A pesquisa Genial/Quaest de junho coloca Renan Santos (Missão) com 3% das intenções de voto no primeiro turno. O número é baixo, mas a leitura que para por aí perde o que o levantamento tem de mais interessante sobre o líder do Movimento Missão.
Desconhecimento
Renan é um dos candidatos mais desconhecidos entre todos os testados pela pesquisa. Apenas 30% dos entrevistados o conhecem, contra 98% que conhecem Lula e 95% que conhecem Flávio Bolsonaro. Com 70% do eleitorado sem saber quem ele é, a intenção de voto de 3% não mede força eleitoral consolidada, mas o alcance de uma candidatura que ainda não chegou à maior parte do país.
Potencial
O índice de possibilidade de voto muda a perspectiva. Entre os eleitores que conhecem Renan, 10% dizem que votariam nele e apenas 20% o rejeitam. É uma das menores rejeições entre todos os candidatos testados. Lula tem 53% de rejeição entre os que o conhecem. Flávio Bolsonaro, 56%.
Renan não carrega o peso da polarização. Quem o conhece abre espaço para o voto com uma frequência bem maior do que ocorre com os dois líderes. O problema é que quase ninguém o conhece.
Posição
Com 2% entre os independentes, Renan ocupa exatamente o segmento que Flávio Bolsonaro perdeu e que Lula não consegue conquistar. É um espaço pequeno hoje, mas estrategicamente situado no centro do eleitorado mais disputado da eleição.
Uma candidatura que cresce nesse segmento não precisa de muito para alterar a aritmética do primeiro turno. Lula aparece com 39% e carrega 53% de rejeição entre os que o conhecem, o que coloca seu teto eleitoral em torno de 47%. Os 3 pontos que separam esse teto da maioria absoluta estão disputados por candidaturas como a de Renan, que atuam exatamente no espaço dos eleitores sem identificação com os polos esquerda ou direita. Cada ponto dos independentes que fica fora do campo petista aumenta a probabilidade de o confronto ir para o segundo turno.
Limite
O obstáculo de Renan nesta eleição não é rejeição, é invisibilidade. Candidatos com alta rejeição precisam convencer quem já os conhece e os recusa. Renan precisa, antes, ser conhecido. São problemas diferentes, com soluções diferentes e custos diferentes.
Se a campanha resolver o problema do desconhecimento terá um candidato com baixa resistência à frente. A questão é se há tempo, dinheiro e estrutura para fazer isso antes de outubro ou só em 2030.
A pesquisa Genial/Quaest nacional desse mês de junho registra dois movimentos simultâneos: Lula (PT) cresce e Flávio Bolsonaro (PL) recua. A leitura apressada pode tratar os dois como faces do mesmo fenômeno, como se Lula melhorasse porque Flávio piorou. Não é a realidade.
Flávio perde porque o caso Banco Master deteriorou sua posição fora do bolsonarismo e os números são específicos sobre isso. Lula avança porque suas políticas públicas estão produzindo efeitos percebidos pelo eleitorado e a pesquisa deixa isso claro.
São dinâmicas independentes, com origens distintas, e entender a diferença entre elas é essencial para não afundar em pessimismo ou decolar em empolgação.
Recuo
No confronto direto, Flávio aparece com 38% e Lula com 44%. A diferença de 6 pontos ganha peso quando comparada a maio: há um mês, o senador tinha 41% e o presidente, 42%. O empate técnico de 30 dias atrás transformou-se numa vantagem de 6 pontos para o líder petista.
O recuo não veio de dentro do bolsonarismo. Flávio ainda concentra 94% das intenções de voto do grupo e mantém 70% de voto consolidado, índice praticamente igual ao que Lula tem com o seu eleitorado à esquerda. O problema é que o bolsonarismo não vence uma eleição presidencial sozinho. Os eleitores da chamada "direita bolsonarista" representam cerca de 13% apenas. Para Flávio vencer é preciso ter a "direita não bolsonarista" e os independentes.
