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Urbanismo deve incorporar florestas às cidades, defendem pesquisadores

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As grandes cidades não podem mais dar as costas para as florestas e devem incorporá-las ao urbanismo atual. Presente em civilizações antigas que habitaram a Amazônia, por exemplo, essa é uma ideia resgatada e defendida por pesquisadores e ativistas, como o escritor italiano Stefano Mancuso, referência internacional nos estudos sobre a inteligência das plantas.

Mancuso foi um dos participantes da 3ª edição do Seminário Internacional Transmutar, realizado pelo Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), no último final de semana.

Notícias relacionadas:

O escritor e pesquisador apresentou o conceito das fitópolis, que se inspira na organização das plantas para propor uma transformação radical na forma como são concebidas as cidades.

A proposta é pensar as cidades como organismos urbanos dotados de inteligência, resiliência e capacidade de adaptação ─ uma estratégia concreta para combater a crise climática e reduzir o abismo que se criou entre humanos e plantas nos últimos séculos.⁠

Mancuso sugere que a verdadeira evolução urbana não vem de soluções arquitetônicas voltadas para o bem-estar humano, mas de uma interação mais fluida e orgânica com a natureza, que reconheça o ser humano como parte de ecossistema mais amplo.⁠

“As plantas são sistemas altamente complexos, sofisticados, mas não são seres superiores a outros seres viventes. Hoje, a gente considera um pouco mais as plantas”, disse o neurobiólogo italiano.

Considerando as mudanças climáticas e o aquecimento global, as fitópolis podem ser parte da solução, já que 70% da população mundial vive em cidades. A redução de 20% do asfalto e sua substituição por áreas arborizadas já ajudaria muito na qualidade de vida, defendeu o pesquisador. Mancuso acrescenta que as plantas também devem estar dentro dos edifícios.

Fundador do Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal da Universidade de Florença, ele avalia que uma fitópolis ideal teria uma cobertura vegetal de pelo menos 60%. Essa cidade também deveria ter uma rede de transporte público muito eficiente, além de nenhum veículo movido à combustão.

 

Brumadinho (MG), 06/06/2026 - O escritor e pesquisador italiano Stefano Mancuso participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Brumadinho (MG), 06/06/2026 - O escritor e pesquisador italiano Stefano Mancuso participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
O escritor e pesquisador italiano Stefano Mancuso participa do Seminário Internacional Transmutar,  realizado pelo Instituto Inhotim, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O ecólogo e curador do Museu do Amanhã, Fabio Scarano, destacou que tudo que é vivo é inteligente, não apenas o ser humano. Para ele, o trabalho do professor Mancuso tem um efeito político, porque, ao se reconhecer a inteligência dos seres não humanos, talvez seja possível mudar de atitude e vê-los como irmãos, como defendia São Francisco.

“Eles não são só paisagem, não são só recursos para a gente consumir, 90% do planeta é composto por cobertura vegetal. Ela colabora com oxigênio e alimentos. A obra do professor [Mancuso] populariza um conhecimento que é científico e pouco discutido nas escolas”, disse Scarano.

Cidades amazônicas

O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes Neves apresentou manifestações de urbanismo indígena de 2,5 mil anos atrás no Acre. Depois, entre 1,5 mil anos e 1 mil anos atrás, a urbanização indígena se espalhou em diversas áreas da Amazônia.

“A principal lição desse urbanismo antigo é que ele não coloca a natureza para fora. Em São Paulo, matamos os rios, se tornaram depósitos de lixo. A gente excluiu muito a natureza”, critica ele.

O professor titular da Universidade de São Paulo (USP) ainda apontou que os bairros mais arborizados são mais ricos, enquanto o urbanismo atual dá as costas para as populações mais desassistidas. 

“A gente tem que pensar o futuro com a ideia de cidades jardins. Essas cidades antigas da Amazônia eram cidades jardins. Elas estavam entremeadas com as áreas de bosque. A gente tem que trazer a floresta de volta”, disse o professor titular .

 

Brumadinho (MG), 07/06/2026 - O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente Inhotim, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Brumadinho (MG), 07/06/2026 - O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente Inhotim, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes participa do Seminário Internacional Transmutar, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente Inhotim, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Nêgo Bispo

O tema deste ano do seminário foi Transfluências, inspirado na obra do pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo, que morreu em 2023 aos 63 anos.

