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Algarve ganha fôlego com feriados de junho e hotéis perto da lotação esgotada

13 June 2026 at 18:00

A ocupação hoteleira no Algarve vai rondar os 80% durante as miniférias proporcionadas pelos feriados de junho, com um ligeiro aumento da procura face ao ano passado, disseram esta terça-feira à Lusa fontes do setor.

Em declarações à Lusa, o presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Hélder Martins, disse à Lusa que a expectativa era que a ocupação na região no período dos feriados de 4 e 10 de junho rondasse os 80%.

“A nossa expectativa é que nesta semana dos feriados nós vamos ultrapassar os 80% de ocupação, o que é muito bom”, afirmou, sublinhando que o mercado português é o que mais está a contribuir para os resultados alcançados pelo turismo algarvio nesta altura.

Quem optou por ir para a região está também a beneficiar de uns dias com tempo quente e sem chuva, com a meteorologia a ajudar as famílias a usufruir dos primeiros dias de praia, observou o presidente da associação empresarial algarvia. “Para as empresas […], é o aquecer os motores e, a partir de agora, entrarmos aqui já num período de época média-alta até chegarmos à época alta. Portanto, estamos satisfeitos com a procura que houve”, concluiu.

Também o presidente do Turismo do Algarve afirmou que os feriados contribuíram para um ligeiro aumento da procura de portugueses pela região, “embora os níveis se mantenham” em linha com os registados no ano passado.

Em declarações à agência Lusa, André Gomes sublinhou que o Algarve continua a ser “um destino de eleição” para o mercado interno durante períodos festivos, refletindo-se numa dinâmica positiva da atividade turística.

“Os feriados são tradicionalmente aproveitados por muitos portugueses para pequenas escapadas e o Algarve continua a ser uma das principais escolhas”, referiu. Segundo o responsável, estes períodos funcionam também como um “bom indicador” para o comportamento da procura na época alta.

Vem aí “uma época alta positiva”

Apesar do incremento registado nos últimos dias, André Gomes assinalou que “o reporte dos hoteleiros” aponta para um pequeno aumento de reservas do mercado interno, “embora sem variações significativas face à ocupação turística do ano anterior”.

O presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA) destacou, no entanto, que o desempenho verificado “reforça a confiança do setor para os próximos meses”, numa altura em que a região ainda se prepara para o pico da procura turística.

“Estamos a falar de um destino consolidado como o Algarve, que tem mantido níveis de procura consistentes, nomeadamente por parte do mercado nacional”, frisou, apontando para a resiliência do destino.

Segundo o responsável, os atuais indicadores permitem antever uma época alta positiva, à semelhança de anos anteriores, sustentada tanto pelo mercado interno como pela procura internacional.

“É isso que nos leva a acreditar que, mais uma vez, a região do Algarve terá um bom desempenho ao nível da atividade turística durante a época alta”, afirmou, mostrando-se confiante quanto à evolução da procura nos próximos meses.

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Francisco Amaral critica consulta de tabagismo no IPO marcada para 2027

13 June 2026 at 17:10

O médico e antigo presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, Francisco Amaral, criticou publicamente uma marcação do Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil para uma primeira consulta de tabagismo apenas em maio de 2027.

A publicação, feita nas redes sociais a 26 de maio, foi acompanhada por uma fotografia de um agendamento do IPO Lisboa, onde surge uma consulta de “Primeira Tabagismo” da área de Pneumologia marcada para 10 de maio de 2027, às 14:30.

Imagem do agendamento divulgada por Francisco Amaral, onde surge uma primeira consulta de tabagismo no IPO Lisboa marcada para maio de 2027

“Assim não”, escreveu Francisco Amaral, defendendo que esperar quase um ano pode comprometer o momento em que o fumador decide deixar de fumar. Na mesma publicação, o médico sublinhou que “uma das razões do êxito” do Programa de Combate ao Tabagismo do Município de Castro Marim é precisamente a consulta de cessação tabágica acontecer “no próprio dia” em que o fumador toma a decisão.

A observação vai ao encontro de uma posição que Francisco Amaral já defendia publicamente em 2018: “a consulta tem que ser imediata” para aproveitar a motivação do fumador no momento em que decide parar.

O caso divulgado por Francisco Amaral diz respeito a uma consulta de cessação tabágica, não a uma consulta de tratamento oncológico. Ainda assim, ganha especial relevância por envolver o IPO Lisboa, uma unidade do SNS com área de influência direta que inclui Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve.

O próprio mapa público da Rede de Consultas de Apoio Intensivo à Cessação Tabágica da ARS Lisboa e Vale do Tejo, atualizado em 2023, identifica no IPO Lisboa uma consulta de cessação tabágica no Serviço de Pneumologia, com funcionamento semanal à segunda e quinta-feira, destinada a utentes do IPO e funcionários, por referenciação interna.

Em Castro Marim, Francisco Amaral tem sido uma das figuras centrais no combate ao tabagismo. O programa municipal foi implementado em 2015 e trabalha em duas frentes: sensibilização e motivação para deixar de fumar, e acompanhamento clínico e psicológico ao longo do processo.

Segundo a informação institucional da autarquia, o programa começa com uma consulta de cessação tabágica com médico e psicólogo e mantém acompanhamento até à alta.

Os dados mais recentes divulgados pelo Município de Castro Marim apontam para mais de mil consultas realizadas e mais de 800 pessoas que terão deixado de fumar ao fim de um ano, com uma taxa de sucesso de 82,37%. A autarquia refere ainda que a iniciativa assenta num modelo de voluntariado médico promovido por Francisco Amaral, que criou e lidera o projeto.

