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Kamel Daoud: “Quando tens uma pergunta sem resposta, escreve um romance”

13 June 2026 at 10:16

Regressar à realidade depois de assistir ao hediondo é o mais difícil. Podemos deixar-nos corroer pela raiva ou pela loucura. Ou podemos escrever. Kamel Daoud, escritor, jornalista e cronista franco-argelino, escolheu escrever. As suas obras estão proibidas na Argélia, país que o viu nascer e tornar-se homem das Letras. É um “inimigo do Islão”. Exilou-se em França. A cidadania francesa faz do autor um cidadão europeu, estatuto que Daoud traduz como liberdade do corpo, de acesso ao espaço público.

Na sua passagem por Lisboa, por ocasião do Choix Goncourt du Portugal, o escritor duplamente distinguido com o mais prestigiado prémio das letras francesas, o Goncourt, conversou com o JE. As obras distinguidas estão editadas em português: “Meursault, contra-investigação”, o seu romance de estreia, e “Huris”, um relato ficcional dos massacres durante a “década negra” da Argélia (1992-2002). Ele que viveu a guerra civil, que caustica o islamismo radical, que não abdica dos seus princípios éticos e cujas crónicas em diversas publicações francesas e internacionais são peças relevantes para compor o ‘puzle Kamel Daoud’.

O otimismo é possível?

A pergunta é inevitável após uma troca de impressões sobre a nossa relação com os ecrãs, com a omnipresença da tecnologia e com os perigos que ela encerra, por exemplo, no que toca à leitura. Daoud diz que a leitura sofre, claro, mas que o mais preocupante são as consequências. E sintetiza: “falta de compaixão, insensibilidade para com o outro.” O discurso parece pessimista ante o comportamento humano, mas Kamel Daoud diz ter “esperança”, apesar das convulsões que hoje vivemos. “Quando há um grande avanço tecnológico, existe sempre um momento de hesitação. Depois, inventamos instrumentos regulatórios”. E dá um exemplo. “Quando a imprensa foi inventada, explodiram as seitas, a pornografia. Mas, depois, inventou-se o depósito legal, os direitos de autor.” Levámos 150 anos, mas fizemos progressos, recorda. Por isso mantém-se otimista. “Penso que haverá instrumentos regulatórios para a internet, as redes sociais e a IA. Não são os do nosso tempo, mas acabarão por ser criados. Até lá, haverá um grande choque”. Não faz futurologia, mas por tudo o que tem lido, acha plausível que haja um grande choque económico, num primeiro momento.

A geopolítica também está a abanar alicerces – económicos e de ordem moral, para não irmos mais longe. Daoud é muito claro quando o assunto são as guerras. “Proíbo-me eticamente de falar sobre guerras e lugares que não conheço. Porquê? Porque quando vivi a guerra civil argelina, não gostava de ouvir pessoas que falavam do que não sabiam. Quando os islamistas tomaram o poder na Argélia, em 1991, as pessoas disseram, em França, na Europa e noutros lugares: ‘mas isto é a democracia a funcionar’.” Pausa. Fala na sua revolta, nos direitos humanos. “Sim, mas no dia em que a tua filha é raptada, violada e degolada, o que fazes aos princípios?” O que mais gosta na literatura é que ela “nos mostra os nossos limites em relação a isso. É por isso que existem duas realidades sobre o Irão, Israel, a Palestina. Existe a própria realidade, aquela que podes descobrir se lá fores. É humano, portanto é complexo. E há a realidade das projeções que fazemos sobre os outros. À distância, fazemos muitas projeções. E toda a gente fala da Palestina, mas não vemos um único palestiniano falar sobre o que se passa.”

Nada disto é simples. E menos ainda simplista para quem vem de uma guerra que matou 200 mil pessoas. “Mas não tenho direito a falar sobre ela porque sou filho da terra. Em França, tenho sofrido muitos ataques de certos meios de comunicação, que me rotulam de islamofóbico”, partilha. “O que quero dizer é que são as nossas histórias que condicionam a nossa forma de ver o mundo. Assim, a posição mais honesta é tomar consciência da sua própria história íntima.” Porquê? – questionamos. “Porque te permite compreender o outro, que é diferente, mas consciente de quem tu és.” E cita Albert Camus. “Admiro-o porque disse ‘não’. Porque disse que o homem deve estar acima dos princípios. Não abaixo deles.”

A espada de Dâmocles

A literatura regressa à conversa, cortesia de Camus. O direito à ficção está em perigo? “Primeiro, a ficção está ameaçada pelo populismo. Os populistas são grandes romancistas falhados. Vendem-nos ficção mal escrita, e, quando acreditamos nisso, ou vamos para a prisão ou assediam-nos nas redes sociais. Segundo, a ficção está ameaçada pelos ecrãs e pelas redes sociais. O ‘fake’ matou a ficção, porque ficção e ‘fake’ não são a mesma coisa. A ficção é a portadora da verdade. O ‘fake’ está lá para te enganar. Terceiro, temos as leis.” E detalha. “Na Argélia, fui condenado a três anos de prisão por um romance que escrevi. Mais grave, a 20 de maio deste ano, foi publicada uma nova lei que proíbe que se escreva sobre a guerra da independência da Argélia.” Esta nova lei prevê uma condenação de 5 a 10 anos de prisão para quem escrever fora da narrativa oficial. “Imagine um escritor que é refugiado em Portugal, em França, onde quer que seja. Vai ter medo. Ninguém vai escrever sobre a guerra civil argelina. Sobre o que realmente se passou.”

O que diria a um jovem que quer ser escritor, mas sem uma espada de Dâmocles a pesar-lhe sobre a cabeça? “Quando tens uma resposta, escreve um artigo. Quando tens uma pergunta sem resposta, escreve um romance.” Resposta rápida, objetiva. “Para escrever um bom romance é preciso uma pergunta que ainda não tem uma resposta definitiva”, reforça Kamel Daoud, antes de dizer que escreveu uma carta aberta ao Papa, já publicada, quando da sua visita, em abril, à Argélia. Pediu-lhe para não esquecer uma história de Camus – de novo o seu compatriota nos acompanha. “É uma história sublime, muito curta. São Demétrio tinha um encontro com Deus. No caminho, encontra um camponês com uma carroça partida. Então, coloca-se-lhe um dilema: ‘Se ajudar o camponês, vou perder o encontro com Deus. Sou um santo, esse é o propósito da minha vida. Mas se me encontrar com Deus tendo deixado um camponês a sofrer, não serei santo’.” Pausa.

“Não há uma única resposta certa. Há escolhas a fazer”, realça o escritor. E reflexões. Como esta: será que demasiada democracia mata a democracia? É uma questão que Daoud por vezes formula perante uma plateia. “Há os que radicalizam a sua posição dizendo que é por termos demasiada democracia que somos fracos. Outros dizem que só temos esta democracia para nos defender. E há ainda os que escolhem por desespero e votam na extrema-direita. Sabemos bem que, entre segurança e democracia, as pessoas escolhem a segurança.”