A programação celebrou a 22ª Semana do Meio Ambiente no Inhotim, maior museu a céu aberto de arte contemporânea da América Latina.

A diretora de Natureza, Operações e Infraestrutura do museu, Alitah Mariah, explica que Nêgo Bispo tem dois conceitos, a confluência e a transfluência. Segundo ela, a transfluência tem tudo a ver com o que o instituto pensou para o seminário, porque diz que todo pensamento e ação humana é circular ─ não só humano mas também dos não humanos.

“Para tudo que vai, alguma coisa fica, que é um pouco isso que a gente está tentando descobrir com esses pensadores. O que a gente pode se alimentar, trocar e transformar, e o que fica disso”, disse a diretora.

 

Brumadinho (MG), 06/06/2026 - A diretora de Natureza, Operações e Infraestrutura do Instituto Inhotim, Alita Mariah, participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Brumadinho (MG), 06/06/2026 - A diretora de Natureza, Operações e Infraestrutura do Instituto Inhotim, Alita Mariah, participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
A diretora de Natureza, Operações e Infraestrutura do Instituto Inhotim, Alita Mariah, participa do Seminário Internacional Transmutar, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A líder quilombola Joana Maria, filha de Nêgo Bispo e moradora do quilombo Saco Cortume, no interior do Piauí, explica que o conceito de confluência vem do encontro dos rios. Já a transfluência é o movimento e o encontro, mas ultrapassando barreiras.

“Achei muito interessante o tema do evento ser a transfluência, porque a gente vive numa situação hoje em que há muitas barreiras no cuidar do meio ambiente, no se relacionar com a natureza. A transfluência tem o propósito de que é possível, sim, pensar os nossos modos de vida, a forma como a gente cuida da natureza”. 

 

Brumadinho (MG), 06/06/2026 - A pesquisadora Joana Maria, filha de Nêgo Bispo, participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Brumadinho (MG), 06/06/2026 - A pesquisadora Joana Maria, filha de Nêgo Bispo, participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
A pesquisadora Joana Maria, filha de Nêgo Bispo, participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

 

“A gente tem que pensar a natureza como o lugar do afeto, do lugar do cuidado, do se relacionar. O rio tem que estar limpo para que eu possa tomar banho nele, comer o peixe”, disse Joana.

Tecnologia e natureza

Para a gestora cultural colombiana Ana Ochoa Acosta, fundadora do departamento de cultura e comunicação do Parque Explora, em Medellín, na Colômbia, a natureza também inclui o que produzimos com a tecnologia.

“Regressar ao paraíso arcaico é impossível atualmente. Somos uma combinação de mundos orgânicos com inorgânicos, de tecnologias que nos fazem distintos. Isso também é natureza. A sabedoria é aprender a conviver com essa complexidade da qual não podemos escapar”, disse Ana.

A bióloga do Museu Emílio Goeldi, no Pará, Sue Anne Costa, contribuiu com o conceito de re-encantamento, para ajudar a ganhar outra perspectiva no processo decisório.

“O que os povos ancestrais tinham era esse encantamento com o território e o sagrado. Boa parte das decisões atuais têm lógicas produtivas, financeiras, de um suposto desenvolvimento. Essa lógica precisa mudar”, disse a pesquisadora.

 

Brumadinho (MG), 07/06/2026 - A coordenadora de comunicação do Museu Emílio Goeldi e professora da Universidade Federal do Pará, Sue Anne Costa, Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente Inhotim, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Brumadinho (MG), 07/06/2026 - A coordenadora de comunicação do Museu Emílio Goeldi e professora da Universidade Federal do Pará, Sue Anne Costa, Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente Inhotim, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
A coordenadora de comunicação do Museu Emílio Goeldi e professora da Universidade Federal do Pará, Sue Anne Costa Rovena Rosa/Agência Brasil

Jardim Botânico

Reconhecido por seu acervo de arte contemporânea, Inhotim também é um jardim botânico que conserva mais de 1 mil espécies de plantas, regenera florestas nativas, protege a fauna silvestre e mantém pesquisa científica voltada à conservação da biodiversidade brasileira.

