Em vinte e quatro horas, campanha de Lula produziu duas versões sobre PE
Em vinte e quatro horas, a campanha de Lula produziu duas declarações oficiais, contraditórias entre si, sobre um mesmo tema.
De manhã, o ministro Wellington Dias (PT), coordenador da campanha no Nordeste, confirmou ao jornal O Globo que o presidente terá dois palanques em Pernambuco: João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD). À tarde, o presidente do PT, Edinho Silva, desmentiu o ministro. "Em Pernambuco, o presidente Lula tem um único palanque, é o do João Campos", declarou.
O episódio deixou de ser divergência interna e virou bagunça.
Bagunça
A diferença entre divergência e bagunça é precisamente essa. Divergência é normal na política e rotineira dentro do PT e do PSB. Um deputado estadual preferir Raquel Lyra e uma senadora preferir João Campos é divergência legítima.
Dois dirigentes com cargos na estrutura oficial da campanha, sendo um o coordenador regional e o outro o presidente do partido, fazendo declarações diretamente contraditórias sobre a mesma questão, no mesmo dia, é desorganização e bagunça.
Wellington Dias falou na condição de coordenador regional da campanha presidencial, não como filiado com opinião pessoal. Edinho Silva respondeu na condição de presidente do PT, não como militante. Não havia espaço para que os dois falassem coisas opostas sem que um deles estivesse errado ou desinformado. A não ser que queiram, realmente, confundir.
Sequência
O episódio tem uma lógica interna que vale reconstituir. João Campos foi a Brasília para pressionar Lula a declarar apoio exclusivo. A conversa não foi conclusiva. Nos dias seguintes, dirigentes do PSB vazaram para a imprensa que o partido descarta apoiar um nome petista à Presidência em 2030 e que está insatisfeito com o tratamento recebido pelo PT tanto em Pernambuco quanto em São Paulo. Era pressão organizada.
Logo depois veio a declaração de Wellington Dias ao Globo, confirmando o duplo palanque, no que pareceu um chute no balde para "por o PSB em seu lugar".
Aí Campos ligou para Edinho Silva, segundo as informações de bastidor, para reclamar. Horas depois, o presidente do PT desmentiu publicamente o ministro.
Motivo
A tensão toda tem base concreta. Levantamento do Datafolha divulgado no fim de maio mostrou Raquel Lyra com 48% das intenções de voto no primeiro turno, contra 43% de Campos. Em abril, o pré-candidato do PSB tinha 12 pontos de vantagem que sumiram. A virada nas pesquisas tornou o apoio de Lula ainda mais urgente para o campo socialista e, ao mesmo tempo, tornou Lyra mais atraente para o PT como "seguro eleitoral".
É esse cálculo que alimenta o impasse.
Histórico
A relação entre PSB e PT nunca foi tranquila. Tem história longa e complicada, que passa por Miguel Arraes, Eduardo Campos e chega agora a João Campos. O que distingue o episódio atual dos anteriores é a exposição pública do conflito em proporções muito mais amplas. São as redes sociais. Declarações oficiais se contradizendo em prazo de horas, sem qualquer coordenação prévia entre os porta-vozes da própria campanha, chamam muita atenção nas redes.
Custo
O episódio evidencia que o apoio de Lula, mesmo quando for confirmado, não acontecerá sem ruído nem sem negociação forçada pelo PSB. Para a campanha presidencial, o custo é de credibilidade. E para o PSB haverá custo de legitimidade.


© Colagem - Rodolfo Loepert/Yacy Ribeiro