O escritor lembra que vive em França desde 2023 e tem a cidadania francesa há poucos anos. Continua “impressionado com a liberdade do corpo”, com o acesso ao espaço público na Europa. “Podemos ir a um jardim e sentarmo-nos a desfrutar do sol. Estarmos aqui sentados, tu com o teu caderno, o teu gravador… Na Argélia haveria polícia no local.” Ou pior. E, agora, com as redes sociais e a extrema-direita na Argélia, “os ânimos estão cada vez mais exaltados.” Viajar é impossível. Por isso dedicou uma das suas mais recentes crónicas ao ato extraordinário que é poder viajar. “Quando viajas para a Europa descobres a liberdade. Por mais que os soberanistas, a extrema-direita, os entusiastas do Brexit digam ‘não, temos de recuar’, o facto de se poder viajar é, a meu ver, a maior conquista da Europa.”

Daoud pesa as palavras. “Agora, o Ocidente é acusado de ter fronteiras fechadas. As fronteiras mais mortíferas estão, de facto, por toda a Europa, mas as fronteiras mais mortíferas também estão em casa, do outro lado. Aqueles que vêm do Sul para Marrocos, para a Tunísia, para a Argélia, morrem. São rejeitados. São colocados em camiões e abandonados no deserto. As fronteiras do outro lado são mortais.” A expressão retoma a serenidade. “Para mim, este é o maior sucesso da Europa: esta liberdade do corpo, esta fronteira vivida sem violência. Nunca me senti tão europeu como hoje.” E as fronteiras mortais? “Muitos acusam a Europa, mas esquecem-se que, primeiro, [as fronteiras] despertam a paixão violenta das ditaduras.”

O Espanto está de volta sob o signo do desejo

12 June 2026 at 17:08

O Espanto nasceu com uma ambição rara: retirar a filosofia dos espaços estritamente académicos e devolvê-la à cidade, ao encontro público, à experiência comunitária e à vida concreta.” Ambicioso? Será. Mas cumpre-se o desígnio de não soçobrar. Nem tal seria opção. Aliás, se dúvidas houvesse, a 1ª edição, dedicada ao “Medo”, tudo terá dissipado, para que a segunda edição do Espanto – Festival Internacional de Filosofia, de 13 e 28 de junho, em Cascais, se realize sob o signo do “Desejo”.

E porquê Cascais? Porque foi aqui que tudo começou há cinco séculos. No antigo Convento de Nossa Senhora da Piedade, uma das primeiras escolas de filosofia do país e lar de uma ordem de monges contemplativos. E se a alquimia não está nos planos, outros voos há para o Espanto. “Projeto criado para levar a Filosofia e a prática do pensamento a todos, independentemente da sua classe social, género, religião, etnia ou qualquer outra categorização feita pelo ser humano”. Palavras de Catarina Barosa, fundadora e curadora do Festival. Que ambiciona colocar Cascais no mapa como Concelho da Filosofia, com o reconhecimento da UNESCO, tal como acontece em Óbidos com a Literatura.

Pensar em conjunto
O arranque do Espanto, a 13 e 14 de junho, faz-se com Voluntariado Filosófico em bairros sociais do concelho, em simultâneo com workshops de filosofia para crianças. Nesta edição, o filósofo homenageado é Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Que estará presente, também, no jantar oficial de abertura In Vino Veritas, no Centro Cultural de Cascais (Conversas da Gandarinha), a 25 de junho, que vai sentar à mesa todos os filósofos, curadores, pensadores e parceiros do festival.

E são muitos os pensadores que marcam presença no Espanto, como Didier Eribon, escritor e filósofo francês, Richard Shusterman, professor da Florida Atlantic University e fundador do Centro para Corpo, Mente e Cultura, ou Gilles Lipovetsky, filósofo francês e ensaísta. Sebastian Sunday Grève, filósofo e professor assistente na Universidade de Pequim, marca novamente presença no Festival, assim como Samantha Rose Hill, escritora, investigadora e tradutora norte-americana. Sem esquecer Maria Luísa Ribeiro Ferreira, filósofa e professora universitária, Onésimo Teotónio Almeida, escritor e filósofo português radicado nos Estados Unidos e o escritor Gonçalo M. Tavares, entre muitos outros.

Vamos filosofar?
De 25 a 28 de junho, terá lugar o ESPANTO OFF – encontros à margem das atividades programadas. Em que consiste? O público poderá marcar (gratuitamente) um encontro com os filósofos que aderirem a esta iniciativa. Têm a duração de uma hora e contam com a participação de três pessoas em simultâneo. Os interessados devem inscrever-se antecipadamente no site do Festival e indicar um tópico ou pergunta a abordar.

Para 26 de junho está marcada uma Caminhada Filosófica pelos pontos de interesse do concelho de Cascais, a que se seguirão Lições de Filosofia (Curators and Philosophers Lectures) no Centro Cultural de Cascais, com sessões interativas conduzidas pelos curadores e filósofos convidados. A Noite dos Desejos, na Sala da Cisterna, na Cidadela de Cascais, encerra o dia com um debate filosófico, a atuação da artista Dela Marmy e um ‘Chá das Onze’. No dia 27, na Casa das Histórias Paula Rego, será apresentada a peça “Hamlet”, encenada por Marco Medeiros, com base na tradução da obra de William Shakespeare, feita por D. Luís I. No jardim, haverá leituras e escritas, e iniciativas para famílias e crianças, porque de pequeno se começa a filosofar.

Os bilhetes estão à venda online e nos locais dos eventos (15€ a 95€). Consulte o programa completo em espanto.pt.