A soma da direita bolsonarista com a direita não bolsonarista representa 33% do eleitorado. Flávio aparece com 29% no primeiro turno. Ele não consegue fechar nem o campo que deveria ser todo seu. Uma parcela da direita que não se identifica como bolsonarista não migrou para o senador. Os 4 pontos que faltam para completar os 33% estão dispersos ou indecisos.
Independentes
A série entre os independentes, aqueles que declaram não ser nem direita e nem esquerda, torna o movimento negativo para Flávio ainda mais preciso. Em janeiro, o filho de Bolsonaro liderava esse grupo: 29% contra 26% de Lula. Em fevereiro já havia perdido a dianteira: 23% contra 27%. Em junho, a distância se aprofundou para 24% contra 37% de Lula.
O candidato da oposição saiu da liderança entre os independentes e ficou 13 pontos atrás. A coincidência com o período de maior visibilidade do caso Banco Master não é casual.
Sustentação
Já o crescimento na aprovação do presidente tem explicação própria, separada da queda do adversário.
Entre os beneficiários do Bolsa Família, a aprovação do governo chega a 60%. Entre os não beneficiários, cai para 43%. A distância de 17 pontos mostra que o programa segue funcionando como base de sustentação política.
A isenção do Imposto de Renda alcançou 32% dos entrevistados. Desse grupo, 57% já percebem ganho financeiro concreto: 23% afirmam que a renda aumentou significativamente e 34%, um pouco. São efeitos que chegam ao bolso e depois vão à urna.
O Desenrola 2.0 registra aprovação combinada de 70%, onde 50% consideram boa ideia e 20% avaliam que ajuda um pouco. Apenas 25% o classificam como má ideia. O número tem peso porque inclui parcelas do eleitorado não alinhadas ao governo.
Foi especificamente nesses pontos que Lula cresceu.
Estrutura
Em resumo, Flávio Bolsonaro encolheu fora do bolsonarismo e não porque Lula melhorou.
Já Lula melhorou porque suas políticas estão produzindo efeitos percebidos e não porque Flávio caiu.
Entender isso é importante para evitar depressão ou empolgação. O jogo ainda está aberto, principalmente se for para o segundo turno.
A relação entre PT e PSB em Pernambuco não é complicada por acidente ou por capricho. Ela é difícil por cálculo feito de lado a lado. O que parece uma disputa local sobre quem Lula vai abraçar de verdade no estado é, na prática, um único capítulo de uma negociação nacional maior que só terá desfecho nas convenções. O PSB sabe disso e por isso pressiona.
João Campos quer uma coisa simples e custosa para os petistas: que o PT diga, sem ambiguidade, que ele é o candidato do campo lulista em Pernambuco, sem palanque duplo com Raquel Lyra (PSD). O PT não pode dizer isso sem custo para Lula e para o projeto nacional. Porque toda concessão que faz ao PSB num estado cria precedente para o que vai negociar nos outros. E há muita negociação em aberto ainda.
O PSB nacional, presidido pelo próprio Campos, negocia simultaneamente em pelo menos seis estados onde a relação com o PT ainda não está resolvida. A indefinição nesses fronts é a munição que o partido usa para manter a pressão sobre Brasília.
O mapa das tensões
Em São Paulo, o PT vai às urnas com Haddad (PT) e ainda discute se Márcio França (PSB) entra como vice ou disputa o Senado. O PSB quer o Senado. O PT quer que ele fique na vice.
Em Minas Gerais, o projeto original desmoronou. Rodrigo Pacheco havia trocado o PSD pelo PSB para viabilizar uma candidatura ao Palácio Tiradentes como nome de consenso com Lula, mas desistiu no fim de maio e anunciou saída da política. O PSB decidiu lançar candidato próprio, com quatro nomes em avaliação que os petistas não aceitam. PT e PSB seguem sem acordo no segundo maior colégio eleitoral do país.
No Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB) renunciou ao governo para concorrer ao Senado e passou a apoiar Ricardo Ferraço (MDB) como seu sucessor. O PT mantém a candidatura própria de Helder Salomão (PT). O PSB discute internamente se apoia Ferraço ou recua para preservar a aliança nacional com os petistas. Dois candidatos do mesmo campo em lados diferentes.
