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Gestão Nunes assinou contrato com ONG apontada como “de fachada” pelo TCU em 2012

Uma auditoria obtida com exclusividade pela Agência Pública, feita pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em 2012, é taxativa ao afirmar que o Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, é uma entidade “de fachada”. Doze anos depois, o mesmo ICB, sob a mesma presidente, assinou um contrato com a gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), de R$ 108 milhões para fornecer 5 mil pontos de internet para comunidades vulneráveis na capital paulista.

Karina Ferreira da Gama é também a proprietária da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse — cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Como a Pública revelou em 26 de maio, o contrato da ICB teve um aditamento no final do ano passado, que elevou seu total a mais de R$ 157 milhões, para a instalação e manutenção de 3,2 mil pontos de internet, 64% do volume inicialmente contratado. O aditamento foi feito seis dias depois de o caso ter vindo à tona, em reportagem do Intercept Brasil, e ser alvo de pedidos de investigação. Antes deste aditamento, outros três aditamentos haviam antecipado pagamentos sem que as metas de serviços fossem entregues.

Na manhã desta segunda-feira, 1 de junho, a investigação deu um novo passo, com uma operação policial em endereços pessoais de Karina, da produtora do filme e da entidade que preside, além da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. Na investigação, são apuradas as suspeitas de fraude na licitação, na execução do serviço contratado e o suposto desvio de dinheiro público, além de confusão patrimonial e desvio de finalidade dos recursos.

Alertas de irregularidades ignorados

Muitos dos problemas agora revelados nas investigações sobre o contrato do ICB com a gestão Nunes já eram apontados mais de uma década antes em um relatório feito pelo TCU, sobre entidades que haviam recebido recursos do Ministério da Cultura em 2010.

O contrato do ICB que é alvo da auditoria, de R$ 553 mil no valor da época, foi assinado em razão de uma emenda parlamentar do então senador brasiliense Gim Argello (hoje no Avante) para a “realização do festival de música de Brasília, a ser realizado nos dias 03 e 04 de dezembro de 2010 no Teatro Dulcina de Moraes, com o objetivo de promover a difusão cultural através de uma competição musical”.

Segundo a assessoria do ministério, não houve liberação do pagamento “em atendimento à recomendação constante do Aviso-Circular Conjunto n. 128/2010/MPOG/CGU-PR de 20/12/2010, e Memorando-Circular n. 33/2010 – AECI/GM MinC de 28/12/2010”.

O documento levantava dúvidas sobre a capacidade de realizar o trabalho e o alto grau de terceirização na sua execução. Além disso, o TCU já apontava incertezas quanto à própria idoneidade da entidade.

O Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica do ICB data de 1990, quando Karina era apenas uma pré-adolescente, segundo ela própria, na Vila Brasilândia, periferia noroeste da capital paulista. Seu nome passou a ser ligado à entidade apenas em 2010, quando o instituto mudou de dirigentes e de atividades e, logo em seguida, assinou seus primeiros contratos com o poder público, então na área de cultura.

Até 30 de março daquele ano, o ICB era registrado como Associação Rodoviários de Brasília e estava classificado no Cadastro Nacional de Atividades Econômicas como uma “Instituição de Longa Permanência para Idosos”. Uma semana após a alteração da razão social, veio a mudança completa do quadro de dirigentes. Entre 2008 e 2010, aponta o TCU, o instituto não tinha folha de pagamento ou quadro de pessoal.

Para a celebração de contratos como estes, geralmente é exigido que a entidade tenha, pelo menos, três anos de atividade. A mudança e a forma como foi feita, na avaliação dos auditores, indicam que a entidade possa ter sido “adquirida” ou “preparada formalmente” com a finalidade de assinar parcerias com o poder público.

O ICB é apontado ainda no relatório como uma entidade de fachada, sem existência formal, qualificação técnica e capacidade operacional. Assim como outras entidades descritas da mesma forma, o instituto fazia cotação de preços com as mesmas três empresas de produção de eventos, assessoria e marketing. Boa parte do valor total do convênio foi executada por uma delas.

As irregularidades são apontadas em um contrato cujo valor é consideravelmente menor do que o da gestão Nunes. Na ocasião, o acordo analisado era de R$ 553,5 mil (R$ 1,46 milhão em valor atualizado pelo IGP-M até dezembro de 2025, quando foi assinado o aditamento na prefeitura paulistana). Ou seja, mesmo em valores corrigidos, o contrato equivale a menos de 10% do montante do acordo atual.

Karina Ferreira da Gama comanda o ICB e a produtora responsável pelo filme Dark Horse
Karina Ferreira da Gama comanda o ICB e a produtora responsável pelo filme Dark Horse

Os pontos destacados pelo TCU guardam relação direta com as ressalvas feitas pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) antes da assinatura do contrato agora sob investigação, como a fragilidade dos critérios para avaliar a capacidade técnica e operacional da entidade. Outro aspecto que chama a atenção é a possibilidade de subcontratação de empresas privadas para prestar o serviço, o que foi efetivado pela entidade de Karina.