Investidores mantêm corrida aos levantamentos de capital

12 June 2026 at 08:42

A corrida aos levantamentos de capital de fundos de crédito não terminou nos primeiros meses do ano. Prolonga-se. Estes fundos estão investidos predominantemente em títulos de dívida emitidos por empresas e acumulam-se receios sobre a capacidade que estas têm de cumprir com as suas obrigações, especialmente na área do software, vista como a mais exposta aos avanços na inteligência artificial.
No primeiro trimestre, a Cliffwater e o Morgan Stanley, que gerem este tipo de fundos, travaram os resgates, impondo restrições. Agora, a Blackstone e o Partners Group confirmaram que limitaram os levantamentos em vários dos seus fundos a 5%.
A Blackstone reportou que recebeu pedidos de resgates de 10%, no segundo trimestre, no seu principal fundo de crédito, o Blackstone Private Credit Fund (BCRED), com um valor estimado de 45 mil milhões de dólares (38,6 mil milhões de euros).
O Partners Group, que tem ativos sob gestão de 185 mil milhões de dólares (158,9 mil milhões de euros), decidiu suspender os resgates do fundo Global Value SICAV a 5%, depois de pedidos de levantamento pelos investidores de 9,8%. Em três fundos evergreen [fundos abertos ou semilíquidos], num valor total de 9,7 mil milhões de dólares (8,3 mil milhões de euros), houve pedidos de levantamento entre 3,5% e 5%. A gestora referiu que iria impor um limite de 5% caso existissem pedidos de resgates superiores.
No primeiro trimestre ‘voaram’ de fundos de crédito 20,8 mil milhões de dólares (17,7 mil milhões de euros), noticiou o “Financial Times”.
O Carlyle Group reportou pedidos de levantamento de 15% do seu principal fundo de crédito privado (Carlyle Tactical Private Credit Fund). A Ares Management confirmou que o seu fundo de crédito (Ares Strategic Income Fund), que está avaliado em 22,7 mil milhões de dólares (19,5 mil milhões de euros) recebeu pedidos que atingiam os 11,6%. Apollo e Blue Owl, como a BlackRock, também anunciaram situações muito idênticas.
Isto levou os bancos centrais a franzirem o sobrolho, avaliando o risco sistémico destes investimentos. Não só nos Estados Unidos, mas também na Europa. “São relevantes para a zona euro não porque as exposições domésticas diretas sejam elevadas, mas sim porque os investidores, os mutuários e os gestores de ativos da zona euro estão ligados aos mercados globais de crédito privado”, refere o Banco Central Europeu.

Preocupação com otimismo
No entanto, esta ansiedade demonstrada pelos investidores não trava o mercado. O crédito privado cresceu significativamente, gerindo atualmente mais de dois biliões de dólares (1,7 biliões de euros) em ativos, e prevê-se que atinja os 3,4 biliões de dólares (2,9 biliões de euros) até 2030.
“Apesar dos desafios recentes, como o incumprimento dos mutuários, o foco regulatório e os resgates de fundos, os gestores de carteiras continuam otimistas quanto ao crescimento, embora reconheçam que a classe de ativos está a entrar no seu primeiro ciclo de crédito significativo, com um aumento da concorrência e pressão sobre os retornos”, considera a consultora PwC, no seu último relatório sobre este mercado, feito a partir de um inquérito a 120 gestores.
Mais de 80% dos inquiridos esperam receber maiores alocações de capital nos próximos 12 meses, o que mostra a vitalidade do mercado.

Manuel Castro Almeida: Estão seis novas Sines em preparação, de Norte a Sul

Vão mais de 25 mil milhões de euros a caminho de Sines para a concretização de projetos industriais. É um investimento enorme, imenso. É mais do que um PRR, do que um PTRR ou do que o PT 2030. E tudo para ser concretizado num prazo apertado, até ao início da próxima década. Ambicioso, especialmente se tivermos em conta que não existe plano para o acomodar.
“Não há esse plano, mas estamos a tratar dele. Já tomámos todos a consciência de que é necessário fazer esse plano”, diz o ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, ao Jornal Económico. “Sines não pode ser apenas um amontoado de fábricas. Moram lá pessoas, vivem lá pessoas. Há trabalhadores que depois têm as suas famílias e precisam de ter os filhos na escola, precisam de médico, precisam de supermercado, é preciso equipar as redes, as infraestruturas de água e de saneamento adequadas à dimensão a uma população que está a crescer e vai continuar a crescer”, diz. “Já conversei com o presidente da Câmara de Sines, que está totalmente ciente da necessidade de fazer este plano. Está muito interessado em que este plano envolva diversos departamentos do Estado”, explica.
São dores de crescimento. Sines é um sucesso e está a esgotar a sua capacidade. Já não há lotes infraestruturados para instalar uma grande empresa. “Mostrou ser uma ideia útil, tem uma localização extraordinária. Foi considerado há algumas dezenas de anos um elefante branco, afinal, não era elefante, nem era branco”, diz Manuel Castro Almeida.
A solução para a escassez não passa pela ampliação, mas por replicar o modelo. “Vamos dar agora a prioridade a criar outros Sines pelo país”, diz Castro Almeida.
A ideia é criar duas médias ou grandes áreas de acolhimento empresarial no norte do país – uma no litoral, outra no interior –, mais duas na região centro – uma no litoral, outra no interior –, mais uma na região de Lisboa e vale do Tejo, outra no Alentejo interior, porque o Alentejo Litoral já tem Sines.
“Não serão áreas com a dimensão de Sines, isso não existe”, avisa. A Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS) tem 4.157 hectares, ou seja, 41,57 quilómetros quadrados. Cerca de 3.306 hectares estão destinados a atividades industriais e logísticas, sendo o restante ocupado por infraestruturas, áreas ambientais, corredores de proteção e outros usos. Área sob gestão direta da AICEP Global Parques é de cerca de 2.375 hectares.
Serão seis novas, médias ou grandes, áreas de acolhimento empresarial. O ministro aponta para entre três e oito quilómetros quadrados, portanto entre 300 e 800 hectares. “São já áreas apreciáveis, mas de que o país está a precisar porque não pode acontecer que haja empresas estrangeiras a quererem instalar-se em Portugal e não ter áreas de dimensão necessária devidamente infraestruturadas”, diz Manuel Castro Almeida. “Eu prefiro vir a ser acusado de ter as áreas prontas e desocupadas do que ter de dizer que não podemos aceitar essa empresa porque não temos uma área com dimensão necessária devidamente infraestruturada”, acrescenta.
Estas novas áreas têm financiamento previsto no PTRR. A localização de cada uma será estudada pelas CCDR [Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional], em articulação com as comunidades intermunicipais e com a nova agência do PTRR, que vai iniciar funções dentro de pouco tempo.
As CCDR terão aqui um papel fundamental, como terão de ter em Sines. “Não é concebível fazer uma área empresarial no meio do deserto, sem nada à volta. Tem de haver casas, tem de haver condições para as pessoas lá habitarem também”, diz Castro Almeida. “Tem de haver um planeamento integrado e para isso ninguém melhor do que as comissões de coordenação e desenvolvimento regional”, defende.
Sines, a região mais do que o concelho, é herdeira de um plano pensado para criar um novo eixo económico em Portugal, a partir do investimento em indústria pesada, articulado com uma cidade nova, infraestruturas e uma vasta zona de expansão económica. O ponto central era o porto oceânico de águas profundas, capaz de receber superpetroleiros e grandes navios cargueiros. O plano não se concretizou por causa dos choques petrolíferos, da revolução e das intempéries. Mas o porto está lá e é o maior de Portugal, por onde passa metade das mercadorias transportadas por mar. E por isso lá está a refinaria da Galp, o maior ativo industrial português, que ocupa cerca de 400 hectares e é central no abastecimento energético nacional. Também o complexo petroquímico da Repsol, um dos mais importantes exportadores nacionais, ou a unidade de gases industriais da AirLiquide.
Agora, vem aí a nova economia, assente nas transições digital e energética. A Start Campus tem investimentos em marcha, com a Microsoft e a Nvidia a desenvolver um dos maiores projetos europeus de infraestruturas para cloud e inteligência artificial. Também os chineses da CALB, que estão a construir uma gigafábrica de baterias de lítio, a Madoqua nas renováveis, os suecos da Stegra no aço verde e a Topsoe na química. Está prevista a criação de mais de 11 mil empregos diretos, quase metade permanentes.