No Paraná, o PT decidiu apoiar Requião Filho (PDT), enquanto o PSB resiste à composição e avalia neutralidade. Terreno hostil para a esquerda e os dois partidos ainda não acharam o caminho juntos.
No Maranhão, a situação é nebulosa. O governador Carlos Brandão e o vice Felipe Camarão (PT) romperam. O PSB discute apoiar Eduardo Braide (PSD), mas pode rever a posição dependendo do que o PT decidir.
O DF como trunfo
O caso mais revelador é o do Distrito Federal. Lá, PT e PSB travam impasse em que os dois partidos podem efetivamente entrar em campo com nomes opostos na mesma disputa. O PT lançou Leandro Grass (PT). O PSB insiste em Ricardo Cappelli (PSB), ex-interventor federal na segurança pública após o 8 de janeiro. O PT não quer Capelli.
Os números explicam a resistência petista. Cappelli é desconhecido por 64% do eleitorado e aparece com 2,4% numa pesquisa espontânea recente. Grass, no mesmo levantamento, pontua 23,9%, praticamente empatado com o ex-governador Arruda em segundo lugar, atrás apenas de Celina Leão (PP), favorita à sucessão.
Se Cappelli desistir e o partido embarcar na chapa de Grass, o candidato petista no Distrito Federal ganha uma carga de palanque e financiamento que o coloca em posição real de segundo turno. O problema é que, se ceder, o PSB abre mão de uma candidatura com visibilidade nacional para ficar como vice num segundo lugar ou nem isso, já que não está descartada pelo PT uma aliança com Arruda também. É politicamente custoso aos socialistas. E é exatamente esse custo que o partido precisa transformar em moeda de troca em Pernambuco.
Agosto
Até as convenções partidárias, entre 20 de julho e 5 de agosto, PT e PSB vão manter o protocolo. O PT dirá que apoia João Campos em Pernambuco. O PSB entenderá isso como declaração de apoio exclusivo. A ambiguidade é funcional e proposital. Ela evita que Lula precise escolher entre Campos e Raquel antes de resolver o que fará em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Maranhão e Distrito Federal.
Depois das convenções, o jogo será outro. As chapas estarão registradas, os palanques formalizados e a margem para o discurso dúbio vai desaparecer. Lula terá que subir num palanque ou no outro em Pernambuco. Ou nos dois, o que é bem provável.
Em vinte e quatro horas, a campanha de Lula produziu duas declarações oficiais, contraditórias entre si, sobre um mesmo tema.
De manhã, o ministro Wellington Dias (PT), coordenador da campanha no Nordeste, confirmou ao jornal O Globo que o presidente terá dois palanques em Pernambuco: João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD). À tarde, o presidente do PT, Edinho Silva, desmentiu o ministro. "Em Pernambuco, o presidente Lula tem um único palanque, é o do João Campos", declarou.
O episódio deixou de ser divergência interna e virou bagunça.
Bagunça
A diferença entre divergência e bagunça é precisamente essa. Divergência é normal na política e rotineira dentro do PT e do PSB. Um deputado estadual preferir Raquel Lyra e uma senadora preferir João Campos é divergência legítima.
Dois dirigentes com cargos na estrutura oficial da campanha, sendo um o coordenador regional e o outro o presidente do partido, fazendo declarações diretamente contraditórias sobre a mesma questão, no mesmo dia, é desorganização e bagunça.
Wellington Dias falou na condição de coordenador regional da campanha presidencial, não como filiado com opinião pessoal. Edinho Silva respondeu na condição de presidente do PT, não como militante. Não havia espaço para que os dois falassem coisas opostas sem que um deles estivesse errado ou desinformado. A não ser que queiram, realmente, confundir.
Sequência
O episódio tem uma lógica interna que vale reconstituir. João Campos foi a Brasília para pressionar Lula a declarar apoio exclusivo. A conversa não foi conclusiva. Nos dias seguintes, dirigentes do PSB vazaram para a imprensa que o partido descarta apoiar um nome petista à Presidência em 2030 e que está insatisfeito com o tratamento recebido pelo PT tanto em Pernambuco quanto em São Paulo. Era pressão organizada.