Câmara inaugurou a escultura “Eco Pulmão”

O impacto do programa tem ultrapassado o concelho. Segundo notícias publicadas em 2025, os participantes chegaram não só de Castro Marim, mas também de Vila Real de Santo António, Tavira, Faro, Mértola, Almodôvar, Portimão, Loulé e Lisboa, além de pessoas oriundas de países como Espanha, Alemanha e Reino Unido.

Para além das consultas, o projeto tem promovido campanhas de sensibilização, encontros de ex-fumadores e ações públicas como a escultura “Eco-Pulmão”, instalada na Praça 1.º de Maio, em Castro Marim. A aposta de Castro Marim na prevenção não é recente. Em 2019, a Câmara inaugurou a escultura “Eco Pulmão”, da autoria de Carlos Correia, como forma de alertar para os malefícios do tabaco e para o impacto ambiental das beatas. Na altura, a autarquia referia uma taxa de sucesso a rondar os 85% e 437 aderentes ao programa, números que entretanto cresceram de forma significativa.

Escultura “Eco Pulmão”. Crédito: CMCM

Francisco Amaral, que terminou funções autárquicas em 2025 após 32 anos à frente dos municípios de Alcoutim e Castro Marim, manteve disponibilidade para continuar a dar o seu contributo voluntário como médico. O antigo autarca tem uma carreira ligada à medicina geral e familiar e ao poder local, tendo sido presidente da Câmara de Castro Marim entre 2013 e 2025.

A crítica agora feita ao agendamento do IPO surge num contexto em que o cancro do pulmão continua a ser uma das grandes preocupações de saúde pública. O cancro do pulmão é a principal causa de morte por doença oncológica em Portugal e tem forte associação ao consumo de tabaco. A European Lung Foundation refere que entre 80% e 90% dos casos de cancro do pulmão são atribuíveis ao tabaco.

Castro Marim foi recentemente apontado como o concelho algarvio com menor incidência de cancro do pulmão, segundo dados divulgados durante as 16.ªs Jornadas de Pneumologia do Algarve.

A autarquia associa esse resultado ao trabalho desenvolvido pelo Programa de Combate ao Tabagismo, embora uma relação causal direta deva ser lida com prudência, por depender de vários fatores epidemiológicos.

A rede nacional de cessação tabágica existe no SNS desde a Lei do Tabaco de 2007, mas o próprio despacho que criou a rede de referenciação em 2015 reconhecia dificuldades de cobertura em todo o território nacional.

O mesmo diploma defendia a organização de consultas de apoio intensivo à cessação tabágica e o acompanhamento dos fumadores em vários momentos do processo.

Para Francisco Amaral, a questão central continua a ser o tempo de resposta. Quando um fumador decide deixar de fumar, defende o médico, a intervenção deve ser rápida.

O caso agora divulgado, com uma primeira consulta marcada para 2027, reacende o debate sobre a capacidade do SNS para responder em tempo útil a uma decisão que, muitas vezes, depende de uma janela curta de motivação.

Números do programa de Castro Marim

Ano de implementação: 2015

Consultas realizadas: mais de 1.000

Pessoas que terão deixado de fumar ao fim de um ano: mais de 800

Taxa de sucesso divulgada: 82,37%

Modelo: voluntariado médico, com acompanhamento clínico e psicológico

Informações/marcações: 961 010 169

IPO Lisboa diz que consulta de cessação tabágica tem “caráter complementar”

Questionado pelo POSTAL sobre a marcação de uma primeira consulta de tabagismo para 10 de maio de 2027, o IPO Lisboa respondeu que as consultas de cessação tabágica no SNS “devem ser asseguradas, de forma preferencial, pelos cuidados de saúde primários da área de residência”, por serem estes a “porta de entrada” e a estrutura que garante o acompanhamento regular dos utentes.

Na resposta enviada ao POSTAL, o Instituto Português de Oncologia de Lisboa acrescenta que, naquela unidade, esta resposta “assume um caráter complementar”, enquadrado “no contexto do tratamento oncológico ativo e da saúde ocupacional dos profissionais”, integrando-se na abordagem global da doença e na otimização dos resultados terapêuticos.

O IPO Lisboa adianta ainda que, em 2025, a Consulta de Cessação Tabágica realizou 915 consultas.

A resposta, datada de 12 de junho, não esclarece, contudo, se existem atualmente primeiras consultas de tabagismo marcadas para 2027, qual o tempo médio de espera, quantas vagas estão disponíveis por semana, se há mecanismos de antecipação em casos urgentes, nem a razão concreta para o agendamento divulgado por Francisco Amaral.

POSTAL solicitou ao IPO Lisboa os seguintes esclarecimentos, mas, como se pode ver na missiva recebida na redação e que reproduzimos acima, a resposta não esclareceu as questões em causa.

  • Confirma o IPO Lisboa que existem primeiras consultas de cessação tabágica atualmente marcadas para 2027?
  • Qual é, neste momento, o tempo médio de espera para uma primeira consulta de cessação tabágica no IPO Lisboa?
  • A consulta de cessação tabágica no IPO Lisboa destina-se apenas a utentes acompanhados no próprio Instituto e funcionários, ou também recebe utentes referenciados externamente?
  • No caso de um fumador que pretenda deixar de fumar com urgência, existem alternativas, mecanismos de priorização ou possibilidade de antecipação da consulta?
  • Qual a razão para uma eventual marcação de primeira consulta de tabagismo a cerca de um ano de distância?
  • Quantas consultas de cessação tabágica realiza atualmente o IPO Lisboa por semana e qual a capacidade disponível?
  • Pretende o IPO Lisboa comentar a crítica feita por Francisco Amaral, que defende que a consulta deve ocorrer no momento em que o fumador decide deixar de fumar?