O espaço deixou de ser ficção científica

12 June 2026 at 07:50

Elon Musk e Jeff Bezos acreditam que a próxima grande fonte de prosperidade poderá estar acima das nossas cabeças. A cerca de 400 quilómetros da superfície terrestre começa a desenhar-se uma nova fronteira económica, onde poderão nascer fábricas orbitais, centrais solares espaciais e indústrias capazes de produzir materiais impossíveis de fabricar no nosso planeta. O espaço oferece condições únicas. Empresas farmacêuticas já recorreram à Estação Espacial Internacional para realizar experiências de cristalização de proteínas, enquanto algumas ligas metálicas apenas podem ser fabricadas em ambientes de microgravidade. Ao mesmo tempo, painéis solares instalados em órbita têm a capacidade de gerar energia de forma praticamente ininterrupta, sem depender das condições meteorológicas ou da sucessão entre o dia e a noite.
A concretização desta visão depende de um fator decisivo: a redução contínua dos custos de acesso ao espaço. A SpaceX, fundada em 2002, conquistou uma posição dominante no setor dos lançamentos espaciais graças ao sucesso dos seus foguetões Falcon 9. A empresa realiza mais lançamentos do que todos os seus principais concorrentes, nos Estados Unidos e no resto do mundo, acumulando uma vantagem tecnológica difícil de igualar.
A estratégia da Blue Origin, fundada por Bezos em 2000, tem sido bastante diferente. Enquanto a SpaceX adotou uma filosofia de desenvolvimento baseada em testes frequentes, falhas e aperfeiçoamentos sucessivos, a Blue Origin privilegiou um modelo mais cauteloso, apostando em longos ciclos de desenvolvimento para garantir que os seus sistemas funcionassem de forma fiável desde os primeiros voos.
A retalhista anunciou recentemente a aquisição da operadora norte-americana de satélites Globalstar por 11,6 mil milhões de dólares (9,82 mil milhões de euros), numa operação que lhe permitirá reforçar a sua infraestrutura espacial e aceder a frequências de rádio estratégicas. O objetivo é acelerar o desenvolvimento dos seus serviços de conectividade global e reduzir a distância que a separa da Starlink.
À semelhança da subsidiária da SpaceX, a Amazon aposta numa rede de satélites de órbita baixa capaz de fornecer serviços de comunicação em zonas sem cobertura móvel tradicional. Os utilizadores poderão fazer chamadas, enviar mensagens e aceder à internet através de ligações diretas por satélite. O projeto ainda está numa fase inicial. Apesar de ter começado os primeiros lançamentos de teste em 2023, a empresa conta atualmente com cerca de 200 satélites em órbita, muito longe da meta de 3.200 unidades prevista para a sua constelação.
Para Chris Quilty, analista do setor espacial citado pela “Forbes”, o que está em causa é muito mais do que uma simples expansão das telecomunicações. “O que estamos a assistir é à preparação para uma batalha de titãs entre a SpaceX e a Amazon”, afirma. Segundo o especialista, a SpaceX também estava interessada em adquirir o mesmo espectro de frequências controlado pela Globalstar, o que ajuda a explicar o elevado valor pago pela Amazon.
A NASA anunciou esta semana que irá realizar uma série de testes cruciais na órbita da Terra em 2027 para preparar o regresso da humanidade à superfície lunar em 2028. O principal objetivo da missão Artemis III será testar os procedimentos críticos de acoplagem com os gigantescos módulos de aterragem comercial em desenvolvimento: o Starship, da SpaceX, e o Blue Moon Mark 2, da Blue Origin. “Hoje damos mais um passo ousado no regresso da humanidade à Lua, aproveitando os alicerces extraordinários lançados pelos astronautas da Artemis II”, afirmou o administrador da NASA, Jared Isaacman.

Negócios
Estados e privados estão juntos numa disputa tecnológica pelo espaço sideral. A procura por dados e comunicações incentiva um negócio que tem os mais ricos do mundo entre os atores principais. Entendida de forma alargada, a economia do espaço impacta uma série de setores limítrofes, além do aeroespacial e da defesa, como as tecnologias de informação – tanto hardware como software – e das telecomunicações. Aliás, a grande fatia deste mercado respeita à utilização das comunicações por satélite, especialmente através da televisão, que representa cerca de um quarto do total do negócio.
O negócio está em franco crescimento, com as oportunidades mais significativas de curto e médio prazo a surgirem no acesso à Internet de banda larga via satélite, segundo o Morgan Stanley. O banco norte-americano prevê que a economia do espaço mais do que duplique nos próximos 20 anos, ultrapassando a fasquia do trilião de dólares (cerca de 860 mil milhões de euros). Antecipa, também, que o peso das comunicações aumente até representar 50% do negócio, num cenário central, ou até 70%, no cenário mais otimista. Isto, porque se espera que a procura por dados vai crescer e, ao mesmo tempo, o lançamento de satélites que oferecem serviço de Internet de banda larga ajudará a reduzir o custo desses mesmos dados.
O custo de lançamento de um satélite caiu para cerca de um terço, devido à tecnologia dos foguetes reutilizáveis, custando, agora, cerca de 60 milhões de dólares (cerca de 52 milhões de euros), mas pode diminuir, potencialmente, para cinco milhões de dólares (cerca de 4,3 milhões de euros), refere a instituição financeira.

A rivalidade chinesa
Em 2014, a China abriu o setor espacial ao investimento privado para rivalizar com a SpaceX e, cinco anos depois, as startups chinesas receberam financiamento de 300 milhões de euros. Em 2021, o governo chinês lançou a SatNet uma empresa esta tal que espera agilizar o processo de lançamento de satélites e formar uma rede de banda larga (com os 6.370 satélites ativos em órbita baixa, Musk controla 75% de todos os satélites ativos no espaço). A SpaceX opera num mercado global, em 50 países, e prepara-se para expandir a atividade nos continentes africano e asiático.
Responsáveis da empresa têm viajado ao redor do mundo para pedir permissão aos reguladores nacionais para vender ligações de internet de alta velocidade. A cooperação no espaço é uma parte fundamental da estratégia chinesa, tendo assinado 149 acordos, com 46 agências espaciais nacionais. E já forneceu a alguns países um sistema global de navegação por satélite que rivaliza com o GPS.
Aliás, 70% das infraestruturas de rede 4G em África foram construídas pela Huawei. Em dezembro do ano passado, a China lançou mais um lote de satélites de internet em órbita terrestre baixa para rivalizar com a SpaceX. No entanto, ainda está atrasada no que diz respeito ao domínio da tecnologia de foguetões reutilizáveis. Nas últimas décadas, a China investiu milhares de milhões de euros no seu programa espacial para recuperar o atraso em relação aos Estados Unidos e à Rússia. O país asiático espera enviar um astronauta à Lua antes de 2030 e construir uma base internacional em 2035.
Apesar da ambição chinesa, a liderança da nova economia espacial continua, para já, nas mãos de empresas privadas norte-americanas.

