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Um plano de igualdade e respeito mútuo

O dia da Mãe aproxima-se. Todas as Mães são, efetivamente, Mulheres.
Quando abordamos temas como a violência contra as mulheres e violência
doméstica, falamos daquilo que, não nos fazendo melhores que os homens,
nos torna diferentes, especiais, esta força que a natureza permitiu, entre
tantas outras coisas tão belas, gerar vida.
Mas, porque ainda subsistem violências direcionadas à mulher,
precisamente porque é mulher, entendida tantas vezes como mais fraca,
habitante em patamar inferior ao homem, e que, pasmemos pois, a este
deve ser submissa, e reduzir-se à sua insignificância histórica, foram
criados instrumentos legais, neste caso, internacionais, que visam, entre um
mundo que aqui não cabe, por razões óbvias, implementar a regra dos “três
P”, ou seja, Prevenir, Proteger, e Acusar (prossecution na língua inglesa).
Centrada nos direitos das vítimas, e na cooperação entre as instituições e
organizações, e nas autoridades competentes, é na sua génese que
encontramos a proteção imediata das vítimas, prevendo a possibilidade das
conhecidas decisões de emergência, aquelas que pretendem evitar o
“chegamos tarde demais, está morta”.
Falamos da Convenção do Conselho da Europa para a Prevenção e o
Combate à violência contra as mulheres e a violência doméstica
(Convenção de Instambul), que, acertadamente aponta o reconhecimento da
igualdade entre mulheres e homens como fundamento para o estudo e
tratamento deste tipo de violência, que trata como uma verdadeira violação
de direitos humanos, quando mulheres são discriminadas, produzindo-se
sofrimento físico, sexual, psicológico, económico, e até privação da
liberdade.
Chega mesmo a apontar a erradicação de preconceitos, costumes, tradições,
e de todas as práticas assentes na ideia de inferioridade das mulheres ou nos
papeis estereotipadas destas e dos homens.
Esta Convenção acaba por mostrar uma vertente educativa, sugerindo
alterações profundas na nossa cultura, costumes, tradições ou religião,
sempre que estes sirvam para justificar a prática de atos de violência contra
mulheres.

Nela é desenhado um plano de igualdade e respeito mútuo, com vista ao
término da violência de género.
Chama à atenção ao Estado Português para a necessidade urgente da
formação de profissionais que recebem as vítimas num primeiro momento,
sendo necessária uma centralização de informação, para que a vítima possa
confiar no agente de autoridade, se sinta protegida, acompanhada e
orientada, sobretudo quando a vítima é uma criança.
As autoridades policiais gerem todo este flagelo, recebendo as vítimas,
realizando relatórios que avaliam o risco em que estas se encontram,
encaminhando-as para os serviços sociais competentes, quando há vagas.
Esta Convenção foi assinada por Portugal em 2011, e em 2024 surgiu a
Diretiva 2024/1385 do Parlamento Europeu, que alerta Portugal para o
cumprimento destas recomendações respeitantes à violência contra as
mulheres.
Também o relatório do GREVIO (Grupo de Peritos no Combate à
Violência contra as Mulheres e a Violência Doméstica) de 2025 tem vindo
a alertar o Estado Português para a falta de cumprimento de grande parte
destas “recomendações” do Conselho da Europa.
No passado dia 29 e 30 teve lugar o III Congresso internacional sobre
violência doméstica e Convenção de Istambul, no qual especialistas das
mais diversas áreas do saber debateram este tema.
Façamos todos a nossa parte, fiquemos vigilantes neste cumprimento, não
sejamos alienantes sociais.

