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Algarve ganha fôlego com feriados de junho e hotéis perto da lotação esgotada

13 June 2026 at 18:00

A ocupação hoteleira no Algarve vai rondar os 80% durante as miniférias proporcionadas pelos feriados de junho, com um ligeiro aumento da procura face ao ano passado, disseram esta terça-feira à Lusa fontes do setor.

Em declarações à Lusa, o presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Hélder Martins, disse à Lusa que a expectativa era que a ocupação na região no período dos feriados de 4 e 10 de junho rondasse os 80%.

“A nossa expectativa é que nesta semana dos feriados nós vamos ultrapassar os 80% de ocupação, o que é muito bom”, afirmou, sublinhando que o mercado português é o que mais está a contribuir para os resultados alcançados pelo turismo algarvio nesta altura.

Quem optou por ir para a região está também a beneficiar de uns dias com tempo quente e sem chuva, com a meteorologia a ajudar as famílias a usufruir dos primeiros dias de praia, observou o presidente da associação empresarial algarvia. “Para as empresas […], é o aquecer os motores e, a partir de agora, entrarmos aqui já num período de época média-alta até chegarmos à época alta. Portanto, estamos satisfeitos com a procura que houve”, concluiu.

Também o presidente do Turismo do Algarve afirmou que os feriados contribuíram para um ligeiro aumento da procura de portugueses pela região, “embora os níveis se mantenham” em linha com os registados no ano passado.

Em declarações à agência Lusa, André Gomes sublinhou que o Algarve continua a ser “um destino de eleição” para o mercado interno durante períodos festivos, refletindo-se numa dinâmica positiva da atividade turística.

“Os feriados são tradicionalmente aproveitados por muitos portugueses para pequenas escapadas e o Algarve continua a ser uma das principais escolhas”, referiu. Segundo o responsável, estes períodos funcionam também como um “bom indicador” para o comportamento da procura na época alta.

Vem aí “uma época alta positiva”

Apesar do incremento registado nos últimos dias, André Gomes assinalou que “o reporte dos hoteleiros” aponta para um pequeno aumento de reservas do mercado interno, “embora sem variações significativas face à ocupação turística do ano anterior”.

O presidente da Região de Turismo do Algarve (RTA) destacou, no entanto, que o desempenho verificado “reforça a confiança do setor para os próximos meses”, numa altura em que a região ainda se prepara para o pico da procura turística.

“Estamos a falar de um destino consolidado como o Algarve, que tem mantido níveis de procura consistentes, nomeadamente por parte do mercado nacional”, frisou, apontando para a resiliência do destino.

Segundo o responsável, os atuais indicadores permitem antever uma época alta positiva, à semelhança de anos anteriores, sustentada tanto pelo mercado interno como pela procura internacional.

“É isso que nos leva a acreditar que, mais uma vez, a região do Algarve terá um bom desempenho ao nível da atividade turística durante a época alta”, afirmou, mostrando-se confiante quanto à evolução da procura nos próximos meses.

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Francisco Amaral critica consulta de tabagismo no IPO marcada para 2027

13 June 2026 at 17:10

O médico e antigo presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, Francisco Amaral, criticou publicamente uma marcação do Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil para uma primeira consulta de tabagismo apenas em maio de 2027.

A publicação, feita nas redes sociais a 26 de maio, foi acompanhada por uma fotografia de um agendamento do IPO Lisboa, onde surge uma consulta de “Primeira Tabagismo” da área de Pneumologia marcada para 10 de maio de 2027, às 14:30.

Imagem do agendamento divulgada por Francisco Amaral, onde surge uma primeira consulta de tabagismo no IPO Lisboa marcada para maio de 2027

“Assim não”, escreveu Francisco Amaral, defendendo que esperar quase um ano pode comprometer o momento em que o fumador decide deixar de fumar. Na mesma publicação, o médico sublinhou que “uma das razões do êxito” do Programa de Combate ao Tabagismo do Município de Castro Marim é precisamente a consulta de cessação tabágica acontecer “no próprio dia” em que o fumador toma a decisão.

A observação vai ao encontro de uma posição que Francisco Amaral já defendia publicamente em 2018: “a consulta tem que ser imediata” para aproveitar a motivação do fumador no momento em que decide parar.

O caso divulgado por Francisco Amaral diz respeito a uma consulta de cessação tabágica, não a uma consulta de tratamento oncológico. Ainda assim, ganha especial relevância por envolver o IPO Lisboa, uma unidade do SNS com área de influência direta que inclui Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve.

O próprio mapa público da Rede de Consultas de Apoio Intensivo à Cessação Tabágica da ARS Lisboa e Vale do Tejo, atualizado em 2023, identifica no IPO Lisboa uma consulta de cessação tabágica no Serviço de Pneumologia, com funcionamento semanal à segunda e quinta-feira, destinada a utentes do IPO e funcionários, por referenciação interna.

Em Castro Marim, Francisco Amaral tem sido uma das figuras centrais no combate ao tabagismo. O programa municipal foi implementado em 2015 e trabalha em duas frentes: sensibilização e motivação para deixar de fumar, e acompanhamento clínico e psicológico ao longo do processo.

Segundo a informação institucional da autarquia, o programa começa com uma consulta de cessação tabágica com médico e psicólogo e mantém acompanhamento até à alta.

Os dados mais recentes divulgados pelo Município de Castro Marim apontam para mais de mil consultas realizadas e mais de 800 pessoas que terão deixado de fumar ao fim de um ano, com uma taxa de sucesso de 82,37%. A autarquia refere ainda que a iniciativa assenta num modelo de voluntariado médico promovido por Francisco Amaral, que criou e lidera o projeto.

Câmara inaugurou a escultura “Eco Pulmão”

O impacto do programa tem ultrapassado o concelho. Segundo notícias publicadas em 2025, os participantes chegaram não só de Castro Marim, mas também de Vila Real de Santo António, Tavira, Faro, Mértola, Almodôvar, Portimão, Loulé e Lisboa, além de pessoas oriundas de países como Espanha, Alemanha e Reino Unido.

Para além das consultas, o projeto tem promovido campanhas de sensibilização, encontros de ex-fumadores e ações públicas como a escultura “Eco-Pulmão”, instalada na Praça 1.º de Maio, em Castro Marim. A aposta de Castro Marim na prevenção não é recente. Em 2019, a Câmara inaugurou a escultura “Eco Pulmão”, da autoria de Carlos Correia, como forma de alertar para os malefícios do tabaco e para o impacto ambiental das beatas. Na altura, a autarquia referia uma taxa de sucesso a rondar os 85% e 437 aderentes ao programa, números que entretanto cresceram de forma significativa.

Escultura “Eco Pulmão”. Crédito: CMCM

Francisco Amaral, que terminou funções autárquicas em 2025 após 32 anos à frente dos municípios de Alcoutim e Castro Marim, manteve disponibilidade para continuar a dar o seu contributo voluntário como médico. O antigo autarca tem uma carreira ligada à medicina geral e familiar e ao poder local, tendo sido presidente da Câmara de Castro Marim entre 2013 e 2025.

A crítica agora feita ao agendamento do IPO surge num contexto em que o cancro do pulmão continua a ser uma das grandes preocupações de saúde pública. O cancro do pulmão é a principal causa de morte por doença oncológica em Portugal e tem forte associação ao consumo de tabaco. A European Lung Foundation refere que entre 80% e 90% dos casos de cancro do pulmão são atribuíveis ao tabaco.

Castro Marim foi recentemente apontado como o concelho algarvio com menor incidência de cancro do pulmão, segundo dados divulgados durante as 16.ªs Jornadas de Pneumologia do Algarve.

A autarquia associa esse resultado ao trabalho desenvolvido pelo Programa de Combate ao Tabagismo, embora uma relação causal direta deva ser lida com prudência, por depender de vários fatores epidemiológicos.

A rede nacional de cessação tabágica existe no SNS desde a Lei do Tabaco de 2007, mas o próprio despacho que criou a rede de referenciação em 2015 reconhecia dificuldades de cobertura em todo o território nacional.

O mesmo diploma defendia a organização de consultas de apoio intensivo à cessação tabágica e o acompanhamento dos fumadores em vários momentos do processo.

Para Francisco Amaral, a questão central continua a ser o tempo de resposta. Quando um fumador decide deixar de fumar, defende o médico, a intervenção deve ser rápida.

O caso agora divulgado, com uma primeira consulta marcada para 2027, reacende o debate sobre a capacidade do SNS para responder em tempo útil a uma decisão que, muitas vezes, depende de uma janela curta de motivação.

Números do programa de Castro Marim

Ano de implementação: 2015

Consultas realizadas: mais de 1.000

Pessoas que terão deixado de fumar ao fim de um ano: mais de 800

Taxa de sucesso divulgada: 82,37%

Modelo: voluntariado médico, com acompanhamento clínico e psicológico

Informações/marcações: 961 010 169

IPO Lisboa diz que consulta de cessação tabágica tem “caráter complementar”

Questionado pelo POSTAL sobre a marcação de uma primeira consulta de tabagismo para 10 de maio de 2027, o IPO Lisboa respondeu que as consultas de cessação tabágica no SNS “devem ser asseguradas, de forma preferencial, pelos cuidados de saúde primários da área de residência”, por serem estes a “porta de entrada” e a estrutura que garante o acompanhamento regular dos utentes.

Na resposta enviada ao POSTAL, o Instituto Português de Oncologia de Lisboa acrescenta que, naquela unidade, esta resposta “assume um caráter complementar”, enquadrado “no contexto do tratamento oncológico ativo e da saúde ocupacional dos profissionais”, integrando-se na abordagem global da doença e na otimização dos resultados terapêuticos.

O IPO Lisboa adianta ainda que, em 2025, a Consulta de Cessação Tabágica realizou 915 consultas.

A resposta, datada de 12 de junho, não esclarece, contudo, se existem atualmente primeiras consultas de tabagismo marcadas para 2027, qual o tempo médio de espera, quantas vagas estão disponíveis por semana, se há mecanismos de antecipação em casos urgentes, nem a razão concreta para o agendamento divulgado por Francisco Amaral.

POSTAL solicitou ao IPO Lisboa os seguintes esclarecimentos, mas, como se pode ver na missiva recebida na redação e que reproduzimos acima, a resposta não esclareceu as questões em causa.

  • Confirma o IPO Lisboa que existem primeiras consultas de cessação tabágica atualmente marcadas para 2027?
  • Qual é, neste momento, o tempo médio de espera para uma primeira consulta de cessação tabágica no IPO Lisboa?
  • A consulta de cessação tabágica no IPO Lisboa destina-se apenas a utentes acompanhados no próprio Instituto e funcionários, ou também recebe utentes referenciados externamente?
  • No caso de um fumador que pretenda deixar de fumar com urgência, existem alternativas, mecanismos de priorização ou possibilidade de antecipação da consulta?
  • Qual a razão para uma eventual marcação de primeira consulta de tabagismo a cerca de um ano de distância?
  • Quantas consultas de cessação tabágica realiza atualmente o IPO Lisboa por semana e qual a capacidade disponível?
  • Pretende o IPO Lisboa comentar a crítica feita por Francisco Amaral, que defende que a consulta deve ocorrer no momento em que o fumador decide deixar de fumar?