Pedro Oliveira: “Queremos ser um farol para o ensino superior em Portugal”

12 June 2026 at 07:46

Pedro Oliveira, dean da Nova School of Business and Economics (NOVA SBE), foi apresentado aos jornalistas em fevereiro de 2023, no metaverso. Engenheiro de formação, entusiasta do avanço tecnológico, defensor de um ensino superior português exportador, tem mandato até 2027.

No início da polémica com a Universidade Nova de Lisboa, escreveu no “Expresso” que o debate sobre a utilização do inglês nas designações académicas “não deve distrair-nos do essencial”. O que é essencial?
O essencial é muito simples: Portugal precisa de instituições públicas fortes capazes de competir a nível global. Orgulhamo-nos de ser uma escola pública que representa Portugal no mundo ao mais alto nível, e que tem impacto real no país e, por consequência, nos portugueses. O essencial é não só a qualidade de ensino e investigação, mas também a internacionalização e a capacidade de colocar Portugal e os portugueses no mapa do conhecimento global. Queremos ser um “farol” para o ensino superior em Portugal e isso é o que não podemos perder de vista. Obviamente não vamos deixar que isso aconteça.
Mais do que a pequena polémica que se instalou, o que está verdadeiramente em causa é algo maior: é se o ensino superior público português tem ambição para desenvolver as capacidades que lhe permitam ser uma alavanca de desenvolvimento económico e científico do país, ou se se resigna a uma lógica burocrática e administrativa como a dessa polémica.

O nome Nova School of Business and Economics/Nova SBE é vital para a internacionalização, como defendem alguns professores da instituição?
Sem dúvida. A marca é um ativo construído ao longo de décadas, reconhecido nos rankings e no mercado global. Mas não é a marca em si, o que internacionaliza uma escola é o que essa marca representa e que foi construído ao longo das últimas décadas e não permitiremos que seja destruído. O que a Nova SBE comunica a um aluno, um investigador ou professor, ou a uma empresa (seja ela nacional ou estrangeira), é um padrão de excelência académica, de rigor científico e de ambiente globalizado. Mudar – ou diluir – essa marca seria destruir um investimento feito pelo país, por toda uma comunidade de alunos, professores, alumni e parceiros empresariais.
A designação legal em português existe, sempre existiu e existirá. As duas coexistem com naturalidade. A questão não é uma ou outra, é perceber que proteger a marca é defender um ativo público de grande valor.
Falemos dos resultados dessa estratégia. Quantos alunos de fora estudam aqui e quais as nacionalidades dominantes?
Conseguimos tornar Portugal num destino mundial de talento, num país procurado por alunos de todo o mundo para estudar. Mais de metade da nossa comunidade académica é internacional. Só no ano letivo 2025/2026, recebemos quase 4.000 novos alunos vindos de 90 países. Os países mais representados são, além de Portugal, a Alemanha, Itália, França e Áustria. Registámos, este ano, crescimentos muito expressivos: a ‘fatia’ de alunos dinamarqueses e polacos subiu 67% e 41%, respetivamente; enquanto a de alunos belgas aumentou 23% e de americanos 18%. Nada disto acontece por acaso, pelo contrário: é o resultado de décadas de investimento consistente em qualidade, reputação e ligação às redes internacionais do conhecimento.

E de aposta nos estrangeiros.
Importa dizer com clareza que o nosso objetivo nunca foi ter muitos alunos estrangeiros como um fim em si mesmo. O objetivo é trazer para Portugal e para os portugueses o melhor que se faz no mundo e gerar um polo de ensino e investigação que coloque Portugal, os portugueses e as nossas empresas no mapa global. E isto não se faz em isolamento.
Por outro lado, enquanto escola pública portuguesa, para nós foi essencial desenvolver um programa de bolsas e apoios financeiros para garantir que todos os alunos nacionais que tenham capacidade académica para serem admitidos na nossa escola, o fazem e não deixar de estudar na Nova SBE por dificuldades financeiras relacionadas com custos de deslocação (alojamento e refeições) ou propinas.

Que montante destinaram a bolsas neste ano letivo?
Em 2025, investimos 3,1 milhões de euros no nosso programa de bolsas, de modo a garantir que qualquer aluno com a excelência académica necessária para estudar na Nova SBE não ficasse impedido de o fazer por questões financeiras. Para os próximos anos, o objetivo é continuar a garantir que o talento não pode ser desperdiçado por razões económicas.

No corpo docente, qual o rácio de estrangeiros?
Temos uma percentagem muito significativa de docentes internacionais (cerca de 55%), e isso é deliberado e desejado. Uma escola que quer estar no top europeu não pode recrutar apenas no mercado local – nem, na nossa opinião, recrutar os seus próprios alunos doutorados, como parte de uma estratégia que a Nova SBE já assume de recusa de endogamia académica. Competimos globalmente por talento académico, tal como as melhores universidades do mundo.

Quais as principais vantagens?
Beneficia diretamente os nossos alunos portugueses porque estudar com professores que publicam nas melhores revistas científicas do mundo e que trazem perspetivas de diferentes culturas académicas é uma vantagem competitiva que nenhuma escola fechada sobre si própria consegue oferecer. A qualidade académica não tem passaporte.

A cada ranking seja de que segmento for (Formação Executiva é o último), a NOVA SBE continua a subir. O que está na base deste sucesso?
A base é a consistência da qualidade de ensino ao longo dos anos. Não há segredos. São décadas de investimento em qualidade científica, em atrair os melhores professores e investigadores, em construir uma comunidade académica verdadeiramente internacional, e em manter padrão muito elevado. Em 2025, o nosso Mestrado em Gestão ficou em 4.º lugar mundial no Financial Times e o Mestrado em Finanças em 6.º. Somos a primeira escola portuguesa com dois mestrados no top 10 mundial do FT. Também a formação de executivos entrou, este ano, no top 10 mundial do FT de programas customizados (9.º lugar mundial) e no top 20 mundial em programas abertos.
Fazemos parte do 1% de escolas no mundo com acreditação Triple Crown (AACSB, EQUIS e AMBA) e pertencemos, ainda, a redes como o CEMS, que junta as mais prestigiadas business schools do mundo.