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O vício de virar costas

Há gestos que dispensam discurso. Virar costas é um deles — curto, seco, quase elegante na forma, mas brutal no conteúdo. É o equivalente corporal de dizer “não me interessa”, “não respondo”,” não assumo”, “não existes”. E, quando se repete, deixa de ser reação para passar a ser identidade.
Na vida comum, ainda se tolera: há dias em que ninguém tem paciência para o mundo. Mas na política, onde cada gesto é escrutinado, virar costas não é cansaço — é escolha. E, mais do que isso, é mensagem.
Quando, na Assembleia da República, um deputado decide deliberada e literalmente dar as costas, não está apenas a rejeitar quem fala. Está a rejeitar o próprio jogo democrático. Porque a democracia vive do incómodo, do confronto, do contraditório. Quem foge disso não está apenas a evitar uma conversa — está a desrespeitar e a expor a sua incapacidade de a sustentar.
No caso de Pedro Delgado Alves, o problema já não é o gesto. É a recorrência da supremacia arrogante. É o padrão quase coreografado de quem, perante o que não agrada, opta sempre pela mesma saída: virar costas, sair de cena, apagar o momento como se ele nunca tivesse existido. Recordemo-nos do fatídico episódio do atropelamento da cantoneira, por distração e negligência, e não por falha mecânica como foi relatado. O Ministério Público e o tribunal consideraram que o mesmo se deveu a desatenção, não se comprovando avaria. Pedro Delgado Alves foi condenado por crime de ofensa à integridade por negligência, porque dias depois o carro foi enviado para abate, supostamente por se encontrar bastante danificado, mas segundo a juiza, esta decisão inviabilizou a verificação técnica da viatura e impediu que se apurasse a eventual falha no carro. Uma clara tentativa de apagar evidências, de virar as costas à verdade dos factos e de se esquivar às responsabilidades.
É aqui que entramos no território onde a política se cruza com o caráter.
Porque há uma diferença entre errar e fugir. Entre explicar e desaparecer. Entre assumir e virar costas.
Quando a memória pública evoca episódios passados — alguns incómodos, outros controversos — não o faz apenas pelos factos em si, mas pelo fio que os une: a perceção de uma constante evasão. A imagem que se desenha é a de alguém que, perante o embate, não resiste — contorna. Não responde — esquiva-se. Não enfrenta — vira costas.
E isso não é estilo. É sintoma e esteriotipia. .
Sintoma de uma política que prefere a encenação à substância. Onde o gesto substitui o argumento e a fuga se disfarça de dignidade. Mas não há dignidade nenhuma em virar costas ao debate e às responsabilidades. Há apenas silêncio — e o silêncio, em política e na vida comum, raramente é inocente.
No fundo, virar costas é confortável. Evita o risco, protege o ego, poupa trabalho. Mas tem um preço: revela, sem margem para dúvidas, a medida e a pequenez ética de quem o faz.
E essa medida, quando repetida vezes suficientes, deixa de ser circunstancial.
Passa a ser caráter, ou falta dele.

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A Pressa de Ser Outro

Há temas que pedem delicadeza. E há momentos em que a delicadeza, se levada ao extremo, se transforma em silêncio cúmplice. A mudança de género tornou-se um desses territórios onde a prudência parece, muitas vezes, proibida, como se questionar fosse sinónimo automático de hostilidade.

Vivemos sob a exaltação da autodeterminação. “Sê quem és”, passou de princípio humanista a imperativo imediato. Mas quando esse “ser” implica intervenções médicas profundas, irreversíveis e com impacto vitalício, a questão deixa de ser apenas identitária: torna-se também clínica, psicológica e ética. E aqui, a pressa não é um detalhe — é o problema.

O que se observa, em muitos contextos, é uma validação quase instantânea de decisões que exigiriam tempo, maturidade e acompanhamento rigoroso. Em especial entre jovens, onde a identidade ainda está em construção, a ideia de que qualquer desconforto com o próprio corpo pode, ou deve, ser resolvido através de uma transição, levanta sérias reservas. Nem todo o sofrimento é sinal de disforia. Nem toda a dúvida é uma certeza à espera de ser confirmada.

Mas o espaço para esta nuance tem vindo a encolher. O debate tornou-se binário: ou se apoia sem reservas, ou se é colocado no campo da rejeição. Esta simplificação é perigosa. Porque apaga uma realidade incómoda — a de pessoas que se arrependem, que revisitam decisões tomadas cedo demais, que enfrentam consequências físicas e psicológicas que não lhes foram plenamente explicadas.

O arrependimento não é apenas uma nota de rodapé. É um sinal de alerta. E, no entanto, tende a ser desvalorizado, quase invisível, porque contraria a narrativa dominante. As consequências a médio e longo prazo : dependência de terapias hormonais, infertilidade, cirurgias complexas, são frequentemente tratadas como detalhes técnicos, quando na verdade redefinem vidas inteiras.

Importa também perguntar: o que está por detrás deste aumento de pedidos de transição? Será sempre uma questão identitária clara, ou haverá, em alguns casos, fatores mais difusos, como fragilidade emocional, necessidade de pertença, influência de ambientes digitais altamente polarizados? Quando uma resposta complexa se transforma numa solução rápida, é legítimo desconfiar da própria simplicidade da resposta.