Logo depois veio a declaração de Wellington Dias ao Globo, confirmando o duplo palanque, no que pareceu um chute no balde para "por o PSB em seu lugar".
Aí Campos ligou para Edinho Silva, segundo as informações de bastidor, para reclamar. Horas depois, o presidente do PT desmentiu publicamente o ministro.
Motivo
A tensão toda tem base concreta. Levantamento do Datafolha divulgado no fim de maio mostrou Raquel Lyra com 48% das intenções de voto no primeiro turno, contra 43% de Campos. Em abril, o pré-candidato do PSB tinha 12 pontos de vantagem que sumiram. A virada nas pesquisas tornou o apoio de Lula ainda mais urgente para o campo socialista e, ao mesmo tempo, tornou Lyra mais atraente para o PT como "seguro eleitoral".
É esse cálculo que alimenta o impasse.
Histórico
A relação entre PSB e PT nunca foi tranquila. Tem história longa e complicada, que passa por Miguel Arraes, Eduardo Campos e chega agora a João Campos. O que distingue o episódio atual dos anteriores é a exposição pública do conflito em proporções muito mais amplas. São as redes sociais. Declarações oficiais se contradizendo em prazo de horas, sem qualquer coordenação prévia entre os porta-vozes da própria campanha, chamam muita atenção nas redes.
Custo
O episódio evidencia que o apoio de Lula, mesmo quando for confirmado, não acontecerá sem ruído nem sem negociação forçada pelo PSB. Para a campanha presidencial, o custo é de credibilidade. E para o PSB haverá custo de legitimidade.
Pela primeira vez, um nome de peso da coordenação da campanha de Lula no Nordeste afirmou diretamente que o presidente terá dois candidatos em Pernambuco. A declaração é de Wellington Dias (PT), ministro do Desenvolvimento Social e ex-governador do Piauí, em entrevista ao jornal O Globo publicada nesta segunda-feira (8). Senador licenciado, Dias foi escalado pelo próprio Lula para articular a estratégia eleitoral na região e deve se afastar do ministério a partir de julho, durante o período das convenções.
Confirmação
A afirmação de Dias não deixa margem para ambiguidade. "Lá temos o João Campos e a Raquel Lyra", disse ao Globo, listando Pernambuco ao lado de Maranhão e Paraíba como estados onde a estratégia do duplo palanque está em curso. O ministro ainda contextualizou a relação do PT com a governadora: Lyra se colocou como oposição em 2022, adotou neutralidade no segundo turno, mas parte considerável do campo petista permaneceu ao seu lado. O enquadramento é de cooptação progressiva, não de aliança consolidada. A declaração tem peso político específico porque vem de quem vai coordenar a campanha. Não é mais leitura de bastidores nem sinalização difusa. É posição oficial de quem responde pela estratégia eleitoral de Lula no Nordeste.
Contexto
A confirmação chega em momento particular da disputa pelo Governo de Pernambuco. A pesquisa Datafolha divulgada em 28 de maio mostrou Raquel Lyra (PSD) com 48% das intenções de voto no primeiro turno, contra 43% de João Campos (PSB). É a primeira vez que a governadora aparece numericamente à frente do ex-prefeito do Recife em levantamento do instituto.
O dado é relevante porque antecede justamente o período em que o PSB apostava numa virada de cenário. As principais apostas estratégicas do campo socialista não produziram os resultados esperados. A migração em massa de prefeitos para o palanque de Campos nunca aconteceu. A governadora mantém influência sobre a esmagadora maioria dos gestores municipais do estado. O desgaste da máquina estadual, alvo de ofensiva parlamentar e discursiva do PSB nos últimos meses, também não apareceu nas pesquisas. Pelo contrário: a aprovação da gestão Lyra avançou de 60% para 67% no mesmo levantamento.