Até onde podem ir?
A pergunta “até onde podemos e queremos ir” é a mais interessante: a minha resposta honesta é que ainda há muito caminho a trilhar. E temos as condições para isso, se tivermos a autonomia e o investimento necessários para continuar a construir.

Ouvi-o dizer várias vezes que o Ensino Superior pode vir a ser tão bem-sucedido como o turismo ou o futebol. Já estamos no ponto de ser considerados um exportador?
Estamos a caminho. Ter seis escolas de negócios portuguesas com programas reconhecidos internacionalmente no mesmo ranking é um sinal inequívoco de que o país desenvolveu uma capacidade real. Tal como aconteceu com o turismo ou o futebol, o ensino superior pode tornar-se um setor de exportação de referência, não porque o tentamos imitar, mas porque reunimos as condições estruturais de qualidade, localização, custo-benefício, segurança e diversidade. O que falta é, sobretudo, escala e coordenação. Uma escola só não faz um setor. Precisamos de mais instituições com esta ambição e de uma aposta política consistente que trate o ensino superior como ativo estratégico nacional, não como centro de custo a gerir.

Disse-nos há dias que não tem intenção de aprofundar a polémica com a Universidade Nova, que, em rigor, não originou, mas esclareça-nos: já está enterrado o machado de guerra que tem vindo a decepar valor nas duas marcas?
Somos UNL e isso não muda com os reitores que passam. O que existe é, como é normal em qualquer organização complexa, um debate sobre como as instituições se organizam para responder aos desafios do futuro. Uma escola com o nível de internacionalização e de competitividade da Nova SBE precisa de agilidade para tomar decisões rápidas, para fechar parcerias internacionais, para gerir o campus. Vivemos tempos institucionalmente desafiantes, não vou negar isso. Mas existe um alinhamento muito forte entre as unidades orgânicas da UNL para que este impasse se resolva da melhor forma possível para todos. Esse é o único critério que importa.

Disse numa conferência do JE que a Nova SBE quer liderar o conceito de “escola do futuro”. Como a descreve em cinco palavras?
Adaptabilidade. Inovação. Interdisciplinaridade. Impacto. Comunidade.

Como se preparam os estudantes para profissões que não existem? Que ferramentas lhes estão a dar aqui que não sejam obsoletas amanhã?
Essa é, na verdade, a pergunta mais importante que qualquer escola deve fazer a si própria. A ferramenta mais valiosa que podemos dar a um estudante hoje não é técnica, é a capacidade de aprender a pensar e aprender a aprender – é a capacidade de navegar a incerteza com rigor, inovação e criatividade. As profissões vão continuar a mudar. O que não muda é a necessidade de pensar bem e criticamente, de colaborar e de ter princípios. É nisso que estamos a investir.
A resposta não está nos currículos, está na forma de ensinar e de aprender. O que estamos a construir aqui não é um conjunto de disciplinas atualizadas, é uma plataforma onde a inteligência artificial é infraestrutura, não tema de estudo; onde a multidisciplinaridade é o ponto de partida, não um módulo opcional; onde os estudantes aprendem a aprender, a questionar e a adaptar-se.

Com base em que pressupostos estão a formar os futuros líderes?
Com base em três pressupostos: primeiro, que a liderança se exerce em contextos de incerteza radical. Não adianta formar para a estabilidade quando a estabilidade já não existe. Segundo, que os melhores líderes não são os que têm todas as respostas, mas os que fazem as perguntas certas e constroem equipas capazes de responder. Terceiro, que ética e impacto social não são ornamentos da formação em gestão, devem ser o seu centro. Uma escola de negócios que forma pessoas para maximizar resultados sem consciência do contexto em que operam está a produzir um problema, não uma solução. O nosso objetivo é formar líderes que sejam simultaneamente competitivos e responsáveis.

O que falta ao país para conseguir transformar a ciência em inovação, fazer produto e criar riqueza?
Falta menos do que costumava faltar, e mais do que deveria. Já temos investigação de qualidade, temos proximidade com empresas e temos ecossistemas de empreendedorismo. O que ainda falta é velocidade na transferência de conhecimento, é tolerância ao risco e ao fracasso, é capital paciente para fazer a ponte entre a investigação e o mercado. E falta, também, uma cultura empresarial que veja a universidade não como fornecedora de mão de obra barata, mas como parceira estratégica de inovação. Quando isso existir – e há sinais de que está a emergir – Portugal tem condições reais para criar riqueza a partir do conhecimento.

Quando termina o seu mandato? Já pensou no que vai fazer a seguir?
O meu atual mandato termina em janeiro de 2027. Sou professor e empreendedor, mas quanto ao que se segue ainda é cedo para anunciar seja o que for. O que posso dizer é que sou uma pessoa de projetos e de objetivos. O poder pelo poder não me interessa, nem serve o país, nem a Nova SBE. O que me interessa atualmente é o espetacular projeto que temos na Nova SBE, o impacto que geramos, e, enquanto estiver neste cargo, o foco é o de deixar a escola numa melhor posição do que a encontrei: mais preparada para um futuro incerto e com capacidade de ajudar a definir esse mesmo futuro e com muita ambição de continuar a contribuir para o nosso país.