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Entrevista ao poeta louletano Miguel Duarte: “Quem não é daqui é que é periférico”

13 June 2026 at 17:10

Com A Música do Amolador, Miguel Duarte regressa à poesia com um livro atravessado pela memória, pela infância, pela perda e pela paisagem algarvia. Natural de Loulé, o autor assume uma escrita exigente, feita de revisões, imagens intensas e fidelidade ao tempo interior da criação.

Depois da apresentação na Feira do Livro de Lisboa, fala ao Postal do Algarve sobre o lugar do Sul na sua obra, o reconhecimento de Lídia Jorge e a responsabilidade de escrever sem ceder à pressa.

Crédito: Luísa Pinto, da Guerra & Paz

P – O título A Música do Amolador sugere uma arte de afiar: a lâmina, a palavra, talvez a memória. Como surgiu este título e que lugar ocupa essa figura do amolador na ideia geral do livro?

R – O título foi mesmo a última coisa a surgir. Caiu como um raio na escuridão. Andei à procura, experimentei alguns, mas este veio calar todos os outros. Eu pertenço talvez à última geração de portugueses para quem o som com que o amolador se fazia anunciar é indissociável das memórias da juventude. Dormia muitas vezes na casa dos meus avós, em Loulé, e aí não havia sábado em que não acordasse com o trinar daquela flauta, que pousava ali no meio da gente como um pássaro raro. Enfim, tudo isso foi-se perdendo; está quase extinto. Hoje, essa vivência aparece mais como uma intrusão na paisagem regulada da modernidade. As pessoas passam-lhe cuidadosamente à roda; não sabem o que pensar. Há algo de belo e ao mesmo tempo triste na ideia de alguém carregar às costas uma arte a preto e branco.

Meditações à parte, eu também sinto que sou um escritor um pouco à antiga e, nessa maneira de ser, sou um corpo estranho. Trabalho na sombra, estrago o sono, tomo o meu tempo. Não permito interferências nesse processo. Respeito a solidão dessa luta. E o resultado é que os meus poemas surgem habitados por personagens e situações que parecem caminhar também elas no limiar da extinção. Mas aquilo é tudo o que sabem ser e há nisso uma certa ternura que as torna palpáveis. Talvez por isso A Música do Amolador tenha feito logo sentido.

Tenho fome de criar coisas novas

P – Lídia Jorge escreve que este livro anuncia “o surgimento de uma grande voz a caminho” e fala numa torrente de imagens que lembra Dylan Thomas, Álvaro de Campos e, no Sul português, Ramos Rosa, Casimiro de Brito e Nuno Júdice. Como recebeu este reconhecimento e que peso têm, para si, essas possíveis linhagens literárias?

R – Desde logo, o apoio da Lídia Jorge fez duas coisas muito importantes por mim. A primeira é que trouxe uma sensação de amparo à minha visão criativa. Porque o olhar que temos da nossa escrita muitas vezes não coincide com o olhar dos outros. É um abismo traiçoeiro que só pode ser combatido com inquietude e autocrítica constantes, mas mesmo isso não garante chão firme para coisa nenhuma. Quem quer ser publicado tem que sujeitar-se à aprovação ou à obliteração que vem de fora… E a segunda é que uma mulher que muito admiro acaba por passar-me uma responsabilidade positiva para as mãos. Um estímulo, se preferir. Um estímulo para continuar a evoluir e procurar novas formas de me expressar pela poesia. Porque o que está feito, está feito. Foi um livro importante para mim; seguirá agora o seu caminho, mas não vejo utilidade nenhuma em ficar especado perante o que fiz. Tenho fome de criar coisas novas. E eu incluo os nomes referidos nessa noção de responsabilidade. Porém, mais do que pensar em linhagens literárias, interessa-me escrever e ter quem me publique os livros.

P – Ao longo do livro surgem o mar, as falésias, a Bordeira, Aljezur, o salitre, a terra, as ruínas e uma certa luz do Sul. De que forma o Algarve entra na sua poesia: como território real, como memória, como ferida ou como matéria simbólica?

R – Como tudo isso. Tenho dois Algarves dentro de mim. O Algarve que me foi revelado pela mão dos meus pais durante a infância é um outro Algarve muito particular, de que me apropriei à medida dos meus sentimentos. Cheguei à maioridade de pertencer a um sítio, que é tão real quanto imaginado. E é no ponto onde esses dois Algarves se cruzam que brotam alguns estados de alma para o que escrevo. Mas sinto que o livro é, acima de tudo, de uma humanidade universal. Aqui e ali, o Sul entra nele, mas é porque está intimamente ligado à minha experiência. Serve sempre como elevação, nunca como redoma. Muito sinceramente, acho que se o leitor não se der ao trabalho de ler a badana, nem vai fazer essa ligação à partida. Escrevo em tantos cenários…

Poeta louletano Miguel Duarte. Crédito: Luísa Pinto, da Guerra & Paz

P – Este é o seu segundo livro de poesia. Que diferença sente entre o Miguel Duarte que escreveu o primeiro livro e o poeta que agora publica A Música do Amolador pela Guerra e Paz? Houve uma mudança de voz, de exigência ou de ambição literária?