Com 140 hectares de visitação, está localizado em uma área de transição entre Mata Atlântica e Cerrado, dois dos biomas mais diversos e ameaçados do país. A instituição já regenerou 75 hectares de floresta nativa e mantém um estoque de 34.215,13 toneladas de carbono, quantidade que exigiria cerca de 1,26 milhão de árvores urbanas para ser armazenada.

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – Jardins do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – Jardins do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Jardins do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

*A reportagem viajou a convite do Instituto Inhotim.

Urbanismo deve incorporar florestas às cidades, defendem pesquisadores

Logo Agência Brasil

As grandes cidades não podem mais dar as costas para as florestas e devem incorporá-las ao urbanismo atual. Presente em civilizações antigas que habitaram a Amazônia, por exemplo, essa é uma ideia resgatada e defendida por pesquisadores e ativistas, como o escritor italiano Stefano Mancuso, referência internacional nos estudos sobre a inteligência das plantas.

Mancuso foi um dos participantes da 3ª edição do Seminário Internacional Transmutar, realizado pelo Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), no último final de semana.

Notícias relacionadas:

O escritor e pesquisador apresentou o conceito das fitópolis, que se inspira na organização das plantas para propor uma transformação radical na forma como são concebidas as cidades.

A proposta é pensar as cidades como organismos urbanos dotados de inteligência, resiliência e capacidade de adaptação ─ uma estratégia concreta para combater a crise climática e reduzir o abismo que se criou entre humanos e plantas nos últimos séculos.⁠

Mancuso sugere que a verdadeira evolução urbana não vem de soluções arquitetônicas voltadas para o bem-estar humano, mas de uma interação mais fluida e orgânica com a natureza, que reconheça o ser humano como parte de ecossistema mais amplo.⁠

“As plantas são sistemas altamente complexos, sofisticados, mas não são seres superiores a outros seres viventes. Hoje, a gente considera um pouco mais as plantas”, disse o neurobiólogo italiano.

Considerando as mudanças climáticas e o aquecimento global, as fitópolis podem ser parte da solução, já que 70% da população mundial vive em cidades. A redução de 20% do asfalto e sua substituição por áreas arborizadas já ajudaria muito na qualidade de vida, defendeu o pesquisador. Mancuso acrescenta que as plantas também devem estar dentro dos edifícios.

Fundador do Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal da Universidade de Florença, ele avalia que uma fitópolis ideal teria uma cobertura vegetal de pelo menos 60%. Essa cidade também deveria ter uma rede de transporte público muito eficiente, além de nenhum veículo movido à combustão.

 

Brumadinho (MG), 06/06/2026 - O escritor e pesquisador italiano Stefano Mancuso participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Brumadinho (MG), 06/06/2026 - O escritor e pesquisador italiano Stefano Mancuso participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
O escritor e pesquisador italiano Stefano Mancuso participa do Seminário Internacional Transmutar,  realizado pelo Instituto Inhotim, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O ecólogo e curador do Museu do Amanhã, Fabio Scarano, destacou que tudo que é vivo é inteligente, não apenas o ser humano. Para ele, o trabalho do professor Mancuso tem um efeito político, porque, ao se reconhecer a inteligência dos seres não humanos, talvez seja possível mudar de atitude e vê-los como irmãos, como defendia São Francisco.

“Eles não são só paisagem, não são só recursos para a gente consumir, 90% do planeta é composto por cobertura vegetal. Ela colabora com oxigênio e alimentos. A obra do professor [Mancuso] populariza um conhecimento que é científico e pouco discutido nas escolas”, disse Scarano.

Cidades amazônicas

O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes Neves apresentou manifestações de urbanismo indígena de 2,5 mil anos atrás no Acre. Depois, entre 1,5 mil anos e 1 mil anos atrás, a urbanização indígena se espalhou em diversas áreas da Amazônia.

“A principal lição desse urbanismo antigo é que ele não coloca a natureza para fora. Em São Paulo, matamos os rios, se tornaram depósitos de lixo. A gente excluiu muito a natureza”, critica ele.

O professor titular da Universidade de São Paulo (USP) ainda apontou que os bairros mais arborizados são mais ricos, enquanto o urbanismo atual dá as costas para as populações mais desassistidas. 

