Por que o PSB está torcendo por uma candidatura do PL em Pernambuco
João Campos (PSB) iniciou a pré-campanha ao Governo de Pernambuco na condição de favorito e chega a junho administrando uma queda. Entre abril e maio, o Datafolha registrou uma das viradas mais rápidas deste ciclo eleitoral. O ex-prefeito do Recife, que liderava com 12 pontos de vantagem no levantamento divulgado em 16 de abril, caiu para 43% na pesquisa seguinte, enquanto a governadora Raquel Lyra (PSD) saltou para 48%. Pela margem de erro de três pontos, o empate técnico é o consolo possível. Mas não acalma os socialistas.
O incômodo cresce quando o movimento se combina à melhora da avaliação da gestão estadual, aprovada por 67% dos eleitores no mesmo levantamento. E isso começou a levantar no ninho do PSB um questionamento incômodo: e se ela vencer no primeiro turno?
A questão preocupa porque para o PSB há muito mais em jogo do que a vitória de João Campos em 2026. Querendo ou não, trata-se de um capítulo inicial para uma planejada história de protagonismo nacional do ex-prefeito do Recife. A derrota cabe na biografia de qualquer político, sem problemas, mas alguns detalhes podem atrapalhar. Uma coisa é perder uma eleição disputada e outra é perder no primeiro turno, com uma diferença considerável de votos. Porque essas coisas marcam mais negativamente.
Todo mundo lembra da vitória por mais de um milhão de votos de Jarbas sobre o mítico Miguel Arraes em 1998. Da mesma forma, todo mundo lembra da vitória de Eduardo Campos sobre Jarbas, em 2010, por quase três milhões de votos. Do outro lado, pouca gente lembra detalhes da derrota de Armando Monteiro Neto para Paulo Câmara em 2018, porque a diferença foi menor que 600 mil votos.
Reação
A ação do PSB se desenha em duas frentes. A primeira é visível e ocorre no varejo da política estadual com a tentativa de atrair aliados da governadora. O movimento mais recente, revelado pela jornalista Terezinha Nunes, envolve o deputado federal Waldemar Oliveira (Avante), que teria sido procurado por interlocutores de João Campos depois de manifestar descontentamento com o Palácio do Campo das Princesas por causa de uma nomeação no secretariado.
Waldemar garante que segue com Raquel, mas o assédio revela o método: explorar cada fissura na base governista enquanto os números desfavorecem o ex-prefeito. A operação tem pressa porque a janela partidária e o prazo das convenções se aproximam, e cada aliado que permanece com a governadora consolida o desenho atual.
Bastidor
A segunda frente é mais discreta e mais reveladora. Interlocutores em Brasília relatam que integrantes do PSB foram vistos em conversa com integrantes do PL na capital federal. O interesse socialista no partido de Bolsonaro tem explicação aritmética baseada nas possibilidades acima pontuadas.
Os dirigentes da legenda começaram a admitir que uma eleição sem candidato de Bolsonaro transforma o primeiro turno em um embate de um contra um. Ivan Moraes (PSOL), com 2% no último Datafolha, não pontua o suficiente para fragmentar o voto e empurrar a decisão para um segundo turno.
Em um cenário binário, com Raquel em crescimento e gestão bem avaliada, a disputa pode se resolver no dia 4 de outubro. Possivelmente contra João.
Aritmética
Daí a movimentação para estimular uma candidatura do PL ao governo, com integrantes do PSB atuando nos bastidores para que ela saia do papel. Na Assembleia Legislativa, deputados calculam que um nome da legenda atrairia de 5% a 8% dos votos, retirados majoritariamente da governadora, já que o eleitor conservador dificilmente migraria para um candidato apoiado pelo PT, também segundo a apuração de Terezinha Nunes.
O partido que João Campos preside nacionalmente torce em reservado pela formação de um palanque de Flávio Bolsonaro em Pernambuco. A política produz essas sintonias improváveis.
Laboratório
Não foi por acaso que pesquisas recentes, algumas de institutos inéditos no cenário pernambucano, incluíram o nome de Anderson Ferreira (PL) como candidato a governador, hipótese que o presidente estadual da legenda jamais cogitou publicamente. Esses levantamentos funcionam como laboratório. Se o teste indicar que o nome morde a votação da governadora, a tese da candidatura própria ganha força dentro e fora do PL.
Quinta-feira
A resposta começa a ser construída nesta quinta-feira, quando o PL reúne deputados federais, estaduais e vereadores para definir a estratégia majoritária. O deputado estadual Alberto Feitosa (PL) defende a candidatura ao governo para garantir palanque a Flávio Bolsonaro e o uso dos 20% de tempo de televisão da legenda. Há também um argumento de marketing: o candidato a governador carregaria o número 22, o mesmo do presidenciável.
Se a decisão sair, o PSB será o primeiro a comemorar, ainda que fingindo não ter nada a ver com o assunto. Resta saber se o PL aceitará desempenhar o papel de quem ajuda o PSB. E precisa saber se o eleitor bolsonarista vai concordar com a empreitada.


© Divulgação/PSB