Antes da entrada milionária na área de Inovação e Tecnologia da gestão Nunes, o ICB recebia recursos basicamente de emendas parlamentares para eventos literários, de inclusão digital, esportes e empreendedorismo. Em um deles, como a Pública mostrou, os pagamentos continuaram a ser feitos mesmo depois de os funcionários da prefeitura relatarem dificuldade de contato com a entidade.

O ICB e a Go Up fazem parte de uma rede de entidades e empresas ligadas a Karina. Dessa rede também participam a Academia Nacional de Cultura, que recebeu mais de R$ 2,6 milhões em emendas para a produção de uma série conservadora, e a Conhecer Brasil Assessoria, Produção e Marketing Cultural, que tentou captar R$ 4,9 milhões — quando Mário Frias era secretário nacional de Cultura do governo Bolsonaro — para uma série a respeito de atletas cristãos.

O que diz a prefeitura

Em nota, a prefeitura afirma que “não há qualquer impedimento junto à administração pública para a contratação do Instituto Conhecer Brasil (ICB)”. Diz ainda que, “no momento da celebração do Termo de Colaboração, em 2024, a entidade atendeu integralmente aos requisitos de habilitação previstos no processo de Chamamento Público, que respeitou e seguiu rigorosamente a Lei Federal nº 13.019/2014, marco regulatório das parcerias entre a administração pública e as organizações da sociedade civil”.

Segundo a gestão Nunes, “o ICB apresentou toda a documentação necessária para comprovar sua aptidão e regularidade para participar de certames e formalização do contrato”. Afirma também que “os apontamentos feitos pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) foram sanados à época e a Corte concordou com o prosseguimento do chamamento”.

A gestão municipal garante que “vem exercendo a fiscalização do Termo de Cooperação assinado com a Organização da Sociedade Civil, zelando pelo adequado cumprimento do objeto celebrado”.

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Caso de Tanaka revela “a burocracia do Estado que mata”, diz sociólogo

O caso de Tanaka Luanda Lawrence, a Lulu, uma mulher guianesa presa por 12 anos no Brasil e que morreu a dois dias de ganhar liberdade, joga luz nas falhas de um sistema penitenciário que nega direitos fundamentais de forma sistemática, especialmente quando essas pessoas são mulheres, negras, pobres e estrangeiras.

Ao analisar as violações de direitos e as omissões institucionais que marcaram o caso de Tanaka, revelado pela Agência Pública, o pesquisador em violência de Estado e violência policial e doutor em sociologia da Universidade de Brasília (UnB) Edergenio Negreiros Vieira aponta como o sistema carcerário brasileiro opera. Para ele, casos como o de Tanaka não são exceção, mas regra em uma estrutura que produz desigualdades de forma sistemática.

Negreiros Vieira detalha as múltiplas violações de direitos que Tanaka sofreu: desde a omissão do Estado no acesso à saúde, passando pela negligência médica e farmacêutica, até a morosidade da Justiça em responder a demandas urgentes. O pesquisador também analisa como o Brasil, signatário da Regra de Bangkok — que estabelece padrões mínimos de atendimento à saúde para mulheres presas —, falhou em cumprir seus próprios compromissos internacionais.

Além das questões legais e institucionais, a entrevista analisa sobre os cruzamentos de raça, classe, gênero e xenofobia que agravam ainda mais a situação de pessoas como Tanaka. Utilizando o conceito de necropolítica do teórico camaronês Achille Mbembe, Negreiros Vieira explora como o Estado decide quem merece proteção e quem é descartável. 

Confira os principais trechos da entrevista:

Tanaka Luanda Lawrence, conhecida como Lulu, passou 12 anos presa no Brasil. Morreu dois dias antes de conquistar a liberdade.
Tanaka Luanda Lawrence, conhecida como Lulu, passou 12 anos presa no Brasil. Morreu dois dias antes de conquistar a liberdade

A quais conclusões o senhor chegou a respeito dos direitos postergados e, na prática, negados de Tanaka Luanda Lawrence?

O caso de Tanaka não é isolado. Geralmente, quando surgem casos de violação de direitos e da dignidade humana de pessoas em situação de privação de liberdade, ou relacionados à violência policial, o senso comum tende a imaginar que são exceções, uma anomia dentro do sistema. Pelo contrário, é mais provável que casos como o de Tanaka sejam a regra. Se levarmos em conta que possuímos a terceira maior população carcerária do mundo — tanto no feminino, quanto no masculino —, apesar de o encarceramento no Brasil ser majoritariamente masculino (95% a 97%), a situação dela reflete uma realidade estrutural.