R – Sinto que houve um trabalho literário muito mais apurado com este livro. Passou por intermináveis afinações e revisões; tentei levar a minha linguagem a novos horizontes. Os próprios enlaces oníricos: procurei que rompessem com as expectativas decorrentes da leitura. Queria que o livro entrasse pelos olhos como uma tontura. A poesia permite-nos isso. Portanto, nesse sentido, sim, maior exigência e ambição. Mas repare, a matéria-prima mantém-se a mesma. E a matéria-prima é os sentimentos. É isso que carrega o livro em ombros. A técnica está ali para servir os sentimentos, sem os quais seria apenas um corpo grotesco. Não há ali uma linha que tenha sido escrita sem esse propósito. Portanto, o importante era que cada poema levasse tudo o que podia levar de mim.

Já o primeiro livro foi um tiro de partida que tinha que ser dado. Para uma estreia, superou as minhas expectativas, embora, à distância, o veja como um objeto imperfeito. E este também, à distância, parecer-me-á um livro cada vez mais imperfeito. Mas eu sou assim, severo comigo próprio. Talvez por isso não tenha essa tentação de publicar a granel. Preciso de sentir um certo nível de satisfação com o que escrevo, o que não é fácil de atingir. E a exigência vai sendo cada vez maior. Hoje, publica-se muito, mas escreve-se pior. Perdeu-se um pouco o valor do rigor muito por culpa das editoras de vaidade, das redes sociais e da crescente infantilização do leitor, todo esse caldo de indulgências. Eu não quero render-me a essa situação. Tenho as minhas regras e vejo o tempo como um aliado.

O sentimento é autobiográfico, mas dou inteira liberdade aos poemas para seguirem as imagens que melhor lhes sirvam

P – Há no livro uma forte presença da infância, da mãe, da casa, do corpo, da solidão e da perda. Até que ponto estes poemas partem de uma experiência autobiográfica e em que momento essa experiência se transforma em construção poética?

R – O sentimento é autobiográfico, mas dou inteira liberdade aos poemas para seguirem as imagens que melhor lhes sirvam. Ou seja, há ali muito que é puramente imaginário, mas, no fundo, tudo jorra da mesma fonte, como só a pessoa que o escreve poderia experienciá-lo. O livro é táctil nesse sentido. Queria que os poemas tivessem a forma de uma presença de carne e osso.

Mas, na realidade, a construção poética começa muito antes. Tem a ver com um conflito interior. Desde cedo fui uma criança sensível e há um movimento irresistível por parte do mundo para esmagar essa sensibilidade. É tudo muito binário, ou se mata ou se morre, ou se ganha ou se perde, ou se é a favor ou contra. Enfim, isto é particularmente violento para quem se comove facilmente. Agora lembro-me de que era uma criança algo solitária. Tinha muitos amigos, mas também gostava de estar sozinho. Porquê? Então parece-me que comecei a escrever poemas na adolescência porque era preciso defender esse lado belo e intocado. Era mais importante que essa verdade se impusesse aos gestos forjados.

Crédito: Luísa Pinto, da Guerra & Paz

P – A sua escrita é marcada por imagens muito intensas, versos longos, um fluxo por vezes narrativo e uma linguagem que parece querer levar cada frase ao limite. Como se trabalha um poema: escreve por impulso ou há depois um processo rigoroso de corte, depuração e reescrita?

R – Um poema tem essas fases todas. Dá muito, muito trabalho. Creio que esse mito dos impulsos mata à nascença muitos aspirantes a poetas, porque já vão com a ideia de que esse primeiro momento de fluidez é o princípio e o fim de tudo. As imagens vêm-me com maior naturalidade comparadas com o resto, mas esse impulso, se quiser, é apenas o pincel a dizer que quer ir mais para aqui ou mais para ali. Depois, é preciso dar-lhe uma forma que lhe faça justiça e isso representa talvez noventa por cento do tempo despendido. Pelo menos, sinto isso quando escrevo. Ou seja, as palavras me levam pela mão e têm apetite por ir mais além. Mas é preciso transpor para a linguagem aquilo que se vê sem lhe travar a vivacidade. Não há uma resposta fácil para essa pergunta.

Para mim, seria uma tragédia ter nascido noutro sítio. Este mar, estas cores, estas falésias, estas serras são o centro do mundo

P – Depois da apresentação de A Música do Amolador na Feira do Livro de Lisboa, e tendo em conta a sua forte ligação ao Algarve, que balanço faz da receção ao livro e o que gostaria que os leitores algarvios nele encontrassem: uma voz da região, uma voz contra a ideia de periferia, ou simplesmente poesia capaz de falar para lá de qualquer geografia?

R – Gosto que saibam que sou do Algarve e que sou de Loulé. Para mim, seria uma tragédia ter nascido noutro sítio. Este mar, estas cores, estas falésias, estas serras são o centro do mundo. A meu ver, quem não é daqui é que é periférico. Por isso, pode dizer-se que a minha poesia é iluminada em vários momentos por essa luz do Sul, mas a verdade é que vai beber a elementos que, ao fim e ao cabo, são comuns a toda a gente e, portanto, transcendem esse lugar geográfico.

De resto, ainda é muito cedo para ter uma imagem clara do percurso que o livro vai fazer. Saiu apenas no mês passado. Estou satisfeito por ter concluído esta etapa e grato a quem confiou no meu trabalho. É esse o meu balanço para já.

