguinte Karel sai de bicicleta, pedala a uma velocidade moderada pelas ruas sem automóveis, onde as pessoas passeavam em família, entediadas, aquele ataque alemão trouxera um contratempo nos lazeres habituais. Volta a bater à porta da casa onde estivera na véspera, a filha, de nome Ria, convida Karel a passear, pede-lhe um beijo, a serenidade continua a reinar naquela casa, mas a mãe comunica que vão apanhar o barco das quatro horas. Ria mostra-se apaixonada por ele. Karel parte confuso, é o despertar sensual.

O ambiente da cidade modificou-se, os cinemas estavam todos fechados. Nisto aparece o pai, vem assustado por nada saber do filho, regressam a casa. Chegou a hora da roda do destino inserir a tragédia, houve bombardeamento, morreu o tio Robert, a tia está hospitalizada, Karel vai visitá-la. Assalta-o uma grande vontade de partir. Lança-se à estrada, há áreas inundadas, faz parte do plano holandês de travar os alemães. Alguém informa Karel que a Holanda se rendeu e dá-lhe boleia na bicicleta. E dá-se um encontro com os alemães. Ria e a mãe tinham fugido, ele está transido por ter desejado que caíssem bombas, tem 17 anos, não sabe para onde ir, a vida parece ter perdido sentido, é este estado de espírito, com as lágrimas a rebentarem-lhe dos olhos que um dos soldados alemães lhe pergunta: “Meu caro, então o que é que aconteceu?”

No posfácio, o escritor Wiel Kusters comenta a novela de Kouwenaar, encontra características comuns entre Kouwenaar e Karel, apesar da guerra não ter sido completamente inesperada significou uma rutura total, toda aquela atmosfera que vemos antes da invasão alemã ficará completamente alterada, aquele jovem de 17 anos é submetido a um quadro afetivo com Ria que o desperta para uma vida sentimental que ele desconhecia. Houve base histórica para os acontecimentos que ele descreve na novela, em 11 de maio as bombas alemãs arrasaram catorze prédios num ponto de Amesterdão, um bombardeiro alemão que fora atingido por artilharia antiaérea continua a voar e largou mais duas bombas. Cai, Bomba! Contém reminescências nítidas deste episódio fatal. O que há de devastador nesta descrição de um destino impiedoso é vermos um adolescente a sentir que tomou o comboio da História e que nos conquistou o coração.

Saudemos uma obra-prima, veio tarde, mas ainda bem que veio.

Leia também: Os demónios da interioridade, as assimetrias que matam os sonhos dos homens | Por Mário Beja Santos

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