E quais direitos foram negligenciados?

Primeiro, houve omissão por parte do Estado. A Constituição de 1988 consagra o princípio da dignidade humana, inclusive na situação de cárcere. A Lei de Execução Penal (LEP – Lei 7.210/84) também garante plena assistência às pessoas privadas de liberdade. É importante destacar que o artigo 14 da LEP garante expressamente a assistência à saúde (médica, farmacêutica e odontológica) como um dever do Estado. No caso de Tanaka, o Estado negligenciou tanto o atendimento médico quanto o farmacêutico, pois ela não teria tido acesso aos medicamentos necessários.

Além disso, o Brasil é signatário de várias convenções internacionais sobre os direitos de pessoas privadas de liberdade. Temos a Regra de Bangkok, [da Organização] das Nações Unidas (ONU), voltada para o tratamento de mulheres presas e infratoras. O documento, de 2010, estabelece regras mínimas de atendimento à saúde (itens 22 ao 26). Ele determina que cada unidade prisional deve ter um médico à disposição, preferencialmente com conhecimentos mínimos em saúde mental e psiquiátrica. Pelo que consta, não era o caso da unidade onde Tanaka estava alocada, apesar de fazer muro com um hospital.

A questão da saúde dela foi levada à Justiça, mas os prazos concedidos não condizem com a urgência. O senhor avalia que houve aí outro tipo de violação de direitos humanos?

Houve uma evidente falha na tutela jurisdicional, uma dupla desproteção. O Estado falhou ao negar o acesso à saúde, e a Justiça falhou ao não fiscalizar o cumprimento da pena. Quando o advogado peticiona e a Justiça não se efetiva, ocorre essa dupla desproteção: falha do braço executivo do Estado e falha do Judiciário.

Acreditamos, erroneamente, que essas falhas são anomalias, mas os estudos mostram que essa é a forma como o sistema opera. O sistema prisional brasileiro foi alvo da ADPF [Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental] 347, que reconheceu o “estado de coisas inconstitucional” do nosso sistema carcerário. Esse conceito, adotado pelo STF [Supremo Tribunal Federal] a partir do sistema constitucional colombiano, trata exatamente dessas falhas estruturais do Estado.

Nossa Lei de Execução Penal é muito bonita no papel, mas não é cumprida. Esses litígios estruturais revelam uma violação generalizada, um ataque à dignidade da pessoa humana, marcado por inércia e omissão institucional. O caso de Tanaka evidencia essa burocracia do Estado que mata. Superar isso exige soluções complexas, pois envolve cruzamentos de raça, classe social e gênero. O fato de ela ser estrangeira, a xenofobia, é mais um elemento que contribui para esse estado de coisas inconstitucional.

O senhor conseguiria estipular a quantidade de direitos violados?

De imediato, temos a omissão do direito à saúde, que é o mais evidente. Mas também podemos incluir a violação da dignidade da pessoa humana, garantida pela Constituição. Ela enfrentou um calvário para fazer a cirurgia, foi negligenciada na sala de operação e teve que retornar à instituição carcerária. A morosidade do juiz ao ser provocado mostra uma total desumanização das pessoas encarceradas. Não há preocupação com o processo de reeducação. O sistema carcerário, ao invés de ser um lugar de esperança e reeducação, tem produzido cada vez mais desigualdades.

Vivemos uma crise evidente das estruturas sociais, que está se agravando. Não é uma crise cíclica e passageira. O problema é que a crise virou a própria essência do modelo de produção capitalista na sua vertente mais cruel, o neoliberalismo. O neoliberalismo virou uma forma de organização social da vida que não oferece alternativas para todos. Pessoas como Tanaka, que o teórico Clóvis Moura chamaria de “franja marginal”, acabam sendo recrutadas para servir como “mulas”. Se o sistema não resolve o problema dos excluídos, ele os encarcera ou os mata. Não é à toa que o encarceramento e a violência aumentam na sociedade.

Há solução?

Acredito que sim. A solução precisa ser pautada na ideia de uma igualdade radical e em repensar esse modelo de organização social. O discurso progressista que defendo muitas vezes vai na contramão do que circula na sociedade. Precisamos denunciar as mazelas desse modelo e oferecer alternativas para gestar uma nova forma de organização social. No entanto, vejo que muitos que querem gerir o Estado acabam se tornando apenas “gestores da miséria”.

A solução passa por um processo de reeducação e por um debate profundo, como o que a Agência Pública faz, para que chegue a mais pessoas. Esses textos precisam circular nos espaços populares e institucionais para que a sociedade pressione por mudanças, especialmente no sistema judiciário, que tem sido um elemento fundamental na produção de desigualdades.

O senhor acredita que, num caso como esse, faz diferença Tanaka não ser brasileira, não ser branca e/ou não ser homem?