Paralelamente, assistimos a um relevo crescente do ativismo LGBT… no espaço público. Muito do que foi conquistado nesse percurso é inegavelmente positivo em termos de direitos e dignidade, mas há uma diferença entre visibilidade e omnipresença. Quando determinadas causas se tornam quase imunes à crítica, o debate democrático empobrece.

É neste enquadramento, que decisões políticas como a recusa de hastear bandeiras ideológicas em edifícios públicos ganham significado. Não se trata, necessariamente, de rejeitar direitos ou identidades, mas de afirmar um princípio: o Estado não deve alinhar simbolicamente com uma causa específica, por mais legítima que seja, sob pena de perder a sua neutralidade. O espaço público não deve ser apropriado por nenhuma agenda, deve permanecer comum.

No fundo, a questão central não é a identidade de género em si, mas a forma como a sociedade a está a tratar: com urgência, com simplificação, com leviandade e, por vezes, com uma certa intolerância ao questionamento. E talvez o verdadeiro risco não esteja na liberdade de mudar — mas na ausência de espaço para pensar antes de o fazer.

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O Lado Invisível do SNS: Quando uma Cama Vazia Decide Quem Vive e Quem Espera

Um problema ético

RUI LEAL
Aluno do Mestrado Executivo em Administração Hospitalar
Faculdade de Economia da Universidade do Porto

Nos hospitais portugueses, a escassez de camas deixou de ser uma exceção. Tornou-se estrutural. E, como em qualquer sistema sob pressão constante, essa escassez não se limita a criar ineficiências — cria desigualdades.

Nas especialidades cirúrgicas, o problema é particularmente evidente. A capacidade de internamento passou a ser o verdadeiro fator limitativo da atividade. Quando alegadamente, não faltam equipas, nem blocos operatórios, nem competência clínica, falta, muitas vezes, uma cama.

O resultado é conhecido — e cada vez mais frequente: cirurgias canceladas à última hora. Não por decisão médica, mas por incapacidade organizacional. O doente está preparado, a equipa está pronta, os recursos estão mobilizados. E, ainda assim, a cirurgia não acontece.

Para quem espera, o impacto é real: mais ansiedade, mais tempo, mais risco. Para o hospital, é um desperdício evidente de recursos altamente diferenciados. Mas há uma dimensão mais profunda que raramente entra no debate público. Estamos, na prática, perante um problema de justiça distributiva.

Num sistema público como o Serviço Nacional de Saúde, a escassez não pode ser evitada — mas a forma como é gerida pode, e deve, ser questionada. Quando o acesso aos cuidados deixa de depender exclusivamente da necessidade clínica e passa a ser condicionado por limitações operacionais, a equidade fica comprometida. E isso não é um detalhe técnico. É uma escolha implícita sobre quem é tratado — e quem espera.

A duração do internamento pós-operatório é um dos principais determinantes desta pressão. Bastam alguns casos acima do esperado para desestabilizar todo o sistema. Há, porém, um fator frequentemente subestimado neste contexto: os casos sociais. Quando a alta clínica existe, mas a saída do hospital não ocorre por ausência de resposta social adequada, o internamento deixa de refletir apenas necessidade assistencial e passa a incorporar uma incerteza estrutural. Nos modelos preditivos de gestão de camas, estes casos funcionam como uma fonte relevante de entropia operacional — aumentam a variabilidade, reduzem a precisão das previsões e fragilizam o planeamento cirúrgico. Ignorá-los não é apenas uma limitação técnica; é aceitar modelos incompletos e, consequentemente, decisões potencialmente menos equitativas. A sua incorporação explícita nos modelos, através de variáveis sociais e de contexto, é essencial para aumentar a validade preditiva e evitar decisões sistematicamente enviesadas.

Ainda assim, muitos hospitais continuam a planear a sua atividade com base sobretudo na experiência, e não em análise estruturada de dados. É aqui que a mudança se impõe.

Hoje, existe informação suficiente para prever padrões de internamento, antecipar riscos e ajustar o planeamento cirúrgico. Ignorar essa capacidade analítica já não é uma limitação — é uma decisão. Mas antecipar não chega.