Variável
Restava, então, a terceira frente. O apoio exclusivo de Lula era tratado internamente no PSB como a única carta com potencial real de alterar o equilíbrio da disputa. Era a variável capaz de compensar as demais, de dar ao ex-prefeito do Recife o impulso necessário para superar uma governadora sentada na cadeira, com aprovação crescente e cobertura de prefeitos. A viagem de Campos a Brasília, em 28 de maio, foi lida nos bastidores exatamente como uma tentativa de pressionar Lula a definir posição.
O que circulou depois foi que nada havia mudado. E agora, com a declaração de Wellington Dias ao Globo, o cenário está formalmente posto: Lula manterá os dois palanques. A lógica do presidente é clara. Pernambuco é estado relevante para a disputa presidencial, Lyra administra um governo bem avaliado, e o PT não tem interesse em escolher entre dois aliados quando pode tentar abraçar os dois.
Pressão
A sequência dos últimos dias ajuda a entender o timing da declaração. Na semana passada, a Coluna do Estadão revelou que dirigentes do PSB, irritados com o que chamam de fogo amigo do PT, já descartam apoiar um nome petista à Presidência em 2030. A nota citou diretamente o cenário indefinido em Pernambuco como um dos motivos do mal-estar. Segundo o Estadão, após a reunião de Campos com Lula no Planalto, o presidente teria se comprometido a declarar palanque único no estado. O anúncio nunca veio.
A declaração de Wellington Dias ao Globo, publicada dias depois, é a resposta que chegou, mas não era a que o PSB esperava.
Afunilamento
A eleição em Pernambuco ainda está longe de ser decidida. O estado tem histórico de campanhas que mudam de direção com velocidade. João Campos é um político com capital eleitoral real, construído na Prefeitura do Recife, e tende a fazer uma disputa acirrada contra Lyra.
Mas o quadro atual é de estreitamento de opções para o ex-prefeito. Os prefeitos não migraram. O desgaste da gestão estadual não apareceu nas pesquisas. O apoio exclusivo de Lula não vai acontecer. As dificuldades, hoje, são maiores para ele do que para a governadora.
Desde a eleição de 2018, o Brasil deixou de discutir o futuro e passou a sobreviver das narrativas que sustentam a polarização. E isso não parece que vai acabar tão cedo. Você sabe dizer qual foi a última vez em que o país teve um plano para o futuro? Faz dez anos que tivemos algo parecido com um projeto estruturado de médio e longo prazo. Foi entre 2015 e 2016, quando o então PMDB lançou o documento "Uma Ponte para o Futuro", que serviria de plataforma política e econômica para o governo Michel Temer.
Faz uma década. Dez anos em que o debate nacional foi substituído por batalhas emocionais, slogans eleitorais e urgências imbecilizantes.
Ruptura
O fracasso político de Michel Temer em construir uma candidatura competitiva para a própria sucessão coincidiu com outro acontecimento decisivo. Luiz Inácio Lula da Silva foi preso sob acusações de corrupção e a eleição seguinte deixou de ser uma disputa entre projetos de país. O centro da discussão passou a ser a rejeição ao adversário. Além dos discursos para encantar cretinos que são feitos à esquerda ou à direita com um empenho tocante.
Jair Bolsonaro foi o principal beneficiário desse ambiente em 2018. Sua campanha reuniu desde a pauta legítima do combate à corrupção até teorias conspiratórias sobre comunismo, China, perseguição religiosa e ameaças imaginárias à sociedade brasileira. O ponto central era simples: impedir a volta do PT ao poder.
Bolsonaro não venceu porque apresentou um plano detalhado para o Brasil, mas porque milhões de brasileiros queriam evitar que o PT governasse novamente. A eleição foi decidida muito mais pela rejeição ao passado do que pela confiança no futuro.
Governo
O problema surgiu quando a campanha terminou. Porque se não há plano, o Executivo vai executar o que? O resultado foi uma gestão marcada por conflitos permanentes, crises sucessivas, improvisação e uma enorme dificuldade para transformar discurso em direção estratégica.
Existiram exceções relevantes. Tarcísio de Freitas no Ministério da Infraestrutura e Tereza Cristina no Ministério da Agricultura conseguiram produzir resultados concretos em suas áreas. Mas as exceções apenas reforçaram a percepção de ausência de rumo no restante do governo inteiro. Até Paulo Guedes, que começou a história como o "Posto Ipiranga", um tipo de oráculo que tudo resolveria, terminou enredado no caos.