Faz toda a diferença. Podemos pensar no conceito de necropolítica, do camaronês Achille Mbembe. Se antes os estados absolutistas decidiam quem vivia ou morria, nos estados modernos o Estado assume essa função. Ele decide quem vai morrer e quem vai sobreviver. Alguns corpos são passíveis de luto, enquanto outros são “corpos matáveis”.

O corpo de Tanaka e de tantas outras mulheres, especialmente negras, pobres e estrangeiras de países fora do eixo ocidental dominante, são tratados dessa forma. 

Se fosse alemã, inglesa ou estadunidense branca, o caso teria virado um escândalo e um problema diplomático tremendo. Mas Tanaka é uma mulher guianesa, pobre e preta. Ela está marcada por esses cruzamentos que tornam a existência ainda mais cruel.

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Lindbergh Farias aciona Interpol para investigar empresas ligadas a Dark Horse no exterior

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) informou no último domingo, 31 de maio, por meio de suas redes sociais, que acionou o escritório central no Brasil da Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) para solicitar investigações sobre o financiamento da cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, o filme Dark Horse. A denúncia está baseada na reportagem da Agência Pública que mostra a relação entre Eduardo Bolsonaro e Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up, produtora do filme, com a empresa de origem holandesa e endereço principal na Hungria, Freeway Cam BV.

O documento enviado pelo deputado às autoridades policiais cuja íntegra a Pública teve acesso, cita um “pedido de cooperação penal internacional para apuração de possível lavagem de dinheiro, ocultação de beneficiários finais e triangulação transnacional de recursos relacionados ao financiamento do filme Dark Horse”.

Segundo os argumentos apresentados no ofício, a investigação deve ser feita para apurar se o produção do filme não teria funcionado como “instrumento de circulação, estratificação ou integração de recursos, inclusive mediante transferência internacional, contratação de prestadores estrangeiros, custódia em jurisdição intermediária e eventual utilização dos valores para despesas pessoais, políticas, jurídicas ou comunicacionais no exterior”.

Farias também ressalta que “a gravidade do caso se intensifica” diante das investigações que apontam o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso e investigado por possíveis fraudes financeiras associadas ao Banco Master, como um dos principais financiadores do filme, utilizando uma “estrutura financeira sediada nos Estados Unidos”. 

“Esse dado é fundamental, pois desloca a análise de uma relação privada de financiamento audiovisual para uma possível cadeia de ocultação, dissimulação e integração de valores oriundos de crimes antecedentes contra o sistema financeiro, o mercado de capitais, a administração pública, a ordem econômico-financeira ou outros ilícitos conexos”, afirma no documento. 

No pedido de investigação sobre o financiamento do filme à Interpol, estão citados a Go Up Entertainment, os aportes de Daniel Vorcaro, o Havengate Development Fund LP, a Freeway Cam B.V., a Stichting Freeway Custody, a New Path Pictures Inc. e demais pessoas físicas e jurídicas envolvidas. 

Também são solicitados pedidos de informação às autoridades holandesas, húngaras, norte-americanas, além da preservação “urgente de dados” como registros financeiros, contratos, minutas e comunicações eletrônicas. 

Revelações: Eduardo Bolsonaro, Go Up, Mario Frias e Karina da Gama

Na semana passada, além de mostrar que Eduardo Bolsonaro e a Go Up procuraram uma empresa da Hungria para pagamentos ao filme, a Agência Pública revelou como Mário Frias e Karina da Gama teriam oferecido até R$ 500 mil pela história de Bolsonaro e as condições impostas na minuta para o ex-presidente ceder sua história de vida para sempre. Em outra reportagem, documentos indicam que Cyrus Nowrasteh recebeu links desinformativos e livros do Brasil Paralelo para o roteiro do filme. 

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O que acontece quando a guerra às drogas vira guerra ao terrorismo

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A maior diferença entre chamar CV e PCC de terroristas ou organizações criminosas está na caneta de Donald Trump. Não tem nada a ver com o Brasil. Declarando as duas organizações brasileiras como “narco-terroristas”, o presidente dos EUA – Trump e também quem vier depois – tem o poder de realizar ações militares no nosso território sem precisar de autorização do Congresso. Invadir, portanto, as águas do nosso litoral e as calçadas das nossas cidades.    

Pra entender o que isso significa de fato, é fundamental olhar quem foram os homens mortos pelos militares americanos no Caribe, nos 58 bombardeios a embarcações e que deixaram, até o final de maio, 179 mortos, segundo uma investigação recente liderada pelo Clip, Centro Latinoamericano de Periodismo de Investigación.  

Aconteceu, por exemplo, com Chad Joseph, um pescador de 26 anos de Trinidad e Tobago. Joseph era pescador desde pequeno, e estava vivendo com a tia na comunidade de Las Cuevas, na Venezuela, quando decidiu subir em uma embarcação que ia rumo à sua vila de Matelot, um vilarejo de pescadores em Trinidad e Tobago. Ia encontrar a namorada. 