Sem mecanismos robustos de auditoria interna, o sistema permanece opaco. Não se compreende, com rigor, onde estão os desvios, por que razão se prolongam internamentos ou onde se perdem oportunidades de otimização. E sem essa compreensão, não há verdadeira melhoria.

A auditoria interna não deve ser vista como um instrumento de controlo burocrático, mas como uma ferramenta de gestão crítica. Permite tornar visível o que hoje é difuso, responsabilizar processos e alinhar a utilização dos recursos com os princípios que o sistema afirma defender. Eficiência e equidade não são objetivos concorrentes. São, neste contexto, inseparáveis.

Num sistema permanentemente pressionado, melhorar a utilização das camas não é apenas uma questão de gestão. É uma condição para garantir que o acesso aos cuidados não depende do acaso organizacional. E é aqui que recai uma das maiores responsabilidades dos administradores hospitalares. Gerir capacidade não é apenas otimizar fluxos. É tomar decisões que têm impacto direto sobre vidas concretas. Decidir quem espera. Decidir quem entra. Decidir quando.

Por isso, reduzir a gestão de camas a um problema operacional é um erro. Trata-se, na verdade, de um problema ético, organizacional e político. Porque, no limite, cada cama disponível representa mais do que um recurso. Representa uma escolha. E gerir escolhas, em contexto de escassez, é — inevitavelmente — gerir justiça. ■

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Concentrar para Salvar : A Nova Geografia da Neonatologia

Há decisões que, à primeira vista, parecem duras, insensíveis e quase incompreensíveis. O encerramento de algumas unidades de neonatologia é uma delas. Num país onde cada nascimento carrega esperança, futuro e continuidade, falar em fechar portas onde a vida começa pode soar a contrassenso. Mas nem sempre mais significa melhor — e é precisamente aqui que a reflexão se impõe.
A neonatologia é uma das áreas mais exigentes da medicina. Não basta existir um espaço físico com incubadoras: é necessário um ecossistema altamente especializado, com equipas treinadas, tecnologia de ponta e capacidade de resposta imediata a situações críticas. Um recém-nascido prematuro ou em risco não pode esperar por recursos que não existem nem depender de estruturas subdimensionadas. Nestes casos, a diferença entre a vida e a morte mede-se em minutos — e em qualidade de cuidados.
Manter muitas unidades abertas, mas sem condições adequadas, pode criar uma falsa sensação de segurança. A dispersão de recursos humanos — médicos neonatologistas, enfermeiros especializados — fragiliza o sistema. Equipas reduzidas, horários sobrecarregados e falta de experiência acumulada diminuem a capacidade de resposta. Pelo contrário, a concentração em unidades de excelência permite equipas mais robustas, com maior prática clínica, melhor articulação e acesso a equipamentos modernos.
Em Portugal, algumas reestruturações recentes ilustram esta lógica. O reforço de unidades em hospitais como o Hospital de Santa Maria ou o Hospital de São João demonstra a aposta em centros altamente diferenciados, capazes de responder aos casos mais complexos. Ao mesmo tempo, o encerramento ou suspensão de unidades com menor capacidade tem sido alvo de debate público, mas também de uma tentativa de reorganização mais racional dos cuidados.
Não se trata apenas de uma questão clínica — há também uma dimensão económica inevitável. Os recursos do sistema de saúde são finitos. Investir em múltiplas unidades subequipadas pode significar desperdiçar verbas que poderiam garantir excelência em menos locais. A gestão eficiente implica escolhas difíceis: concentrar investimento onde ele produz melhores resultados, evitando redundâncias e estruturas que não conseguem cumprir plenamente a sua missão, ou que não justificam permanecerem em funcionamento pelo número reduzido de serviços específicos que prestam.
Naturalmente, esta reorganização deve ser acompanhada de uma rede eficaz de transporte neonatal e de apoio às famílias, para que a distância não se transforme em obstáculo. A centralização só faz sentido se for acompanhada de acessibilidade e humanização.
No fundo, a questão não é quantas unidades existem, mas que qualidade oferecem. Porque quando falamos de recém-nascidos — especialmente os mais frágeis — não há margem para compromissos. As parturientes e os bebés não precisam de proximidade ilusória; precisam de segurança real, de competência e de excelência.
E isso, por vezes, exige coragem para fechar portas, para garantir que outras, mais preparadas, permaneçam abertas e altamente funcionais.