Ao final de quatro anos, o Brasil continuava sem um projeto nacional capaz de orientar investimentos, produtividade, crescimento econômico ou modernização institucional.
Retorno
Para quem acreditava que a mudança de governo resolveria esse problema, a realidade trouxe outra surpresa.
Lula retornou ao Palácio do Planalto carregando uma missão pessoal evidente. Precisava demonstrar que ainda era capaz de governar e reescrever o capítulo mais delicado de sua trajetória política. O objetivo político era transformar as acusações de corrupção, que marcaram seus últimos anos antes da prisão, em uma nota secundária da própria biografia. Mas também faltava um projeto. E sem projeto não tem o que executar, como já dissemos.
A principal proposta apresentada na campanha de 2022 foi impedir a reeleição de Jair Bolsonaro. O discurso funcionou eleitoralmente. O problema começou novamente depois da posse.
Três anos e meio depois, o governo acumula dificuldades para apontar uma realização transformadora que redefina o rumo do país. Não existe uma agenda econômica comparável ao Plano Real ou mesmo ao combate à pobreza que o próprio Lula implementou nos primeiros mandatos. Não existe uma agenda social comparável ao Bolsa Família. Não existe uma agenda institucional capaz de reorganizar a relação entre Estado, produtividade e desenvolvimento.
O governo Lula administra acontecimentos. Não conduz uma estratégia nacional. É pífio, errático e danoso para o futuro, como também era Bolsonaro.
Eleição
Agora o país se aproxima de mais uma eleição presidencial. E o debate caminha novamente para o mesmo lugar. De um lado, o discurso de impedir que o PT permaneça no poder. Do outro, a mobilização para impedir o retorno do bolsonarismo.
As campanhas começam a se organizar em torno das mesmas emoções, dos mesmos medos e das mesmas rejeições que dominam a política brasileira há quase dez anos. Agora tem a relação com Donald Trump como ingrediente. Quem é amigo dos EUA e quem defende o Brasil?
A pergunta fundamental continua sem resposta. Qual é o plano para o Brasil? Como aumentar produtividade? Como melhorar a qualidade do gasto público? Como preparar o país para inteligência artificial, envelhecimento populacional, transição energética e competição internacional? Como recuperar a capacidade de investimento do Estado? Como aumentar renda sem ampliar dependência fiscal? Algum dos dois principais candidatos discutiu isso nos últimos meses? Nos últimos anos?
Futuro
A esperança brasileira virou a próxima eleição. E essa talvez seja a maior armadilha política da última década. Cada disputa é apresentada como decisiva. Cada adversário é tratado como uma ameaça existencial. Cada campanha promete impedir uma catástrofe. Terminada a votação, o país descobre novamente que continua sem direção.
Enquanto houver eleitores dispostos a embarcar nessas duas narrativas imbecilizantes, não existe motivo para acreditar que o Brasil voltará a discutir seriamente o próprio futuro. Quem for sério, que sonhe.
A entrada do senador Rodrigo Pacheco no PSB parecia resolver vários problemas políticos ao mesmo tempo. O acordo envolveu o presidente nacional do partido, João Campos, o presidente Lula e o próprio senador mineiro. Pacheco deixaria o PSD para disputar o Governo de Minas Gerais pelo PSB, oferecendo ao petismo um palanque competitivo em um dos estados mais importantes do país.
Em troca, os socialistas esperavam fortalecer a defesa de uma candidatura praticamente exclusiva de Lula em Pernambuco, ampliando o alinhamento entre PT e PSB na eleição estadual. Mas, até agora, deu tudo errado.
Minas
A construção começou a apresentar rachaduras antes mesmo de sair do papel. Pacheco enfrentou resistência dentro do próprio campo lulista. Parte do PT passou a criticá-lo por sua postura durante o processo de indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. O ambiente se deteriorou rapidamente. O senador desistiu da disputa pelo governo mineiro e o PT iniciou a procura por alternativas.