Portugal escreve a Bruxelas em defesa das empresas

12 June 2026 at 07:42

Portugal escreveu uma carta a Bruxelas a defender a indústria nacional. Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e da Energia, pede à Comissão Europeia que tenha em conta os impactos negativos que as novas regras para as emissões poluentes vão ter em setores industriais cruciais para Portugal, como a cerâmica, vidro e cimento. Em causa está a atualização em curso dos valores de referência (benchmark) do sistema de comércio emissões poluentes (EU ETS) para o período de 2026–2030 que vai reduzir o número de licenças gratuitas concedidas às empresas, aumentando os custos destas para comprarem as respetivas autorizações. Isto vai tornar as empresas menos competitivas face aos concorrentes fora da UE e pode levar companhias a mudarem a sua produção para, mais uma vez, fora da UE.
“Estou a escrever para transmitir as preocupações de Portugal (…) que é particularmente relevante para atividades industriais que dependem de processos de alta temperatura, incluindo cerâmica, vidro, cimento e outros setores intensivos em energia”, segundo a carta escrita por Maria da Graça Carvalho a que o JE teve acesso. A missiva é dirigida à espanhola Teresa Ribera, vice-presidente executiva da Comissão para a transição energética e ao neerlandês Wopke Hoekstra, comissário para o Clima, e foi entregue na quinta-feira em Bruxelas.
Portugal defende assim um “congelamento temporário dos valores de referência relevantes nos níveis de 2021–2025 poderia constituir uma solução proporcional de transição” até uma revisão mais ampla do sistema, isto é, os benchmarks usados atualmente devem continuar a ser usados, para continuar a garantir licenças gratuitas.
Lisboa deseja também que a revisão dos benchmarks seja feita em conjunto com melhor acesso a financiamento europeu, apoio à eletrificação e aos gases renováveis como biometano ou hidrogénio verde.
Oque pretende a Comissão Europeia?´ Quer reduzir o número de licenças gratuitas emitidas nos próximos quatro anos, obrigando as empresas a comprar mais licenças no mercado de carbono, aumentando custos. Estas companhias usam gás na sua produção e estão classificadas sob um palavrão: ‘hard-to-abate’, isto é, são difíceis de descarbonizar, porque não é simples ou exequível trocar o gás por eletricidade. Ora, isto significa que os seus produtos ficam menos competitivos face aos concorrentes de fora da União Europeia que não têm custos equivalentes nos seus países de origem. Por outro lado, aumenta o risco de fuga de carbono com a subida dos custos, isto é, as empresas podem decidir levar a sua produção para fora daUE:ou seja, fim de empregos europeus, mas continuando a emitir poluição global.
Apesar de garantir que Portugal “mantém-se plenamente comprometido com os objetivos climáticos da União e com o EU ETS” para reduzir emissões, a governante defende que é “essencial” que o sistema continue a “proporcionar um quadro previsível, realista e proporcional para a descarbonização industrial, preservando simultaneamente a competitividade da indústria europeia e evitando a fuga de carbono”.
A ministra recorda o “contexto particularmente desafiante para as indústrias intensivas em energia. As empresas europeias continuam a enfrentar custos energéticos elevados, forte concorrência global e necessidades significativas de investimento para descarbonizar os seus processos de produção. Neste contexto, uma redução abrupta da cobertura de alocação gratuita (…) poderá ter um impacto desproporcionado em setores onde ainda não existem alternativas de baixo carbono economicamente viáveis”.
A proposta da Comissão pode “aumentar significativamente os custos de cumprimento, reduzir a capacidade financeira dos operadores para investir na descarbonização e, em última análise, aumentar o risco de fuga de carbono. Portugal está igualmente preocupado com o facto de uma revisão substancial dos benchmarks (…) poder gerar incerteza regulatória adicional para os operadores”, escreveu a ministra Maria da Graça Carvalho.

Norte-americanos atraídos pelos milhões do Benfica District

12 June 2026 at 07:39

Acabou a novela Mourinho, mas o universo das águias pode estar a preparar-se para outra saga: a entrada de investidores no capital com uma posição relevante e ambição.

Enquanto os benfiquistas debatiam propostas de renovação, promessas da direção, juras de amor do special one ao encarnados, mas também a sua participação em campanhas eleitorais de Florentino Pérez no Real Madrid (com maior ou menor interferência da inteligência artificial), outro tema brotava com muito menos destaque mediático, mas com possibilidade de alterar o equilíbrio de forças na SAD.

“Traição” entre investidores
A 27 de abril deste ano, José António dos Santos (mais conhecido como “Rei dos Frangos”), concretizou algo que já se esperava: a venda da sua participação de 16,38% do capital social da SAD do Benfica. O negócio de 45,2 milhões foi feito com o fundo norte-americano Entrepreneur Equity Partners. Em maio do ano passado, o fundo de investimento Lenore Sports Partners já tinha comprado 5,24% do capital da Benfica SAD (deste pacote total, parte das ações pertenciam a Luís Filipe Vieira, antigo presidente do clube) tornando-se detentor de uma posição qualificada.

Com 5,24% do capital no bolso, o investidor Jean-Marc Chapus, responsável do Lenore Sports Partners, quis mais e, sabe o JE, reuniu um grupo de investidores para comprar as ações detidas pelo Rei dos Frangos.

Tim Leiweke foi um dos investidores convidados por Chapus para investir no Benfica e nas conversas entre estes responsáveis o projeto Benfica District foi abordado como um empreendimento suficientemente interessante para se avançar para o negócio.
Sabe o JE que Tim Leiweke ficou tão entusiasmado pelo projeto encarnado que, sem que Jean-Marc Chapus soubesse, decidiu avançar sozinho para a compra das ações de José António dos Santos. O negócio viria a concretizar-se no final de abril. Mas com o fecho da compra das ações surgem outras questões e a principal é: o que vai este investidor norte-americano fazer com esta participação?

Quem é Tim Leiweke?
Entre conquistas, quedas, perdões presidenciais e regressos à ribalta, a vida do investidor norte-americano dava um filme. Durante 18 anos, o empresário liderou os destinos do Anschutz Entertainment Group (AEG) e ajudou-a a conquistar um lugar de destaque como uma das maiores agências de gestão de arenas de entretenimento do mundo.

A saída do AEG, em 2013, não foi pacífica já que envolveu cláusulas de confidencialidade e relatos de bónus de milhões que acabaram por não ser pagos.

Tim deixa o projeto de uma vida e dois anos depois cria a Oak View Group, especializada no desenvolvimento, gestão e operação de espaços desportivos e de entretenimento. O Oak View Group torna-se parceiro da Live Nation (produtora que trouxe os concertos de Bad Bunny a Portugal) no negócio da gestão de arenas.

É reconhecido no mundo dos negócios como um especialista na rentabilização de arenas e de espaços de entretenimento e encontra espaço na Europa para desenvolver esse negócio, nomeadamente no Reino Unido (Cardiff e Manchester) e até com algumas ramificações a Portugal, nomeadamente na Meo Arena, desde que a Live Nation adquiriu a posição maioritária (51%) que estava anteriormente na posse de Luís Montez, num negócio avaliado em mais de 40 milhões de euros.

Em dezembro de 2025, os destinos de Leiweke e Trump cruzam-se: o empresário foi acusado pela justiça norte-americana de manipular um processo de licitação de uma arena no Texas mas o presidente dos EUA assinou um perdão “total e incondicional” para Leiweke.

Apesar do perdão, Leiweke viu a sua reputação manchada e já não voltou ao Oak View Group, mas surge associado à Entrepeneur Equity Partners que acabaria por comprar as ações ao rei dos frangos. Este grupo tem como protagonista outra empresária: Francesa Bodie, filha da mulher de Tim Leiweke e que assumiu a presidência do Veneza, que subiu esta época à Serie A. O Veneza vai gastar 500 milhões num novo estádio e entra na lógica de rentabilização dos recintos desportivos.
É aqui que entra o Benfica District, o megaprojeto de modernização imobiliária e desportiva promovido pelas “águias”, orçamentado em 220 milhões e no qual o empresário norte-americano quer ter uma palavra a dizer. Resta saber se o Benfica vai utilizar o artigo 13º que permite à SAD bloquear aquisições de participantes acima de 2% do capital por parte de investidores que tenham interesses concorrentes.

Bosch investe 85 milhões para reforçar em Portugal

12 June 2026 at 07:35

A Bosch está a atravessar um período de transformação, tanto em Portugal como a nível global, marcado por ajustamentos estratégicos, mudança tecnológica e reposicionamento geográfico da sua atividade. Por cá, em 2025, a multinacional alemã registou uma ligeira contração do volume de negócios, com uma descida de 2,6%, fixando a faturação nos 2,2 mil milhões de euros.