No dia 14 de outubro passado, a embarcação foi alvejada por militares americanos. O resultado, como em todos os bombardeios do tipo, foi a destruição total: corpos despedaçados, embarcação destroçada e qualquer conteúdo que esteja a bordo perdido no mar. É impossível saber se havia de fato drogas a bordo. 

Nem os EUA de Trump se preocupam em tentar apresentar evidências disso. 

No caso de Chad, sua família conseguiu identificá-lo e pressionar as autoridades de Trinidad e Tobago e, depois, processou o governo americano em uma corte federal em Massachusetts. 

Mas por que Chad teria decidido se arriscar e entrar na embarcação que saía da Venezuela rumo a Trinidad e Tobago? Sua mãe, Lenore Burnley, explicou: “Eu conheço a lei do mar; conheço desde que era jovem. Se é um barco, ou algo assim, supostamente você tem que pará-lo, entende? A lei não prevê matar pessoas. Esta é a primeira vez na minha vida, e tenho 51 anos. Nunca ouvi falar de algo assim”.

Ou seja: porque a ideia é tão absurda que nem passava pela cabeça de Chad.  

Nem na cabeça de de Rishi Samaroo, um ex-detento de Trinidad e Tobago que já havia cumprido sua pena e criava vacas e cabras na Venezuela para ajudar a família. Nem na de Eduard Hidalgo, 46 anos, pescador da Venezuela, deportado dos EUA em 2025. Ou de Luis Ramón Amundarain, mototaxista de Güiria, Venezuela. Nem pensava sobre isso Alejandro Andrés Carranza Medina, de La Guajira, Colômbia, pescador de atum e marlim. Ou Eduardo Jaime, conhecido como “Pichirilo”, jogador de futsal adorado pelos vizinhos da municipalidade de Güiria, na Venezuela. Nem Ricky Joseph, pescador de Savannes Bay, em Santa Lucía.

No total, a investigação transnacional conseguiu identificar 18 dos assassinados. Apenas. O resto se perdeu no oceano. 

Desde que o filho foi despedaçado no mar, Lenore Burnley diz que sua vida tem sido uma “tempestade contraditória entre ter uma vaga esperança e a realidade crua da morte súbita de Joseph, sem que haja um corpo para enterrar”. 

Especialistas consultados pela investigação afirmam que muitas vezes os mesmos barcos que levam drogas de um lugar a outro levam passageiros na viagem de volta, aproveitando para ganhar um troco a mais.    

Entender as histórias dessas vítimas que sequer tiveram a oportunidade de serem questionadas pela polícia revela o tamanho do horror que é a ação politiqueira de Flávio Bolsonaro, seu irmão Eduardo e o cúmplice Paulo Figueiredo, ao armarem uma missão para convencer o governo americano a dar a si mesmo o direito de fazer exatamente isso contra trabalhadores brasileiros. 

Enquanto a maioria dos analistas repetem que os danos da designação de PCC e CV como terroristas serão econômicos, com possíveis sanções a bancos, empresas e até o PIX, é com os trabalhadores que eu me preocupo. E não só os pescadores. 

Isso porque a série Los bombardeados, sin derecho a la defensa, liderada pelo CLIP, também descobriu outra coisa escandalosa. O tráfego aéreo da Colômbia foi afetado por “apagões” de radares aéreos justamente nos dias e horários em que os EUA bombardearam a costa. Tudo indica que os militares americanos usam um bloqueador de sinal que coloca em enorme perigo também os aviões comerciais que sobrevoam o céu colombiano.

E os seus trabalhadores – que não têm absolutamente nada a ver com isso. 

Um piloto de um Airbus A320 com capacidade para 180 passageiros descreveu assim o que presenciou no dia 12 de dezembro de 2025. “Estava voando de Bogotá para Aruba e, quando estava passando por cima de La Guajira, os dois GPS falharam e até o relógio que marca a hora UTC falhou. Foi estranho e nunca tinha acontecido comigo”, disse. 

Segundo o relatório enviado à Aeronáutica colombiana, revisado pelos jornalistas, primeiro o GPS esquerdo falhou, depois o direito, e depois o transponder, dispositivo que informa ao radar em terra onde o avião está . A torre de controle não sabia onde estavam. Os alarmes do sistema antichoque se acenderam e diziam que o solo estava próximo, mas eles estavam a milhares de pés de altura, sobre o mar aberto. Os sistemas continuaram falhando até eles pousarem em Aruba, destino turístico que recebe mais de 2 milhões de visitantes por ano. 

Se eu fosse os sindicatos de pescadores e outros trabalhadores que operam no mar, eu estaria muito preocupada. Assim como os sindicatos de outros tipos de profissionais, como os pilotos, aeromoças e serventes de bordo.

