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Não deixe a sanfona morrer

A cada ano que passa, assistimos com tristeza ao lento processo de descaracterização das festas juninas no Nordeste. Movidos pelo modismo passageiro, pelo pragmatismo de mercado e por interesses eleitoreiros, muitos prefeitos transformaram o São João em uma simples festa de entretenimento. Enchem os palcos com rock, pagode, funk e outros ritmos que pouco ou nada têm a ver com nossa cultura.

Pior ainda: pagam a esses artistas cachês vultosos, que podem chegar perto de R$ 2 milhões. Enquanto isso, viram as costas para a autêntica identidade nordestina. Tristemente, deixam morrer o forró pé de serra, o baião, o xote, o xaxado e o coco — gêneros musicais que constituem nosso verdadeiro patrimônio cultural. São músicas e danças nascidas do chão esturricado do sertão, da luta diária do sertanejo contra a seca inclemente, da viola encostada ao peito magro do poeta repentista, do canto agourento do acauã e do voo apressado da asa-branca, trazendo de volta a esperança de um bom inverno ao coração do povo sofrido.

Enquanto cantores famosos recebem verdadeiras fortunas, os trios pé de serra e os pequenos grupos de forró, baião, xote, xaxado e coco sobrevivem na penúria. Persistem por pura teimosia. Vivem por amor à arte simples que “nasce no juízo”, como disse certa vez o mestre Vitalino.

Um jornalista amigo, que apresenta um programa de rádio no interior de Pernambuco, costuma contar que sempre convida esses grupos para se apresentarem em seu programa, ajudando a divulgar seu trabalho. Porém, precisa custear o transporte deles até a emissora, porque simplesmente não têm dinheiro para chegar lá.

Com essa mistura cultural desenfreada, a essência do São João vai se perdendo. Antes, a festa celebrava a colheita, com ruas enfeitadas por bandeirolas multicoloridas, fogueiras, balões, o pipocar dos fogos, as brincadeiras das crianças soltando “peido-de-veia”, traques de massa e busca-pés, além dos pastoris e da dança alegre das quadrilhas.

Nas noites iluminadas por balões coloridos e perfumadas pela fumaça da lenha queimando, ouviam-se as músicas de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Maciel Melo, Petrúcio Amorim, Geraldo Azevedo, Alceu Valença e Trio Nordestino. Também ecoavam as vozes marcantes de Flávio José, Santana, Marinês e Jorge de Altinho.

Era especialmente emocionante escutar o som puro — com cheiro de sertão — dos humildes trios pé de serra, com o indefectível tilintar do triângulo, o tum-tum grave da zabumba, o estalar da baqueta de tala de capim barba-de-bode e a sanfona gemendo como um caminhão velho subindo ladeira.

Hoje, tudo isso é sufocado por batidas eletrônicas, ritmos estranhos e coreografias sensuais de bailarinas que adornam os shows de artistas sem qualquer ligação com nossa história e nossas raízes.

Felizmente, ainda existem algumas prefeituras comprometidas com a cultura. Administrações que preservam a tradição, valorizam os artistas da terra e garantem espaço e respeito à música de raiz.

É nosso dever cívico e cultural prestigiar esses municípios resistentes. Precisamos apoiar e viver intensamente o pouco de São João autêntico que ainda nos resta. Só assim conseguiremos preservar nossa memória antes que a maior festa do Nordeste seja completamente descaracterizada e se transforme, definitivamente, em uma doce e saudosa lembrança.

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Joel de Hollanda é economista, foi secretário de Educação no governo Marco Maciel, deputado estadual, federal e e
senador da República.

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Ontem, como professor, ganhei 10-0 à Inteligência Artificial | Por Paulo Freitas do Amaral

Ontem revi dezenas de ex-alunos meus num sarau de ginástica. Após muitas emoções e, já em casa, com alguma frieza, revi rostos, momentos e ensinamentos e percebi que o tempo também nos pode dar felicidade, por permanecermos no coração e na memória de quem partilhou conhecimento e sentimento numa sala de aula connosco.

Foi aí que o meu pensamento, antes de adormecer no sofá, me levou para mais longe… As palavras de um comentador “elétrico”, aos berros na televisão, ecoavam, dizendo que a profissão de professor iria ser dizimada pela Inteligência Artificial.

Pensei para comigo: será que este comentador diria o mesmo se tivesse ensinado o António, que agora ama a disciplina de História porque viveu as minhas aulas sobre a cultura egípcia como se tivesse sido o melhor amigo de Ramsés III? Será que este comentador tem noção de que o Manel descobriu o seu jeito para fazer os outros rir, por se sentir à vontade comigo, quando contou uma piada provocadora na sala e fez o resto da turma rir? Será que o comentador da televisão tem noção de que a Matilde disse à mãe, no dia em que me despedi da sua turma, que queria ser professora de Português quando crescesse, tal e qual como o professor Paulo era?