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Entrevista ao poeta louletano Miguel Duarte: “Quem não é daqui é que é periférico”

13 June 2026 at 17:10

Com A Música do Amolador, Miguel Duarte regressa à poesia com um livro atravessado pela memória, pela infância, pela perda e pela paisagem algarvia. Natural de Loulé, o autor assume uma escrita exigente, feita de revisões, imagens intensas e fidelidade ao tempo interior da criação.

Depois da apresentação na Feira do Livro de Lisboa, fala ao Postal do Algarve sobre o lugar do Sul na sua obra, o reconhecimento de Lídia Jorge e a responsabilidade de escrever sem ceder à pressa.

Crédito: Luísa Pinto, da Guerra & Paz

P – O título A Música do Amolador sugere uma arte de afiar: a lâmina, a palavra, talvez a memória. Como surgiu este título e que lugar ocupa essa figura do amolador na ideia geral do livro?

R – O título foi mesmo a última coisa a surgir. Caiu como um raio na escuridão. Andei à procura, experimentei alguns, mas este veio calar todos os outros. Eu pertenço talvez à última geração de portugueses para quem o som com que o amolador se fazia anunciar é indissociável das memórias da juventude. Dormia muitas vezes na casa dos meus avós, em Loulé, e aí não havia sábado em que não acordasse com o trinar daquela flauta, que pousava ali no meio da gente como um pássaro raro. Enfim, tudo isso foi-se perdendo; está quase extinto. Hoje, essa vivência aparece mais como uma intrusão na paisagem regulada da modernidade. As pessoas passam-lhe cuidadosamente à roda; não sabem o que pensar. Há algo de belo e ao mesmo tempo triste na ideia de alguém carregar às costas uma arte a preto e branco.

Meditações à parte, eu também sinto que sou um escritor um pouco à antiga e, nessa maneira de ser, sou um corpo estranho. Trabalho na sombra, estrago o sono, tomo o meu tempo. Não permito interferências nesse processo. Respeito a solidão dessa luta. E o resultado é que os meus poemas surgem habitados por personagens e situações que parecem caminhar também elas no limiar da extinção. Mas aquilo é tudo o que sabem ser e há nisso uma certa ternura que as torna palpáveis. Talvez por isso A Música do Amolador tenha feito logo sentido.

Tenho fome de criar coisas novas

P – Lídia Jorge escreve que este livro anuncia “o surgimento de uma grande voz a caminho” e fala numa torrente de imagens que lembra Dylan Thomas, Álvaro de Campos e, no Sul português, Ramos Rosa, Casimiro de Brito e Nuno Júdice. Como recebeu este reconhecimento e que peso têm, para si, essas possíveis linhagens literárias?

R – Desde logo, o apoio da Lídia Jorge fez duas coisas muito importantes por mim. A primeira é que trouxe uma sensação de amparo à minha visão criativa. Porque o olhar que temos da nossa escrita muitas vezes não coincide com o olhar dos outros. É um abismo traiçoeiro que só pode ser combatido com inquietude e autocrítica constantes, mas mesmo isso não garante chão firme para coisa nenhuma. Quem quer ser publicado tem que sujeitar-se à aprovação ou à obliteração que vem de fora… E a segunda é que uma mulher que muito admiro acaba por passar-me uma responsabilidade positiva para as mãos. Um estímulo, se preferir. Um estímulo para continuar a evoluir e procurar novas formas de me expressar pela poesia. Porque o que está feito, está feito. Foi um livro importante para mim; seguirá agora o seu caminho, mas não vejo utilidade nenhuma em ficar especado perante o que fiz. Tenho fome de criar coisas novas. E eu incluo os nomes referidos nessa noção de responsabilidade. Porém, mais do que pensar em linhagens literárias, interessa-me escrever e ter quem me publique os livros.

P – Ao longo do livro surgem o mar, as falésias, a Bordeira, Aljezur, o salitre, a terra, as ruínas e uma certa luz do Sul. De que forma o Algarve entra na sua poesia: como território real, como memória, como ferida ou como matéria simbólica?

R – Como tudo isso. Tenho dois Algarves dentro de mim. O Algarve que me foi revelado pela mão dos meus pais durante a infância é um outro Algarve muito particular, de que me apropriei à medida dos meus sentimentos. Cheguei à maioridade de pertencer a um sítio, que é tão real quanto imaginado. E é no ponto onde esses dois Algarves se cruzam que brotam alguns estados de alma para o que escrevo. Mas sinto que o livro é, acima de tudo, de uma humanidade universal. Aqui e ali, o Sul entra nele, mas é porque está intimamente ligado à minha experiência. Serve sempre como elevação, nunca como redoma. Muito sinceramente, acho que se o leitor não se der ao trabalho de ler a badana, nem vai fazer essa ligação à partida. Escrevo em tantos cenários…

Poeta louletano Miguel Duarte. Crédito: Luísa Pinto, da Guerra & Paz

P – Este é o seu segundo livro de poesia. Que diferença sente entre o Miguel Duarte que escreveu o primeiro livro e o poeta que agora publica A Música do Amolador pela Guerra e Paz? Houve uma mudança de voz, de exigência ou de ambição literária?

R – Sinto que houve um trabalho literário muito mais apurado com este livro. Passou por intermináveis afinações e revisões; tentei levar a minha linguagem a novos horizontes. Os próprios enlaces oníricos: procurei que rompessem com as expectativas decorrentes da leitura. Queria que o livro entrasse pelos olhos como uma tontura. A poesia permite-nos isso. Portanto, nesse sentido, sim, maior exigência e ambição. Mas repare, a matéria-prima mantém-se a mesma. E a matéria-prima é os sentimentos. É isso que carrega o livro em ombros. A técnica está ali para servir os sentimentos, sem os quais seria apenas um corpo grotesco. Não há ali uma linha que tenha sido escrita sem esse propósito. Portanto, o importante era que cada poema levasse tudo o que podia levar de mim.

Já o primeiro livro foi um tiro de partida que tinha que ser dado. Para uma estreia, superou as minhas expectativas, embora, à distância, o veja como um objeto imperfeito. E este também, à distância, parecer-me-á um livro cada vez mais imperfeito. Mas eu sou assim, severo comigo próprio. Talvez por isso não tenha essa tentação de publicar a granel. Preciso de sentir um certo nível de satisfação com o que escrevo, o que não é fácil de atingir. E a exigência vai sendo cada vez maior. Hoje, publica-se muito, mas escreve-se pior. Perdeu-se um pouco o valor do rigor muito por culpa das editoras de vaidade, das redes sociais e da crescente infantilização do leitor, todo esse caldo de indulgências. Eu não quero render-me a essa situação. Tenho as minhas regras e vejo o tempo como um aliado.

O sentimento é autobiográfico, mas dou inteira liberdade aos poemas para seguirem as imagens que melhor lhes sirvam

P – Há no livro uma forte presença da infância, da mãe, da casa, do corpo, da solidão e da perda. Até que ponto estes poemas partem de uma experiência autobiográfica e em que momento essa experiência se transforma em construção poética?

R – O sentimento é autobiográfico, mas dou inteira liberdade aos poemas para seguirem as imagens que melhor lhes sirvam. Ou seja, há ali muito que é puramente imaginário, mas, no fundo, tudo jorra da mesma fonte, como só a pessoa que o escreve poderia experienciá-lo. O livro é táctil nesse sentido. Queria que os poemas tivessem a forma de uma presença de carne e osso.

Mas, na realidade, a construção poética começa muito antes. Tem a ver com um conflito interior. Desde cedo fui uma criança sensível e há um movimento irresistível por parte do mundo para esmagar essa sensibilidade. É tudo muito binário, ou se mata ou se morre, ou se ganha ou se perde, ou se é a favor ou contra. Enfim, isto é particularmente violento para quem se comove facilmente. Agora lembro-me de que era uma criança algo solitária. Tinha muitos amigos, mas também gostava de estar sozinho. Porquê? Então parece-me que comecei a escrever poemas na adolescência porque era preciso defender esse lado belo e intocado. Era mais importante que essa verdade se impusesse aos gestos forjados.

Crédito: Luísa Pinto, da Guerra & Paz

P – A sua escrita é marcada por imagens muito intensas, versos longos, um fluxo por vezes narrativo e uma linguagem que parece querer levar cada frase ao limite. Como se trabalha um poema: escreve por impulso ou há depois um processo rigoroso de corte, depuração e reescrita?

R – Um poema tem essas fases todas. Dá muito, muito trabalho. Creio que esse mito dos impulsos mata à nascença muitos aspirantes a poetas, porque já vão com a ideia de que esse primeiro momento de fluidez é o princípio e o fim de tudo. As imagens vêm-me com maior naturalidade comparadas com o resto, mas esse impulso, se quiser, é apenas o pincel a dizer que quer ir mais para aqui ou mais para ali. Depois, é preciso dar-lhe uma forma que lhe faça justiça e isso representa talvez noventa por cento do tempo despendido. Pelo menos, sinto isso quando escrevo. Ou seja, as palavras me levam pela mão e têm apetite por ir mais além. Mas é preciso transpor para a linguagem aquilo que se vê sem lhe travar a vivacidade. Não há uma resposta fácil para essa pergunta.

Para mim, seria uma tragédia ter nascido noutro sítio. Este mar, estas cores, estas falésias, estas serras são o centro do mundo

P – Depois da apresentação de A Música do Amolador na Feira do Livro de Lisboa, e tendo em conta a sua forte ligação ao Algarve, que balanço faz da receção ao livro e o que gostaria que os leitores algarvios nele encontrassem: uma voz da região, uma voz contra a ideia de periferia, ou simplesmente poesia capaz de falar para lá de qualquer geografia?

R – Gosto que saibam que sou do Algarve e que sou de Loulé. Para mim, seria uma tragédia ter nascido noutro sítio. Este mar, estas cores, estas falésias, estas serras são o centro do mundo. A meu ver, quem não é daqui é que é periférico. Por isso, pode dizer-se que a minha poesia é iluminada em vários momentos por essa luz do Sul, mas a verdade é que vai beber a elementos que, ao fim e ao cabo, são comuns a toda a gente e, portanto, transcendem esse lugar geográfico.

De resto, ainda é muito cedo para ter uma imagem clara do percurso que o livro vai fazer. Saiu apenas no mês passado. Estou satisfeito por ter concluído esta etapa e grato a quem confiou no meu trabalho. É esse o meu balanço para já.

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O problema não é o divórcio. O problema é o conflito | Por Joaquim Manuel da Silva

13 June 2026 at 15:20

Durante muitos anos (e ainda hoje) discutimos uma questão que parecia decisiva: será melhor para uma criança crescer com os pais juntos ou com os pais separados?

Hoje sabemos que essa não é a pergunta mais importante.

A investigação científica das últimas décadas tem demonstrado, de forma consistente, que aquilo que mais prejudica o desenvolvimento das crianças não é a separação dos pais em si mesma. O verdadeiro problema é a exposição prolongada ao conflito, ao medo, à insegurança e à perda de relações afetivas significativas.

Uma criança que vive numa família aparentemente intacta, mas marcada por discussões constantes, hostilidade e tensão emocional, pode sofrer mais do que uma criança cujos pais se separaram, mas conseguiram construir uma relação parental respeitadora e cooperante.

Podemos simplificar a realidade em três cenários.

– Pais juntos e em conflito permanente.

– Pais separados e em conflito permanente.

– Pais separados, mas capazes de cooperar e colocar os filhos acima das suas divergências.

A evidência aponta claramente para que este último cenário seja, em regra, o mais favorável ao desenvolvimento da criança.