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Política Migratória: Do Facilitismo à Correção

Durante oito anos, construiu-se em Portugal uma narrativa confortável: a de que abrir portas sem critério era sinónimo de humanidade, progresso e modernidade. Soava bem. Ficava bem nas conferências, nos discursos e nas redes sociais. Mas, como tantas vezes acontece, a realidade,essa entidade teimosa, acabou por pedir contas.

A chamada “manifestação de interesse” transformou-se, na prática, num iman e num convite implícito à entrada sem planeamento. Um sistema que, sob o pretexto de regularizar, passou a incentivar fluxos desordenados, criando uma espécie de fila invisível onde tudo era permitido… desde que se esperasse o suficiente. O resultado? Serviços públicos pressionados, respostas lentas, e um Estado a correr atrás do prejuízo que ele próprio ajudou a criar.

Entretanto, nas ruas, começou a emergir um desconforto que durante demasiado tempo foi varrido para debaixo do tapete e ocultado pela Comunicação Social. Não, não se trata de generalizações fáceis ou de demonizar quem chega, há de tudo, e isso seria intelectualmente desonesto. Mas também não se pode ignorar o aumento de episódios de criminalidade associados a contextos de exclusão, ausência de integração eficaz e falta de controlo. Fingir que não existe é tão irresponsável quanto explorá-lo de forma populista.

E depois há a questão da subsídio-dependência, esse elefante na sala que poucos quiseram nomear e admitir. Um sistema que, em vez de integrar rapidamente no mercado de trabalho, foi permitindo que muitos ficassem presos a apoios sociais, não por escolha individual apenas, mas por um modelo que falhou em criar pontes reais para a autonomia. A boa intenção, quando mal executada, transforma-se numa armadilha, quer para quem chega, e perigosamente para quem já cá está.

Durante anos, qualquer tentativa de questionar este modelo era imediatamente catalogada: ou se estava “do lado certo” ou se era rotulado com todos os epítetos possíveis. O debate foi pobre, emocional e, muitas vezes, intelectualmente preguiçoso e desonesto. E assim se prolongou um problema que exigia, desde o início, seriedade, equilíbrio, bom senso e, sobretudo, responsabilidade.

Mas a política, apesar de tudo, ainda tem momentos de correção. A recente alteração à lei, aprovada por uma maioria qualificada de dois terços na Assembleia da República, não é apenas um detalhe legislativo — é um sinal. Um sinal de que, finalmente, se reconheceu que a gestão da imigração não pode ser feita ao sabor de slogans ou boas intenções, mas sim com regras claras, capacidade de integração e respeito por quem chega… e, especialmente por quem já cá vive.

Por isso, no meio de tanta hesitação passada, resta reconhecer o momento presente: uma vénia à lucidez tardia e um aplauso, firme e sem ironia, à coragem de, finalmente, pôr ordem onde durante demasiado tempo reinou a ilusão.
Se hoje há dois terços a corrigir o rumo, é porque durante demasiado tempo houve um governo incapaz de reconhecer que o tinha perdido.

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A coreografia do medo e a engenharia da obediência