A Inteligência Artificial, por mais que pense sozinha, aja sozinha e até possa dar aulas, nunca ouvirá um agradecimento de um aluno por o ter mandado para a rua numa aula por ter feito uma asneira, como a Rita me disse ontem durante o sarau… E já passaram quatro anos desde que fui professor dela, em Évora.

Por mais que a Inteligência Artificial se ligue a um robô e resulte num maravilhoso humanoide, ao rever a Catarina, jamais lhe perguntará, como lhe perguntei ontem, se as razões das lágrimas que deitou no seu 5.º ano já desapareceram. Jamais conhecerá o olhar cúmplice ou o abraço sentido que ontem troquei com o Dinis, por saber das dificuldades que passou com os seus colegas… e que ele sabe que eu sei.

A exigência de um professor no futuro não pode ser a mesma que pautou o ensino quando éramos crianças. Nisso dou razão aos “profetas da desgraça” que vaticinam o desaparecimento da profissão de professor. Aos professores mais insensíveis para com os alunos, a sua hora chegará.

A profissão de professor no futuro, utilizando o recurso expressivo da comparação e recorrendo ao exemplo de uma profissão que, segundo o comentador “elétrico” da televisão, jamais desaparecerá, terá de ser como a de um canalizador: analisa (ensina), descobre o problema (cativa os alunos para gostarem da sua disciplina) e repara (encaminha os alunos para serem bons profissionais).

Os discursos monocórdicos da exigência do passado terão de ser reformulados. A alegria de ensinar e a construção de bons seres humanos não passam por uma máquina, por mais que ela se assemelhe ao ser humano.

Aquilo que faz correr um aluno para um abraço de reencontro a um professor é muito mais do que um algoritmo disfarçado de “olhar humano”.

Os avisos da Anthropic para os professores servirão apenas para aqueles que acham que uma nota reflete toda a exigência do mundo, que a alegria é sinónimo de irresponsabilidade e que uma cara mal-disposta representa autoridade.

Leia também: Noite Black & White transforma Carvoeiro em grande festa de verão

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Uma República sem Netanyahu

Netanyahu não é apenas um primeiro-ministro. Consolidou um sistema político que se habituou a viver em estado de emergência permanente, à custa dos outros. Neste outono, Israel não escolhe apenas um governo, escolhe se ainda existe política para lá da guerra

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Ciência, inovação, comunidade

Para quem acha que a inovação baseada em ciência só tem um tipo de caminho, Idanha-a-Velha é um excelente exemplo alternativo, sobretudo se diferentes disciplinas se juntarem de forma construtiva. Opinião de João Ramalho-Santos
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Ciência, inovação, comunidade

Para quem acha que a inovação baseada em ciência só tem um tipo de caminho, Idanha-a-Velha é um excelente exemplo alternativo, sobretudo se diferentes disciplinas se juntarem de forma construtiva. Opinião de João Ramalho-Santos
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Mosquito desagradável

Ninguém, em sã consciência, deseja adoecer, reforçando, neste período de chuvas, a importância de a população fazer a sua parte e também cobrar ao poder público municipal o dever de protegê-la. Aumenta a probabilidade de zika, chikungunya e dengue transmitidas pelo mosquito aedes Aegypt, fazendo jus à denominação original “desagradável”; “do Egito” é onde foi descoberto.Como não se pretende formar entomólogos (cientistas de insetos alados), o mais razoável mesmo é evitar cobrar das pessoas conhecimento para identificar o causador dos males. Por muitos e muitos anos, esta inusitada e débil metodologia de ensinar que o aedes tem desenho “pintadinho” pretendeu transferir a maior responsabilidade do desafio.A proposta ora hegemônica é combater a proliferação de todo mosquito ou muriçoca, basta estar voando e zunindo com o bater das asas. Para tanto, continua valendo a tática de esvaziar recipientes, um trabalho para Hércules em uma cidade onde os contêineres transbordam de lixo, entre os quais latas, pneus e frascos.Da prefeitura, espera-se a prestação do serviço dos carros “fumacê”, além das costumeiras visitas, como forma de redução de danos nas casas. Uma feliz ideia é oferecer apoio a cada bairro segundo sua necessidade, dando prioridade aqueles com maior infestação.Não são poucos a disputar este acesso, tendo como favoritos alguns campeões na baixa qualidade de assistência aliada à origem caracterizada pelas ocupações espontâneas. Podem alinhar nesta espécie de “subcidade”, Narandiba, Vila Ruy Barbosa, Boca da Mata, Saramandaia, Bairro da Paz, Palestina, Calabetão, Santa Cruz, Novos Marotinhos, Alto do Coqueirinho, Nova Brasília, Pero Vaz e uma maior parte dos Pernambués.Como se pode concluir, é trabalho gigantesco para os servidores engajados na saúde pública: nem as pessoas escapam sem a prefeitura e nem a municipalidade consegue rolar esta rocha, provisoriamente, como a de Sísifo, sem a participação da cidadania.

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