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O problema não é o divórcio. O problema é o conflito | Por Joaquim Manuel da Silva

13 June 2026 at 15:20

Durante muitos anos (e ainda hoje) discutimos uma questão que parecia decisiva: será melhor para uma criança crescer com os pais juntos ou com os pais separados?

Hoje sabemos que essa não é a pergunta mais importante.

A investigação científica das últimas décadas tem demonstrado, de forma consistente, que aquilo que mais prejudica o desenvolvimento das crianças não é a separação dos pais em si mesma. O verdadeiro problema é a exposição prolongada ao conflito, ao medo, à insegurança e à perda de relações afetivas significativas.

Uma criança que vive numa família aparentemente intacta, mas marcada por discussões constantes, hostilidade e tensão emocional, pode sofrer mais do que uma criança cujos pais se separaram, mas conseguiram construir uma relação parental respeitadora e cooperante.

Podemos simplificar a realidade em três cenários.

– Pais juntos e em conflito permanente.

– Pais separados e em conflito permanente.

– Pais separados, mas capazes de cooperar e colocar os filhos acima das suas divergências.

A evidência aponta claramente para que este último cenário seja, em regra, o mais favorável ao desenvolvimento da criança.

E aponta também para que o segundo seja frequentemente o mais destrutivo.

Porque ao conflito junta-se a perda da convivência diária com um dos pais, os conflitos de lealdade, os sentimentos de abandono e, muitas vezes, anos de litigância que transformam a infância num campo de batalha.

O problema não está na forma jurídica da família.

Está no conflito.

E hoje sabemos que esse conflito não produz apenas sofrimento emocional.

Produz alterações reais no desenvolvimento da criança.

Afeta a forma como o cérebro se organiza.

Afeta os mecanismos de resposta ao stress.

Afeta a aprendizagem.

Afeta a saúde futura.

A criança não vive o conflito apenas na mente.

Vive-o no corpo inteiro.

Talvez por isso a verdadeira questão ética não seja descobrir quem tem razão.

Nem quem ganhou o processo.

Nem quem venceu a última batalha.

A verdadeira questão é outra:

Que direito tem um adulto de sacrificar o bem-estar dos seus filhos para continuar uma guerra contra o outro progenitor?

Ao longo da minha experiência profissional aprendi uma lição simples.

Os conflitos persistentes raramente sobrevivem quando uma das partes deixa de os alimentar.

Quando deixa de responder à agressão com agressão.

Quando deixa de procurar culpados.

Quando deixa de precisar de vencer.

Quando deixa de precisar de ter razão.

Quando passa a preocupar-se mais com a saúde dos filhos do que com a derrota do outro progenitor.

Ninguém discute sozinho.

Ninguém faz uma guerra sozinho.

O conflito exige cooperação.

A paz também.

É neste contexto que deve ser entendida a residência alternada.

Não como uma solução mágica.

Não como um objetivo em si mesmo.

Mas como um possível instrumento para garantir a presença de ambos os pais na vida da criança e reduzir dinâmicas de exclusão.

O essencial continua a ser o mesmo: reduzir o conflito.

Porque a pergunta decisiva não é:

«Com quem vive a criança?»

A pergunta decisiva é:

«Em que ambiente emocional vive a criança?»

Uma criança criada na paz, no respeito e na cooperação terá normalmente condições para crescer de forma saudável.

Uma criança criada no medo, na hostilidade e na guerra permanente pagará frequentemente esse preço durante muitos anos.

Às vezes durante toda a vida.

E quando isso acontece, não perde apenas a criança.

Perde a família.

Perde a comunidade.

Perde a sociedade inteira.

Talvez esteja na altura de compreendermos uma verdade simples: proteger as crianças não significa escolher um dos pais.

Significa protegê-las da guerra entre eles.

Talvez a verdadeira medida do amor pelos filhos não esteja naquilo que fazemos por eles, mas sim naquilo que somos capazes de deixar de fazer ao outro progenitor por causa deles.

Porque o amor sem segurança não é amor; é apenas uma necessidade adulta disfarçada de afeto.

Nota bibliográfica: As ideias expostas neste texto apoiam-se na prática do autor e, doutrinalmente, entre outros, nos trabalhos de Vincent Felitti, Bruce Perry, Bessel van der Kolk, Jack Shonkoff e John Bowlby sobre trauma, desenvolvimento infantil e teoria do apego.

Leia também: Universidade do Algarve disponibiliza provas digitais gratuitas para preparação das avaliações nacionais | Por Mauro Figueiredo

Universidade do Algarve disponibiliza provas digitais gratuitas para preparação das avaliações nacionais | Por Mauro Figueiredo

13 June 2026 at 11:00

Num momento em que as avaliações externas em formato digital assumem um papel cada vez mais relevante no sistema educativo português, a Universidade do Algarve acaba de disponibilizar uma nova funcionalidade gratuita na plataforma MILAGE APRENDER+, permitindo aos alunos prepararem-se para as provas nacionais em ambiente digital igual ao das avaliações oficiais.

A novidade surge numa altura em que milhares de alunos do ensino básico se preparam para realizar provas e exames em formato digital, exigindo não apenas a consolidação dos conteúdos curriculares, mas também a familiarização com novas formas de interação, navegação e resolução de questões no computador.