Sem falar a Aeronáutica brasileira. Onde estão nossos Brigadeiros? 

Ou a Marinha. Onde estão nossos valentes Almirantes? 

Finalmente, qualquer companhia aérea e operadora de turismo deveria também estar alarmada. Imagine se um avião com 200 passageiros é afetado por um desses “apagões”?   

A ação de Flávio Bolsonaro acaba de dar carta branca a qualquer presidente dos EUA de assassinar qualquer brasileiro sem perguntar antes quem ele é, o que ele faz.

Uma irresponsabilidade. Uma molecagem. Essa é uma mancha que não vai sumir tão cedo, por mais cloro que se aplique, e que vai ter consequências com as quais o Brasil terá que lidar por muito tempo depois das eleições.   

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Como estragar seu dia: vá ao dermatologista

Faz uns dias que tive uma consulta com a dermatologista. Mais de uma década se passou desde que tive o desprazer de alguém apontar uma lupa para os meus poros, e achei que era hora de conferir a saúde da pele. Nada, porém, me preparou para a experiência. Inclusive, se um dia você estiver procurando um jeito de estragar sua semana, faça como eu e marque um dermatologista para segunda de manhã bem cedo. É um estrago garantido.

Fomos eu e meu companheiro: dois branquelos com histórico de algumas pintas meio problemáticas na família. A médica pediu para entrarmos juntos para “dedurarmos um ao outro”. Meu companheiro começou explicando que seu objetivo era ver pintas. A médica fez perguntas sobre elas e sobre a pele dos pais etc. Tudo normal e profissional. Até que ela se virou para mim.

Repeti que também estava ali por causa das pintas, especialmente de uma no rosto. Daí a primeira diferença: ela me perguntou o que eu fazia de “skin care”. Bastou mencionar o produto para a região dos olhos que ela me interrompeu: “Pois é, a verdade é que você devia pensar seriamente em botox com essas linhas na sua testa”.

Mesmo chocada, consegui articular: “Não quero colocar botox”. Ela, porém, não desanimou. Insistiu: botox era a única saída, porque minha pele “tem tendência a craquelar” e as linhas de expressão “já estão visíveis mesmo com o rosto relaxado” e, portanto, era “agora ou nunca”: se eu quiser colocar em alguns anos, será tarde; as linhas terão se tornado “vincos irreversíveis”.

“Mas… eu não me importo com as minhas linhas”, falei, baixinho, enquanto minha autoestima era sugada por aquela médica transformada em vendedora de botox.

Vejam, eu entendo as mulheres que se injetam a toxina botulínica. O ano é 2026, mas a pressão ainda é tão grande que até dá pra argumentar que a função primeira e principal de toda mulher é ser bonita e, portanto, jovem — o que só é possível com uma pele livre de qualquer marca deixada pelo tempo. Não é como se surpreendesse que, em 2024, as aplicações de botox tenham representado 46% de todos os procedimentos estéticos não-cirúrgicos no Brasil. Foram 351 mil aplicações, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética.

O que me surpreendeu foi ter sido explícita sobre minha preocupação naquela consulta (a saúde da minha pele) e, em troca, ter recebido uma enxurrada de opiniões não solicitadas sobre a aparência dela.

Sem falar na diferença no tratamento: meu companheiro também tem linhas de expressão na testa. Adivinhe se a médica falou alguma coisa para ele? Já eu tive que passar minutos ouvindo sobre como minha pele “é difícil” e, que absurdo!, eu, “com 30 anos”, já estou “com essas linhas todas”.

Saí arrasada, me sentindo inadequada e com raiva de mim mesma por não ter antecipado o pior. O que esperava? Receber o mesmo tratamento que um homem? Encontrar uma médica focada na saúde? Mesmo sabendo que homens não são tão cobrados pela aparência quanto nós, como todo mundo vem me dizer, que dermatologista ganha dinheiro mesmo aplicando botox? Inocência da minha parte.

Depois, fui falar com mulheres. Uma tem um grupo de amigas com a opinião unânime de que “depois dos 25 anos é obrigatório colocar botox”. Outra estava pensando em se candidatar, enquanto uma terceira admitiu: “Já cedi, estou noiva, não tem como!”. Uma quarta confessou: “Não gosto de falar sobre isso; esse assunto me dá muita ansiedade”. Bom, pelo menos não sou a única lançada nesse redemoinho que só deve ter aprofundado minhas linhas.​

Desde então, não paro de me perguntar: por que um procedimento que não é indicado para grávidas é vendido como a coisa mais tranquila do mundo? O que é tão horrível em linhas de expressão? Estou perdendo o bonde da História ao não me livrar das minhas? Será que algum dia vamos deixar as mulheres envelhecerem em paz? Ou será que, em breve, vamos ser incapazes de lembrar como são os rostos humanos normais e imperfeitos?