E aponta também para que o segundo seja frequentemente o mais destrutivo.

Porque ao conflito junta-se a perda da convivência diária com um dos pais, os conflitos de lealdade, os sentimentos de abandono e, muitas vezes, anos de litigância que transformam a infância num campo de batalha.

O problema não está na forma jurídica da família.

Está no conflito.

E hoje sabemos que esse conflito não produz apenas sofrimento emocional.

Produz alterações reais no desenvolvimento da criança.

Afeta a forma como o cérebro se organiza.

Afeta os mecanismos de resposta ao stress.

Afeta a aprendizagem.

Afeta a saúde futura.

A criança não vive o conflito apenas na mente.

Vive-o no corpo inteiro.

Talvez por isso a verdadeira questão ética não seja descobrir quem tem razão.

Nem quem ganhou o processo.

Nem quem venceu a última batalha.

A verdadeira questão é outra:

Que direito tem um adulto de sacrificar o bem-estar dos seus filhos para continuar uma guerra contra o outro progenitor?

Ao longo da minha experiência profissional aprendi uma lição simples.

Os conflitos persistentes raramente sobrevivem quando uma das partes deixa de os alimentar.

Quando deixa de responder à agressão com agressão.

Quando deixa de procurar culpados.

Quando deixa de precisar de vencer.

Quando deixa de precisar de ter razão.

Quando passa a preocupar-se mais com a saúde dos filhos do que com a derrota do outro progenitor.

Ninguém discute sozinho.

Ninguém faz uma guerra sozinho.

O conflito exige cooperação.

A paz também.

É neste contexto que deve ser entendida a residência alternada.

Não como uma solução mágica.

Não como um objetivo em si mesmo.

Mas como um possível instrumento para garantir a presença de ambos os pais na vida da criança e reduzir dinâmicas de exclusão.

O essencial continua a ser o mesmo: reduzir o conflito.

Porque a pergunta decisiva não é:

«Com quem vive a criança?»

A pergunta decisiva é:

«Em que ambiente emocional vive a criança?»

Uma criança criada na paz, no respeito e na cooperação terá normalmente condições para crescer de forma saudável.

Uma criança criada no medo, na hostilidade e na guerra permanente pagará frequentemente esse preço durante muitos anos.

Às vezes durante toda a vida.

E quando isso acontece, não perde apenas a criança.

Perde a família.

Perde a comunidade.

Perde a sociedade inteira.

Talvez esteja na altura de compreendermos uma verdade simples: proteger as crianças não significa escolher um dos pais.

Significa protegê-las da guerra entre eles.

Talvez a verdadeira medida do amor pelos filhos não esteja naquilo que fazemos por eles, mas sim naquilo que somos capazes de deixar de fazer ao outro progenitor por causa deles.

Porque o amor sem segurança não é amor; é apenas uma necessidade adulta disfarçada de afeto.

Nota bibliográfica: As ideias expostas neste texto apoiam-se na prática do autor e, doutrinalmente, entre outros, nos trabalhos de Vincent Felitti, Bruce Perry, Bessel van der Kolk, Jack Shonkoff e John Bowlby sobre trauma, desenvolvimento infantil e teoria do apego.

Leia também: Universidade do Algarve disponibiliza provas digitais gratuitas para preparação das avaliações nacionais | Por Mauro Figueiredo

Universidade do Algarve disponibiliza provas digitais gratuitas para preparação das avaliações nacionais | Por Mauro Figueiredo

13 June 2026 at 11:00

Num momento em que as avaliações externas em formato digital assumem um papel cada vez mais relevante no sistema educativo português, a Universidade do Algarve acaba de disponibilizar uma nova funcionalidade gratuita na plataforma MILAGE APRENDER+, permitindo aos alunos prepararem-se para as provas nacionais em ambiente digital igual ao das avaliações oficiais.

A novidade surge numa altura em que milhares de alunos do ensino básico se preparam para realizar provas e exames em formato digital, exigindo não apenas a consolidação dos conteúdos curriculares, mas também a familiarização com novas formas de interação, navegação e resolução de questões no computador.

Desenvolvida pela Universidade do Algarve e atualmente explorada pela Associação Ser MILAGE, a plataforma MILAGE APRENDER+ passou a permitir a geração automática de provas de treino digitais, estruturadas de forma igual às provas oficiais disponibilizadas pelo EduQA. Os alunos podem realizar múltiplas tentativas, praticar ao seu próprio ritmo e receber feedback imediato sobre o seu desempenho, identificando mais facilmente os conteúdos em que apresentam maiores dificuldades.

MAURO FIGUEIREDO – Coordenador do Projeto MILAGE APRENDER+ da Universidade do Algarve
Os resultados alcançados demonstram a crescente adesão da comunidade educativa a este modelo de aprendizagem

Esta funcionalidade integra-se num projeto educativo que, ao longo dos últimos anos, tem vindo a apoiar escolas de diferentes regiões do país na integração das tecnologias digitais ao serviço das aprendizagens. Resultado da investigação académica e da experiência acumulada em contexto escolar, a plataforma MILAGE APRENDER+ procura responder a um dos grandes desafios da educação contemporânea: utilizar a tecnologia não apenas como um recurso complementar, mas como uma plataforma educativa capaz de promover uma aprendizagem mais ativa, personalizada e inclusiva.

Disponível gratuitamente para todas as disciplinas, desde o pré-escolar até ao 12.º ano de escolaridade, a plataforma reúne vídeos educativos, recursos digitais interativos, atividades diferenciadas e funcionalidades de acompanhamento que permitem aos professores monitorizar o progresso dos seus alunos em tempo real.

O modelo pedagógico da MILAGE assenta em princípios reconhecidos pela investigação educacional como potenciadores do sucesso escolar. A autonomia dos alunos é incentivada através da realização de atividades ao seu próprio ritmo, enquanto mecanismos de gamificação contribuem para aumentar a motivação e o envolvimento nas tarefas propostas. Paralelamente, os processos de autoavaliação e avaliação entre pares promovem a reflexão crítica sobre as aprendizagens e o desenvolvimento de competências de responsabilidade e autorregulação.

Uma das características mais valorizadas pelos professores é a possibilidade de diferenciar percursos de aprendizagem dentro da mesma turma. Através da plataforma, é possível identificar dificuldades específicas, acompanhar a evolução individual dos alunos e disponibilizar recursos adequados às necessidades de cada um, promovendo uma resposta educativa mais equitativa e ajustada à diversidade existente nas escolas.

Também as famílias assumem um papel importante neste processo. Através das contas de encarregado de educação, os pais podem acompanhar o percurso dos seus educandos, consultar o trabalho realizado e participar de forma mais ativa no acompanhamento das aprendizagens.

A plataforma promove igualmente a participação ativa da comunidade educativa, incentivando professores e alunos a criar e partilhar recursos educativos digitais que podem ser reutilizados por outros utilizadores, promovendo uma cultura de colaboração, inovação pedagógica e construção coletiva do conhecimento.

A introdução das novas provas digitais de treino representa mais um passo na evolução deste ecossistema educativo. Além de apoiar os alunos na preparação para as avaliações externas, a plataforma permite agora aos professores criar gratuitamente testes digitais de avaliação sumativa, utilizando questões próprias ou recorrendo ao vasto banco de recursos educativos já disponível.

Anualmente, o projeto promove a Conferência Internacional de Aprendizagem Móvel no Projeto MILAGE e os Prémios MILAGE APRENDER+, iniciativas que visam divulgar boas práticas educativas e reconhecer o trabalho desenvolvido por alunos e professores em escolas de todo o país. A edição de 2026 realiza-se nos dias 8 e 9 de julho, em Matosinhos.

Os resultados alcançados demonstram a crescente adesão da comunidade educativa a este modelo de aprendizagem. Atualmente, a plataforma MILAGE APRENDER+ disponibiliza cerca de 80 mil recursos educativos digitais e registou, apenas no presente ano letivo, mais de um milhão de problemas resolvidos pelos alunos. Desde a sua criação, a plataforma já impactou mais de 223 mil alunos.

A dimensão nacional do projeto reflete-se também na diversidade de escolas, regiões, disciplinas e níveis de ensino envolvidos. Da educação pré-escolar ao ensino secundário, os professores utilizam diariamente a plataforma para apoiar as aprendizagens, criar recursos educativos digitais, acompanhar o progresso dos alunos e promover práticas pedagógicas mais personalizadas e inclusivas.

Os dados recolhidos em diferentes contextos educativos evidenciam igualmente resultados encorajadores. Em várias escolas que integraram iniciativas apoiadas pela plataforma MILAGE APRENDER+, verificaram-se melhorias significativas nos desempenhos dos alunos.

Os números representam apenas uma parte do impacto alcançado. Mais significativa é a forma como professores, alunos e famílias reconhecem na plataforma uma ferramenta capaz de tornar a aprendizagem mais motivadora, mais personalizada e mais próxima das necessidades reais de cada estudante.

Ao longo dos últimos anos temos acompanhado milhares de alunos, professores e famílias que utilizam diariamente a plataforma. Essa proximidade às escolas tem-nos permitido compreender melhor os desafios que enfrentam e desenvolver soluções que procuram responder às necessidades reais dos diferentes contextos educativos.

Num contexto em que a transformação digital da educação continua a colocar novos desafios às escolas, a experiência acumulada ao longo dos últimos anos reforça a convicção de que a inovação tecnológica produz melhores resultados quando é colocada ao serviço das pessoas e integrada em práticas pedagógicas que valorizam o papel dos professores.

A plataforma encontra-se disponível gratuitamente em webmilage.ualg.pt, permitindo a qualquer aluno, professor ou encarregado de educação explorar os seus recursos e funcionalidades. Mais informações sobre a Conferência Internacional de Aprendizagem Móvel no Projeto MILAGE e os Prémios MILAGE APRENDER+ podem ser consultadas em milagelearnmore.org.

Continuaremos, por isso, a trabalhar para que a tecnologia contribua para uma educação mais inclusiva, mais humana e mais capaz de responder aos desafios de uma sociedade em permanente transformação.

MILAGE APRENDER+ em números

  • 223 278 alunos impactados desde 2016
  • 79 660 recursos educativos digitais criados
  • 1 086 328 problemas resolvidos em 2025/2026
  • Recursos disponíveis do pré-escolar ao 12.º ano
  • Utilização em escolas de norte a sul do país
  • Plataforma gratuita: webmilage.ualg.pt
  • Conferência e Prémios MILAGE 2026: milagelearnmore.org

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Infantário Pimpão: mais de 40 anos dedicados à infância em Tavira

13 June 2026 at 10:00

A funcionar como creche para crianças dos 0 aos 2 anos e jardim de infância dos 3 aos 5, o Infantário Pimpão é hoje uma das instituições de referência na educação de infância em Tavira. Fundado em fevereiro de 1983, o espaço acompanha há mais de quatro décadas várias gerações de famílias tavirenses.

Numa fase inicial, o infantário funcionou onde é hoje a Escola D. Manuel I em Tavira, acolhendo sobretudo filhos de funcionários do Ministério da Educação. Em setembro de 1989, abriu portas para a restante comunidade e mudou-se para as instalações construídas de raiz, onde continua a funcionar até hoje.

Maria Luís, presidente da direção, e Eugénia Sousa, diretora pedagógica, estão ligadas ao Pimpão há 42 anos. As duas educadoras assumiram a direção em 1996, numa altura marcada por dificuldades financeiras que chegaram a colocar em risco a continuidade da instituição.

