Tubarões em Pernambuco: um raio-x definitivo sobre causas e responsabilidades
Trinta anos de registros mostram um ciclo que se repete. Ataques geram ações, ações perdem fôlego e o problema continua sem solução definitiva
A cada novo ataque de tubarão no litoral pernambucano, o mesmo ciclo se repete. O governo convoca reunião de emergência e anuncia ações. A população se apavora e para de entrar no mar. Os pesquisadores voltam a dizer o que já dizem há décadas. E, passada a comoção, tudo volta ao ritmo anterior. Até o próximo ataque.
Não é um fenômeno recente nem exclusivo de uma gestão. Desde 1992, quando Pernambuco começou a registrar oficialmente os incidentes, esse padrão atravessa governos. O litoral muda pouco. Os tubarões continuam. E a política pública segue sem a continuidade que os pesquisadores pedem há trinta anos.
O ano de 2026 chegou já pesado. Em 9 de janeiro, houve um ataque em Fernando de Noronha. Em 29 de janeiro, Deivson Rocha Dantas, 14 anos, foi mordido na Praia Del Chifre, em Olinda, e morreu. Del Chifre acumula seis casos registrados, incluindo dois óbitos. Em 31 de maio, João Lucas Nemézio, 11 anos, perdeu a perna esquerda após ser atacado por um tubarão-cabeça-chata em Piedade, Jaboatão dos Guararapes.
No dia seguinte, Marcela Santos, 19 anos, foi atacada por um tubarão-tigre de cerca de três metros em Boa Viagem, no Recife, e teve a perna direita arrancada pelo animal. Os dois seguem internados na enfermaria do Hospital da Restauração em situação que requer cuidado. São o 83º e o 84º registros do Cmit desde 1992.
"Não estou surpresa", diz a oceanógrafa e professora da UFRPE, Rosângela Lessa, ex-presidente do Cmit entre 2012 e 2014. "A probabilidade depois de 11 anos sem monitoramento era muito grande. A gente só fala quando tem ataque. Para que não aconteça, precisamos diminuir a probabilidade. Não é uma coisa que se faz agora e depois passa 11 anos sem fazer", critica.
Para o pesquisador Jonas Rodrigues, da UFRPE, que estuda os incidentes desde 2007, o problema central é a ausência de uma política permanente. "Por que só se ativa o monitoramento depois dos casos? O poder público não pode ser reativo. A gente precisa parar com isso", pontua.
As placas e as correntes

Em 2025, após os ataques de 2023, o governo de Pernambuco instalou 150 novas placas de alerta ao longo dos 33 km de litoral de risco entre o Cabo de Santo Agostinho e Olinda. As placas foram colocadas, mas continuam com o mesmo padrão visual uniforme para toda a costa, sem distinguir os trechos por nível de risco.
Desde 2014, Rosângela Lessa defende um sistema de sinalização diferente, com cores distintas para cada grau de perigo ao longo da orla. A proposta surgiu num simpósio internacional realizado no Recife com participação de pesquisadores australianos. "Não é uma coisa difícil. É simples. Tem que ter muita vontade política", diz ela.
Há outro elemento que ainda não chegou às praias. Jonas Rodrigues mapeou, em sua tese de doutorado, 14 correntes de retorno fixas no litoral da Região Metropolitana do Recife. O cruzamento com os dados históricos do Cmit revelou que 42% de todos os ataques registrados ocorreram nas áreas dessas correntes.
O Corpo de Bombeiros já utiliza bandeiras coloridas para indicar grau de risco nas praias, mas o plano de divulgação em massa dessas bandeiras, elaborado em conjunto com pesquisadores, nunca foi aprovado.
"A placa se torna parte da paisagem e ninguém vê mais. Uma das medidas mais simples seria sinalizar as correntes de retorno. Isso ainda não existe", afirma Rodrigues. Ele também aponta que as dez medidas oficiais de segurança do litoral pernambucano não são revisadas desde 2004. "São boas medidas, mas precisam de atualização. A sinalização das correntes de retorno deveria ser a 11ª", sugere.
A secretária executiva do Cmit, Danise Alves, informou que projetos apoiados pela Facepe estão desenvolvendo estudos sobre novas estratégias de sinalização e comunicação de risco, sem prazo informado para implementação.
A praia e a economia
Desde 1999, um decreto estadual proíbe surfe e esportes náuticos num trecho de 33 km do litoral metropolitano. Um segundo trecho, de cerca de 2 km em Piedade, é proibido ao banho. Jonas Rodrigues defende ampliar o modelo, mas de forma temporária e baseada em dados.
"A proposta é interditar nos períodos em que a probabilidade de incidente é maior, como quando a água está turva, o período é chuvoso, os ventos são fortes, a maré está alta. A gente tem todos esses dados. Depois, liberar", destaca ele.
O argumento de que o fechamento prejudica a economia local, segundo o pesquisador, já foi testado na prática. "A interdição de Piedade, acabou com o comércio? Não. Todo mundo sobreviveu e até aumentou. Os barraqueiros se reinventaram, botaram piscininhas, chuveirinhos. A maioria das pessoas que vão às praias do Recife vão consumir o caldinho, tomar sua cerveja. Essa economia não vai parar", defende.
Rosângela Lessa concorda que o medo de impactar o turismo tem pesado mais do que deveria. "A questão dos tubarões é um trauma para quem está no governo. As pessoas não querem tomar medidas que chamem muita atenção. Mas prejudica mais quando ocorrem os incidentes", observa.
Em 2013, a pesquisadora integrou uma proposta de campanha com cartazes nos ônibus voltada ao público que frequenta Boa Viagem vindo de outros bairros. Foi rejeitada por considerar que chamaria atenção demais para o problema.
O Cmit informou que eventuais revisões de áreas de restrição dependem de avaliações técnicas e de articulação com os municípios competentes, e que qualquer nova medida restritiva deverá ser fundamentada em evidências científicas.
O repelente que virou desafio
Em 2023, o governo de Pernambuco anunciou a aquisição de um dispositivo repelente elétrico, o Shark Shield, para uso pelos guarda-vidas. O equipamento não foi comprado. Em 2025, o tema foi incluído no Desafios Gov, plataforma de inovação aberta do estado, com uma pergunta para startups sobre como desenvolver ferramentas de repelência. Nenhuma solução foi contratada.
"Desde 2011 a gente fala de repelente de tubarão. Em 2014 fizemos o quinto simpósio internacional sobre o assunto. Até hoje está parado", diz Jonas Rodrigues.
O professor Paulo Oliveira, da UFRPE, pondera que nenhum repelente disponível no mercado oferece 100% de eficácia. "O fabricante informa 20%, 30%, 40%. Faz diferença porque você ganha aquele percentual, mas tem o restante que pode acontecer", diz. Para ele, nenhuma tecnologia substitui o monitoramento e a educação ambiental.
Danise Alves explica que o tema segue sendo acompanhado pelo governo do Estado e pelo Cmit, e que a iniciativa no Desafios Gov busca estimular soluções inovadoras para a segurança dos guarda-vidas. Não há previsão de contratação.