Quem procura, acha. E eu, em 30 minutos, estraguei minha semana e achei uma nova noia para chamar de minha.

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Exclusivo: Todas as perguntas do diretor de Dark Horse sobre Bolsonaro

O Jair Bolsonaro adolescente levou o Exército do vilarejo dele para encontrar o acampamento [da guerrilha]? 
Quando Jair Bolsonaro estava no Exército, nas anotações enviadas, está mencionado que ele lutou contra traficantes de drogas? 

Essas são algumas das perguntas enviadas por Cyrus Nowrasteh, diretor do filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro, produzida pela Go Up Entertainment e pelo deputado federal Mário Frias Filho, que teve o filho do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro, como financiador

Além de dirigir a obra, Cyrus Nowrasteh escreveu o roteiro ao lado do seu irmão, Mark Nowrasteh, a partir de argumento escrito por Mário Frias. 

Documentos obtidos com exclusividade pela Agência Pública, datados de março de 2024, registram pedidos de esclarecimentos feitos pelos irmãos Nowrasteh a respeito da biografia de Bolsonaro, e os esforços da equipe da Go UP para muni-lo de informações. Muitas dessas fontes, entretanto, são notórios disseminadores de desinformação, como a produtora conservadora Brasil Paralelo. Muitas dessas narrativas enviadas aos norte-americanos já foram desmentidas.  

As mensagens indicam ainda a falta de compreensão sobre o Brasil e a tentativa da equipe da Go UP de retratar o ex-presidente – preso e condenado pela tentativa de dar um Golpe de Estado – como um defensor de causas justas. 

Como a Agência Lupa demonstrou, o roteiro final do filme Dark Horse altera acontecimentos da campanha de 2018 para beneficiar a imagem do ex-presidente ao disseminar desinformação usualmente propagada pelo clã Bolsonaro.      

Defesa da Amazônia? 

Um dos pontos de interesse dos roteiristas tem a ver com a alegação, contida no argumento criado por Mário Frias, de que Jair Bolsonaro seria um defensor dos indígenas e da Amazônia. 

Cyros e Mark perguntam se Jair chegou a “trabalhar com tribos indígenas” quando era do Exército. “Ele teve contato com elas? Ele as utilizou em suas operações? Recebeu ajuda delas? Elas serviram como guias?”. 

Na verdade, Jair Bolsonaro serviu no Exército primordialmente no Rio de Janeiro e no Mato Grosso, antes de ser investigado por um plano para explodir bombas na Vila Militar e na Academia Militar das Agulhas Negras, no Rio de Janeiro.

Sobre esse aspecto, fica novamente evidente que os roteiristas receberam informações distorcidas. Eles afirmam que querem mais informações sobre o julgamento de Bolsonaro pelo Exército. 

O julgamento e a detenção dele por escrever um artigo criticando o exército ocorreram durante a ditadura militar? Gostaria de mais informações sobre isso… teve muita repercussão? Ele era considerado uma ameaça ao governo?

Obviamente, Bolsonaro não só não era uma ameaça ao regime militar, mas criou toda sua carreira política defendendo o Golpe cívico-militar de 1964. Nem ele chegou a ser considerado uma “ameaça” quando passou a protestar pelos baixos salários dos cadetes. 

Ainda sobre a sua relação com a Amazônia, os irmãos roteiristas demonstram uma visão romanceada do herói do seu filme – e bem fora da realidade. No documento enviado, eles perguntam: 

Qual era a sua posição como candidato na Amazônia? Como ele defendeu a população indígena? O que havia de diferente em sua política?

Bolsonaro é um ferrenho opositor de legislações de proteção ambiental, assim como de políticas de proteção aos indígenas. Durante seu governo, ele proibiu o Ibama de queimar equipamentos usados para o desmatamento ilegal, fomentou o garimpo ilegal e perseguiu fiscais do Ibama. O desmatamento da Amazônia dobrou, segundo levantamento do Instituto Socioambiental (ISA). 

Jair Bolsonaro durante evento do setor agronegócio, em Ribeirão Preto, São Paulo
 Bolsonaro deixou presidência com recorde histórico de desmatamento em Áreas Protegidas

Mentiras sobre a passagem de Jair no Exército 

Outra desinformação enviada para os roteiristas garante que, aos 15 anos, Bolsonaro ajudou o Exército brasileiro a localizar o guerrilheiro Carlos Lamarca – uma versão propagada pelo próprio Bolsonaro e desmentida diversas vezes.       

Precisamos de mais informações sobre o guerrilheiro anti-governo Carlos LaMarca. Um Jair Bolsonaro adolescente que levou o Exército de sua comunidade para encontrar o acampamento deles? Quem era LaMarca? Sei que ele era um rebelde famoso por sequestrar um embaixador? O que aconteceu com esse embaixador? Na incursão em que o exército foi ao acampamento marxista, LaMarca estava lá? Ele foi morto? O que aconteceu…?