“Pegámos nisto para salvar o nosso posto de trabalho e o das restantes funcionárias”, recordam as responsáveis. Com uma gestão rigorosa e muito esforço pessoal, conseguiram recuperar a estabilidade da instituição sem comprometer o projeto educativo nem a qualidade do trabalho desenvolvido com as crianças.

Educação participativa e ligação próxima às famílias

Ao longo dos anos, o Pimpão distinguiu-se pela aposta numa educação participativa, próxima das famílias e centrada no desenvolvimento infantil. “Nunca vimos a creche apenas como um espaço para guardar crianças”, sublinham ao POSTAL.

A instituição trabalha segundo as orientações curriculares estruturadas em três áreas fundamentais: formação pessoal e social, expressão e comunicação e conhecimento do mundo para a educação infantil, desenvolvendo projetos pedagógicos adaptados aos interesses e necessidades das crianças, referiu a presidente ao POSTAL.

A aprendizagem é construída através da exploração, da comunicação e da interação com o meio envolvente, numa metodologia que valoriza a curiosidade natural dos mais novos.

A relação com as famílias continua a ser uma das principais marcas do infantário. Os pais podem acompanhar de perto o quotidiano das crianças, numa lógica de “porta aberta” que, segundo as responsáveis, fortalece a confiança e o envolvimento familiar.

“As crianças são o melhor veículo de comunicação. São elas que mostram aos pais aquilo que aprenderam e viveram aqui”, acrescenta Maria Luís ao POSTAL.

Gerações de tavirenses continuam ligadas ao Pimpão

Ao longo das últimas décadas, o Infantário Pimpão estabeleceu ainda parcerias com diversas entidades locais, escolas profissionais, universidades e instituições internacionais.

Atualmente, muitas das crianças que passaram pelo infantário regressam enquanto pais dos novos alunos, algo que as responsáveis encaram como reflexo do impacto que o Pimpão continua a ter na comunidade tavirense.

Para Eugénia Sousa, o segredo continua a estar na forma como vivem diariamente a profissão. “Transformar as ações educativas numa festa é o mais importante”, afirma, acrescentando que “se nós não estivermos motivadas, também não conseguimos motivar as crianças.”

Já Maria Luís resume o percurso no Pimpão como “um privilégio”.

“Transformar a educação num prazer continua a ser o mais importante”, concluem as responsáveis.

EJ/CM

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Partos aumentaram 3,7% em Portugal em 2025, com mães estrangeiras concentradas no Algarve e Lisboa

13 June 2026 at 08:30

Portugal registou 87.130 partos em 2025, mais 3.071 do que no ano anterior, o que representa um aumento de 3,7%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE)

A subida interrompe a quebra verificada entre 2023 e 2024 e retoma a tendência de crescimento observada desde 2022. De acordo com a publicação “Estatísticas dos partos”, o número de partos aumentou em todas as regiões do país, com exceção da Madeira, onde se registou uma diminuição de 3,3%.

Os dados do INE destacam ainda o crescimento da proporção de partos de mães de nacionalidade estrangeira, que passou de 26,3%, em 2024, para 28,8%, em 2025. Estas parturientes residem sobretudo em municípios do Algarve e da Grande Lisboa.

“O conjunto de nacionalidades estrangeiras mais representadas manteve-se em relação ao ano anterior, reforçando o peso no total de partos, com destaque para o Brasil (10,5% do total de partos em 2025)”, salienta o INE.

A região Norte registou o maior número de partos de mulheres residentes em Portugal, com 29,8% do total, seguindo-se a Grande Lisboa, com 25,6%, e a região Centro, com 13,7%. Nos últimos 20 anos, aumentou também a idade das parturientes.

Entre 2003 e 2025, a proporção de partos de mães com 35 ou mais anos passou de 17,2% para 32%. O INE sublinha ainda que as cesarianas aumentaram de 27,1% para 38,6% dos partos realizados em hospitais entre 1999 e 2024. Em 2025, 98,5% dos nascimentos ocorreram em estabelecimentos hospitalares.

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Irritações cívicas | Por Mendes Bota

13 June 2026 at 07:30

Num raro momento de generosidade para com os contribuintes, a Assembleia da República aprovou em 2006 uma nova Lei das Finanças Locais (Lei 2/2007 de 15 de Janeiro), na qual conferiu a cada Município 5% das receitas do IRS liquidado anualmente por quem tenha domicílio fiscal na sua área geográfica. Mas também foi dada a cada autarquia a possibilidade de devolver essa receita aos cidadãos, total ou parcialmente, assim aliviando a carga fiscal que asfixia a grande maioria (de quem paga impostos). Uma consulta ao sítio electrónico da Autoridade Tributária traz algumas revelações interessantes. Apenas seis dos municípios algarvios decidiram no sentido de devolver essas quantias na sua totalidade: Albufeira, Alcoutim, Aljezur, Lagos, Loulé e Vila do Bispo. Outros, ficam-se a meio caminho. S. Brás de Alportel, Silves e Vila Real de Santo António não devolvem um tusto, mas compreende-se. A um falta-lhe dimensão orçamental e territorial, outro deve ter uma visão ideológica do problema, e o terceiro continua afogado em dívidas passadas. Agora, dois dos municípios mais pujantes do Algarve, são dos mais avarentos. Faro, devolve a ninharia de 0,5%, e Olhão prescinde apenas de 1%. Há um elo comum chamado António Pina. Liderava Olhão, e agora chefia Faro. O sovina é o mesmo.

Claro que este é o tipo de irritação que encontra nos políticos o alvo mais fácil, o bode expiatório de todos os males, o exutório da frustração colectiva feita de um cúmulo de frustrações individuais. Aqui, o alvo está mesmo ali à frente como numa tenda de feira onde se atiram bolas de trapos para derrubar os bonecos. O pior são as irritações que advêm da falta de civismo dos cidadãos, e quando se multiplicam os exemplos quotidianos da falta de ética, onde prevalece o chico-espertismo de alguns, em claro desrespeito pelo próximo e pelas regras de convivência de toda a comunidade. Existem hoje condições no sistema escolar como nenhum de nós alguma vez sonhou. Todos os anos sai das universidades um número inacreditável de doutores, mestres, prof-docs. O analfabetismo clássico roça taxas marginais. A (des)informação tomou conta em excesso do nosso quotidiano, mas – porém todavia contudo como se costumava recitar antigamente – parece que os valores cívicos estão em queda livre.

Nunca houve tantas leis, tantas posturas municipais, tantos regulamentos, tantos sinais e códigos proibitivos, mas impressiona o número de indivíduos que têm prazer em vandalizar infraestruturas que pertencem a todos, como jardins, transportes, mobiliário urbano, monumentos, fachadas, contentores de lixo até. Independentemente da guerra dos guarda-sóis que subitamente se declarou nas nossas praias, é irritante ver quem se levanta cedo só para marcar com toalhas os espaços de areia que outros virão ocupar mais tarde, ou cativam espreguiçadeiras nas piscinas de prédios e hotéis. É irritante ver como certos automobilistas não respeitam as filas de trânsito, e intrometem-se mais à frente dos outros, sem vergonha nem rebuço. Há demasiados loucos na estrada, que se mocam dos limites de velocidade e da segurança de terceiros. Irrita que a polícia raramente esteja onde se pensa que faz falta. Irrita, ver certos adiantados mentais estacionar em lugares destinados a veículos de pessoas com certas dificuldades. Já para não falar, nos transportes públicos, de quem ocupa lugares reservados para idosos ou pessoas com mobilidade reduzida.

Causa irritação ver tanta gente de telemóvel na mão, ou nas orelhas, a falar aos gritos no meio da rua ou no interior de uma carruagem de combóio ou de autocarro, incomodando os outros, esparramando a sua própria privacidade como se estivesse numa cabine telefónica sem porta. Há um acréscimo de gente que atira garrafas, restos de comida, papéis, papelões e detritos de jardinagem para o meio da rua, sabendo que alguém terá de limpar a porcaria que faz. Tudo isto são irritações cívicas. Já agora, redireccionando os binóculos na direcção de quem manda nisto tudo, é revoltante ver a escassez de lugares destinados ao público que se encontra nas gares rodoviárias, ferroviárias ou aeroportuárias. Está tudo feito para o negócio, e para a exploração do zé povinho. Esgotados os parcos assentos disponíveis, a alternativa é ficar de pé, ou pagar comes e bebes para ficar sentado no espaço dos concessionários. Num país onde a taxa de atraso dos transportes é gigantesca, ninguém parece preocupado em servir o público como deve ser. É preciso é que pague e que consuma, mesmo que não lhe apeteça. Falta-nos cada vez mais a dimensão ética na atitude cívica. Que se lixem os princípios, salve-se quem puder, parece ser o mote dos tempos que correm.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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Filosofia portuguesa, a provável existência | Por Jorge Queiroz

12 June 2026 at 12:30

Há uma filosofia portuguesa? Foram diversas as tentativas de sínteses da História da Filosofia Portuguesa.

Nos séculos XVI e XVII a teoria geocêntrica foi substituída pela heliocêntrica, a Terra deixou de ser centro do universo, provou-se girar à volta do sol, a descoberta provocou mudanças profundas. As ciências autonomizaram-se da religião, a filosofia ganhou asas, capacidades e liberdade critica.

Encontramos centenas de obras de filosofia produzidas por autores portugueses ou de períodos anteriores à nacionalidade. As marcas são o debate do cristianismo primitivo face às heresias, identidades, o “encoberto” e o messianismo, sebastianismo, e o Destino, Quinto Império, problemáticas psicanalíticas mais recentes sobre “ser português”.

Da filosofia, repositório de temas da existência, uma breve viagem sobre Portugal.

JORGE QUEIROZ
Sociólogo

Na Idade Media surgiram teólogos como Paulo Orósio do século V, natural de Bracara Augusta, foi a Hipona conhecer Santo Agostinho, ambos escreveram obras inspiradas na tomada de Roma por Alarico I, o primeiro a “História contra os Pagãos” e Agostinho na “Cidade de Deus” reflecte sobre os Bárbaros e o ataque a Roma.

São Martinho de Dume, ou de Braga, no século VI, foi um bispo que escreveu o “De Correctione Rusticorum”, influenciado pelos ciclos astrais sugeriu o início equinocial do ano, a mudança da designação romana dos dias da semana para a forma actual.

Pedro Hispano ou João XXI (1215-1277), único Papa português, foi médico, professor, teólogo, escreveu a “Summulæ Logicales”, análise da lógica aristotélica que teve 260 edições em toda a Europa. Papa durante oito meses, morreu em Viterbo soterrado por um desmoronamento no palácio onde vivia.

D. Duarte (1391-1438), décimo rei de Portugal, o “Rei Filosofo”, escreveu o “Leal Conselheiro” e um manual de cavalaria, o “Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela”. Morreu vitimado pela peste deixando herdeiro menor, o futuro rei Afonso V “o Africano”.

O Infante D. Pedro (1392-1449) o mais culto da dinastia de Avis, “Infante das Sete Partidas” viajou pela Europa, foi regente dez anos por morte do irmão D. Duarte e por vontade popular. A “Carta de Bruges” dirigida ao irmão contém reflexões e recomendações sobre a boa governação ainda actuais. Escreveu o “Tratado da virtuosa benfeitoria”, traduziu o “Livro dos ofícios” de Cícero. Justo e ético, morreu em Alfarrobeira numa cilada da aristocracia feudal, deixou obra relevante, foi injustamente apagado da História de Portugal.