Desenvolvida pela Universidade do Algarve e atualmente explorada pela Associação Ser MILAGE, a plataforma MILAGE APRENDER+ passou a permitir a geração automática de provas de treino digitais, estruturadas de forma igual às provas oficiais disponibilizadas pelo EduQA. Os alunos podem realizar múltiplas tentativas, praticar ao seu próprio ritmo e receber feedback imediato sobre o seu desempenho, identificando mais facilmente os conteúdos em que apresentam maiores dificuldades.

MAURO FIGUEIREDO – Coordenador do Projeto MILAGE APRENDER+ da Universidade do Algarve
Os resultados alcançados demonstram a crescente adesão da comunidade educativa a este modelo de aprendizagem

Esta funcionalidade integra-se num projeto educativo que, ao longo dos últimos anos, tem vindo a apoiar escolas de diferentes regiões do país na integração das tecnologias digitais ao serviço das aprendizagens. Resultado da investigação académica e da experiência acumulada em contexto escolar, a plataforma MILAGE APRENDER+ procura responder a um dos grandes desafios da educação contemporânea: utilizar a tecnologia não apenas como um recurso complementar, mas como uma plataforma educativa capaz de promover uma aprendizagem mais ativa, personalizada e inclusiva.

Disponível gratuitamente para todas as disciplinas, desde o pré-escolar até ao 12.º ano de escolaridade, a plataforma reúne vídeos educativos, recursos digitais interativos, atividades diferenciadas e funcionalidades de acompanhamento que permitem aos professores monitorizar o progresso dos seus alunos em tempo real.

O modelo pedagógico da MILAGE assenta em princípios reconhecidos pela investigação educacional como potenciadores do sucesso escolar. A autonomia dos alunos é incentivada através da realização de atividades ao seu próprio ritmo, enquanto mecanismos de gamificação contribuem para aumentar a motivação e o envolvimento nas tarefas propostas. Paralelamente, os processos de autoavaliação e avaliação entre pares promovem a reflexão crítica sobre as aprendizagens e o desenvolvimento de competências de responsabilidade e autorregulação.

Uma das características mais valorizadas pelos professores é a possibilidade de diferenciar percursos de aprendizagem dentro da mesma turma. Através da plataforma, é possível identificar dificuldades específicas, acompanhar a evolução individual dos alunos e disponibilizar recursos adequados às necessidades de cada um, promovendo uma resposta educativa mais equitativa e ajustada à diversidade existente nas escolas.

Também as famílias assumem um papel importante neste processo. Através das contas de encarregado de educação, os pais podem acompanhar o percurso dos seus educandos, consultar o trabalho realizado e participar de forma mais ativa no acompanhamento das aprendizagens.

A plataforma promove igualmente a participação ativa da comunidade educativa, incentivando professores e alunos a criar e partilhar recursos educativos digitais que podem ser reutilizados por outros utilizadores, promovendo uma cultura de colaboração, inovação pedagógica e construção coletiva do conhecimento.

A introdução das novas provas digitais de treino representa mais um passo na evolução deste ecossistema educativo. Além de apoiar os alunos na preparação para as avaliações externas, a plataforma permite agora aos professores criar gratuitamente testes digitais de avaliação sumativa, utilizando questões próprias ou recorrendo ao vasto banco de recursos educativos já disponível.

Anualmente, o projeto promove a Conferência Internacional de Aprendizagem Móvel no Projeto MILAGE e os Prémios MILAGE APRENDER+, iniciativas que visam divulgar boas práticas educativas e reconhecer o trabalho desenvolvido por alunos e professores em escolas de todo o país. A edição de 2026 realiza-se nos dias 8 e 9 de julho, em Matosinhos.

Os resultados alcançados demonstram a crescente adesão da comunidade educativa a este modelo de aprendizagem. Atualmente, a plataforma MILAGE APRENDER+ disponibiliza cerca de 80 mil recursos educativos digitais e registou, apenas no presente ano letivo, mais de um milhão de problemas resolvidos pelos alunos. Desde a sua criação, a plataforma já impactou mais de 223 mil alunos.

A dimensão nacional do projeto reflete-se também na diversidade de escolas, regiões, disciplinas e níveis de ensino envolvidos. Da educação pré-escolar ao ensino secundário, os professores utilizam diariamente a plataforma para apoiar as aprendizagens, criar recursos educativos digitais, acompanhar o progresso dos alunos e promover práticas pedagógicas mais personalizadas e inclusivas.

Os dados recolhidos em diferentes contextos educativos evidenciam igualmente resultados encorajadores. Em várias escolas que integraram iniciativas apoiadas pela plataforma MILAGE APRENDER+, verificaram-se melhorias significativas nos desempenhos dos alunos.

Os números representam apenas uma parte do impacto alcançado. Mais significativa é a forma como professores, alunos e famílias reconhecem na plataforma uma ferramenta capaz de tornar a aprendizagem mais motivadora, mais personalizada e mais próxima das necessidades reais de cada estudante.

Ao longo dos últimos anos temos acompanhado milhares de alunos, professores e famílias que utilizam diariamente a plataforma. Essa proximidade às escolas tem-nos permitido compreender melhor os desafios que enfrentam e desenvolver soluções que procuram responder às necessidades reais dos diferentes contextos educativos.

Num contexto em que a transformação digital da educação continua a colocar novos desafios às escolas, a experiência acumulada ao longo dos últimos anos reforça a convicção de que a inovação tecnológica produz melhores resultados quando é colocada ao serviço das pessoas e integrada em práticas pedagógicas que valorizam o papel dos professores.