“A gente tem que pensar o futuro com a ideia de cidades jardins. Essas cidades antigas da Amazônia eram cidades jardins. Elas estavam entremeadas com as áreas de bosque. A gente tem que trazer a floresta de volta”, disse o professor titular .

 

Brumadinho (MG), 07/06/2026 - O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente Inhotim, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Brumadinho (MG), 07/06/2026 - O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente Inhotim, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
O arqueólogo e antropólogo Eduardo Góes participa do Seminário Internacional Transmutar, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente Inhotim, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Nêgo Bispo

O tema deste ano do seminário foi Transfluências, inspirado na obra do pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo, que morreu em 2023 aos 63 anos.

A programação celebrou a 22ª Semana do Meio Ambiente no Inhotim, maior museu a céu aberto de arte contemporânea da América Latina.

A diretora de Natureza, Operações e Infraestrutura do museu, Alitah Mariah, explica que Nêgo Bispo tem dois conceitos, a confluência e a transfluência. Segundo ela, a transfluência tem tudo a ver com o que o instituto pensou para o seminário, porque diz que todo pensamento e ação humana é circular ─ não só humano mas também dos não humanos.

“Para tudo que vai, alguma coisa fica, que é um pouco isso que a gente está tentando descobrir com esses pensadores. O que a gente pode se alimentar, trocar e transformar, e o que fica disso”, disse a diretora.

 

Brumadinho (MG), 06/06/2026 - A diretora de Natureza, Operações e Infraestrutura do Instituto Inhotim, Alita Mariah, participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Brumadinho (MG), 06/06/2026 - A diretora de Natureza, Operações e Infraestrutura do Instituto Inhotim, Alita Mariah, participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
A diretora de Natureza, Operações e Infraestrutura do Instituto Inhotim, Alita Mariah, participa do Seminário Internacional Transmutar, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A líder quilombola Joana Maria, filha de Nêgo Bispo e moradora do quilombo Saco Cortume, no interior do Piauí, explica que o conceito de confluência vem do encontro dos rios. Já a transfluência é o movimento e o encontro, mas ultrapassando barreiras.

“Achei muito interessante o tema do evento ser a transfluência, porque a gente vive numa situação hoje em que há muitas barreiras no cuidar do meio ambiente, no se relacionar com a natureza. A transfluência tem o propósito de que é possível, sim, pensar os nossos modos de vida, a forma como a gente cuida da natureza”. 

 

Brumadinho (MG), 06/06/2026 - A pesquisadora Joana Maria, filha de Nêgo Bispo, participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Brumadinho (MG), 06/06/2026 - A pesquisadora Joana Maria, filha de Nêgo Bispo, participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
A pesquisadora Joana Maria, filha de Nêgo Bispo, participa do Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

 

“A gente tem que pensar a natureza como o lugar do afeto, do lugar do cuidado, do se relacionar. O rio tem que estar limpo para que eu possa tomar banho nele, comer o peixe”, disse Joana.

Tecnologia e natureza

Para a gestora cultural colombiana Ana Ochoa Acosta, fundadora do departamento de cultura e comunicação do Parque Explora, em Medellín, na Colômbia, a natureza também inclui o que produzimos com a tecnologia.

“Regressar ao paraíso arcaico é impossível atualmente. Somos uma combinação de mundos orgânicos com inorgânicos, de tecnologias que nos fazem distintos. Isso também é natureza. A sabedoria é aprender a conviver com essa complexidade da qual não podemos escapar”, disse Ana.

A bióloga do Museu Emílio Goeldi, no Pará, Sue Anne Costa, contribuiu com o conceito de re-encantamento, para ajudar a ganhar outra perspectiva no processo decisório.

“O que os povos ancestrais tinham era esse encantamento com o território e o sagrado. Boa parte das decisões atuais têm lógicas produtivas, financeiras, de um suposto desenvolvimento. Essa lógica precisa mudar”, disse a pesquisadora.