Com a expansão marítima portuguesa, revelou-se Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), cosmógrafo que negociou o Tratado de Tordesilhas, estava na armada de Pedro Alvares Cabral que “achou” o Brasil, deixou o misterioso “Esmeraldo Situ Orbis”, desaparecido durante 400 anos, reflecte a ciência sustentada pela prática, a “madre de todas as cousas”.

Damião de Góis (1502-1574) destacou-se nos centros da cultura europeia, foi secretário da feitoria de Antuérpia, guarda-mor da Torre do Tombo, conheceu Erasmo e Loyola, na sua extensa obra destacam-se a Crónica de D. Manuel I, universalista com temas inovadores. Despertou invejas, o companheiro jesuíta Simão Rodrigues denunciou-o à Inquisição como erasmista, foi maltratado e preso. Morreu em Alenquer, terra natal onde hoje existe um museu com o seu nome, dedicado às vítimas do Santo Ofício.

Francisco Sanches (1550-1622), foi um filósofo céptico, adversário do pensamento de Aristóteles, a sua obra de referência é “Quod nihil scitur” ou “O Que nada se sabe”.

O jesuíta Padre António Vieira (1608 -1697), missionário e pregador no Brasil e também filosofo, usou sermões para defender ideais humanistas e os indígenas, a abolição da escravatura. Em 2013 a obra completa de Vieira foi publicada em trinta volumes.

Luís António Verney (1713-1792), filosofo “estrangeirado” foi personalidade destacada do iluminismo português, criticou os jesuítas pela excessiva teorização e dogmatismo, o ensino devia basear-se na experiência. Escreveu o “Verdadeiro Método de Estudar” editado em 1746 a pedido de D. João V, colaborou na reforma do ensino, defendeu que a escola elementar devia ser para ambos os sexos e para todas as classes sociais, paga pelo Estado. Exilou-se em Roma, devido às ameaças, onde morreu.

O atribulado século XIX, com invasões napoleónicas, fuga da corte para o Brasil, guerra civil entre liberais e absolutistas, o ultimato inglês deu origem a acesos debates e à ascensão das correntes republicanas. Sucederam-se pensadores como Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846) anti idealista defendeu a separação entre filosofia e ciência, teve a oposição de Guerra Junqueiro (1850-1923) Sampaio Bruno (1857-1915), Teófilo Braga (1843.-1924),…

A Geração de 70, reflecte o mal-estar do século XIX, os “Vencidos da Vida” teve continuidade no século XX, no debate entre as visões europeístas e antieuropeístas.

Entre a I Republica e o Estado Novo entre 1910 e 1932 surgiu a revista “A Águia” órgão da Renascença Portuguesa nela escreveu António Sérgio. O movimento filosófico da Escola do Porto, inspirou-se em Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, Amorim Viana e outros.

Em 1943, Álvaro Ribeiro publicou “O Problema da Filosofia Portuguesa”, considerava que o pensamento filosófico em Portugal não era autónomo, porque exposto a sistemas filosóficos estrangeiros, a dialéctica de “castiços” e “estrangeirados”.

Cabral de Moncada afirmou em 1960 que a “preocupação nacionalista mais ou menos extravagante, é fortemente detractora das filosofias estrangeiras e quase xenófoba“, António Braz Teixeira considerava a ideia de Deus, que as relações entre a filosofia e a religião são o cerne do debate especulativo português, Fernando Pessoa como uma «forma de provincianismo mental».

Eduardo Lourenço em finais do século XX afirmou “logo que nos aproximamos da linha tórrida do racional tornamo-nos tímidos, ficamos paralisados, perdemos a imaginação”.

Personalidade filosófica singular e libertária não enquadrável em grupos foi Agostinho da Silva (1904-1994), exiliado político, expulso do ensino por se recusar a assinar a declaração de que não participava em “organizações subversivas”. Foi para o Brasil em 1947 onde leccionou em Universidades, regressou a Portugal em 1969. Deixou extensa obra como as “Sete cartas a um jovem filósofo” (1945), “Carta Vária” (1989) e “Vida conversável” (1994).

Entre os filósofos da segunda metade do século XX de uma corrente com proximidades com a psicologia social e a psicanalise destacaram-se os irmãos Fernando e José Gil, Mário Sotto Mayor Cardia, Eduardo Lourenço.

A filosofia portuguesa é um oceano de turbulências, o mistério de existir.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Leia também: Geohistória e alterações climáticas | Por Jorge Queiroz

Algarve: Reino da Água no Império de Aquém e Além-Mar | Por Virgílio Machado

12 June 2026 at 11:30

As relações entre água, sociedade e poder são estudadas na geopolítica. Neste cantinho da Península Ibérica que foi Reino multisecular e de Aquém e Além-Mar cumpre discernir significados e sentidos políticos associadas à hidrografia de massas de água como ribeiros, rios, açudes, correntes, barragens, lagos, mares e oceanos.

Afinal, Portugal foi Império construído na água, segundo Jerry Brotton em Trading Territories. Faz sentido. Mas teria o Algarve, esse ufanado Reino, algum antecedente nessa construção? A hipótese é ousada. Aceita-se o desafio. Com observação atenta e estrutural.

Existe um fortíssimo legado de água em toponímias de cidades ou lugarejos no Algarve. Lagos, Lagoa, Olhão, Albufeira são hoje sedes de município. Fontes da Benémola, Santa em Quarteira, do Poço do Bispo, de Boliqueime, Sítio das Fontes, Olhos de Água induzem urbanidade no seu controlo e domínio.

VIRGÍLIO MACHADO, Professor da UAlg e autor dos livros
“Viagem ao Reino do Algarve” e “Portugal Geopolítico”

Nomes atuais de rios e ribeiras (Guadiana, Odeleite, Odelouca), provindos do wad árabe, constituíram reforço de uma cultura hidrológica perene, fonte de riqueza e poder para atividades humanas diversas como agricultura, produção de energia ou fluxo de água para orientação no transporte e comércio.

O respeito do Guadiana como fronteira natural entre Portugal e Castela no Tratado de Badajoz de 1267 na fundação do Reino do Algarve português. Facto geopolítico singular na história medieval peninsular prenunciador da importância da água na demarcação  e aceitação das ordens políticas. O mar, a sul e ocidente, seriam outros elementos naturais para domínio e controlo do Reino, facto hidropolítico que o vincularia à procura de outras margens além-mar, na existência de ameaças inimigas que nele se transportavam para saque, pirataria e captura de escravos.

Fortaleza de Sagres. Fonte (Município de Faro, 2026)

Eventos dramáticos têm consequências geopolíticas dinâmicas. Ainda que faltem dados científicos decisivos, secas como as 1385-1398 ou 1412-1413, marcaram escassez de trigo com a necessidade de sua procura para o Norte de África. Assim como de ouro para pagamento do financiamento da guerra com Castela até 1411. O Algarve seria apoio decisivo nas expedições marítimas e militares consequentes.

O controlo apurar-se-ia no tempo. Cartas marítimas precisas que localizavam rotas de navegação, mercados e mercadorias. Implantação de portos e ilhas chave em bacias hidrográficas com água potável. Conhecimento prático de ventos, marés e inclinações de sol e lua para eficiência no transporte marítimo. O respeito toponímico da cultura hidrológica no Algarve é causa e reflexo da expansão geopolítica de Portugal. Os reis recusaram a expressão Império. Preferiram Reino dos Algarves de Aquém e Além-Mar.

A assimilação dos mouros foi outro fator decisivo. A miscigenação e o casamento inter-racial foram mote inspirador. J. H. Parry e Boies Penrose em Europe and a Wider World e The Age of Discovery apontam aqui a fragilidade da eficiência administrativa e prática na ordem imperial portuguesa face aos congéneres europeus. Pela mistura inter-racial que prejudicou capacidades de hierarquia e controlo. Mas a História do Algarve teve outros antecedentes.

Nas periferias dos Impérios, em reação militar, formam-se outros Impérios. O Império Otomano na periferia do Bizantino. Ou as confederações bárbaras nos confins do Romano. Por sua vez, na Baixa Idade Média, as tribos nómadas berberes do Norte de África procuraram em sociedades agrárias ou com boas localizações comerciais, extorsão de recursos, coleta de impostos ou termos favoráveis de troca. O Sul Ibérico seria cobiçado e conquistado.

Entre o desmembramento do Califado de Córdova(1031) e a conquista do Algarve(1249-1250), dois Impérios berberes formaram-se, os Almorávidas e os Almoadas, caracterizadas por um sunismo ortodoxo religioso e monoteísmo profundo. Chegaram a ter entre 1 e 2 milhões de km2 de extensão.

Rio Guadiana. Fonte (Município de Faro, 2026)

A resposta do Portugal cristão vitorioso seria nomádica e mimética. O fim dos Almoadas no Algarve nunca deixou de criar um efeito reflexo, como desejo de um Império- Espelho alimentado por brilhos de outrora e ameaças atuais sobre capacidade militar, desafios no acesso renovado a trigo, cobiça em ouro para meio de pagamento e escravos para mão de obra no Norte de África. O Algarve fronteira seria o território logístico conveniente.

É a História do Império nomádico português causa das suas forças e fraquezas. Marítimo, com vocação agrária assente em produtos exportáveis, menor capacidade de coleta de impostos populacionais, dependência de pontos-chave críticos para vantagem no transporte e comércio, matriz energética e de produção alimentar dispersas. O Algarve inspirou matricialmente a experiência hidrográfica.

Nas falésias de Sagres, fronteiras da bacia do Guadiana ou nas águas da Ria Formosa respira-se uma das belas Histórias HidroPolíticas do Mundo. A Água como suporte de identidade geopolítica. Não há melhor forma de inspirar o respeito do Poder pela Natureza!

Virgílio Machado, autor dos livros “Viagem ao Reino do Algarve” e Portugal Geopolítico” (http:reinosdoalgarve.com).

Leia também: O primeiro mapa geopolítico de Portugal (e do Algarve) | Por Virgílio Machado

A melhor coisa em ser eu, é ter umas óptimas mamas. A pior é só verem isso: Pornoprecariedade e feminismo em Mia Khalifa | Por Cobramor

12 June 2026 at 10:40

Mia Khalifa sentiu, no cinema porno, uma glória com duração tão efémera como a das ejaculações masculinas a que foi sujeita.

Embora tenha sido apenas actriz de filmes para adultos durante três meses, foi o suficiente para carregar uma mácula frequentemente associada à da prostituição, embora a relação entre ambas seja virtualmente nula.

Desde então, tentou e falhou em vários empregos 9 às 5, de empregada de escritório até comentadora desportiva, devido à dificuldade de se libertar do estigma da pornografia, sofrendo regularmente os efeitos no já intrinsecamente ambiente de toxicidade corporativa.

COBRAMOR
Autor, tradutor e editor

Como forma de assumir o controlo da narrativa da sua própria sexualidade e corpo, e também como rejeição declarada do ciclo de exploração da produtora de filmes pornográficos que detém os direitos dos seus filmes, disponíveis na internet, optou, como tantas outras mulheres, pela plataforma onlyfans, onde pode decidir os limites e o grau de exposição.