A redução é explicada, sobretudo, pela alienação do negócio de tecnologias de segurança e comunicações em Ovar, concluída em meados do ano passado, cujas receitas deixaram de ser consolidadas nas contas da empresa. Ainda assim, trata-se do quarto ano consecutivo em que supera a fasquia dos dois mil milhões de euros, sinal de estabilidade num contexto económico adverso.
Apesar deste recuo, a atividade em território nacional mantém-se resiliente. “A Bosch tem vindo a direcionar investimento e novas responsabilidades para as unidades portuguesas, confiando na competitividade e qualidade das nossas operações”, garante Javier González Pareja, Presidente da Bosh para Portugal e Espanha.

“Os cerca de 85 milhões de euros previstos para investimento em Portugal até ao final de 2026 refletem essa confiança no potencial do país e nas capacidades das nossas equipas”, acrescenta.

Portugal surge assim como uma exceção positiva dentro deste processo de reorganização.
A empresa tem vindo a transferir parte da produção e investimento do Leste europeu para unidades nacionais. “Destacam-se, por exemplo, a mobilidade em Braga, as tecnologias para aquecimento de água em Aveiro e os departamentos que prestam serviços para toda a empresa a nível global”, diz Javier González Pareja. Paralelamente, o hub de serviços em Lisboa tem vindo a ganhar relevância, refletindo a crescente importância das áreas digitais e de suporte global.

Esta estratégia evidencia o reforço do papel do país como polo industrial e tecnológico dentro do grupo. Para 2026, a Bosch antecipa um regresso ao crescimento, estimando uma evolução positiva das vendas entre 2% e 5%. Mesmo num contexto global marcado por incerteza geopolítica e pressão inflacionista.

A Bosch enfrenta desafios estruturais decorrentes da transição da indústria automóvel para a eletrificação. O negócio tradicional, assente em componentes para motores de combustão, tem perdido peso à medida que os veículos elétricos ganham quota de mercado. Porém, segundo Pareja, a estratégia da empresa não se limita apenas à eletrificação, sendo antes baseada numa abordagem “tecnologicamente aberta” e diversificada. Embora exista um forte investimento na eletrificação, tanto na mobilidade como no setor doméstico, a empresa continua também a apostar em soluções de combustão “cada vez mais eficientes e sustentáveis”

Mais do que um sinal de fragilidade, os recentes desenvolvimentos refletem uma empresa em transição, que procura adaptar-se a uma nova realidade industrial. O futuro da Bosch dependerá da sua capacidade de executar esta transformação num setor em rápida mutação.

Golfo quer drones portugueses para se defender do Irão

12 June 2026 at 07:32

Só nos primeiros 40 dias de guerra, o Irão lançou mais de 4.600 ataques de drones contra os países seus vizinhos. Até há relativamente pouco tempo, os seis países que integram o Conselho de Cooperação do Golfo (CGG) tinham como certo que a sua defesa estava assegurada pelos Estados Unidos, mas tudo mudou desde 28 de fevereiro, com o Irão a lançar ataques sem parar e com os países obrigados a defenderem-se sozinhos. É neste cenário que cresce a procura por drones portugueses por parte dos países do Golfo Pérsico. É verdade que o interesse já existia antes, mas a guerra no Médio Oriente só veio acelerar o desejo pelas aeronaves não-tripuladas com selo português.

“Ainda antes desta guerra, estivemos no Dubai em novembro onde a presença de várias empresas portuguesas, tanto na área de drones como na área de sistemas de comunicação, como na área de software e de estruturas. Já olhavam para este mercado com especial apetite”, disse ao Jornal Económico o presidente do AED Cluster Portugal, que junta as empresas da indústria de defesa nacional, José Neves.

“Naturalmente, o cenário neste momento faz com que os países nessa zona do globo tenham uma urgência maior na aquisição de produtos”, afirmou, apontando que Portugal já tem “produtos desenvolvidos e testados em cenário operacional”, segundo o líder da AED, apontando que os drones reúnem maior interesse.

Uma das empresas que tem feito o seu caminho no Golfo Pérsico é a Beyond Vision que produz drones na sua fábrica em Alverca. A companhia está agora a desenvolver um sistema que vai permitir aos seus drones neutralizar drones Shahed, produzidos no Irão, mas usados também pelos russos. Já tinha registado várias vendas no Médio Oriente, no setor civil, mas o foco agora é “no setor da defesa, muito pelo que se está a passar com o Irão”.

“Os países do Médio Oriente não estavam programados para a necessidade de terem armamento ou proteção para os níveis de que realmente necessitavam. Este evento foi um ‘abre-olhos’. Estavam muito focados no turismo e outras áreas. Claramente mudaram o foco para a defesa. Os drones, pela exposição que estão a ter na Ucrânia, são um dos equipamentos mais procurados. Temos tido vários pedidos dos diferentes países do Médio Oriente”, disse o presidente da empresa Dário Pedro.
Também a portuguesa produtora de drones Tekever tem vendido para esta região, com a procura a vir de trás. “A realidade e os dados mostram que essa procura um bocadinho generalizada cresceu em quase todos os grandes blocos. Desde o continente americano, de norte a sul, ao asiático, ao Médio Oriente. Temos processos de venda em países do MédioOriente, como em muitos outros países”, disse ao JE Pedro Petiz, diretor de desenvolvimento estratégico da Tekever.

O mais recente unicórnio português (com valorização nos mil milhões de dólares) destaca que só trabalha com mercados “alinhados com a estratégia europeia e da NATO. Depois temos outro tipo de países que, não sendo da NATO, estão tipicamente alinhados”, com a empresa a notar “mais procura” nestes mercados, o que muitas vezes passa por “parcerias locais”.
Olhando especificamente para a Arábia Saudita, um empresário português no país dá o seu testemunho sobre a forma como os drones portugueses são vistos neste mercado. “No World Defense Show, que aconteceu em Fevereiro, a AICEP fez um excelente trabalho porque juntou uma série de empresas num stand único e para além disso vimos stands de empresas portuguesas como a Tekever e Beyond Vision. Este World Defense Show teve um impacto enorme porque há um enorme interesse em tudo o que é defesa”, disse ao JE a partir de Riade Guy de Sousa, diretor-geral da Asasat, companhia de desenvolvimento imobiliário. O empresário dá o exemplo do Public Invesment Fund (PIF), o megafundo público saudita que mudou a sua estratégia para apostar mais numa “série de indústrias e cadeias de valor em todos os sectores. Existe a necessidade de tirar a dependência da economia dos combustíveis fósseis. Creio que haverá interesses exploratórios da Arábia Saudita, através destas instituições, em variadíssimas empresas portuguesas”, afirma.

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