A plataforma encontra-se disponível gratuitamente em webmilage.ualg.pt, permitindo a qualquer aluno, professor ou encarregado de educação explorar os seus recursos e funcionalidades. Mais informações sobre a Conferência Internacional de Aprendizagem Móvel no Projeto MILAGE e os Prémios MILAGE APRENDER+ podem ser consultadas em milagelearnmore.org.

Continuaremos, por isso, a trabalhar para que a tecnologia contribua para uma educação mais inclusiva, mais humana e mais capaz de responder aos desafios de uma sociedade em permanente transformação.

MILAGE APRENDER+ em números

  • 223 278 alunos impactados desde 2016
  • 79 660 recursos educativos digitais criados
  • 1 086 328 problemas resolvidos em 2025/2026
  • Recursos disponíveis do pré-escolar ao 12.º ano
  • Utilização em escolas de norte a sul do país
  • Plataforma gratuita: webmilage.ualg.pt
  • Conferência e Prémios MILAGE 2026: milagelearnmore.org

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Infantário Pimpão: mais de 40 anos dedicados à infância em Tavira

13 June 2026 at 10:00

A funcionar como creche para crianças dos 0 aos 2 anos e jardim de infância dos 3 aos 5, o Infantário Pimpão é hoje uma das instituições de referência na educação de infância em Tavira. Fundado em fevereiro de 1983, o espaço acompanha há mais de quatro décadas várias gerações de famílias tavirenses.

Numa fase inicial, o infantário funcionou onde é hoje a Escola D. Manuel I em Tavira, acolhendo sobretudo filhos de funcionários do Ministério da Educação. Em setembro de 1989, abriu portas para a restante comunidade e mudou-se para as instalações construídas de raiz, onde continua a funcionar até hoje.

Maria Luís, presidente da direção, e Eugénia Sousa, diretora pedagógica, estão ligadas ao Pimpão há 42 anos. As duas educadoras assumiram a direção em 1996, numa altura marcada por dificuldades financeiras que chegaram a colocar em risco a continuidade da instituição.

“Pegámos nisto para salvar o nosso posto de trabalho e o das restantes funcionárias”, recordam as responsáveis. Com uma gestão rigorosa e muito esforço pessoal, conseguiram recuperar a estabilidade da instituição sem comprometer o projeto educativo nem a qualidade do trabalho desenvolvido com as crianças.

Educação participativa e ligação próxima às famílias

Ao longo dos anos, o Pimpão distinguiu-se pela aposta numa educação participativa, próxima das famílias e centrada no desenvolvimento infantil. “Nunca vimos a creche apenas como um espaço para guardar crianças”, sublinham ao POSTAL.

A instituição trabalha segundo as orientações curriculares estruturadas em três áreas fundamentais: formação pessoal e social, expressão e comunicação e conhecimento do mundo para a educação infantil, desenvolvendo projetos pedagógicos adaptados aos interesses e necessidades das crianças, referiu a presidente ao POSTAL.

A aprendizagem é construída através da exploração, da comunicação e da interação com o meio envolvente, numa metodologia que valoriza a curiosidade natural dos mais novos.

A relação com as famílias continua a ser uma das principais marcas do infantário. Os pais podem acompanhar de perto o quotidiano das crianças, numa lógica de “porta aberta” que, segundo as responsáveis, fortalece a confiança e o envolvimento familiar.

“As crianças são o melhor veículo de comunicação. São elas que mostram aos pais aquilo que aprenderam e viveram aqui”, acrescenta Maria Luís ao POSTAL.

Gerações de tavirenses continuam ligadas ao Pimpão

Ao longo das últimas décadas, o Infantário Pimpão estabeleceu ainda parcerias com diversas entidades locais, escolas profissionais, universidades e instituições internacionais.

Atualmente, muitas das crianças que passaram pelo infantário regressam enquanto pais dos novos alunos, algo que as responsáveis encaram como reflexo do impacto que o Pimpão continua a ter na comunidade tavirense.

Para Eugénia Sousa, o segredo continua a estar na forma como vivem diariamente a profissão. “Transformar as ações educativas numa festa é o mais importante”, afirma, acrescentando que “se nós não estivermos motivadas, também não conseguimos motivar as crianças.”

Já Maria Luís resume o percurso no Pimpão como “um privilégio”.

“Transformar a educação num prazer continua a ser o mais importante”, concluem as responsáveis.

EJ/CM

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Partos aumentaram 3,7% em Portugal em 2025, com mães estrangeiras concentradas no Algarve e Lisboa

13 June 2026 at 08:30

Portugal registou 87.130 partos em 2025, mais 3.071 do que no ano anterior, o que representa um aumento de 3,7%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE)

A subida interrompe a quebra verificada entre 2023 e 2024 e retoma a tendência de crescimento observada desde 2022. De acordo com a publicação “Estatísticas dos partos”, o número de partos aumentou em todas as regiões do país, com exceção da Madeira, onde se registou uma diminuição de 3,3%.

Os dados do INE destacam ainda o crescimento da proporção de partos de mães de nacionalidade estrangeira, que passou de 26,3%, em 2024, para 28,8%, em 2025. Estas parturientes residem sobretudo em municípios do Algarve e da Grande Lisboa.

“O conjunto de nacionalidades estrangeiras mais representadas manteve-se em relação ao ano anterior, reforçando o peso no total de partos, com destaque para o Brasil (10,5% do total de partos em 2025)”, salienta o INE.