Durante anos, venderam-nos certeza com a arrogância de quem não admite réplica. O governo de António Costa não governou apenas uma crise sanitária, encenou uma narrativa onde o Estado nunca duvida, nunca hesita, nunca erra. E quem ousasse levantar a sobrancelha era imediatamente promovido a herege cívico.
A Direção Geral de Saúde transformou-se num púlpito. Não de ciência, mas de autoridade. E há uma diferença abissal entre as duas. A ciência questiona, ajusta, corrige-se. A autoridade impõe. E foi isso que se viu: um discurso fechado, impermeável, blindado contra qualquer interrogação que não viesse com selo de aprovação oficial.
O país foi conduzido, não informado. Empurrado, coagido, não convencido. Entre campanhas emocionalmente carregadas e medidas sucessivas, instalou-se um ambiente onde a liberdade era formal, mas a escolha já vinha pré-formatada. Não foi uma ordem direta. Foi mais eficaz do que isso: foi uma pressão difusa, constante, socialmente validada. Uma pedagogia do medo, uma engenharia da obediência.
E agora? Agora surgem notícias incómodas, perguntas tardias, investigações que deveriam ter começado quando ainda havia tempo para respostas claras. Durante meses, anos até, garantiu-se ao país que não havia nada a questionar. Nada. Zero. A dúvida era tratada como desinformação antes sequer de ser analisada. Os questionistas foram perseguidos, ameaçados, cancelados e alvos de perseguição discriminatória, sem apelo nem agravo, só porque duvidaram da solução milagrosa, que surgiu, inacreditavelmente em tempo record, quando se sabe que um processo de desenvolvimento e aprovação de uma vacina, para estar formalmente disponível para a população, em segurança, demora na totalidade, dez a quinze anos, ou até mais, depois de passar formalmente por todas as fases.
Hoje, já não é possível sustentar essa pose autoritária, sem fissuras.
Hoje em dia apercebemo-nos de que, o mais grave não é apenas o que pode ou não vir a confirmar-se. O mais grave é o ambiente que foi criado: um espaço público onde a crítica foi desencorajada, onde o debate foi empobrecido e onde a prudência — essa mesma prudência que a ciência exige — foi substituída por uma certeza quase dogmática.
Governar em crise não dá carta branca para moldar a realidade à conveniência política nacional ou europeia. E muito menos para transformar cidadãos em figurantes de uma narrativa oficial, ditatorial e punitiva, que não admite contraditório.
A fatura não é apenas sanitária. É institucional. É moral. É democrática.
Porque quando um governo decide que a verdade pode ser simplificada até à obediência, arrisca-se a algo muito mais perigoso do que a contestação: arrisca-se a perder, de forma duradoura, a confiança de quem governa.
E essa, ao contrário de qualquer campanha, não se recupera com slogans.

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A alternativa nuclear

O destino, com o seu humor frequentemente ácido, decidiu que o ano de 2026 seria o ano do choque de realidade. Enquanto a retórica oficial continuava a vender a imagem de um Portugal líder mundial na “transição verde”, os mísseis sobre o Irão e a consequente escalada bélica no Médio Oriente vieram recordar-nos que a economia moderna não se move a boas intenções. O disparo dos preços do petróleo e do gás natural nas últimas semanas não é apenas um problema de inflação: é o sintoma de uma nação que abdicou da sua soberania energética em favor de uma liturgia ambiental que a física, teimosamente, se recusa a validar.
Há dias, no Conselho Europeu em Bruxelas, os líderes da União reuniram sob a sombra pesada dos mercados energéticos em polvorosa. À entrada da reunião, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, declarou solenemente que a União Europeia enfrenta “tempos desafiantes” e que a soberania energética só é possível aumentando a “produção interna”. Para o ex-Primeiro-Ministro português, a melhor forma de ter um “horizonte preditivo e confiável” é ser autónomo e independente. “O conflito actual no Irão mostra-nos uma vez mais que a única maneira de sermos autónomos é tornar seguro o nosso sistema de energia”, afirmou.
Estas palavras, embora irrepreensíveis na forma, carregam o peso de uma herança que o orador não pode sacudir. António Costa não é um observador externo desta crise; ele foi o arquitecto-mor da política energética que deixou Portugal numa encruzilhada de vulnerabilidade. Durante os seus longos anos em São Bento, assistimos ao encerramento apressado das centrais a carvão de Sines e do Pego e à aposta quase messiânica em fontes intermitentes.
Agora, em Bruxelas, Costa admite que a diversidade dos Estados-membros exigirá “diferentes soluções”. É um reconhecimento tardio de que a receita única do “verde absoluto” pode ter prazos de validade que a realidade geopolítica se encarregou de abreviar.

O meio-dia de trevas: a lição de 28 de Abril
Falar em “horizonte preditivo” quando o sistema eléctrico ibérico colapsou há menos de um ano é, no mínimo, um exercício de optimismo audaz. O grande apagão ibérico de 2025 continua bem vivo na memória. Não aconteceu no pico de uma tempestade de Inverno, mas sim num dia que deveria ser de glória para as renováveis: 28 de Abril.
Naquele momento, perto do meio-dia, o sol brilhava intensamente e as turbinas eólicas giravam com vigor. A rede estava saturada de energia “limpa”. No entanto, foi precisamente essa abundância que traiu o sistema. A falta de “inércia rotativa” — aquela estabilidade fundamental que as grandes massas giratórias das centrais térmicas e nucleares garantem — impediu a rede de absorver uma variação súbita de frequência. Num piscar de olhos, o que era um dia radioso transformou-se num “apagão de luz solar”.(..)

Leia o artigo na integra na edição desta semana já nas bancas ou em formato digital aqui

 

Link – Estudo completo do Prof. João de Jesus Ferreira

 

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Governar ou representar?