Mia reconhece e assume toda as contradições que encarna ao afirmar-se feminista e criticando abertamente a uberização da indústria pornográfica, subsistindo, simultaneamente da mesma linha extractiva, com a lucidez de quem foi sujeita, mesmo brevemente, ao varrimento de quaisquer barreiras na maximização da rentabilidade da degradação feminina.

Mia Khalifa. Crédito: Slow Factory

A controvérsia sobe de nível pela fama ter surgido quando filmou cenas de sexo envergando um hijab, numa confirmação da hipersexualização étnica, materializada no infindável fetiche da dominação eurocêntrica sobre todos os corpos femininos, em particular, os racializados.

Nunca tal a impediu de se pronunciar contra a instrumentalização cum shot das mulheres pelo capitalismo normalizador da violência sexual, de género como exercício hegemónico do poder.

Ao ser libanesa filha de emigrantes, Mia ilustra na perfeição a tese de Edward Said, onde a única característica unificadora dos orientais é uma fabricação pseudogeográfica e antropológica ocidental. Toda a sua identidade foi construída por terceiros, na impossível encruzilhada do conflito entre as exigências dum cristianismo neoliberalizado e as do neoconservadorismo islâmico. Chegou mesmo a conhecer períodos de crise aguda onde tentou, em todos os sentidos, branquear-se, para corresponder à ideia predominante da mulher ocidental, sucumbindo tanto ao beco sem saída do género feminino como à labiríntica condição de Estrangeiro, ambos, papéis desenhados pela autoridade masculina.

Surgindo como uma Barbie, não no sentido tradicional, mas no reformado como proposto pelo filme homónimo, Mia tem feito a travessia do trauma para a cura, numa manifestação exacta da cultura pós-moderna, apesar de todas as forças a empurrarem, o sentido oposto.

Todas as críticas de Mia à estrutura heteronormativa, cujas tendências são ditadas pela pornografia, são frequentemente desconsideradas, dada a razão da sua fama, numa obstrução de qualquer possibilidade de reconhecimento da sua autenticidade ou mesmo redenção – ambas, concedidas, por defeito ao género masculino.

Assim, vê todas as suas acções automaticamente remetidas para a esfera performativa e sexualizada, também devido às suas voluptuosas formas, exibindo-as despudoramente enquanto critica a mentalidade que as valoriza sobre outras características femininas, expondo assim a armadilha dessa atenção vazia. Como a própria descreve: a melhor coisa em ser eu é ter umas óptimas mamas, a pior é só verem isso.

A Mia, resta frequentar o pântano dos apátridas, não encaixando nos modelos americanos ou nos libaneses. Nessa zona cinzenta tanto autónoma como ghettificada Mia ostenta, qual estandarte, a sua unibrow – inaceitável pelos padrões de beleza ocidentais e pela qual foi humilhada – como orgulhoso símbolo de revolta e afirmação árabe, igualmente sustentada na sua permanente crítica à situação do Médio Oriente, desenhando um paralelo entre a indiferença perante o genocídio e o male gaze do voyeurismo sobre as mulheres.

O triplo grau de desumanização a que Mia tem sido sujeita – actriz porno, mulher e imigrante – remetem-na para a situação limite de decidir entre a submissão às lógicas mercantis ou à autoexploração nos próprios termos, concedendo-se espaço para recorrer a uma artificialização da beleza acompanhada de uma censura às condições que a encorajam, também na forma de autocrítica.

Identificando as tensões internas do feminismo, onde tantas vezes o moralismo burguês de raiz religiosa colide com a vontade de interseccionalidade, Mia é apátrida também nessa ideologia que a rejeita por falta de enquadramento na ideia ocidental de emancipação. Não só o seu corpo é o proverbial campo de batalha anunciado por Barbara Kruger na sua arte homónima produzida para a Marcha de Washington em 1989, mas também por ser duplamente refém, tanto do fetiche como das restrições do orientalismo.

Se o uso declarado do corpo para consumo alheio, a inscreve na categoria das trabalhadoras sexuais, essa condição proletária apenas se consegue mover nas franjas do proletariado maioritariamente conservador e assim sustentáculo involuntário da arquitectura pornoprecária, inspiradora e também continuidade do mundo do trabalho, antecipadora em décadas do pseudonarcisismo da cultura influencer / empreendedor.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Leia também: Cristina Ferreira, santa padroeira do machosfera | Por Cobramor

Nova loja Goldpet em Faro aposta em produtos, serviços e aconselhamento personalizado

12 June 2026 at 10:00

A Goldpet chegou a Faro em meados de março e trouxe consigo muito mais do que uma nova loja dedicada aos animais de estimação. A marca, fundada por Cristóvão Francisco, nasceu no centro do país e cresceu de forma sustentada até se tornar uma referência nacional no setor pet, contando atualmente com 14 lojas físicas, uma loja online com mais de 30 mil produtos e vários serviços especializados.

A história da Goldpet começou de forma simples, mas profundamente ligada à paixão pelos animais. Tudo teve origem na criação de cães da raça Golden Retriever, uma experiência que levou Cristóvão Francisco a procurar constantemente produtos de elevada qualidade para os seus próprios animais. Com o passar do tempo, os clientes começaram a pedir-lhe conselhos, recomendações e sugestões, numa dinâmica de proximidade e confiança que acabaria por dar origem ao negócio.

“Quem entra numa loja de animais procura aconselhamento, confiança e alguém que compreenda verdadeiramente as necessidades do seu animal de estimação”

O projeto começou em Caldelas, no concelho de Leiria, inicialmente com a venda de alimentação porta a porta. À medida que os pedidos aumentavam e os clientes procuravam cada vez mais soluções para os seus animais de companhia, surgiu a oportunidade de criar a primeira loja Goldpet. Desde então, a marca nunca perdeu aquela que considera ser a sua essência: a relação próxima com os clientes e o acompanhamento personalizado de cada animal.

Hoje, a Goldpet apresenta-se como um verdadeiro “ecossistema” dedicado ao bem-estar animal. Nas lojas é possível encontrar alimentação, acessórios, brinquedos, produtos de saúde e higiene para cães, gatos, aves, roedores, peixes, répteis e até animais de quinta. A oferta inclui ainda serviços especializados como o Gold Pet Spa, a clínica veterinária Goldvet e a pousada canina Encosta dos Carvalhos.

Na unidade de Faro, um dos destaques é precisamente o Gold Pet Spa, um serviço que tem registado uma procura crescente.

O espaço disponibiliza banhos, tosquias, corte de unhas, limpeza de ouvidos e outros cuidados de higiene, realizados por profissionais especializados em grooming. A aposta passa por proporcionar conforto, bem-estar e acompanhamento individualizado a cada animal.

“Cada animal é único e merece um acompanhamento pensado à medida das suas necessidades”

Mais do que vender produtos, a Goldpet acredita na criação de relações duradouras com os tutores e os seus animais. A equipa acompanha o crescimento dos animais ao longo dos anos e procura adaptar as recomendações às necessidades específicas de cada fase da vida, seja um cachorro, um animal sénior ou um animal com sensibilidades alimentares.

Outro dos aspetos que a marca faz questão de destacar é a sua vertente social. A Goldpet mantém uma ligação próxima à comunidade e às associações de bem-estar animal, participando regularmente em iniciativas solidárias e apoiando causas ligadas à proteção animal.

O apoio a entidades que trabalham diariamente no resgate e recuperação de animais abandonados faz parte da identidade da empresa, que considera essencial assumir um papel ativo e responsável na sociedade.

“Mais do que uma pet shop, a Goldpet procura ser um espaço de proximidade entre os animais, os tutores e a comunidade”

Ao nível da seleção de produtos, a preocupação principal passa pela qualidade. A marca procura trabalhar com fornecedores e fabricantes que garantam elevados padrões de produção, visitando frequentemente fábricas e acompanhando os processos de fabrico dos produtos que chegam às prateleiras.

Segundo Cristóvão Francisco, existe atualmente uma tendência crescente por parte dos criadores e tutores de animais para a saúde preventiva, bem como uma maior preocupação com alergias, intolerâncias alimentares, alimentação natural e sustentabilidade.

Esta evolução do mercado tem levado a Goldpet a adaptar continuamente a sua oferta e a procurar soluções cada vez mais ajustadas às necessidades dos animais e dos seus tutores.

“A ambição da Goldpet passa por crescer sem perder aquilo que sempre definiu a marca: proximidade, confiança e paixão genuína pelos animais”

A chegada ao Algarve surgiu precisamente dessa perceção de procura crescente por um serviço mais especializado e próximo. Faro foi escolhida pela dinâmica da cidade, pela forte ligação das famílias aos animais de estimação e pelo potencial de crescimento da região.

Para a Goldpet, esta abertura representa não apenas a expansão para o sul, mas também a oportunidade de criar novas ligações com a comunidade algarvia, incluindo residentes e visitantes de uma região fortemente marcada pelo turismo.

GOLPET FARO

Endereço: Rua Monsenhor Henrique Ferreira da Silva, n.º 7 A – FARO (junto ao Pingo Doce)

Contacto: 289 804 025

www.goldpet.pt

Horário de funcionamento:

Dias úteis – 10:00 – 14:00 e das 15:00 – 20:00

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Um jardim fora do tempo | Por Maria João Neves

12 June 2026 at 09:45

Queridos leitores e participantes do Café Filosófico,

O texto que vos deixo para esta sexta sessão dedicada ao Estoicismo é inteiramente ficcional. Nasceu do desejo — quase da necessidade — de imaginar uma conversa entre dois grandes pensadores andaluzes: María Zambrano, natural de Vélez-Málaga, e Séneca, nascido em Córdoba. Ambos se envolveram na política do seu tempo, ambos sofreram as agruras da condenação ao exílio.

A ligação entre ambos não é apenas fruto da imaginação. María Zambrano dedicou mesmo uma obra a Séneca, reconhecendo nele uma voz filosófica profundamente próxima da sua própria reflexão sobre a condição humana, a razão e o destino.

Embora separados por mais de vinte séculos, sinto que este diálogo impossível faz todo o sentido. E é precisamente essa conversa sonhada, construída entre tempos, silêncios e afinidades, que hoje quero partilhar convosco.

Um jardim fora do tempo

O entardecer descia lentamente sobre o branco pátio andaluz. As colunas lembravam vagamente a mesquita de Córdoba; a brisa trouxe de longe o perfume do mar, como se soprasse desde Vélez-Málaga. Não havia Roma, nem Madrid, nem século algum. Apenas duas figuras caminhando lado a lado: Séneca e María Zambrano.

MARIA JOÃO NEVES
Doutorada em Filosofia Contemporânea, Vice-presidente BlueZC Institute (www.bluezc.com)

Zambrano: Há lugares que continuam a viver dentro da alma mesmo quando somos expulsos deles. A Andaluzia é um desses lugares. Não é apenas terra; é uma luz que permanece na memória.

Séneca: O sábio aprende que nenhuma terra lhe pertence verdadeiramente. Somos hóspedes do mundo.

Zambrano: E, no entanto, sofremos quando somos arrancados da origem.

Séneca: Sofremos porque confundimos o necessário com o eterno. Fui exilado para a Córsega e descobri que o homem leva consigo a sua verdadeira pátria: o espírito disciplinado.

Zambrano: Tu transformaste o exílio em exercício moral. Eu transformei-o em noite interior. Cruzar fronteiras, perder Espanha, atravessar oceanos… tudo isso me ensinou que a alma humana não pensa apenas com conceitos — pensa com feridas.

