De minúsculos a bermudas: a evolução dos shorts na Copa do Mundo
Quem assiste a uma partida de futebol hoje talvez não consiga imaginar que, até o final dos anos 1980, os craques do gramado corriam no campo com shorts colados e curtíssimos, que terminavam bem no topo das coxas.
Grandes nomes da indústria como Pelé, Maradona e Zico ergueram taças e encantaram o mundo vestindo uniformes que, conforme os padrões contemporâneos, se assemelhariam quase a trajes de banho.
A estética retrô que dominou as Copas do Mundo por décadas ainda hoje vive na memória afetiva dos torcedores acompanhando uma dúvida clássica: por que as peças “cresceram” tanto?
Em entrevista à CNN Brasil, Tay Borges, consultora de imagem e estilo, conta que a virada radical que aconteceu nos anos 1990 teve forte impacto cultural. “Tivemos uma influência muito grande da cultura do hip-hop, do basquete americano e do streetwear, o que trouxe proporções mais amplas e uma estética mais relaxada”.
O futebol absorveu essa linguagem urbana rapidamente, mas a moda não caminhou sozinha. No passado, o tamanho da roupa extremamente curta era uma imposição técnica.
“Os shorts eram mais curtos também por conta da leveza, porque os tecidos antigos absorviam muito suor. Hoje, a tecnologia de fibras sintéticas e alta performance dá total liberdade. O short pode ser longo e, mesmo assim, ser muito leve. Ficou uma questão de preferência e estilo”, analisa.
Corpo, masculinidade e o tabu das pernas de fora
A evolução do comprimento serve como um termômetro de como os homens enxergam a si mesmos ao longo das décadas. Nos anos 1970 e 1980, mostrar as pernas não era um problema ou tabu.
“A relação masculina com o próprio corpo era bem diferente. Não tinha esse tabu em mostrar as pernas ou revelar um pouco mais. Era a fase do short curto, da sunga pequena, da calça justa e de uma estética inspirada no atletismo”, relembra.

Hoje, no entanto, o armário masculino se tornou mais conservador em relação aos comprimentos. Assim, a resistência a shorts curtos reflete barreiras culturais modernas.
“A roupa sempre reflete como a sociedade enxerga o corpo. Atualmente, é mais raro um homem topar mostrar tanto o corpo como na década de 1970. Os homens voltaram a investir em moda e autocuidado, mas ainda há muito preconceito entre eles com comprimentos acima da metade da coxa. É preciso ser muito fashion forward (avançado em moda) para aceitar”, aponta.

Do “uniforme de correr” ao mercado que movimenta bilhões
Muito além do que simplesmente vestir atletas, os uniformes da Copa do Mundo se transformaram em plataformas de negócios. Se, até os 1980, as roupas eram vistas puramente como equipamentos funcionais, a década de 1990 consolidou a globalização do esporte sob o olhar atento de gigantes do mercado, incluindo Nike e Adidas.
“Os uniformes deixaram de ser só um equipamento esportivo e passaram a ser uma plataforma de branding das marcas. Hoje tudo conta: o uniforme tem que performar bem em campo para o profissional, mas também precisa vender milhões de unidades nas lojas. O short faz parte dessa construção de desejo”, afirma Tay.
A conexão com o mercado consumidor ganhou ainda mais força recentemente com o fenômeno do Blokecore — uma a tendência global de incorporar camisas e elementos do futebol no visual urbano do dia a dia.
Modelos retrô inspirados nas décadas passadas têm aparecido com força nas coleções. “O blokecore não resgata só a camisa, mas toda a estética dos anos 80 e 90. Em paralelo, as silhuetas acabam ficando um pouquinho mais curtas, principalmente entre os consumidores mais jovens e fashionistas, embora o homem tradicional ainda mude de calçada. Está na moda e está forte”, diz.
Quanto ao futuro dos gramados, a consultora aposta em um cenário duplo, onde a funcionalidade máxima dita as regras do jogo profissional, enquanto as ruas abraçam a nostalgia.
“Para o público comum, as tendências caminham para um certo maximalismo. Já no esporte em si, o foco das marcas é minimalismo, sustentabilidade e eficiência. São peças limpas, funcionais e sofisticadas. Olha o uniforme do Brasil: tem design no detalhe, mas não tem excesso. Quando falamos de esporte de alto rendimento, o figurino precisa ser, acima de tudo, muito prático”, conclui.
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