Bolsonaro chegou a propagar a mentira que estava em sala de aula quando os militares chegaram à cidadezinha de Eldorado, no Vale do Ribeira, onde buscavam Lamarca e outros guerrilheiros. O cerco que se criou foi fenomenal, conforme revelou a Agência Pública, o que incluiu o uso de bombas de Napalm contra uma área habitada para queimar as matas e ajudar na localização do grupo. O ex-presidente diz que estava na escola e viu os professores reagindo ao tiroteio entre militares e o grupo de Lamarca. Na verdade, houve sim um confronto em Eldorado, mas ele ocorreu às 21h, segundo registros do próprio Exército, quando não havia aulas. 

Além disso, não existe nenhum registro de que um adolescente de Eldorado teria fornecido informações que ajudariam a encontrar Lamarca – conhecido como “capitão do povo”, o guerrilheiro conseguiu fugir ao cerco e só foi encontrado mais de um ano depois. 

A facada de Adélio Bispo

A maior desinformação enviada aos roteiristas, no entanto, diz respeito à facada sofrida por Bolsonaro durante as eleições de 2018. O filme Dark Horse traz a narrativa que uma conspiração entre a esquerda e narcotraficantes estaria por trás do episódio. Três investigações da PF determinaram que Adélio tem problemas psiquiátricos e agiu sozinho. 

Cyrus e Mark pediram mais informações sobre isso, e a equipe listou diversos vídeos que propagam teorias da conspiração. Por exemplo, alguns vídeos são do canal “Dr Marcelo Soares-Advogado”, notório por usar títulos com desinformação. Um deles é: “Vazou – depósito de 50 mil para Adélio Bispo”, uma fake news que já foi desmentida algumas vezes por agências de checagem, e outro vídeo que falseia que Adélio identificou mandantes do crime, o que também já foi desmentido

Outro material enviado aos roteiristas é o ebook “Investigação paralela”, feito pela produtora Brasil Paralelo a partir da série de mesmo nome. Na produção e no ebook, diversas versões sobre a facada são aventadas, e o principal entrevistado é o advogado de Bolsonaro Frederick Wassef, que tem estreita ligação com o ex-policial militar Fabrício Queiroz, que fez parte do esquema de rachadinhas do mandato de Flávio Bolsonaro na ALERJ.    

No ebook, Wassef garante que um terceiro inquérito aberto pela PF estava próximo de encontrar os mandantes do crime. “As pessoas se revoltariam”, diz.

A última pergunta dos irmãos Nowrasteh demonstra uma busca por retratar Bolsonaro como um herói digno de filme de Hollywood.   

Ele participou de uma longa caminhada com apoiadores pelas ruas?

“Após essa longa caminhada, ele chegou a um pódio onde subiu — sozinho, sem ajuda — e fez um discurso de retorno triunfal para mostrar ao mundo e aos seus oponentes que ele ainda não desistiu!”, escreveram.

Essas respostas são cruciais para a história e para nossa capacidade de torná-la o mais precisa e cheia de suspense possível, e o mais dramaticamente gratificante. 

A resposta não consta dos documentos analisados pela Pública, mas se a equipe da Go Up buscasse ser fidedigna ao que ocorreu na eleição de 2018, poderia detalhar a aparição de Jair Bolsonaro, por vídeo, para um grupo de milhares de apoiadores da Avenida Paulista, quando ele prometeu “varrer do mapa os bandidos vermelhos do Brasil” no seu último discurso de campanha.     

“Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia”, ameaçou Bolsonaro, seis anos antes de ser ele mesmo condenado e preso por tentar um golpe de Estado. 

A reportagem tentou contato com Cyrus Nowrasteh e com a Go Up Entertainment mas não recebeu retorno até a publicação.   

Colagem com as fotos de Adélio Bispo e Jair Bolsonaro, durante evento em que foi ferido com uma faca
Apesar de três investigações da PF concluírem que Adélio Bispo agiu sozinho, teorias conspiratórias sobre a facada de 2018 abasteceram o roteiro de Dark Horse

Novas revelações

Nesta quarta-feira, 27 de maio, e, quinta-feira, 28 de maio, a Pública trouxe novas revelações ao caso Dark Horse ao mostrar, com exclusividade, que Eduardo Bolsonaro e a Go Up procuraram uma empresa da Hungria para pagamentos ao filme. Os documentos apontam tentativa de contratação de “escrow account”, ou “conta de custódia”, e possível pagamento de US$ 57,5 mil ao diretor Cyrus Nowrasteh. Também revelou como Mário Frias e Karina da Gama teriam oferecido até R$ 500 mil pela história de Bolsonaro e as condições impostas na minuta para o ex-presidente ceder sua história de vida para sempre.

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