Hoje assinala-se o Dia Mundial do Teatro. Em teoria, é um dia para celebrar a arte, os
atores, os textos que nos fazem pensar e sentir. O teatro, quando é sério, não é só
entretenimento, é um espelho desconfortável daquilo que somos. Expõe, provoca,
obriga a encarar verdades que muitas vezes preferíamos evitar.
Talvez por isso seja impossível não fazer um paralelismo com aquilo em que se
transformou a nossa vida política.
Há qualquer coisa de profundamente teatral — no pior sentido da palavra — na forma
como hoje se faz política. Não no sentido nobre da representação, mas na encenação
vazia. Nos discursos cuidadosamente ensaiados. Nas indignações seletivas. Nas
conferências de imprensa onde já se sabe, à partida, o que vai ser dito e como vai ser
dito.
Tudo parece coreografado. Nada parece espontâneo.
Os políticos falam, mas raramente dizem. Prometem, mas quase nunca se
comprometem. E, acima de tudo, representam proximidade, representam convicção,
representam firmeza. É uma sucessão de papéis, ajustados ao momento, ao público e
às sondagens.
O problema é que isto já não engana muita gente.
Ao contrário do teatro a sério, onde há talento, trabalho e respeito por quem está a
ver, esta versão política da representação vive de clichés e de frases feitas. É uma peça
repetida vezes sem conta, com pequenas variações, mas sempre com o mesmo fundo:
pouco conteúdo e muita aparência.
E depois há o público — nós. Durante muito tempo, aceitámos este papel de
espectadores. Uns aplaudem, outros assobiam, mas no fundo continuamos sentados, à
espera que a peça melhore.
O mais grave é que, enquanto se representa, o essencial vai ficando por fazer. Os
problemas acumulam-se, as decisões adiam-se, e a realidade — essa, que não se deixa
encenar — acaba sempre por impor-se.
Talvez este Dia Mundial do Teatro sirva, pelo menos, para isto: para nos lembrar que
há uma diferença enorme entre representar bem e fingir mal.
A política não precisa de mais atores. Precisa de menos teatro.

(Aqui tem uma gravação com o texto lido pela autora)

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Diz-me com quem chegas, dir-te-ei para onde vais

O Chega entrou na vida política portuguesa dizendo-se um partido diferente. Tinha vindo para, entre outras, acabar com a corrupção, com os amiguismos, com a bandalheira, com a “bandidagem”, assim, nesta linguagem de tasca que resolveu importar até ao parlamento e que, ao que parece, rende votos…
Sucederam-se casos atrás de casos, dos mais graves e sérios às tragicomédias das malas e outros quejandos. Apesar do somatório de polémicas e anedotas, o partido lá foi sobrevivendo e consolidando poder. Até então o povo sempre encarou – ou quis encarar – como casos isolados ou, se preferirmos, falhas pessoais, separando os homens dos políticos.
Entramos agora, numa nova era. O Chega é poder (ou tem poder) nalgumas autarquias, pelo que os pecados, os erros, as incompatibilidades e as acções deixam de ser dos homens (na sua abstracção) e passam a ser dos eleitos. Deixam de poder lutar contra o sistema, de apontar o dedo, de propalar a diferença e de querer acabar com a bandalheira se se comportarem exactamente como os outros. É a prova do algodão – e que começa já com manchas!
Bruno Mascarenhas é o exemplo mais recente – e talvez o mais elucidativo! – e que trará um rombo sério ao partido, ao ponto de Rita Matias exigir a sua demissão e colocar André Ventura em cheque. É que não está em causa apenas o que fazer. Está em causa uma escolha pessoal do líder como o candidato à Câmara de Lisboa. O juízo, ou a falta dele, das suas qualidades pessoais, da sua ética, dos seus valores.
E isto, à semelhança de tantas outras demissões dos eleitos do Chega que se vão sucedendo por esse país fora, levantam a ponta do véu: não se trata de convicções, de crenças, de novas formas de fazer política. Trata-se do refugo dos outros partidos, daqueles que, por falta de capacidade, de competência, de seriedade ou de espinha dorsal, jamais vingariam, encontrando aqui terreno fértil para a sua mesquinhez e ambições pessoais. Assim que as alcançam renegam o partido como Pedro renegou Cristo!
E a safra ainda vai no início…

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