A região Norte registou o maior número de partos de mulheres residentes em Portugal, com 29,8% do total, seguindo-se a Grande Lisboa, com 25,6%, e a região Centro, com 13,7%. Nos últimos 20 anos, aumentou também a idade das parturientes.

Entre 2003 e 2025, a proporção de partos de mães com 35 ou mais anos passou de 17,2% para 32%. O INE sublinha ainda que as cesarianas aumentaram de 27,1% para 38,6% dos partos realizados em hospitais entre 1999 e 2024. Em 2025, 98,5% dos nascimentos ocorreram em estabelecimentos hospitalares.

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Irritações cívicas | Por Mendes Bota

13 June 2026 at 07:30

Num raro momento de generosidade para com os contribuintes, a Assembleia da República aprovou em 2006 uma nova Lei das Finanças Locais (Lei 2/2007 de 15 de Janeiro), na qual conferiu a cada Município 5% das receitas do IRS liquidado anualmente por quem tenha domicílio fiscal na sua área geográfica. Mas também foi dada a cada autarquia a possibilidade de devolver essa receita aos cidadãos, total ou parcialmente, assim aliviando a carga fiscal que asfixia a grande maioria (de quem paga impostos). Uma consulta ao sítio electrónico da Autoridade Tributária traz algumas revelações interessantes. Apenas seis dos municípios algarvios decidiram no sentido de devolver essas quantias na sua totalidade: Albufeira, Alcoutim, Aljezur, Lagos, Loulé e Vila do Bispo. Outros, ficam-se a meio caminho. S. Brás de Alportel, Silves e Vila Real de Santo António não devolvem um tusto, mas compreende-se. A um falta-lhe dimensão orçamental e territorial, outro deve ter uma visão ideológica do problema, e o terceiro continua afogado em dívidas passadas. Agora, dois dos municípios mais pujantes do Algarve, são dos mais avarentos. Faro, devolve a ninharia de 0,5%, e Olhão prescinde apenas de 1%. Há um elo comum chamado António Pina. Liderava Olhão, e agora chefia Faro. O sovina é o mesmo.

Claro que este é o tipo de irritação que encontra nos políticos o alvo mais fácil, o bode expiatório de todos os males, o exutório da frustração colectiva feita de um cúmulo de frustrações individuais. Aqui, o alvo está mesmo ali à frente como numa tenda de feira onde se atiram bolas de trapos para derrubar os bonecos. O pior são as irritações que advêm da falta de civismo dos cidadãos, e quando se multiplicam os exemplos quotidianos da falta de ética, onde prevalece o chico-espertismo de alguns, em claro desrespeito pelo próximo e pelas regras de convivência de toda a comunidade. Existem hoje condições no sistema escolar como nenhum de nós alguma vez sonhou. Todos os anos sai das universidades um número inacreditável de doutores, mestres, prof-docs. O analfabetismo clássico roça taxas marginais. A (des)informação tomou conta em excesso do nosso quotidiano, mas – porém todavia contudo como se costumava recitar antigamente – parece que os valores cívicos estão em queda livre.

Nunca houve tantas leis, tantas posturas municipais, tantos regulamentos, tantos sinais e códigos proibitivos, mas impressiona o número de indivíduos que têm prazer em vandalizar infraestruturas que pertencem a todos, como jardins, transportes, mobiliário urbano, monumentos, fachadas, contentores de lixo até. Independentemente da guerra dos guarda-sóis que subitamente se declarou nas nossas praias, é irritante ver quem se levanta cedo só para marcar com toalhas os espaços de areia que outros virão ocupar mais tarde, ou cativam espreguiçadeiras nas piscinas de prédios e hotéis. É irritante ver como certos automobilistas não respeitam as filas de trânsito, e intrometem-se mais à frente dos outros, sem vergonha nem rebuço. Há demasiados loucos na estrada, que se mocam dos limites de velocidade e da segurança de terceiros. Irrita que a polícia raramente esteja onde se pensa que faz falta. Irrita, ver certos adiantados mentais estacionar em lugares destinados a veículos de pessoas com certas dificuldades. Já para não falar, nos transportes públicos, de quem ocupa lugares reservados para idosos ou pessoas com mobilidade reduzida.

Causa irritação ver tanta gente de telemóvel na mão, ou nas orelhas, a falar aos gritos no meio da rua ou no interior de uma carruagem de combóio ou de autocarro, incomodando os outros, esparramando a sua própria privacidade como se estivesse numa cabine telefónica sem porta. Há um acréscimo de gente que atira garrafas, restos de comida, papéis, papelões e detritos de jardinagem para o meio da rua, sabendo que alguém terá de limpar a porcaria que faz. Tudo isto são irritações cívicas. Já agora, redireccionando os binóculos na direcção de quem manda nisto tudo, é revoltante ver a escassez de lugares destinados ao público que se encontra nas gares rodoviárias, ferroviárias ou aeroportuárias. Está tudo feito para o negócio, e para a exploração do zé povinho. Esgotados os parcos assentos disponíveis, a alternativa é ficar de pé, ou pagar comes e bebes para ficar sentado no espaço dos concessionários. Num país onde a taxa de atraso dos transportes é gigantesca, ninguém parece preocupado em servir o público como deve ser. É preciso é que pague e que consuma, mesmo que não lhe apeteça. Falta-nos cada vez mais a dimensão ética na atitude cívica. Que se lixem os princípios, salve-se quem puder, parece ser o mote dos tempos que correm.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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