Séneca: A dor pode instruir, se não a transformarmos em tirana.

Zambrano: Mas há dores que falam como oráculos. A minha filosofia nasceu ouvindo aquilo que a razão pura desejava calar: o coração, o sonho, a memória, a esperança, o delírio, a poesia. Assim é a razão poética.

Séneca: Explica-me essa razão. Na minha escola, a razão deve governar as paixões.

Zambrano: A tua razão é solar. Quer clareza, firmeza, ordem. A minha aceita também a sombra. Há verdades que não aparecem sob a luz violenta da lógica. Algumas revelações chegam como música distante, entendem-se melhor na penumbra.

Séneca: Então desejas reconciliar filosofia e mistério?

Zambrano: Sim. O homem não vive apenas de conceitos. Vive de símbolos, de silêncio, de esperança. A filosofia muitas vezes expulsou a alma para construir sistemas perfeitos.

Séneca: E, no entanto, sem disciplina interior, a alma dispersa-se. Vi em Roma homens destruídos pelos desejos, pela ambição, pelo medo da morte. Considero a razão a nossa maior aliada na luta contra as paixões.

Zambrano: Também na política do meu século vi ideologias transformarem homens em abstrações. Talvez por isso eu tenha desconfiado das filosofias excessivamente sistemáticas e tenha querido acolher as razões do coração.

Séneca: Isso pode ser perigoso? A tirania nasce quando o homem deixa de se governar a si mesmo. Nero queria dominar o mundo porque era incapaz de dominar os seus próprios impulsos.

Zambrano: Tu estiveste tão próximo do poder. Isso atormentava-te?

Séneca: Todos os dias. Ensinar virtude a um imperador é como tentar ensinar serenidade a uma tempestade. Permaneci porque pensei poder moderar a violência. Talvez me tenha enganado.

Zambrano: Mas tentaste viver a tua filosofia. Isso é raro.

Séneca: Nem sempre consegui. O filósofo não é um deus; é um doente que tenta curar-se enquanto ajuda outros doentes.

Zambrano: Essa frase contém mais verdade do que muitos tratados. Também eu fracassei muitas vezes. Escrevia sobre esperança enquanto atravessava desespero. Falava da aurora enquanto caminhava pela noite do exílio.

Séneca: Talvez a filosofia verdadeira só possa nascer assim: quando a vida põe à prova cada palavra.

O vento moveu as folhas do limoeiro sob o qual conversavam. Durante alguns instantes, ambos permaneceram em silêncio.

Zambrano: Diz-me, Séneca: o que é a liberdade?

Séneca: Não depender daquilo que o destino pode tirar. Quem depende da riqueza, da glória ou da aprovação vive acorrentado. Livre é aquele que governa a sua alma.

Zambrano: Vejo nisso grandeza, mas também certa solidão. Eu diria que a liberdade nasce quando o ser humano consegue reconciliar-se consigo mesmo e com o mistério do mundo. Não apenas dominar-se — escutar-se.

Séneca: Escutar-se sem disciplina pode ser perigoso.

Zambrano: E disciplinar-se sem escutar-se pode matar a alma.

Séneca: Talvez as nossas filosofias sejam dois remédios para doenças diferentes.

Zambrano: Sim. Tu escrevias para um império fatigado pelo excesso. Eu escrevia para um século destruído pela ruptura interior.

Séneca: Mas ambos vimos o mesmo abismo: o homem afastado de si.

A primeira estrela apareceu no céu, e o perfume do jasmim espraiou-se pelo ar.

Séneca: Sempre considerei a morte uma lei natural. Não deve ser temida.

Zambrano: Eu nunca consegui olhar a morte apenas com serenidade estóica. Para mim, ela permanece envolta em sombra sagrada. Não apenas termina a vida — revela algo dela.

Séneca: A morte revela o valor do tempo.

Zambrano: E também a fragilidade da consciência humana. Talvez por isso eu tenha amado tanto a aurora: porque cada amanhecer parece dizer que a verdade ainda não terminou de nascer.

Séneca: Enquanto eu preferia o entardecer. A hora em que o espírito recolhe o que aprendeu durante o dia.

Zambrano: Aurora e entardecer… talvez sejamos dois modos da mesma luz andaluza.

Séneca: Dois exilados procurando uma pátria que não pode ser conquistada pelos exércitos.

Zambrano: Como se chama essa pátria?

Séneca: Ataraxia — Serenidade.

Zambrano: Mas afinal, que lugar ocupam os sentimentos no teu estoicismo?

Séneca: Não lhes nego lugar algum, María, apenas lhes recuso o trono. Os sentimentos pertencem à natureza humana; surgem em nós como o vento levanta o mar. O erro não está em senti-los, mas em entregar-lhes o governo da alma. Há uma primeira comoção que nenhum sábio evita: o estremecimento diante da perda, a sombra do medo perante a morte, a ternura diante do sofrimento. É próprio da condição humana.

O estoicismo não deseja transformar o homem em pedra. Deseja apenas que ele não se torne escravo das suas tempestades.

Zambrano: Talvez, Séneca, a nossa divergência não esteja nos sentimentos, mas no modo como escutamos aquilo que eles revelam.

Tu desejas salvaguardar a lucidez contra a tirania das paixões — e compreendo a nobreza desse esforço. Mas eu temo que, ao exigir dos sentimentos que se submetam à medida da razão, acabemos por ouvir apenas aquilo que a consciência já consegue traduzir em ordem. Há zonas da alma que chegam antes da clareza; regiões obscuras onde a verdade ainda não aprendeu a falar através de conceitos.

O sofrimento, por exemplo, nem sempre vem para ser dominado. Às vezes vem para abrir. Há dores que desorganizam o eu precisamente porque trazem consigo uma revelação impossível de alcançar pela serenidade. O homem não se conhece apenas quando se governa a si mesmo; conhece-se também quando se perde, quando vacila, quando desce às suas próprias entranhas.

E talvez a filosofia tenha cometido, durante séculos, o erro de querer iluminar demasiado cedo aquilo que precisava amadurecer na penumbra.

Não desejo um homem afogado pelas paixões, tampouco. Mas temo o homem excessivamente reconciliado consigo mesmo. Há uma lucidez que protege — e outra que empobrece. Talvez a verdade não habite apenas na calma do sábio, mas também na inquietação do homem comum.

Café Filosófico | 17 Junho 2026 | 21:00 – 22:30 | Club Farense | Contribuição: 5€ | Inscrições: filosofiamjn@gmail.com

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia

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EA 24: A pedra de Roseta | Por José Garrido

12 June 2026 at 08:30

Quando Ptolomeu V foi coroado rei do Egipto em 204 AC, o aparelho de estado, numa iniciativa com prática pujante até aos dias de hoje, apressou-se a emitir um decreto estabelecendo o culto divino do novo governante… Pese embora o papiro estivesse nessa altura em uso continuado havia mais de dois mil anos, era práctica comum que as leis mais relevantes fossem entalhadas numa laje de pedra, uma estela, instalada num templo.

Séculos mais tarde, em data imprecisa, talvez na Idade Média, como tantas vezes na história, a pedra, sem atenção ao seu papel e mensagem original, foi utilizada como material de construção numa fortificação na cidade de Roseta, no delta do Nilo, a sessenta quilómetros a leste de Alexandria.

Novo salto na história, em 1798, Napoleão Bonaparte embarca para a sua Campanha do Egipto, nos três anos seguintes deambula pelo Próximo Oriente, somando vitórias, derrotas e também episódios caricatos… não resiste à tentação de se enroupar na religião local e por ocasião do aniversário do Profeta apresenta-se de turbante, vestido à oriental, e proclama-se ‘digno filho do Profeta’, nada que Alexandre não tivesse feito 2000 anos antes, filho de Amon, ou que Trump não faça com os seus memes com Cristo.

JOSÉ GARRIDO
Consultor em Marketing Turístico e Escritor

Sensivelmente por essa altura, o tenente francês Bouchard, redescobre, por entre as muralhas arruinadas do forte de Roseta, a estela de Ptolomeu V que é recolhida com o propósito de a despachar para Paris. Os grandes homens sabem quando começam as campanhas militares, mas a verdade é que ninguém prevê quando elas acabam – o que também é válido até hoje. Cópias da pedra original são então distribuídas por várias instituições. A estela é capturada pelas tropas inglesas e termina no British Museum, onde continua a ser exibida, com curtos hiatos, como quando por receio dos bombardeamentos de Londres, esteve temporariamente num dos túneis do chamado metropolitano postal a 15 metros de profundidade, próximo de Holborn. Com o número de inventário “EA 24”, é considerada o objecto mais visitado do museu.

Figeac na Occitânia. Crédito: José Garrido

Adiantando a história: sabemos de que tratava a pedra, mas não logo à época da sua descoberta. Que Ptolomeu tinha feito uma oferta de prata e cereais ao templo – ça va de soit, poderia ter dito o tenente Bouchard, na altura – que as cheias do Nilo tinham sido particularmente fortes naquele ano e que haviam represado as águas – aqui está a primeira coisa que não parecemos ter aprendido com a história – e que, como contrapartida, o clero honraria o nascimento e a coroação do rei como dias santos e prestar-lhe-ia culto ao lado dos outros deuses.

Estará o leitor a perguntar-se: onde é que vai esta digressão histórica? Peço-lhe um pouco mais de paciência.

A reprodução gigante da Pedra de Roseta. Crédito: José Garrido

O decreto inscrito na estela termina com a indicação de que seja colocada uma cópia em cada templo escrita na “língua dos deuses”, os hieróglifos egípcios, na “língua dos documentos oficiais” uma versão mais moderna do egípcio, usada nos negócios e pelas pessoas no seu dia-a-dia, e “na língua dos gregos” então utilizada na corte ptolemaica. Ou seja, a Pedra de Roseta apresentava-se, à época, apesar de os textos estarem incompletos, como um documento único: trilingue.

Agora sim.

Figeac é uma pequena cidade histórica, arrimada à margem do rio Célé, na região francesa da Occitânia. Para além de um centro histórico medieval de grande interesse, com profusão de edifícios de notável arquitectura, foi a terra do linguista Jean-François Champolion, famoso por ter sido o primeiro a decifrar o mistério, ou os mistérios, da Pedra de Roseta, providenciando a sua primeira tradução.

Bem no coração de Figeac, um excelente edifício de vários andares, perfeitamente integrado no casco urbano, alberga o museu que lhe é dedicado, o Museu Champolion das Escritas do Mundo, sobre a evolução diacrónica das diferentes escritas que a humanidade foi desenvolvendo desde os alvores da História.

Uma rua de Figeac. Crédito: José Garrido

Não contam com o original da Pedra de Roseta, mas sim com uma réplica – moldagem precisa – a instrumentação moderna para a sua análise detalhada e uma instalação artística de grandes dimensões recobrindo o pátio, ao ar livre, do próprio museu.

Desde 1799 que se sabia que a pedra tinha o carácter de um documento trilingue, mas pouco mais se sabia. Sensivelmente desde o fim do Império Romano que a língua dos hieróglifos deixara de ser entendida, a componente grega, apesar do conhecimento generalizado do grego antigo, utilizava a versão helenística da corte ptolemaica, uma coisa razoavelmente desconhecida, e o texto em demótico, pensava-se, que fosse língua copta. Logo em 1803 foi possível contar com uma tradução do grego, mas graças ao génio de Champolion, apenas vinte anos mais tarde era anunciada a decifração dos hieróglifos. Um trabalho meticuloso de recuperação das três versões do mesmo texto e, a partir daí, não só a sua interpretação integral como o estabelecimento do seu papel instrumental na descodificação de muitos outros textos.

