Normal view

Não é só o PSB de João. Há o PSD de Raquel que Lula não pode perder

12 June 2026 at 00:00

A relação entre Lula (PT) e Raquel Lyra (PSD) em Pernambuco parece apenas uma questão local. Não é. Na prática, é o capítulo mais visível de um cálculo que o presidente faz em escala nacional, parecido com o que acontece entre o PT e o PSB de João Campos.

Campos preside o partido e usa esse poder para pressionar o PT em Pernambuco e em outros estados. Mas Gilberto Kassab (PSD) preside o maior partido do Brasil e pode fazer o mesmo por Raquel. Há quem diga que já faz. O PSD tem governadores, ministérios, mais de mil prefeitos e palanques em nove estados onde Lula precisa vencer. O cálculo, portanto, não é difícil de fazer.

Na Bahia, no Ceará, Piauí, Sergipe, em Alagoas, no Amazonas, Mato Grosso, Rio de Janeiro e Maranhão, PT e PSD constroem juntos a base eleitoral que Lula precisa para se reeleger, seja como sócios diretos em chapas majoritárias, seja sustentando candidatos comuns de terceiros partidos. É esse mapa que explica por que Lula pode gravar vídeos e mandar recados, mas dificilmente virá a Pernambuco escolher um lado quando a campanha começar.

Custo

Raquel Lyra migrou do PSDB para o PSD com um objetivo que nunca foi disfarçado: aproximar-se da base federal lulista sem abrir mão da identidade política de centro-direita. A estratégia funcionou. A governadora construiu relação de trabalho com ministros, garantiu repasses e acumulou o capital que hoje a coloca tecnicamente à frente de João Campos nas pesquisas, com 48% contra 43% no Datafolha de maio.

O problema é que esse capital tem um teto, porque Raquel não é candidata do PT. Além disso, o partido de Lula tem candidato em Pernambuco, e esse candidato é o presidente nacional do PSB. Sobre isso, o PT falou com clareza protocolar através de seu presidente nacional, Edinho Silva: Lula tem um único palanque no estado, o de João Campos. O ministro Wellington Dias, ao sugerir o contrário, foi desautorizado publicamente.

Mas a política real raramente coincide com a declaração formal. A tendência, avaliada nos bastidores do Planalto, é que Lula não pise em Pernambuco durante a campanha. Ou, se pisar, o faça de forma suficientemente vaga para que a foto sirva aos dois lados. A verdade é que o palanque duplo informal, que o PT nega publicamente, já tem contorno de cenário provável.

Nesta sexta-feira (12), inclusive, quando se chegou a dizer que o presidente Lula viria ao estado para um evento em Suape, já está acertado que ele não pisará em solo pernambucano. Mandou um auxiliar, porque sabe que seria obrigado a fazer fotos com João e com Raquel. E sabe que isso iria causar mais problema do que solução por enquanto.

Kassab

O PSD apoia Lula nos estados e lança Caiado para presidente. Em estados como Bahia e Sergipe, a candidatura de Caiado à Presidência é vista como uma formalidade de Brasília que não desce para o palanque local. É o que também ocorre em Pernambuco, onde Raquel não deve pedir votos para Caiado e tem sua preferência por Lula. Kassab não vê contradição nisso. O líder petista também não.

Tomar lado em Recife cria precedente e fragiliza acordos em andamento em Salvador, Fortaleza, Teresina, Aracaju e Rio de Janeiro. A ambiguidade de Lula sobre Pernambuco não é hesitação. É o preço que o PT paga para manter a aliança com o maior partido do Brasil nos lugares onde ela realmente importa. A conta que é feita para o PSB também vale para o PSD.

© Ricardo Stuckert/PR

Lula com Raquel Lyra e com João Campos
❌