Os equipamentos dos bombeiros
Entre as ações dos últimos anos, o governo adquiriu motos aquáticas, botes infláveis, drone operacional, reboques e micro-ônibus para o Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco, com o objetivo de ampliar a capacidade operacional e modernizar os meios de salvamento, "detalha Danise.
Jonas Rodrigues reconhece os avanços, mas lembra que em 2014 pesquisadores elaboraram um plano para usar helicóptero no resgate de vítimas diretamente para o Hospital da Restauração, reduzindo o tempo de socorro. O plano nunca saiu do papel. "Recife foi considerada a capital da morte por incidentes com tubarões porque a demora no socorro era tão grande que a vítima não conseguia ser salva", diz.
Os investimentos e o que falta

Desde 2023, o governo de Pernambuco informa ter investido R$ 8,3 milhões em ações de prevenção, incluindo pesquisa, educação ambiental, sinalização e equipamentos. O montante cresceu em relação aos R$ 5,5 milhões inicialmente anunciados, sem detalhamento do que entrou na conta adicional.
Entre os resultados apresentados pelo Cmit estão a criação de uma Rede de Educadores Ambientais com mais de 60 participantes, a implantação do Centro de Educação Ambiental de Jaboatão dos Guararapes e o financiamento de 14 projetos de pesquisa e inovação pelos editais da Facepe. Danise destacou que as ações incluem materiais educativos, aplicativos, ferramentas digitais e exposições interativas voltadas à segurança aquática.
A comparação com outros países é desfavorável quando se trata especificamente de programas de monitoramento. Dados apresentados pelo pesquisador Fábio Hazin (falecido em 2021), que coordenou o programa de monitoramento até 2014, mostravam que a Austrália investe cerca de R$ 5 milhões por ano em seu programa de proteção de banhistas e a África do Sul, R$ 7 milhões por apenas 20 km de costa monitorada.
O programa de monitoramento de Pernambuco operava com R$ 1,5 milhão. "A questão dos tubarões precisa ser colocada como prioridade absoluta do Estado. Porque se as pessoas não querem prejudicar o turismo, prejudica mais quando ocorrem os incidentes", afirma Rosângela .
Em 2023, o governo lançou o PEAST-PE com 30 ações prioritárias. Questionado sobre o andamento detalhado de cada uma, o Cmit informou que o plano está em execução com 50 ações estratégicas, vigência até 2028, e apresentou resultados gerais.
"Vai em dois meses procurar se essas ações estão sendo desenvolvidas depois dos ataques. Só na hora do holofote para dizer que está fazendo alguma coisa", diz Jonas Rodrigues.
O pesquisador fundamenta a crítica em sua própria tese de doutorado, que analisou as atas do Cmit entre 2004 e 2012. "Quanto maior a transparência, melhores foram as ações desenvolvidas. Quanto mais se esconde o problema, pior ele é tratado", analisa.
O porto de Suape foi procurado sobre o destino dos recursos anunciados em 2023 para pesquisas sobre tubarões. A assessoria informou que as respostas sobre incidentes com tubarões estão sendo centralizadas pelo Cmit. O convênio tripartite firmado entre Suape, Facepe e Semas registra R$ 1 milhão.
Aprender a conviver
Os pesquisadores são unânimes num ponto: o tubarão não é o vilão da história. "É um animal selvagem que está no seu ambiente. Dizer que é o culpado não é bem verdade", diz Jonas Rodrigues. Tampouco o banhista carrega sozinho a responsabilidade. "Não dá para colocar a culpa somente na população. O governo tem um papel. As instituições precisam estar à frente, mostrar que o problema existe e está sendo tratado", defende.
A responsabilidade é compartilhada. O estado define as políticas, fiscaliza e financia. Os municípios respondem pela gestão da orla e pela comunicação com quem frequenta as praias. O banhista precisa de informação de qualidade para fazer escolhas seguras.
"A gente não vai acabar com esses animais? Nem é a nossa vontade. O que precisamos é criar a melhor forma de convivência. Ordenar a região costeira. Usar os dados que já existem. Não esperar o próximo ataque", alerta.
Trinta anos depois do primeiro registro, o litoral pernambucano ainda aguarda o que os pesquisadores chamam de política de Estado contínua, financiada e independente do calendário dos ataques.


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