Orgulho no filho da terra. Crédito: José Garrido

Em Junho de 1823 Champolion escrevia a um colega: “A minha investigação demonstrou que o sistema gráfico egípcio […] é uma mistura de três tipos de sinais empregues simultaneamente em todos os textos […]: sinais figurativos, sinais simbólicos e sinais fonéticos (dos sons).“

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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Duas trilogias depois, de Philip Pullman | Por Paulo Serra

12 June 2026 at 07:30

Philip Pullman, nascido em Norwich, Inglaterra, em 1947, foi catapultado para o sucesso em 1995 com Mundos Paralelos (His Dark Materials no original), trilogia constituída pelos volumes Os Reinos do Norte, A Torre dos Anjos e O Telescópio de Âmbar, publicados pela Editorial Presença e relançados com novas capas em 2018, quando o autor decidiu regressar a este fantástico universo com La Belle Sauvage, primeiro volume da nova série intitulada O Livro Do Pó.

Ainda criança, o autor viveu no seu país, no Zimbabué e na Austrália. Quando tinha onze anos, a família regressou definitivamente a Inglaterra. Frequentou a Faculdade de Exeter, onde descobriu o seu interesse pela literatura do género fantástico. Teve diversas profissões antes de se tornar professor em Oxford. Dedicou-se então à criação literária, começando por escrever textos de teatro e contos. A partir de 1985 passou a produzir romances, mas foi em 1995 que alcançou o sucesso à escala internacional com Mundos Paralelos. A trilogia, traduzida em mais de 40 línguas e com vendas superiores a 18 milhões de exemplares, foi selecionada como uma das 100 melhores obras de todos os tempos pela revista Newsweek, tendo uma adaptação cinematográfica de êxito mundial com o título A Bússola Dourada.

PAULO SERRA
Doutorado em Literatura na UAlg
e Investigador do Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC)

Um dos escritores mais aclamados da atualidade, foi distinguido com vários prémios literários de grande prestígio, incluindo o Carnegie Medal; o Guardian Children’s Book Award; o Whitbread Prize, concedido pela primeira vez a um autor de obras infantojuvenis, e o Memorial Astrid Lindgren Prize, pelo conjunto da sua obra.

O que surpreendeu na nova trilogia, O Livro Do Pó, foi a Acão reportar ao período em que Lyra era apenas bebé, sendo, portanto, anterior às aventuras de Mundos Paralelos, além de que se previa que os próximos livros poderiam saltar para outro tempo distinto.

Em 2026, por estes dias, a Editorial Presença faz chegar às livrarias o terceiro e último volume da segunda trilogia. Trinta anos depois de o mundo conhecer Lyra Belacqua, este livro representa o grandioso desfecho da saga O Livro do Pó e de um dos universos mais marcantes da literatura contemporânea.

Em jeito de pré-publicação leia-se a apresentação e sinopse do livro disponibilizada pela editora no site:

«Lyra: o que farás quando encontrares este lugar no deserto, esta abertura para o mundo das rosas?

– Defendê-lo – disse Lyra. – Morrer a defendê-lo.»

«Quando os leitores deixaram Lyra em A Aliança Secreta, ela estava sozinha, nas ruínas de uma cidade abandonada. Pantalaimon tinha fugido em busca da imaginação que acreditava ter perdido. Desde então, Lyra atravessou o mundo a partir de Oxford, determinada a reencontrar o seu daimon. E Malcolm, sempre fiel, partiu também numa longa jornada, seguindo as Rotas da Seda em busca dela. Em O Campo de Rosas, as suas buscas convergem da forma mais perigosa. Eles terão de recrutar a ajuda de espiões e ladrões, grifos e bruxas, velhos e novos amigos, para desvendarem as verdades profundas e surpreendentes do aletiómetro. À sua volta, o mundo arde, dominado pelo medo, pelo poder e pela ganância. Lyra e Malcolm viajam para este, em direção ao edifício vermelho, onde se voltarão a encontrar e, com sorte, obterão respostas sobre o Pó, sobre as rosas especiais e sobre a imaginação. Contudo, à medida que se aproximam do seu objetivo, aproximam-se também do poderoso Magisterium, que ameaça destruir tudo o que Lyra ama.»

O Livro do Pó – volume 1: La Belle Sauvage

Philip Pullman nasceu em Inglaterra em 1947, foi professor em Oxford e começou a escrever em 1985, alcançando sucesso uma década depois com a trilogia Mundos Paralelos (His Dark Materials), amplamente premiada, traduzida em mais de 40 línguas e com mais de 18 milhões de exemplares vendidos. O primeiro volume da saga foi adaptado ao cinema, com o título A Bússola Dourada, e Nicole Kidman num dos principais papéis.

La Belle Sauvage é o primeiro dos três livros que compõem O Livro do Pó

Quinze anos depois de Os Reinos do Norte ter sido publicado em Portugal, o autor regressou ao mundo encantado de Lyra, sob a chancela da Editorial Presença que tem publicado todos os livros na colecção infanto-juvenil Via Láctea e aproveitou, aliás, entretanto, para reeditar, com novas capas, os volumes da primeira série: Os Reinos do Norte, A Torre dos Anjos e O Telescópio de Âmbar.

O Livro do Pó aparenta ser um retomar da trilogia, fazendo-nos recuar no tempo, mas o autor revelou em entrevistas que a acção é paralela. A história da trilogia anterior ficou encerrada, mas ainda há muito a dizer sobre a misteriosa matéria do Pó, e faz reviver a sua jovem heroína, Lyra Belacqua, começando por contar como ela em bebé passa a viver em Oxford, para depois avançar 10 anos em relação à conclusão de Mundos Paralelos.

Numa Inglaterra entre o clássico e o fantástico, o herói da história é agora Malcolm, um jovem aplicado, trabalhador, amigo e sensível, que vive com os pais, a quem ajuda com a sua estalagem, A Truta. Extremamente inquisitivo, quase sempre na companhia dos mais velhos, e sempre mantendo as mãos ocupadas, ajudando como pode nas mais variadas tarefas, Malcolm depara-se com uma surpresa. Numa das suas visitas ao priorado, descobre que as freiras têm a seu cargo uma misteriosa criança. Lyra é apenas um bebé, mas Malcolm fica rendido aos seus encantos e torna-se no seu maior protector. Mais tarde, o nosso jovem herói é avisado de que haverá uma enorme inundação que colocará a região em perigo.

A obra tem um ritmo que, apesar de pretender acelerar com os desenlaces, parece resultar mais lento. No entanto, o universo fantástico está lá: feiticeiras, demónios, engenhos entre o mecânico e o mágico, deuses do rio, e os fantásticos génios com forma de animal que acompanham os humanos e parecem formar um só com eles, como se representassem a sua alma. É neste pormenor que reside a maior originalidade deste mundo encantado imaginado pelo autor. Estes génios acompanham permanentemente os humanos, muitas vezes pousados no seu ombro, com quem formam um par, como se fossem um só, capazes de adquirir formas de animais que se revelam úteis embora tenham uma forma que é normalmente aquela que preferem adoptar e que revela um pouco da sua verdadeira natureza. Asta, o génio de Malcolm, é muitas vezes uma ave.

A história de O Livro do Pó: A Aliança Secreta passa-se vinte anos após La Belle Sauvage

Não se pense que esta obra é exclusivamente destinada ao público mais jovem. Dado o rigor na recriação de um ambiente histórico, passagens onde se aludem a atos sexuais que não parecem muito adequados aos mais novos, e por vezes alguma linguagem mais gráfica, o autor revela-se muito mais entretido com o ato de contar uma história à criança em nós que queremos manter desperta e interessada.

Aparentemente o segundo volume já se encontrava escrito na altura da publicação do primeiro, e o terceiro em vias de ser concluído, pelo que se pensaria ser possível não ter de aguardar muito tempo pelo desenlace da história, mas a verdade é que o lançamento dos livros foi intermediado por alguns anos.

O Livro do Pó – Volume 2: A Aliança Secreta

Lyra Silvertongue, outrora Lyra Belacqua, é conhecida no mundo dos espíritos. Ao contrário do mundo de Harry Potter não há uma profecia ou uma cicatriz distintiva, mas Lyra Silvertongue é reconhecida e demarca-se no mundo em que se move, com o novo nome que lhe foi concedido por Iorek Byrnison, rei dos ursos. Numa Inglaterra entre o clássico e o fantástico, Lyra, agora uma estudante em Oxford, ainda sem saber tudo aquilo que enreda o seu destino pouco comum, vê-se obrigada a partir agora em direcção ao deserto, em demanda do que lhe é mais precioso… Num mundo que é tão familiar como extraordinário, onde hordas de refugiados tentam chegar à Europa enquanto o mundo parece entrar em guerra por uma questão de rosas, pois há fundamentalistas que acreditam que os óleos e perfumes agradam ao Diabo e ofendem a Deus, a jovem Lyra persegue a miragem de uma cidade habitada apenas por génios e pretende desvendar o mistério do Pó.

O leitor abre a medo o Volume 2 de O Livro do Pó: A Aliança Secreta, sabendo que a intriga se situa agora quando Lyra tem 20 anos. Mas rapidamente se percebe que Philip Pullman consegue a dupla proeza de contar uma história tão cativante quanto imaginativa ao mesmo tempo que pega em algumas pontas soltas das narrativas anteriores. Reencontramos assim o jovem Malcolm de La Belle Sauvage, que aos 11 anos salvou Lyra num barco, agora com 30 anos, ainda um protector bem como um espião, e ainda ficamos a saber que a vida de Lyra e do seu génio Pantalaimon tem sido muito pouco pacífica desde a sua aventura, 10 anos antes, no Ártico, numa luta contra o mal que envolveu feiticeiras, espectros, crianças ciganas e ursos blindados.

O Campo de Rosas é o romance final da trilogia O Livro do Pó

Esta narrativa imaginativa, numa prosa límpida e erudita, agarra o leitor sem abrandar o ritmo por mais de 500 páginas, num livro que consegue a fabulosa proeza de apelar a leitores de todas as idades, em que Philip Pullman se revela exímio a contar uma história à criança em nós que queremos manter desperta. O escritor recebeu aliás, entre outras distinções literárias, o Prémio Whitbread, atribuído pela primeira vez a um autor de obras infantojuvenis. A própria linguagem é, por vezes, pouco adequada a crianças, talvez porque Pullman escreve, na verdade, para os leitores dos seus primeiros livros de há cerca de 20 anos, hoje adultos. A Bertrand Editora publicou também Contos de Grimm para todas as idades, deste mesmo autor, onde reconta os seus cinquenta contos favoritos dos irmãos Grimm, obra que contamos apresentar em breve.

Leia também: Redescobrir dois clássicos contemporâneos: A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón e Nunca me deixes, de Kazuo Ishiguro | Por Paulo Serra

Mundos Paralelos é uma trilogia que se iniciou com Os Reinos do Norte
A Torre dos Anjos é o segundo volume da trilogia Mundos Paralelos
O Telescópio de Âmbar encerra a trilogia Mundos Paralelos de Philip Pullman
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