 

Brumadinho (MG), 07/06/2026 - A coordenadora de comunicação do Museu Emílio Goeldi e professora da Universidade Federal do Pará, Sue Anne Costa, Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente Inhotim, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Brumadinho (MG), 07/06/2026 - A coordenadora de comunicação do Museu Emílio Goeldi e professora da Universidade Federal do Pará, Sue Anne Costa, Seminário Internacional Transmutar, com o tema Transfluências, realizado pelo Instituto Inhotim durante a Semana do Meio Ambiente Inhotim, em Brumadinho. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
A coordenadora de comunicação do Museu Emílio Goeldi e professora da Universidade Federal do Pará, Sue Anne Costa Rovena Rosa/Agência Brasil

Jardim Botânico

Reconhecido por seu acervo de arte contemporânea, Inhotim também é um jardim botânico que conserva mais de 1 mil espécies de plantas, regenera florestas nativas, protege a fauna silvestre e mantém pesquisa científica voltada à conservação da biodiversidade brasileira.

Com 140 hectares de visitação, está localizado em uma área de transição entre Mata Atlântica e Cerrado, dois dos biomas mais diversos e ameaçados do país. A instituição já regenerou 75 hectares de floresta nativa e mantém um estoque de 34.215,13 toneladas de carbono, quantidade que exigiria cerca de 1,26 milhão de árvores urbanas para ser armazenada.

 

Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – Jardins do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil Brumadinho, (MG), 24/04/2026 – Jardins do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Jardins do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

*A reportagem viajou a convite do Instituto Inhotim.

El Niño começa e deve ficar intenso no fim do ano

12 June 2026 at 19:32

O El Niño já começou e a previsão é de que se intensifique no fim do ano, informou ontem a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Na semana passada, a diretora da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, disse que o mundo precisa se preparar para um El Niño que pode "exacerbar a seca e as chuvas intensas e aumentar o risco de ondas de calor tanto em terra quanto no oceano".

O El Niño é um fenômeno climático natural que aquece as temperaturas da superfície no Pacífico equatorial central e oriental, provocando mudanças globais nos ventos, na pressão atmosférica e nos padrões de precipitação. Ele geralmente ocorre a cada 2 a 7 anos e dura de 9 a 12 meses. As condições oscilam entre o El Niño e seu oposto, La Niña, com períodos neutros.

A OMM afirma que mesmo um El Niño moderado torna alguns eventos climáticos extremos mais prováveis. O último El Niño contribuiu para que 2023 fosse o segundo ano mais quente já registrado e 2024 o ano com a temperatura mais alta de todos os tempos, em torno de 1,55°C, acima da média pré-industrial de 1850-1900.

A Organização Meteorológica Mundial afirmou que não há evidências de que as mudanças climáticas aumentem a frequência ou a intensidade dos eventos de El Niño. No entanto, a agência acredita que elas podem amplificar os efeitos associados, porque um oceano e uma atmosfera mais quentes aumentam a disponibilidade de energia e umidade para eventos climáticos extremos, como ondas de calor e chuvas intensas. A única resposta eficaz é uma ação climática à altura da crise: acabar com a dependência de combustíveis fósseis, acelerar a transição para energias renováveis e proteger os mais vulneráveis.

PREVISÃO

Embora o El Niño normalmente atinja seu pico entre novembro e fevereiro, o consequente aumento de temperatura geralmente ocorre mais tarde, considerando o início e a intensidade do El Niño. A OMM afirmou que, de junho a agosto, prevê "uma predominância quase universal de temperaturas acima do normal em praticamente todo o globo". Isso aumenta o risco de agravamento dos riscos em algumas regiões e acelera o início de condições de seca onde as chuvas são reduzidas.

A OMM espera que o alerta antecipado oriente o preparo, especialmente em setores sensíveis ao clima, como agricultura, gestão de recursos hídricos, energia e saúde. Centros climáticos regionais preveem chuvas "abaixo do normal" durante a estação chuvosa de junho a setembro no norte do Chifre da África; chuvas de monção abaixo da média no sul da Ásia; e verões mais secos e quentes na América Central. Durante o verão no Hemisfério Norte, as águas quentes associadas ao El Niño podem alimentar furacões no Pacífico central e oriental, enquanto dificultam seu desenvolvimento no Oceano Atlântico.

 

© Paulo Pinto / Agência Brasil

Embora o El Niño normalmente atinja seu pico entre novembro e fevereiro, o consequente aumento de temperatura geralmente ocorre mais tarde
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