Hoje, as conversas em Minas Gerais passam muito mais pelo MDB e por nomes do próprio PT do que pelo PSB. Isso muda completamente a equação política construída meses atrás. O partido de João Campos ainda luta, mas começou a deixar de ser a principal ferramenta para resolver um problema estratégico do presidente da República em um estado decisivo como MG.
Espelho
A importância de Minas Gerais para a eleição presidencial é conhecida há décadas. O estado costuma reproduzir, com impressionante frequência, o comportamento do eleitorado brasileiro. Em 2022, Lula venceu Jair Bolsonaro em Minas por uma margem muito próxima daquela que garantiu sua vitória nacional.
Existe uma explicação geográfica e política para isso. Minas faz divisa com estados de praticamente todas as grandes regiões do país e recebe influências econômicas, culturais e eleitorais muito distintas. O Norte mineiro possui características sociais e eleitorais semelhantes às do Nordeste. O Sul de Minas se aproxima do perfil encontrado em parte do Sudeste. Há regiões que dialogam com o Centro-Oeste e áreas fortemente integradas ao eixo Rio-São Paulo. Poucos estados conseguem reunir tantas características do eleitor brasileiro em um único território.
Por isso, qualquer dificuldade de Lula para montar um palanque competitivo em Minas deixa de ser um problema regional e passa a ser uma preocupação nacional.
Troca
O cálculo do PSB era relativamente simples. O partido aceitaria hospedar lideranças consideradas estratégicas pelo PT. Rodrigo Pacheco em Minas Gerais e Simone Tebet em São Paulo são exemplos dessa lógica. Em troca, os socialistas esperavam reciprocidade onde realmente precisam dela: Pernambuco.
A expectativa era que Lula restringisse seu apoio estadual ao projeto liderado por João Campos. O raciocínio político era objetivo. Se o presidente conseguisse concentrar seu eleitorado pernambucano em uma única candidatura ao governo, parte dos votos lulistas que hoje também alcançam a governadora Raquel Lyra poderia migrar para o ex-prefeito do Recife.
O problema é que essa conta dependia da capacidade do PSB de entregar ativos relevantes para Lula em outros estados. Com a saída de Pacheco do jogo mineiro, esse argumento perdeu força. E existe uma realidade difícil de ignorar: o PSB continua sendo um partido de porte pequeno quando analisado sob a perspectiva nacional.
Recado
Nesse contexto, ganhou relevância uma declaração recente do senador Humberto Costa (PT). Em entrevista a uma rádio do interior, o parlamentar afirmou que o apoio de Lula a Raquel Lyra continua sendo discutido em Pernambuco. Acrescentou ainda que “ninguém renuncia a votos em uma eleição”. E ela tem votos.
A frase parece simples, mas carrega significado político. Presidentes disputando reeleição ou tentando eleger sucessores costumam ampliar alianças, não as reduzir. Quanto menor a margem nacional, maior a tendência de incorporar apoios regionais.
A observação de Humberto surgiu justamente quando o PSB encontra mais dificuldades para oferecer contrapartidas nacionais ao PT. Pode ter sido apenas uma constatação objetiva da realidade eleitoral. Pode também ter funcionado como um aviso de que as negociações permanecem abertas.
Tempo
A eleição pernambucana foi antecipada com intensidade incomum. Movimentos que normalmente ocorreriam perto das convenções passaram a ser discutidos meses antes. Palanques foram desenhados, alianças foram tratadas como definitivas e algumas disputas foram apresentadas ao público como se estivessem resolvidas.
A política não funciona dessa forma. A definição do comportamento de Lula em Pernambuco continua ligada a fatores que ultrapassam as fronteiras do estado. Minas Gerais é um exemplo evidente. Um acordo que parecia consolidado em Belo Horizonte produzia efeitos diretos sobre o cálculo eleitoral no Recife.
Até posições consideradas centrais para a disputa pernambucana ainda dependem da conjuntura de estados localizados a milhares de quilômetros daqui. A política nacional continua interferindo na política local. E toda antecipação será castigada.